Kurt, Interrompido
12 O Caixão.
Notas iniciais
Não tenho coragem de olhar Blaine nos olhos depois daquela noite. Quero escavar um tumulo pra Pavarotti e para mim. Concentro-me em fazer um caixão com todos os itens disponíveis para mim na sala de artes do hospital. É bom porque nunca ninguém vai lá, quero evitar os Warblers ao máximo.
“Solta a minha purpurina!” Escuto uma voz feminina atrás de mim. Achei que a Dalton fosse um hospital só para meninos, e então o que vejo diante de mim parece mais um fantasma do que outra coisa.
Becky Jackson Sylvester era a única paciente mulher na Dalton, por quê? Porque ela era filha da Dra. Sylvester.
Ela não parece ser real. Parece algum tipo de monstro saindo de filmes ou sei lá. Não tinha quase nada de pele, apenas cicatrizes, ela botara fogo em si mesma, depois de todo o bullying que sofreu na escola por ter síndrome de down.
Cicatrizes não são pele, parecem alguma proteção, uma armadura que carregamos depois de uma batalha. Becky estava isolada em sua própria bolha de cicatriz. Seu rosto desfigurado forma uma careta quando ela vem ate mim e arranca a purpurina das minhas mãos.
“Me desculpe, eu não sabia que tinha dona.”
“Não tenho culpa se você é idiota!” Ela resmunga, sentando-se do meu lado e rabiscando alguns papeis com lápis, a purpurina esquecida em sua mão.
Becky era um amor de menina. Sim ela me xingava e as vezes batia, mas ela era uma fofa.
Eu acho.
“Pra que pegar a minha purpurina se você já tem bastante pó de fada nessa sua cara?”
Talvez não.
“Tem razão. Às vezes esqueço que possuo pó de fada.” Não vou puxar briga com ela, não mesmo.
“Duh.” Ela desenha algum tipo de cavalo, eu acho que era um cavalo.
“Onde esta a sua mãe?” Eu quero jogar vísceras do meu pássaro morto nela, penso bem baixo, em caso que ela leia mentes.
“Atendendo alguns doidos da cabeça. Odeio todos eles.”
“Entendo.”
Na verdade, não. Eu não entendia, Becky estava automaticamente fora de questão em sair daqui algum dia, ela estava aprisionada naquele corpinho para sempre.
Não faço ideia de como ela deve se sentir a respeito.
“Você é um dos Warblers?” Ela pergunta, passando a purpurina em excesso no seu desenho, formando um coração.
“Sou, sim.” Espero que ela não saiba a iniciação de matar pássaros.
“Pode entregar isto pro Blaine.” Ela me entrega o desenho, ainda molhado. Um cavalo em volta de um coração gigante.
“Ahm, na verdade eu-“
Ela me interrompe “Eu amo o Blaine, tenho mais chance do que você e qualquer outro.” Ela cruza os braços.
Pelo jeito Blaine é bem cobiçado por aqui. Becky, Sebastian, eu.
“Não se preocupe. Já tenho namorado.”
Ela devia se preocupar, sim. Porque Adam já é basicamente meu ex. E já experimentei bastante da boca de Blaine, mesmo que fosse chapado.
Ela me da um beijo na bochecha. Seus lábios rachados machucam minha pele macia.
Eu sou um babaca sortudo.
“Obrigada, fada.”
“Meu nome é Kurt.”
“Obrigada, fada.” Ela repete, depois sai da sala de artes. Tento manter a cabeça na decoração do caixão, mesmo que seja quase impossível.
“Isto é pra você.” Não faço contato visual com Blaine quando lhe entrego o desenho de Becky na sala de Televisão.
“Você fica cada vez mais romântico, Kurt.” Ele debocha.
“Não é meu. É da filha da Dra. Sylvester.” Fico vermelho de vergonha e raiva.
“Eu sei. Ela sempre me da um quando volto de passeio.”
“Quando você foge, isso sim.”
Ele sorri e acena com a cabeça. Se põe de pé ao meu lado e diz no meu ouvido:
“Estou falando de você me dar um beijo cinematográfico e depois não falar comigo.” Todo tipo de choque elétrico percorre a minha espinha, tenho medo de começar a tremer. “Não achei que você fosse desse tipo, Kurt.” Ele põe a mão em cima do coração.
“Da pra você esquecer isso de uma vez? Eu estava chapado.”
“Claro que estava. Senti o gosto do remédio a noite inteira.”
Eu solto ar pelas narinas, reviro os olhos e dou meia volta, dando as costas pra Blaine. Vou Em direção aos telefones.
“Alo?”
“Finn? Sou eu, Kurt.”
“Kurt! Não acredito, como esta indo?”
“Esplendido. E você?”
“Um pouco estressado pelo casamento. Você vai estar lá não é?”
“Não perderia por nada. Ah espera, não da pra eu ir. Tenho compromisso. Tenho 3 anos de compromisso neste lugar, Finn. É claro que eu não vou!”
“Eles com certeza te deixariam sair pra ocasião, espera, O que foi? Rachel”
Meu ouvido zumbe pelo grito que ele da pra Rachel, os dois conversam um pouco na linha e depois ele volta a falar comigo.
“Rachel manda avisar que você tem que levar um acompanhante. Quer que eu fale com o Adam?”
“Adam? Pra que eu levaria o Adam?”
“Bom vocês estão namora-“
Eu o interrompo. “ Não estamos mais.”
“Bom, eu... Eu posso falar com o-“
Volto a interromper “Já tenho acompanhante.”
“Ah é? Que.. bom. Quem é?”
“Blaine Anderson.” Estou furioso com ele, mas se vou com alguém em um evento social, não vai ser com Adam.
“O Blaine?” Ele parece desconfortável. Ele sempre esta quando o assunto é o Blaine.
“Algum problema com o Blaine, Finn?”
“Não, não. Quer dizer, sei lá irmão, não sei se você quer levar alguém desse hospital com você.”
“O que quer dizer com isso? Que Blaine é maluco demais pra sair? Estou no mesmo bloco que ele, Finn!”
“Eu não disse isso. E só que-“
Atropelo com todas as palavras coerentes que chegam na minha cabeça “Eles são meus amigos, todos eles. Sim, não batem bem da cabeça mas ainda são meus amigos, e eu amo ele.”
Eu amo ele.
Eu amo o Blaine.
Não os warblers, ele, apenas ele.
“Não diga algo assim, você mal o conhece!” Agora ele esta irritado. Essa emoção é contagiante.
“Quem é você pra me dizer algo assim? A quanto tempo você conhece a Rachel, hein?” Ele fica em silencio. “Quer saber? Esquece.”
“Por que você ligou?” Ele continua cada vez mais irritado.
“Porque precisava de alguém pra conversar! Mas desculpe então, irmão, não vou mais incomodar.”
“Kurt, esper-“
Coloco o telefone no gancho e caminho com forca ate a sala das enfermeiras.
“Curtiram a conversa com meu irmão? Também estão convidadas para o casamento.”
Grito, não conheço mais os limites de nada, me sinto imbatível, como se pudesse fazer qualquer coisa.
Quando volto ao dormitório. Vejo Blaine sentado na minha cama olhando pro teto, me lembro como sou frágil, como estou longe de conseguir a maioria das coisas que quero.
“Quer vir comigo no casamento do meu irmão?” Me sento ao lado dele.
“Acho que o seu irmão não gosta muito de mim.”
“E dai? Oras, não desperdice a chance de comer comida de bufe de graça.”
“Vou pensar no assunto”
“Tenho uma surpresa pra você” Vou ate o meu armário buscar a caixinha onde Pavarotti vai descansar em paz. É simples, algumas notas musicais pintadas, algumas estrelas.
“É lindo.” Ele diz, pegando o caixãozinho em suas mãos. “Quando eu morrer, você vai fazer o meu caixão.”
Rimos. “Farei.”
Ele se aproxima de mim. Passando a mão pela minha nuca e me trazendo mais pra perto. Descanso a minha mão no rosto dele quando ele me beija.
Eu deixo que ele aprofunde o beijo. Entro no clima e exploro a boca dele, não estou chapado desta vez, consigo sentir cada fogo de artificio saindo de nos.
O gosto da boca dele não é de remédio, suponho que a minha também não. É o melhor beijo da minha vida.
Ele passa os braços pelo meu pescoço. Começa a me empurrar pra cima dele na cama, não consigo pensar direito.
Então me dou conta que estamos nos beijando em cima do caixão de Pavarotti. Ele quebra o beijo mas me mantem por perto. Nossas respirações ofegantes.
“Meu Deus, Kurt!” Ele recupera o folego, parece espantado. “Você mexe comigo, mexe muito comigo.”
“Você mexe comigo também.” É o ultimo que digo antes de me acomodar nos braços dele. O caixão esquecido no canto da cama.
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