Kurt, Interrompido
2 Ida ao Dermatologista
Notas iniciais
Estávamos em 1967 quando fui consultar um médico por uma acne recente, e isso foi uma semana depois que tentei me matar. O médico fez algumas perguntas e então concluiu:
“Você está bem cansado.”
Eu acenei com a cabeça.
“Você concorda, Kurt? Também acha que está cansado?” Ele me encarou com enormes olhos azuis por trás de lentes grossas. A lâmpada direcionada para meu rosto piscou duas vezes.
“Acho que sim”
“Ótimo. Aguarde aqui, eu já volto.” Ele pegou sua prancheta e me manda assinar alguns papéis, provavelmente recibos ou qualquer outra porcaria. Enquanto isso, ele saiu da sala.
E ele voltou. Voltou com uma das minhas malas da Louis Vuitton e pediu que o acompanhasse. Achei que estava sendo mandado para uma colônia de férias ou um Spa, entrei no taxi sem entender quase nada.
“O que você fez?” O taxista me perguntou do banco de motorista depois de 10 minutos de viagem. Enxerguei seu rosto pelo espelho retrovisor.
“Desculpe?”
“O que você fez para ser mandado para a Dalton?”
Continuei em silencio. Ele virou-se rapidamente para o banco de trás dar uma olhada em mim. Depois voltou a sua atenção para a estrada.
“Bem, você parece normal. Normalmente levo gente que não bate bem da cabeça” Ele apontou para a própria têmpora e fez círculos em sentido horário.
“Espera aí, você disse Dalton?” A realização me atingiu como um choque e a cor se esvai do meu rosto, que antes encostado na janela, então quase colado ao do taxista.
Ele pareceu confuso por um momento. “Disse?”
“Disse, um minuto atrás.”
“Ah, bem, estamos indo para lá.”
“Não pode ser. Eu não tenho problemas mentais, nunca tive”
Ele permaneceu calmo “Você acabou de ver o Dr. Hapburn”
“Sim, por causa da minha pele”
“Que?” Ele virou o rosto novamente pra me encarar.
“Ele é dermatologista” A cor que voltou para o meu rosto e vermelho de raiva.
“O Dr. Hapburn?” Ele pensou por um momento “Não... Não, não. Ele é psiquiatra.”
E foi assim que senti outro choque em mim, mas pareceu mais um soco no estomago, ou uma facada em minhas costas. Fui enganado.
“Não se preocupe, você me parece normal. Vai sair de lá rapidinho.” Seu tom calmo voltou, sem fazer muito caso a minha situação. “No entanto, algo deve ter feito você merecer ser mandado pra la”
Respirei fundo, tentando prestar atencao a paísagem “Tentei me matar.” Digo, sem me preocupar no impacto dessas palavras.
“Você quase morreu e achou que estava vindo ver um dermatologista?” Pelo retrovisor os olhos dele se apertaram em reprovacao.
“Achei que já tivessem esquecido.”
“Pelo jeito não.”
“Em quanto tempo chegamos lá? Preciso ir ao banheiro.”
“45 minutos”
Cruzei as pernas.
“Não pode dar uma paradinha?”
“Não tem nenhum lugar por esta estrada ate Westerville.”
“Não posso segurar.”
“Feche os olhos e tente dormir. Estaremos la rapidinho.”
A musica da rádio preencheu o ambiente do taxi e a letra de Downtown ficou presa em minha cabeça antes de adormecer.
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