Kurt Hummel, O Mediador.
26 Capítulo 26
Notas iniciais
26
Da pra imaginar o quão sacana e louca a vida pode ser?
Eu me apaixonei por um fantasma. Meu primeiro amor de verdade. Nosso amor era do tipo impossível, jamais teríamos um futuro. Nunca formaríamos uma família. Então eu o perdi, e consegui o trazer de volta. Tentaram nos separar de novo. O resultado? Acabei voltando no tempo e trazendo o corpo de Blaine comigo.
Eu pensei que nem se eu fosse até o fim do Universo eu poderia trazê-lo de volta. Eu estava errado, e céus, como foi bom eu estar errado. A ligação da alma ao corpo foi uma mão na roda. Assim que ambos se aproximaram, eles se uniram.
Mas não pense que foi tudo rosas e ouro depois. O impacto da alma retornando ao corpo gerou uma parada cardíaca em Blaine. Seu coração parou pela segunda vez. Eu não tinha mais forças para chorar quando a máquina voltou a bipar.
Porém seus olhos continuaram fechados, e assim eles permaneceram.
– Kurt, acorde. – Ouvi a voz suave de Quinn e abri os olhos.
– O quê? – Me ajeitei na poltrona ao lado da cama.
– Você precisa de uma noite de sono decente. – Ela estava séria.
– Eu estava tendo um bom sono agora. – Olhei para os olhos oliva. – Eu não vou a lugar nenhum, preciso estar aqui quando ele acordar.
– O médico disse que isso pode levar muito tempo, anos, talvez. Vai ficar aí por anos? – Ela sentou no braço da poltrona.
– Se for necessário.
– Um bom banho e você pode voltar. – Ela implorou. – Você está aqui faz semanas, Kurt, por favor.
– Tudo bem. – Levantei-me. – Fique aqui, vou em casa e volto rápido.
Eu peguei as chaves do carro e corri até o estacionamento. No caminho de casa passei em uma lanchonete e comprei algo para comer. Como sou alguém muito sortudo, a estrada estava congestionada graças a um acidente e as pessoas são curiosas demais, portanto diminuem a velocidade para apreciar a tragédia.
Como o ser humano ama uma tragédia, ama ver a dor dos outros.
Assim que cheguei em casa, subi as escadas e tomei um bom banho. Não que eu tivesse ficado essas semanas sem tomar banho, mas o banheiro do hospital não é tão confortável. Aqui eu poderia levar mais de cinco minutos.
Eu acabei ficando mais de uma hora, pois acabei sentado no chão, completamente nu e chorando. Eu havia perdido tudo de novo? E não tinha a quem culpar, já que a culpa era minha. Eu não devia ter trazido Blaine de volta, eu devia ter olhado para trás e visto quem estava ali.
Eu devia ter deixado ele na outra dimensão.
E se eu tivesse deixado Sebastian o salvar? Eu fui um egoísta. Eu disse que seria para o próprio bem dele, mas eu fiz isso porque não conseguiria sofrer outra perda. Primeiro minha mãe, agora Blaine. Se eu o tivesse deixado ir antes ele não estaria nesse estado.
Inconsciente por quase um mês agora. Os riscos eram os mesmos de antes. O coma podia afetar o cérebro e ele voltar com sequelas. E uma dessas sequelas era a perda de memória. Ele não iria saber de nada, ele não se lembraria de mim.
Por isso quero tanto ser o primeiro rosto a ser visto por aqueles olhos dourados. Quero que ele se recorde bem de mim e se ele não se lembrar, farei de tudo para que seja como antes. Não posso perder o meu ma belle.
Eu comi rápido e logo já estava a caminho do hospital. Cheguei em poucos minutos, já que dessa vez não tinha nenhum carro atrapalhando a rodovia. Eu estava a pouco do quarto de Blaine quando vi muitos médicos e uma Quinn estática na frente da porta.
– O que aconteceu? – Corri até a ruiva.
– E-Ele... – Ela apontou para o quarto e eu entrei.
Havia uns 3 médicos a sua volta, todos com pranchetas em mãos anotando suas respostas. Sim, as respostas de Blaine. Ele finalmente tinha acordado. Tentei não demonstrar a decepção de que não fui o primeiro rosto que ele viu ao acordar, mas ele estava aqui e tudo estava bem.
Dois dos médicos saíram e ficou apenas o que acompanhou Blaine desde o inicio. Ele estava testando os sinais vitais de Blaine. Assim que ele saiu eu me aproximei, devagar para não assusta-lo.
– O-Oi. – Eu disse quase como um sussurro.
– Oi. – Ele respondeu e franziu a testa. – Desculpe, mas quem é você?
Eu fiquei parado em sua frente e meus olhos se encheram de lágrimas. Eu sei que disse que tentaria reconquistá-lo a todo custo, mas eu desejava com todas as minhas forças que isso não acontecesse. Eu não queria ter ouvido aquilo.
– Oh, me desculpe. Oh mon Dieu. – Ele levantou e veio até mim. – Desculpe, eu não lembro, mas eu gostaria de lembrar. – Ele sorriu torto.
– Tudo bem. – Eu sorri e ele limpou meu rosto.
– Vai me dizer quem é? – Ele estava tão próximo, eu queria beijá-lo e dizer “Sou seu namorado”, mas tive de me conter.
– U-Um amigo. – Baixei o olhar e ele riu.
– Bem, amigo, acredito que tenha um nome. – Ele sentou na cama.
Seus braços ainda tinham tubos ligados ao soro e as outras máquinas.
– Kurt. – Eu sorri de canto.
– Prazer, de novo. – Ele riu.
– Você parece bem conformado com esse lance de memória. – Eu sentei na poltrona.
– Faz uma hora que os médicos estão aqui me dizendo quem eu sou e de onde eu vim. Eu praticamente já me conheço, não vejo porque não encarar o resto com um bom humor. – Ele sorriu.
O sorriso não era muito diferente da versão fantasma. Era mais confortável, mais caloroso. Apenas isso. Menos brilhante talvez. Mas com certeza mais bonito.
– Então, que tal contar nossa história? – Ele pegou minha mão e me olhou nos olhos. Céus, ele não devia fazer isso.
Por duas horas eu contei nossa história. Deixei de lado alguns momentos intimos demais, e também deixei de lado o ma belle. Não queria parecer estar forçando ele. Os médicos disseram que com o tempo e a convivência com parentes próximos faria com que a memória retornasse aos poucos.
Só que não tinha parentes próximos.
Mais ou menos duas semanas se passaram. Blaine continuava morando com Sue, igual quando era fantasma. Agora ele também era um mediador. Ele levou um certo tempo para lidar com isso. No inicio ele surtou quando um fantasma apareceu na sua frente. Eu ri por horas.
Blaine também começou a faculdade de medicina. Sue deu um jeito de lhe conseguir um comprovante de ensino médio e todos os documentos que alguém deve ter.
Ele me fazia visitas frequentes e nós tínhamos dado nosso segundo primeiro beijo ontem. Isso sim tinha uma grande diferença da versão fantasma. Esse era mais caloroso. Sabe quando o calor é tanto que você passa a sentir frio? Foi exatamente isso que aconteceu.
Ele havia pedido a permissão para o meu pai, e assim que ele liberou, meu pai o convidou para um jantar. Blaine estava mais animado do que nunca. Carole questionou o motivo de ele ter 21 anos e eu 18, mal ela sabe que ele tem muito mais.
– Não é legal meu pai te convidar para o jantar? – Sentei ao seu lado e peguei sua mão.
– Não é legal, é maravilhoso, ma belle. – Eu sei um pulo e ele se assustou. – O que foi?
– Do que você me chamou? – Ele começou a ficar vermelho.
– Ma belle? – Disse inseguro.
Eu lhe beijei com tanta vontade que ele ele chegou a se assustar no inicio, mas logo foi cedendo e acabamos deitados na cama. Ele por cima de mim. Mãos a procura de pele. Bocas a procura de beijos. Exatamente como antes, só que melhor.
– Tudo isso por que eu te chamei assim? – Ele riu.
– Você me chamava assim antes, Blaine. Por isso minha felicidade. – Ele sorriu.
– Talvez minha memória esteja voltando. – Ele diminuiu o espaço entre nós.
– É, talvez. – E então eu lhe beijei novamente.
Na noite do jantar, nós estávamos sentados na sala. Meu pai pediu a câmera para registrarmos essa maravilhosa adição à família Hummel-Hudson. Eu subi as escadas e entrei no meu quarto. Procurei na gaveta e quando me virei fui surpreendido por um feixe de luz.
– Olá, querido. – Ela sorriu.
– Mamãe. – Eu corri e lhe abracei.
– Vim me despedir. – Meu sorriso vacilou.
– Como? – Lhe encarei. – Mas...
– Kurt, eu já estou pronta para ir. – As risadas dadas na sala eram audíveis do meu quarto.
– Mas... por quê? – Minha voz saiu falha.
– Querido, o único motivo que me prendia aqui não existe mais. – Ela sorriu e acariciou meu rosto.
– Que é...? – Esperei que ela completasse, ela riu.
– Sua felicidade, meu querido. – Ela pegou minha mão. – Eu estava presa aqui por você estar triste, você e seu pai. Quando ele encontrou Carole tudo se resolveu, menos você. – Seu sorriso era o mesmo, doce. – Agora você também está feliz. Então estou livre.
– Isso significa que nunca mais vou te ver? – Meus olhos ficaram marejados.
– Nunca é um termo muito forte. Um dia nos veremos, e acho que sabe que dia será esse.
Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa ela beijou minha bochecha e desapareceu. Eu ouvi as risadas novamente e tive certeza que ela estava certa. Limpei as lágrimas que caíram e segui escadas a baixo.
As fotos tiradas naquela noite foram para o meu mural, para que assim ela pudessem ser eternas.
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