Kurt, Interrompido
15 Karofsky.
Notas iniciais
Dividir o quarto com Blaine é mais que fantástico. Ainda não contamos aos Warblers nem a ninguém mais do nosso namoro, mas já esta na cara pra todo mundo.
Menos Becky e Sebastian.
É a única razão pra eu manter segredo, o que é muito difícil porque Sebastian não chega perto de ser idiota. E Becky tem olhos em cada brecha de cicatriz em sua pele.
Precisamos acordar mais cedo todos os dias pra deixar as camas no lugar, antes da inspeção matinal das enfermeiras.
Se elas descobrirem o que estamos fazendo. Provavelmente nos colocariam em quartos separados ou falar com meus pais.
Me sinto uma criança com medo de quebrar as regras.
Mas aqui estou eu, entrelaçando minhas pernas com as de Blaine, assim como os dedos de nossas mãos, unidos, como nossos corações.
Ficamos mais distantes no refeitório, Wes sentado na cadeira ao meio de nos, contando como seu pai foi o primeiro Chinês a pisar na lua (Dou um desconto a ele por não mentir o nome do pai)
Meu estado de animo não esta tão variado, consigo controlar meus acessos de raiva e de medo. Isso não significa que não esteja deprimido.
Desde o que aconteceu com Jeff, me vejo como outra pessoa. Um outro Kurt, do que aquele que chegou aqui pela primeira vez, o que achava que ser convocado para a guerra seria o pior que pudesse acontecer. Não pensava em pessoas como Jeff ou Wes, nunca achei que estaria dividindo o bloco com quase todos os Warblers.
Sempre fui namoradeiro, isso não faz de mim um “promiscuo” como dizia no meu prontuário.
Eu acredito em sexo casual, não conheço nenhum outro, não quero conhecer. Não é como se eu andasse com as pernas já abertas ou qualquer coisa, eu acabei de me formar, preciso experimentar de tudo.
Eu ainda não experimentei o bastante pra saber quem sou, de fato, quem é Kurt Hummel? Eu não saberia responder. As pessoas mais velhas esperam que eu me contente com uma vida medíocre de escola para faculdade e faculdade para trabalho ate morrer. Quem disse que sou louco por pensar diferente?
Os mesmos que dizem que Wes é louco por ter contado uma mentira, e não ter conseguido mais parar. Isso nos transformaria a todos em loucos, porque todos nos gostamos de mentir.
Nunca entendi realmente o que acontecia com Jeff. Mas sei que ele esteve se segurando por tempo demais, querendo sair deste lugar, querendo melhorar. Tentando se espremer o máximo possível em seu quarto do pânico, dentro de sua própria cabeça. Nos deixando ver Jeff, o calado. Ele pode ter morado aqui por anos, ele não foi realmente ajudado, eu não ajudei, ninguém ajudou. Quem o culpa por estourar?
Não sei o que posso dizer sobre Hunter ou Sebastian. Mas sei que não é culpa deles terem nascido sem a capacidade de amar, como nos nascemos. A crueldade e egoísmo humano, esta presente em todos nos, e neles, isso é uma parte bem maior. Não quer dizer que eles são apenas isso e afasta-los da sociedade vai deixar o mundo mais seguro.
Por que todos nos, Humanos, temos um pouco de todas estes “distúrbios” dentro de nos, e eles acabam se amplificando para outros, talvez pra mim tenha sido a guerra, os Beatles ou as drogas. Quem se importa? Para os olhos dos outros eu não sou considerado normal.
Eu com certeza apoio a internação destes tipos de pacientes, já aceitei a minha própria internação. Porque se tem alguma das naturezas humanas amplificadas dentro de nos, alguém tem que nos ajudar a controla-la. É o único que fazem e ter medo de nos.
“Kurt Hummel e Blaine Anderson?”
Pulo da cadeira pelo susto, Blaine xinga a enfermeira e pega o papel. Não devem ser boas noticias.
“Que foi?” Pergunto, medo extremo de terem descoberto algo sobre nos.
“Novo paciente no nosso dormitório.” Ele parece aborrecido, e eu estou mais do que aborrecido.
“Quem é?”
“Deve ser novo, nunca o vi por aqui.”
“Qual é o nome?”
“David Karofsky” Blaine tem problemas pra pronunciar o sobrenome, a maioria das pessoas perdem o tato pra leitura e escrita com tanta lavagem cerebral que recebemos aqui.
“Novo Warbler?” Nick parece animado. “Deus com certeza o enviou pra substituir Jeff.”
“Jeff não foi substituído. Uma vez Warbler, sempre warbler.”
Todos concordamos.
“Fala algo sobre o bloco dele aqui?”
“Nah. Só que vai estar em nosso quarto.”
“Podiamos fazer uma festa de bem vidas pra ele.”
“Se ele pegar a cama do lado da parede vai ser um funeral ao invés de festa” Rio com as ameaças de Blaine, totalmente inofensivo, mas perfeito.
“Pra que festa?”
“Sempre tem bolo em festa. Eu quero bolo.”
“Não seja idiota, não tem bolo em nenhum lugar aqui.”
“Podíamos fazer que nem o Jeff e pegar um pouco de-“
“Hunter, eu vou tirar todos os teus dentes e unhas se você voltar a falar assim de Jeff.”
Me surpreendo com as palavras saindo da minha própria boca.
Todo na mesa de queixo caído até mesmo Hunter.
“Não sabia que estava lidando com algum paciente perigoso do Bloco A. Você sabia, Sebastian?” Sinto que a coisa complicou quando Hunter convida Sebastian na discussão, espero que a adrenalina entrando no meu corpo seja suficiente pra sair vivo desta.
“Não, essa é nova pra mim.”
“É porque ele não é perigoso. Kurt Hummel não passa de uma bixinha.”
Sebastian fica mais que desconfortável com o comentário de Hunter, suponho que ele também não sabe dos interesses de Sebastian. Assim como não sabe os de Blaine.
“Falar desse jeito sobre ou com outro Warbler não te faz mais homem que ninguém.” Blaine fica de pé na minha frente. “Na verdade, te faz o maior bixinha dos Warblers.”
Nada supera o medo que tenho agora que Blaine esta envolvido. Ninguém na mesa esta confortável com o assunto da homossexualidade.
Desentendimentos não eram incomuns entre nos, pra falar a verdade, brigávamos a maioria do tempo, mas nunca quis me envolver com Sebastian ou Hunter, e agora estava no meio do furacão.
David Karofsky é meu novo grande amigo desde o momento que se intromete na briga, com a mala nas mãos e se apresentando.
–Sou David. – Ele parece mais um visitante do que um novo internado, o sentimento de ainda fazer parte do mundo lá fora mesmo que esteja tachado de anormal assim como todos nos.
Dura tempo demais ate nos apresentarmos, ele não parece simpatizar com nenhum de nos.
Principalmente comigo e Blaine.
Ou eu e Blaine somos os gays mais óbvios da terra, ou então Hunter tem um péssimo radar gay, que não consegue nem saber do próprio melhor amigo.
Eu estou cheio de Homofóbicos, se Karofsky tem algum problema com gays, não vou facilitar pra ele.
La fora, o mundo pode ser uma grande crueldade, posso ser esmagado lá fora. Mas agora este território é meu, alguém de fora vem querer pisar em mim. Esmago-o.
Me sinto tão diferente do que era antes, posso ate ter trocado de pele no processo.
Consigo entender o que Blaine quer dizer com a questão de dominância.
Assim que entramos no dormitório, Karofsky não parece feliz em saber que nos somos seus novos colegas.
“A cama da parede é minha.” Avisa Blaine.
“Não estou vendo o seu nome nela.”
Ah merda.
Blaine caminha ate Karofsky e pega a sua mala.
“Devolve minha mala!” Ele enfurece totalmente.
“Não estou vendo o seu nome nela.” Blaine não é do tipo vingativo, provocador, claro, infantil sempre. Vingativo não.
Karofsky não vê as coisas do mesmo jeito.
“Meu nome esta escrito bem na alça, seu idiota!”
Blaine olha para o nome riscado de Karofsky na mala, adoravelmente confuso.
“Ah.” Ele diz.
“Sim, ah. Devolve agora.”
Blaine devolve a mala e se deita na cama da parede, eu fico sentado na do meio. David pega a de Wes e Jeff.
Somos obrigados a levar David pelo hospital todo pra conhecer, não quero que ele entre nos Warblers.
Hunter pensa o contrario.
Quando falamos de matar o pássaro. Ele parece meio espantado, mas concorda. Ele aceitou muito melhor do que eu achei que aceitaria.
“Qual é o seu bloco?”
“B.”
Agradeço mentalmente pra estar no C agora.
Assistimos a TV, discutimos vendo desenho. Xingamos algumas enfermeiras, David se sente mais a vontade som Hunter e Sebastian.
O pior de tudo, foi na hora de dormir.
Como sempre, Blaine vem ate a minha cama, sinto saudades da proximidade e liberdade de antes.
Mas sei que se Karofsky descobrir, nosso segredo será espalhado.
“Volta pra sua cama.” Sussurro.
“O que?” Ele tem o olhar de um cachorro perdido.
“Temos que manter isto em segredo.”
Nunca o vi mais chateado, eu estou mais chateado ainda. Odeio cada vez mais Karofsky.
A primeira vez que ele me empurra nos corredores e me chama pela palavra com “b” (Já usada por Hunter, os dois andaram conversando muito.) Eu não deixo passar, me levanto e grito.
“Qual é o seu problema?” Ele para de andar e da meia volta, vindo me encarar.
“O que foi que disse?” Não achei podia estar mais assustado, Blaine não estava nem perto daqui pra me defender. “Repete, sua bicha.”
O meu sangue esquenta, deixa minhas mãos fervendo, como uma panela escaldante.
Não preciso de Blaine pra me defender, eu sou o maior, eu posso tudo.
Acordo na sala de pronto socorro. Minhas mãos cheias de ataduras, um olho roxo.
Não me lembro de quase nada.
Blaine, Wes, David, Nick, Austin e Thad estão sentados do meu lado.
“Onde esta Karofsky?” É difícil mexer meus lábios.
“Com Hunter e Sebastian. No quarto ao lado, vocês dois estão bem feridos.”
“O que aconteceu?” pergunto.
“Do que você se lembra?” Blaine pega a minha mão. Na frente desses caras, não temos que esconder nada.
“Karofsky me empurrando, vindo ate mim. Só.”
“Bom, foi uma briga e tanto.”
“Briga?”
“Sim, de você e o Karofsky.”
“Muito grave?”
“Você esta relativamente bem. Ele nem tanto.”
Sorrio, orgulhoso.
“Você normalmente consegue controlar sua raiva, o que aconteceu?”
“Sei lá. Quando me sinto poderoso, sou capaz de qualquer coisa.”
Nunca me senti tão pequeno.
A Dra. Sylvester da uma mini palestra de como devemos respeitar uns aos outros e não brigar, ameaçam nos trocar de quarto.
Não é boa hora pra jogar vísceras de Pavarotti nela.
Não posso ficar sem Blaine.
Fazemos o máximo de nos mesmos para nos evitar. É difícil, por pertencemos a mesma fraternidade.
Karofsky mata o canário na nossa frente.
Ele esta tentando me intimidar, me rebaixar. Ele esta quase conseguido.
Ah não ser porque vou atrás dele no meio do corredor vazio, em um dos meus momentos de auto estima elevado. Grito de tudo que conheço.
“Apenas não quero ser contagiado.” Ele explica.
“Contagiado de que?! Distúrbios mentais não são contagiosos, e se esta se referindo a minha sexualidade,” Chego mais perto da fase dele. “Pode ir se foder.”
Ele parece meio vermelho, não sei se é de raiva ou de qualquer outra coisa, o brilho nos olhos dele diferentes.
“Eu poderia te foder.” Fico paralisado.
“O que?!” Quase enfio os dedos no ouvido para me certificar que não estou tendo problemas auditivos.
“Voce é lindo, Kurt, nao consigo parar de olhar pra voce” Ele chega perto, eu ando pra trás. “Eu observei você e Blaine, pelo jeito nada rola entre vocês dois.”
Engulo em seco, nunca precisei tanto de Blaine.
“Apenas me deixe-“ Ele fecha os olhos e estende o braço pra me tocar, eu saio correndo, ele bem atrás de mim.
Não corremos nem 5 metros quando vejo os Warblers do outro lado do corredor, escutando tudo o que ele me disse.
Fico atrás deles pra me proteger, pareço uma criancinha assustada, um nada.
“Ora, ora, ora.” Escuto Hunter rir. Sebastian quieto feito pedra como o resto de nos. “Gosta de bundas masculinas, karofsky? É isso mesmo que ouvi?”
David não responde. Eu não quero ver.
Quero fugir, quero ficar surdo e cego e não voltar a ver nada e ouvir nada.
David esta chorando, correndo de nos, Hunter logo atrás, com as piores ofensas que já ouvi.
Fico com Blaine no pátio o resto do dia. Não quero voltar ao hospital nunca mais, não quero mais viver.
“Da pra acreditar? Depois de toda a merda que ele nos deu por sermos gays.” Diz Blaine, eu aceno com a cabeça.
“Não quero voltar a ver ele nunca mais.”
“Não acredito que ele estava te assediando desse jeito, eu quero ver so pra tirar a pele dele e por ao avesso.” Eu rio, Blaine sempre me faz rir.
“Vem comigo, não sai perto de mim, nada acontecera.”
Sorrio, limpando as lagrimas do rosto, não podemos ir de mãos dadas ate os Warblers, mas estamos com nossos cotovelos encostando um no outro. É o bastante por enquanto.
“Por onde diabos vocês estavam?!” Wes esta mais assustado do que nunca, os warblers inteiros, estão impassíveis.
“O que aconteceu?” Pergunto, vejo Hunter e Sebastian sorrindo sentado do lugar dele, tranquilo, totalmente o oposto de Wes e o resto.
“O David se enforcou. Bem no quarto de vocês. Se trancou lá depois daquilo que houve no corredor.”
Sinto que estou caindo, e desta vez, é algo literal.
Minha cabeça bate no chão frio, minha visão escurecendo.
A voz de Blaine em minha cabeça.
“Como vocês sabem. David Karofsky suicidou-se faz alguns dias atrás.”
Minha mão esta tremendo ate mesmo quando Blaine a segura. Nunca mais vou voltar pra aquele dormitório, nunca mais.
Todos fechamos os olhos e fazemos um minuto de silencio para Karofsky.
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