Kyle Major - Justiça
4 Kyle Major
Sábado 29/Julho
Ainda estava escuro quando ele acordou.
O jovem moreno de cabelos bagunçados caminhava silenciosamente pelo quarto com seu pijama listrado. Foi até o banheiro, escovou os dentes e lavou o rosto. A imagem refletida no espelho fez notar que seus olhos estavam mais brilhantes, como se estivessem úmidos. Voltou para o quarto, colocou shorts largos, pegou uma toalha e desceu as escadas lentamente para não acordar sua mãe.
A última noite foi mais longa do que deveria. Kyle havia navegado por inúmeros sites, blogs e comunidades em busca do que estava acontecendo com ele e porque agora, mas sua busca foi fracassada. Sabia que era um Mutante, só não sabia como.
Quando saiu da casa de madeira no fim da Jackson o sol estava nascendo e iluminando o imenso jardim dos fundos, o ar puro da manhã soprou seu cabelo bagunçando ainda mais. Gostava de viver ali, no meio da natureza. Em paz.
— Se ninguém vai me ensinar, eu vou aprender sozinho.
Estava de frente para o lago nos fundos da casa. Nem era um lago de verdade, era mais um local largo do rio que banhava Overfall e outras cidades da região. A agua era de um azul claro límpido, mas o centro era tão fundo que não era possível enxergar.
Estendeu um braço para o lago esperando que a agua subisse como fizera na noite anterior na fonte atrás da casa de Olivia com Charles. Atirar agua no amigo pareceu muito fácil, mas nada estava acontecendo naquela hora. Pensou consigo mesmo “suba”, como viu em um filme uma vez, mas nada mudou.
— Ta bom então – disse ele enquanto estendia o outro braço na direção do lago, posicionou as pernas como um goleiro pronto para agarrar a bola. Lembrou da outra noite quando fez uma esfera com a agua da pia na festa, foi a primeira vez que tinha feito algo tão incrível, mas ainda assim o lago continuava sereno, sem uma ondulação sequer.
Alguma coisa estava errada.
Não, não era aquela a primeira vez que tinha usado os poderes. Foi ali no lago, quando Enzo o interrompeu. Estava apenas pensando na vida quando...
Seus pensamentos foram interrompidos por um impulso do seu corpo. Quando percebeu já estava correndo na direção da agua. Seu corpo subiu num salto e caiu de pé espalhando agua por todo lado, mas nada tão fantástico como da primeira vez. Tudo voltou pro lago que de espelhado foi pra um emaranhado de ondulações, assim como seus pensamentos.
“Era pra ser mais fácil” pensou ele caminhando para dentro do lago, pouco antes de se virar e deixar seu corpo cair de costas na agua. Boiou por alguns segundos e começou a afundar, seu corpo ficava cada vez mais leve na agua. Com os olhos abertos conseguia ver a luz do dia do lado de fora da agua, já estava bem mais claro. Podia ser apenas uma alucinação tudo que aconteceu no dia anterior? Será mesmo que tinha poderes? Porque eles não se manifestavam outra vez? Não podia ser tudo uma mentira. Poderia?
Fechou os olhos por um instante.
Seus pensamentos estavam o deixando louco. Mas com os olhos fechados só conseguia pensar em uma coisa. Anna. Seus lábios úmidos tocando os dele naquela fonte, aquele toque agradável no queixo, não, isso não tinha como ser mentira. Kyle não tinha percebido, mas não estava respirando a algum tempo. Seu corpo descia cada vez mais para o fundo do lago e como por impulso ele bateu com as mãos na agua e subiu. Subiu tanto que seu corpo foi jogado para cima da agua uns três metros.
Não conseguia acreditar no que estava acontecendo, conseguia ver a casa dali. Sentiu seu corpo descer lentamente e imergir na agua outra vez. Tinha que testar outra vez, então bateu as mãos na agua dando impulso para frente e foi nadando como um torpedo lago a dentro, deixando apenas um rastro de bolhas pelo caminho. Por alguma razão conseguia enxergar perfeitamente o fundo do lago; conseguia ver as algas, os peixes, e até uma canoa que sua mãe afundou há alguns anos enquanto praticava, nunca mais remou depois disso.
Tinha que saber o quanto mais podia fazer, então balançou as pernas juntas para subir, deu outro salto sobre a agua e logo depois mergulhou outra vez. Ele subia, ficava alguns instantes na superfície e voltava ao fundo, como os golfinhos fazem durante as migrações. A cada subida era um grito novo de euforia e felicidade, estava estampada em seu rosto e então voltou para a margem de sua casa.
Agora outra vez na margem do lago, pensou em Anna e na fonte, fazendo um jato de agua subir cerca de dois metros, seguido de outros dois jatos que foram ainda mais altos que o primeiro e por último um jato grosso o suficiente para ocupar o espaço dos três anteriores. Fez alguns anéis e jatos curvos e longos, como uma apresentação magnifica de mágica no Sea World.
Só tinha mais uma coisa que queria tentar fazer, na verdade só pensava nisso desde quando começou a dominar suas habilidades. Saiu da agua e ficou de frente para o lago, afastou um pouco as pernas e esticou os braços para frente. Todo o lago começou a tremer e a agua a subir. Então como uma linha fina que ia se alargando a agua começou a se dividir aos poucos e então a subir fazendo uma passagem seca pelo chão. Duas enormes paredes de agua estavam se formando em sua frente, dava pra ver os peixes nadando e as algas no chão estiradas.
— Nossa senhora se não é o Moisés do século XXI.
A voz era inconfundível, mas ainda assim o susto fez com que ele deixasse tudo cair.
— Charles – estava feliz em ver o amigo. Como de costume estava com seu jeans desbotados, jaqueta de couro e os óculos escuros cobrindo os olhos claros.
— Parece que você já é o próprio Avatar – disse Charles sorrindo enquanto tirava a jaqueta.
Kyle se deitou na grama ao lado de Charles. O sol fazia seu corpo brilhar com as partículas de agua.
— Queria saber como isso aconteceu... – disse baixinho – não é como se eu merecesse ganhar superpoderes ou coisa assim.
— Como assim?
— Eu não sou corajoso ou forte – resmungou Kyle – então pra que?
— Ganhar uma bolsa por ser o cara mais rápido do país dentro da agua? – respondeu Charles enquanto se deitava ao lado amigo – Acho que os outros nadadores não ganharam o poder de controlar a agua também, na verdade – a voz de Charles diminuía a cada palavra – não acho que alguém mais tenha ganhado algum poder.
— Isso seria trapaça, não seria?
— Mas a ideia era essa pô!
Eles riram.
Fazia algum tempo que eles não ficavam juntos apenas fazendo nada. Olharam para o céu pelo resto da manhã, contando as nuvens, vendo com o que se pareciam, conversaram sobre tudo e então Kyle o acompanhou até o portão.
— Boliche a noite então? – Perguntou Charles entrando no carro.
— Claro...
A atenção dos dois foi cortada enquanto Kyle falava, uma sirene vindo da direção da cidade soava cada vez mais alto. Eram os bombeiros. O caminhão vermelho chegava cada vez mais rápido até que parou em frente aos meninos levantando uma nuvem de poeira espessa.
— Rápido, – disse o bombeiro no volante provavelmente, a poeira não deixava com que eles vissem direito – onde fica a casa dos Fernandes?
— Segue a direita na próxima encruzilhada – respondeu Charles, mas eles saíram antes que ele terminasse.
Os olhos de Kyle estavam arregalados.
— Kyle – Charles estava correndo pro carro – vamo ver o que ta acontecendo!
Mas Kyle estava imóvel.
— É a casa do Enzo – somente quando essas palavras saíram de sua boca que ele se deu conta do que estava acontecendo – É a casa do Enzo! – gritou Kyle.
— Sim, vamo ver se a gente pode ajudar em alguma coisa.
— O Enzo treina na piscina a essa hora – disse Kyle correndo de volta pra dentro do quintal – eu chego mais rápido pela rio!
Charles entrou no Porsche e saiu disparado na mesma direção do carro dos bombeiros estrada acima levantando uma nuvem de poeira. Enquanto Kyle corria quintal a dentro na direção do lago, cada passo parecia ser em câmera lenta, tinha que fazer alguma coisa pra ajudar Enzo, não eram amigos, mas ele tinha sido tão legal com ele no dia anterior que não estava pensando direito, só sabia que precisava fazer o seu melhor.
Seus pés saíram do chão num impulso e seu corpo mergulhou na agua de cabeça. Um turbilhão de bolhas o impulsionava para frente e ele mexia seu corpo graciosamente pela agua o mais rápido que conseguia. Até que antes que esperasse saiu da agua num pulo nos fundos da residência dos Fernandes.
A Mansão de madeira e pedra bruta que um dia era foi uma maravilha renascentista do século das luzes agora estava ardendo em chamas, assim como boa parte do magnifico jardim da senhora Dália Fernandes com arvores de todas as partes do mundo. Mas Kyle não estava preocupado com isso. Nos fundos da casa, também em chamas, o galpão onde os carros do senhor Wilson ficavam ficava sobre a piscina subterrânea da casa e era lá que Enzo costumava nadar aos sábados já que a piscina da escola ficava fechada.
— Tá pensa – falou Kyle pra si mesmo, como se em busca do que fazer – joga agua no galpão.
Kyle estendeu a mão e levantou uma torre de agua – Mas e os carros – disse enquanto abaixava a torre. – Mas o Enzo ta lá dentro seu idiota – e ergueu a torre outra vez mandando em direção ao galpão atingindo em cheio.
Muita agua estava saindo do lago e indo para o galpão, ao mesmo tempo em que escorria pelo terreno e voltava para o rio. Aos poucos o galpão não estava mais em chamas e Kyle correu para a grande porta de madeira bruta, ainda estava quente das chamas mas mesmo assim ele empurrou com uma força que sabia que não tinha, parecia até que seus músculos, inexistentes, estavam servindo para alguma coisa.
Assim que entrou correu pelo meio do que pareciam ser o que havia sobrado dos carros da família que estavam ali. Uma grande nuvem de fumaça negra preenchia o ambiente, mas o pouco que era possível ver ele se guiou até a escada que levava a piscina.
A parte de baixo do galpão parecia não ter sido atingida pelo fogo. Era um ambiente muito bonito, iluminado em tons de azul resultado da luz em contado com a agua da piscina. Mas a coisa que tirou toda a concentração de Kyle naquele momento foi o corpo de Enzo jogado em uma das bordas da piscina, as pernas estavam na agua mas o peito estava escorregando.
Ele estava desacordado.
Correu até o outro lado e puxou o corpo do jovem para fora da agua. Estava apenas de jeans, all stars e sem camiseta. O corpo malhado estava com marcas nítidas de queimado assim como o cheiro de fumaça vindo do cabelo. Kyle debruçou sobre o peito de Enzo pra conferir os batimentos que por sua vez estavam fracos “Enzo!” ele gritava desesperadamente, “Enzo, por favor não morre”. Ele desabotoou os botões da calça de Enzo para afrouxar a cintura, abriu os braços dele e posicionou as mãos sobre o meio do peito do amigo pressionando com força várias e várias vezes, cada batida martelava em seu ouvido como um sino abafado ecoando.
Ele pressionou o nariz e fez uma respiração boca a boca em Enzo, mas ele não respondia de forma alguma. Kyle já estava chorando naquele momento, cada segundo demorava horas pra passar. Ele sentou no chão ao lado do corpo e esmurrou o chão com um grito “Enzo!” fazendo com que a agua da piscina implodisse e se espalhasse pela sala toda, e junto com ela um pouco de agua também saiu da boca de Enzo fazendo ele tossir algumas vezes.
– Enzo! – ele gritou engatinhando de volta pro amigo que estava tossindo ainda – Fala comigo mano, por favor.
— Você ta muito perto – ele respondeu depois de um tempo, mas logo foi surpreendido por um abraço de Kyle – o que você ta fazendo Major?
— Você ta vivo... – disse Kyle sorrindo, mas logo arregalou os olhos e o soltou – a casa ta pegando fogo.
Kyle se levantou e correu pela sala subindo a escadaria.
La fora estava muito quente devido ao fogo e a fumaça. Os jatos de agua eram visíveis vindo do outro lado da casa. Os Jardins não estavam mais pegando fogo o que era ótimo, mas a casa ainda estava.
A casa era muito longe do lago pra Kyle conseguir fazer alguma coisa, por um instante ele pensou mandar uma corrente de agua do lago até a casa, mas seria difícil explicar pra Enzo o que era aquilo se ele visse, já bastava Sirius que faria da sua vida um inferno na escola depois do que aconteceu na última noite.
Foi então que teve uma ideia. Ele correu na direção do lago e fez uma bolha de agua muito grande, parecia caber o carro de Charles ali dentro. Estava difícil de controlar toda aquela agua, mas com muito esforço ele arremessou aquilo na direção da casa.
— Droga – disse ele baixinho.
Não tinha parado pra pensar no estrago que uma massa daquele tamanho de agua faria em um edifício danificado pelo fogo, e seu pensamento estava correto. O impacto da esfera d’agua no pátio dos fundos fez com que aquele pedaço desabasse imediatamente.
“Pra um cara que só tira A você é bem burro as vezes Kyle” pensou ele “pelo menos não tem mais fogo” numa tentativa de amenizar o que tinha feito “mas também não tem casa pro fogo queimar seu idiota”
— Major – a voz ao fundo era Enzo com a mão direita no abdômen e a outra na porta queimada, o cenho franzido não negava a dor que ele estava sentindo.
Kyle correu para a porta vendo que Enzo cairia a qualquer momento e se colocou sob seu braço para apoia-lo.
— Como você – disse ele se apoiando nos ombros de Kyle – como me encontrou lá embaixo.
— Pode não parecer mas eu escuto quando você fala – respondeu levando o amigo para baixo de uma arvore na margem do lago – sinto muito.
— O que? – perguntou ele – A casa? Não tem o que sentir, você não colocou fogo nela – respondeu a própria pergunta suspirando um pouco devido as dores.
— Nossa, eu só...
— Obrigado!
Kyle se surpreendeu com o que acabara de ouvir.
Embora fosse da galera popular do colégio, Enzo Fernandes, não costumava ser gentil, pedir por favor ou agradecer o que as pessoas faziam por ele, a menos que isso implicasse em algum interesse particular dele, mas dessa vez pareceu diferente. Seus olhos estavam úmidos e quase lacrimejando.
— Não tem o que agradecer.
— Acho melhor você não se mexer, – disse Kyle com um sorriso de canto – vou chamar um bombeiro pra ver você.
— Kyle – Enzo tentou chama-lo mas ele já estava correndo para costear a casa.
Kyle não era de muitos amigos. Não costumava sair ou se arriscar. Não sentava em janelas nos ônibus com medo de cair ou levar um tiro, ou mesmo de sentir enjoo com as curvas, evitava sair na chuva com medo dos trovões ou de pegar uma doença, esse Kyle não entraria em um prédio em chamas pra salvar alguém, alguma coisa tinha mudado nele e não eram os poderes.
Alguma coisa o transbordou.
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