Notas iniciais
Hey voces, ca estou eu com novo capitulo.

A primeira vez que fui atendido pela Dra.Sylvester, já tinha se passado tempo o suficiente para o corpinho de Pavarotty se decompor, ou seja, sem vísceras pra jogar nela.

As perguntas me pareciam tao sem sentido, os meus outros psiquiatras sempre perguntavam sobre como estava me sentindo ou sobre minhas experiências passadas. A Dra. Sylvester queria saber tudo sobre o meu futuro, o problema é que eu não prevejo futuro pra contar pra ela em primeiro lugar.

“O que planeja fazer quando sair daqui?” Estou sentado, encolhido, na poltrona junto a janela, posso ver o lugar onde enterramos Pavarotti daqui.

“NYADA. Quero ser ator da Broadway.” É o que quero desde os 6 anos, ser uma grande estrela. Não preciso pensar ou desviar meu olhar da janela.

“Pra sobreviver. O que vai fazer?” Me sinto mais do que ofendido com o deboche dela.

“Vou ser ator, já disse.” Vou tentar não dar respostas muito rudes já que é ela que decide seu eu saio daqui ou não.

Mas naquela época, eu queria mesmo sair? Nunca tive um lugar na hierarquia da escola, nunca me encaixei para algo na sociedade, a pressão era insuportável. Dalton era segura, tinha os Warblers, pra que sair?

NYADA, Broadway, Blaine. Um item da lista já tenho aqui, o resto não deve ser mais difícil.

Ela murmura e escreve algo no papel, não sei o que, mas também não me importo.

“Me diga algo que você desejaria fazer para o mundo se tiver chance.” Isso me pega ainda mais de surpresa.

“Que?”

“Imagine-se daqui a dez anos sendo alguém influente. O que faria?”

Penso nada mais do que 10 segundos.

“Acabaria com os rótulos.”

“Desculpe, o que?” Ela parece mais interessada com a minha resposta do que debochada como nas outras.

Nada de paz mundial, nada de acabar com a fome. A coisa que mais me incomodou durante esse período da minha vida eram os benditos rótulos, a impressão era que se acabassem os rótulos, acabaria a guerra, acabaria a miséria.

Mas pensei isso por ter passado tempo isolado do mundo real onde havia, realmente, guerra e miséria. Tinha rótulos, e muitos. Mas na Dalton era o único que tínhamos.

“É como se atassem um cartaz em você sabe, dizendo quem é você e as pessoas não precisam te conhecer pra saber quem você é ou não.”

“Você se sente rotulado?”

“Você não?”

Sei aonde quero chegar, ela sabe o que o preconceito é, ela tem que saber, pelo menos pela Becky.

“Você acha que todos somos rotulados?”

“Sim.”

“O que seria um mundo sem rótulos, pra você?”

“Um mundo onde todos somos iguais a primeira vista, por isso teríamos a necessidade de nos conhecermos melhor antes de tirar alguma conclusão.”

“Você acha então, que se fossemos todos iguais, iriamos nos querer conhecer melhor?”

“É o que estou tentando dizer.”

“O que te leva a conhecer alguém?”

“Sei la.”

“Curiosidade, talvez?” Sei aonde ela quer chegar agora, ela acha que se fossemos todos iguais, não teríamos vontade de nos conhecer, porque eu tive a curiosidade de conhecer Blaine e os Warblers depois de tantos rótulos colocados neles, nos demais pacientes por aqui, quase nunca conversava.

Mas me recuso deixar ela me pegar nos jogos mentais, principalmente se o campo é meu.

“Não. Por que teria curiosidade?” Minto.

“Você tem curiosidade por alguém aqui na Dalton?”

Nunca antes dessa consulta tínhamos nos visto antes, então ela não me viu pessoalmente com os Warblers, mas as enfermeiras não devem contar apenas das minhas conversas no telefone para ela.

“Uma, na verdade.” Não va por esse caminho, Kurt. Minha mente dizia, mas minha língua estava agindo por conta própria agora.

“E quem seria?” Ela acha que sabe a resposta, quero ver a cara dela. Encaro no fundo de seus olhos antes de dizer.

“Não se trata de quem, mas do que.” Ela levanta uma sobrancelha, como quem me pede pra continuar, então continuo. “Aquilo, seja como se chame, que gosta de passar o dia na sala de artes colorindo tudo com purpurina. Tipo, quero tanto tocar nisso pra ver do que é feito, não sei se é uma doença mental que faz a pessoa virar do avesso ou-“

“Já pode sair, senhor Hummel.” Ela me interrompe, esperava gritos e choro, ela esta imóvel na minha frente, sua voz treme, ela treme toda. É muito melhor do que esperava. “Nosso tempo acabou.”

“Mande um abraço pra Becky por mim.” Digo antes de fechar a porta com forca atrás de mim e correr pelo corredor, adrelina correndo livre, como se Sylvester fosse um tigre pronto pra me achar e matar. Vejo Blaine andando e agarro a mão dele e o puxo pra correr comigo.

“Pra Onde estamos indo?” Eu rio, porque ele confia em mim o suficiente para puxá-lo pelo hospital, confiança nunca foi tão refrescante.

“Para o sol.” É estranho, via pela TV os adolescentes no mundo afora protestando contra violência e falando palavras positivas, pareciam tão distantes da nossa realidade, mas aqui estou eu, sendo como qualquer outro jovem no mundo, junto com Blaine. Não somos mais interrompidos.

Não fomos ate o sol, na real ficamos no pátio, junto a cova de Pavarotti, conversando sobre qualquer coisa ou apertando as mãos, ele me pergunta por que estava correndo.

“Falei besteira pra Dra.Sylvester.”

“Achei que você quisesse sair daqui.”

“E quero.” Hesito, porque isso ainda um critério pra revisar. “Eu precisava acertar ela com algo, Blaine.”

“E o que você disse?” Ele não parece o mesmo Blaine que gosta de xingar enfermeiras ou outras autoridades, isso me chateia.

“Só falei coisas da filha dela, so isso achei que pudesse machucar o bastante e- Blaine! Blaine, pra onde você esta indo?”

“Não acredito que você disse coisas sobre Becky, Kurt. Como você pode?”

“Desculpa?” Me levanto e fico perto dele. “Desde quando você se importa em dizer algo pra alguém? Você?”

Não queria puxar briga com Blaine, não mesmo.

“Não é a mesma coisa!”

“Claro que é a mesma coisa! Qual é a diferença de ofender a Becky ou uma enfermeira idiota?”
“A Becky é uma de nos, Kurt. Ela esta presa aqui, e o caso dela é pior que o seu ou meu.”

Se meu rotulo fosse um cartas atado em meu peito. O de becky seria um grande poste em letras neon brilhantes, não era um parâmetro pra comparar, não havia nada. E eu a desprezei mesmo assim.

“Blaine, desculpa, eu não tive intenção de insultar Becky ou o que ela é”

“O que você disse, então?”

Não posso encarar o rosto dele, não quero lembrar mais do que aconteceu na sala da Dra. Sylvester.

“Kurt?”

“Desculpa.”

Ele vai embora, não sei mais o que fazer. Sento ao lado do tumulo de Pavarotti e penso novamente.

Se você pudesse fazer qualquer coisa, o que faria?

Daria um corpo novo pra Becky, um mais bonito. Talvez desse a ela uma sociedade mais acolhedora, mas isso seria egoísta pois eu ganharia coisas também, quero fazer algo só pra ela.

“O que é isto?” Os olhos de Becky são difíceis de ver envoltos em tanta carne cicatrizada, se retorcem pelo papel rabiscado.

“Fiz um desenho de você.” Eu digo, sentando-me do lado dela. Sempre fiz desings de moda, a minha vida toda, fazer uma menina linda e com pele lisa não é difícil, me esforcei pra criar um vestido de princesa melhor que qualquer vestido de Oscar que já desenhei pra Barbra ou Kate.

Ela encara o desenho em cima da mesa, espero ter feito o certo.

“Essa sou eu?” Ela é tao duvidosa, e esperançosa, ela quer ser bonita.

“Eu te vejo assim.” Não posso dizer que é uma realidade absoluta, mas sei que é uma realidade pra mim. “Aqui na Dalton, todos te vem assim.” Talvez eles vejam, mas com uns chifres de diabo junto, não que seja ruim.

“Obrigada, fada.” Ela não me da um beijo na bochecha, mas me abraça. Sinto-a como um casulo envolvendo-se em mim, meu ombro se molha um pouco com suas lagrimas.

Não faço isso pra concertar a bagunca com a Dra.Sylvester ou com Blaine. Não sou egoísta agora.

Talvez eu não seja mais uma má pessoa.

Vou procurar Blaine na sala de televisão, Becky fica em seu covil aka sala de artes, não sei o que ela tanto fazia lá. Talvez construísse um novo corpo pra ela, talvez ela tenha conseguido e saído de lá. Porque quando voltei em 1980 e 1990, ela não estava mais lá. Sei que normalmente pessoas como ela não vivem mais do que 30 anos. Mas eu passei o resto dos dias pensando em Becky Jackson, uma larva em seu casulo de cicatrizes, abrindo-se para a realidade em suas cores de neon que gritavam em nome de sua individualidade, talvez ela apenas se livrou do rotulo quando se livrou do casulo de cicatriz, do seu rotulo condenativo. Apenas quando morreu.

Blaine estava sentado na frente da TV, Os warblers calados vendo as noticias.

Talvez precise parar de pensar em rótulos, pelo menos por aqui.

Notas finais
Gostaram? Hein? Hein? Zoa, bom acho que posto outro amanha ja que é feriado e a tonta aqui nao sabia ate faz uma hora atras. Bjus com brigadeiro. *que gay*