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*Flashback* POV Sebastian on

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_Isso tudo é uma bobagem. — reclamou o anjo mais velho, seus longos cabelos descendo por suas costas como uma cortina dourada. Os pálidos olhos azuis expressavam tanto rancor que chegou a assustar-me.

_S-senpai? Dizer tal coisa... não é arriscado?

_Nada é arriscado, quando se é forte o suficiente. — Lúcifer sorriu, o que iluminou ainda mais suas feições perfeitas. Deixei que meus olhos examinassem cada centímetro, guardando-os bem em minha memória. Tê-lo tão perto era algo raro, e o fato de que um anjo tão poderoso estava falando com um recém-criado como eu tornava a situação ainda mais extraordinária.

E não era apenas um anjo poderoso. Era Lúcifer. O único que o podia superar era o próprio Todo Poderoso. O que não parecia ser suficiente.

_Tanta coisa está errada, Raum... Não entendo como os outros não conseguem ver o que é tão claro para mim. Não temos nem um pouco de liberdade!

_Liberdade é algo perigoso, é o que dizem a nós. Não me parece muito certo... mas quem sou eu para refletir sobre tais coisas?

_É isso o que estou dizendo! — O mais velho aproximou-se subitamente, pegando meu queixo e olhando-me nos olhos. — Pense por si, meu caro, não deixe que eles pensem por você. Posso sentir potencial em você, seria uma pena se ele fosse desperdiçado...

Fiquei atordoado, não apenas por aquelas palavras libertadoras, mas também pela proximidade. Eu podia ver cada detalhe das íris azuis, dos longos cílios pálidos, da pele de marfim sem nenhuma imperfeição. E acima de tudo a força e a arrogância estampadas em seu semblante.

Aquilo era errado, muito errado, um anjo tão agraciado pelo Divino dizer tais blasfêmias, que o contaminavam com a dúvida. Aquilo era errado, será? Soava tão certos, aquelas palavras em sua voz macia...

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_Irá se opor a mim, Raum?

Minhas mãos tremiam, mas me esforçava ao máximo para esconder isso. Aqueles olhos azuis encaravam-me com tamanha intensidade que eu sentia vontade de desviar o olhar, esconder-me de alguma forma, pois quanto mais ele me fitava, mais minha lealdade a meu Criador vacilava.

_Eu deveria. Se não agir contra você, agirei contra meu Senhor...

_Se opôr-se a Ele, eu serei teu senhor. Terás de pagar caro, mas valerá a pena, posso lhe assegurar.

“Pode mesmo?”, indagou uma voz frágil em minha mente, voz que desvanecia-se a cada segundo. Eu sabia o que queria. Queria segui-lo, a despeito de todas as consequências. Queria deixar-me envolver por suas palavras impuras, acreditar nelas. E acima de tudo, queria apoiá-lo, ficar ao lado dele, tornar-se seu servo caso essa fosse a única maneira de aproximar-se daquele que eu tanto admirava. “Sim, ele pode, ele é Lúcifer”, retorquiu uma segunda voz, muito mais forte que a primeira. Mas...

_Eu não posso. — era aquilo que me haviam ensinado desde minha criação. Jovem demais, fraco demais. Como um ser assim poderia revoltar-se contra seu próprio Criador? Lúcifer era incrivelmente mais velho, mais forte, se houvesse alguém capaz de vencer a guerra que ele agora travava, era ele. Eu era indigno até mesmo de lutar a seu lado.

Mas nunca tive de lutar contra ele pessoalmente, algo que me fez incrivelmente agradecido por minha sorte. Pois eu não seria somente morto, mas também morreria sem conseguir me defender. Porém, mesmo quando o encontro parecia inevitável, eu não o via, apenas de longe algumas vezes. Ele lutava de forma tão magnífica, que mal pude acreditar quando o lado pelo qual eu lutava foi o vencedor.

Assisti a queda daquele que tanto admirava com um aperto no peito que nunca sentira até então, olhos fixos naquela expressão orgulhosa, sem um traço de arrependimento. A grande maioria dos outros anjos rebeldes pediram por misericórdia, aterrorizados com a punição que lhes seria imposta. Havia desprezo naqueles olhos azuis toda vez que se voltavam para aquele espetáculo deplorável, e eu o compreendia. Fora covarde ao não unir-me a ele, mas nunca enfrentaria as consequências de modo tão repugnante. Ao contrário, sentir-me-ia feliz em cair ao lado de tão glorioso ser.

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A corrupção de Lúcifer tornou-se visível até mesmo em sua aparência. Observei de longe quando ele cortou os longos cabelos dourados, mechas negras toldando sua luz anterior, e o azul sendo coberto pelo cinza. Tão diferente, mas ainda assim admirável. E apesar de meus esforços para reprimir aqueles desejos pecaminosos que me tomavam, poucos anos depois deixei o Paraíso por minha livre e espontânea vontade, dessa forma conservando minhas asas. Mesmo assim, o processo foi doloroso. As asas sempre foram o ponto mais forte e mais fraco dos anjos. O poder que elas conferiam era imenso, mas também eram altamente sensíveis, e à medida que minhas penas tornavam-se negras crescia em mim uma sensação de imensa ardência, como se o próprio fogo divino as percorresse. O negro também cobriu minhas unhas, e naquele momento pensei que estivesse contaminando até mesmo minhas veias agora infectas. Trair meu Criador de tal forma eliminou quase que de uma vez só toda a pureza que restava em mim, a maldade e a escuridão substituindo-a imediatamente. Vi-me tomado por pensamentos e emoções que me eram desconhecidos, a ira e o rancor assolando-me com tal intensidade que prostrou-me de joelhos. Todas as ideias e dúvidas que costumava reprimir inundaram minha mente, e pela primeira vez pude avaliá-las sem culpa, percebendo todas as falhas do sistema em que estava inserido anteriormente. Após alguns dias sob aquele tormento, comecei a melhorar, acostumando-me lentamente com as novas formas que meu corpo tomara. Então fui atrás dele, aquele que me envenenara com suas palavras e sua aparência. Foi apenas nesse momento que admiti para mim mesmo que não foram apenas suas ideias que me seduziram, e que meus sentimentos não eram apenas de admiração. Era ele que me envolvera por completo, tomando conta de cada pensamento, puxando-me para baixo junto a si.

Meus antigos irmãos me encontraram primeiro.

_É terrível vê-lo em tal estado de decadência, Raum.

_Decadência? — Um sorriso curvou meus lábios, carregado de tamanha malícia que até mesmo eu surpreendi-me – Nunca senti-me melhor.

_Você não nos deixa outra escolha. Teremos de purificá-lo.

Mantive a expressão calma, mas estava tomado pelo medo. Sete arcanjos encontravam-se diante de mim, um simples demônio recentemente transformado, sendo que até como um anjo eu ainda fora bastante jovem. Aquela era uma luta que eu não poderia vencer, ou sair vivo dela, e o orgulho que começara a se desenvolver em meu interior impediu-me de tentar fugir.

Minhas unhas tornaram-se garras instintivamente, e pude sentir que meus dentes também ficavam mais afiados. Meus músculos se retesaram e esperei pelo ataque que mesmo assim pegou-me de surpresa. A lâmina da espada de um deles cravou-se em meu flanco direito, algo que só percebi quando a luz de tal arma começou a queimar minha carne. Girei em sua direção, minhas garras errando seu braço por poucos centímetros. Mas então algo envolveu meu pescoço, bloqueando minhas vias respiratórias. Mesmo que não precisasse respirar, aquela pressão machucava muito e ameaçava romper minha medula. Aquilo não me mataria diretamente, mas deixar-me-ia indefeso o suficiente para que fosse facilmente exterminado, então usei toda a minha força para retirar o chicote de minha garganta, mesmo que as palmas de minhas mãos queimassem por isso. Assim que consegui afrouxar um pouco aquele aperto, um golpe foi desferido contra meu estômago, seguido de um forte soco em minha mandíbula, o que desnorteou-me de tal forma que mal senti o golpe seguinte, e fui envolvido pela inconsciência logo após.

Quando voltei a sentir meu corpo, não entendi como podia ainda estar vivo. Abri os olhos cuidadosamente e examinei o local onde me encontrava, em poucos segundos acostumando-me com a escuridão que reinava. Cheguei a conclusão de que me encontrava em algum tipo de caverna, mas o tipo não pude determinar, pois uma silhueta poucos metros capturou toda a minha atenção.

_Parece que você não tem muita sorte, não é, Raum?

Tentei virar minha cabeça para vê-lo melhor, mas meus músculos nessa região estavam doloridos. Percebendo o que impedira meu movimento, ele aproximou-se com repreensão em seus olhos cinzentos.

_Você foi ferido por instrumentos angélicos, ainda vai demorar um pouquinho até que esteja completamente recuperado.

_Como... — queria perguntar como ainda estava vivo, mas somente aquela pequena palavra passou com dificuldade pela minha garganta, saindo de forma rouca.

_... Você sobreviveu? — o demônio mais velho completou, um pequeno sorriso aparecendo em seus lábios – Eu estava por perto e minha presença acabou distraindo os arcanjos, o que provavelmente foi sua salvação. Quando foi trazido até mim sua situação era no mínimo crítica, mas você é mais resistente do que eu pensava.

Lúcifer olhou-me dos pés a cabeça, sua mão direita pousando com extrema leveza sobre meu flanco ferido. Incomodava um pouco, mas não pensei muito naquilo, completamente distraído por aquele olhar que ele me dera, mesmo que o lado racional de minha mente insistisse que não havia nada de mais por trás do mesmo. E naquele momento até mesmo um simples interesse físico agradar-me-ia.

Mas nem mesmo isso eu conseguira obter do foco de minhas atenções. Nunca fiz nada para tentar seduzi-lo, algo que ainda me constrangia naquela época, mas também nunca ofereci oposição a nenhum de seus toques ou ações, e deixei claro que não resistiria caso esses toques e ações tomassem um caminho mais... impuro. No entanto ele tratava-me de uma forma displicentemente fria, embora sempre cortês. Quando finalmente recuperei-me do ataque, ele reagiu a minha partida de forma indiferente.

Eu não queria ir. Mas vê-lo agir de forma tão fria incitou o orgulho que crescia dentro de mim a cada dia que passava, e isso deu-me forças para partir.

*Flashback off*

Dei o meu melhor para evitá-lo nos anos seguintes. Anos que se tornaram décadas, séculos, milênios. Parei de contar. E agora ele aparecia do nada na mansão do meu atual mestre. E eu descobria que não foi apenas ele que não mudou.