Kuroshitsuji III
37 Reencounter.
Notas iniciais

O vento frio da noite batia contra sua face gélida e inexpressiva, esvoaçando seus fios negro-azulados. Ciel ainda hesitou por alguns momentos antes de escalar a parede da mansão e entrar cuidadosamente pela janela, tentando não fazer o menor ruído.
Fazia algum tempo desde que ele abandonara sua mansão na França e partira para Londres. Ele não sabia bem o porquê de ter feito aquilo, sabendo que seria arriscado aparecer por lá quando todos achavam que estava morto, mas… Tanto havia acontecido em Londres. Ele nascera e “morrera” naquela cidade, então era simplesmente óbvio que aquele fosse o primeiro destino a aparecer em sua mente.
Olhando ao redor, ele foi tomado ao mesmo tempo por um forte sentimento de familiaridade e estranheza. Por um lado, lá estava Elizabeth, dormindo tranquilamente com os cabelos dourados a emoldurar-lhe o rosto. Por outro lado, o quarto parecia bem mais sóbrio do que ele esperava. Nada de laços cor-de-rosa ou flores. E aquela mudança… ele não fazia ideia do quanto sentiria falta dos maneirismos de sua antiga noiva sem que essa mudança houvesse ocorrido.
_Tinha mesmo a impressão de que o encontraria aqui, jovem mestre.
Com certeza aquela era uma das vozes que o conde não gostaria de ouvir, justo em seu momento mais nostálgico. O corpo do mais novo demônio virou-se sem pressa, logo encontrando o corpo de seu mordomo parado ao lado de fora da janela, na pequena varanda que ali continha. O mordomo sorria-lhe amigavelmente, sendo isso o bastante para despertar todo o seu ódio acumulado, que tornou-se visível quando seus olhos passaram do azul para um escarlate profundo.
_Seu… — Ciel começou a andar com passos firmes na direção de Michaelis, fumegando de raiva – Como você ousa vir atrás de mim?
Sebastian sorriu, sem se deixar alterar pela raiva do mais novo.
_Como seu mordomo, é simplesmente meu dever segui-lo.
_Sei… e por acaso também é seu dever dormir com a minha noiva?
_Jovem mestre, eu falaria mais baixo se fosse você. — disse o mais velho, levando um dedo aos lábios e inclinando a cabeça de leve para a direita.
Ao olhar na direção indicada, o conde levou um susto ao perceber que Lizzy tinha aberto os olhos.
_Lizzie… — pronunciou os lábios do conde e seus olhos voltaram ao tom azul de sempre.
Os grandes orbes verdes da garota estavam sem vida e sem brilho. Seus cabelos dourados desciam em cascatas pela sua clavícula alva e seminua. O restante estava coberto por um fino tecido preto que ia até a altura dos joelhos. Lizzie sentou-se vagarosamente esfregando os olhos, ainda sem perceber direito o que ali ocorria.
Ciel estava mais uma vez estático, essa era Elizabeth, porém não a mesma Elizabeth, uma mais… velha… ou mais madura.
_C-Ciel…? — a garota pareceu finalmente reconhecê-lo, confusão inundando seus olhos verdes – É… é você mesmo?
_Lizzie… — o conde deu um passo em sua direção, completamente perdido em relação ao que dizer.
Após alguns momentos, ela levantou-se de um pulo e correu em direção a Ciel, jogando seus braços ao redor dele.
_Ciel! — ela abraçou-o com toda sua força, deixando o garoto estupefato. Depois de se recuperar, ele retribuiu o abraço cuidadosamente, sentindo o perfume familiar que emanava dela. Tentava ao máximo controlar sua força enquanto a mantinha em seus braços. Desde que se tornou um demônio, convivera apenas com seres mais fortes que ele, portanto, não sabia quando sua força poderia machucá-la, por isso a abraçava como se fosse feita de balões, um pouco mais de força que o necessário e ela estouraria, era o que passava-se em sua mente.
A loirinha, que antes tinha sua cabeça depositada sobre o ombro do conde, levantou o rosto, alinhando seus olhares. Em suas íris verdes, notava-se um brilho peculiar, que a pouco tempo atrás não existira, seus lábios rosados e suaves fizeram menção em falar algo, mas nada de lá saiu.
_Jovem mestre? – indagou o mordomo em sua postura perfeita, atraindo a atenção de ambos para si. — _Já chamei, Lúcifer. Ele dará um jeito em tal situação. Portant... – Michaelis foi interrompido pela figura do demônio que se materializou um pouco mais a frente, concluindo a frase por ele.
_Despeça-se. – disse Lúcifer somente, seu tom e feições sérios.
_Lizzy... – voltou a olhar para garota e chamou-lhe a atenção. — _Desculpe-me. – disse enquanto suas mãos — que até então estavam pousadas nas costas da menina — desciam em direção a cintura esguia, apertando-lhe devagar, com o maior cuidado, puxando ela para mais perto de si e por fim, unindo seus lábios.
Ela surpreendeu-se com aquele movimento ousado e seus olhos permaneceram arregalados por um breve momento, antes de seu corpo relaxar e suas pálpebras enfim, fecharem. O Phantomhive deslizou a língua pelos lábios macios, pedindo passagem, que foi concedida de maneira tímida e desengonçada, ele tentou administrar o desejo que estava tomando conta de seu corpo, conduzindo-o para outro local, o que não foi de todo bem, pois, suas unhas afiadas começaram a aparecer.
_Ciel! – Lúcifer o repreendeu bem a tempo dele afastar suas mãos da cintura da garota, soltando-a. Seus olhos foram vagarosamente tornando-se avermelhados e ele suspirou, percebendo o que quase tinha feito.
Elizabeth que já o olhava confusa, deixou-se tomar pelo medo ao ver seus olhos mudando lentamente, passando de normais a algo sobrenatural. Seus orbes verdes marejaram acompanhando os passos lentos do seu noivo, que distanciava-se sem receio, passando por um homem que lhe pareceu estranho, de cabelos loiros e olhos acinzentados, parou ao lado dele e seus olhos sinistros encararam os dela novamente, fazendo-a estremecer.
_Terminei. – foi tudo o que ele disse.
Lúcifer foi andando devagar até a loira, que recuava a cada passo que ele dava, até cair sobre a cama, seus orbes liberaram lágrimas silenciosas que banharam rapidamente o doce rosto. O demônio sorriu, e curvou-se para mais perto dela, tocando-lhe o rosto alvo de forma graciosa e delicada. As orbes verdes logo tornaram-se acinzentadas e ele pôde, finalmente, alterar as memórias dela. Quando os grandes olhos voltaram ao verde original, as pálpebras pálidas pesaram e começaram a fechar-se e seus lábios róseos soltaram um sussurro antes de adormecer.
_Ciel... – e isso foi tudo o que o demônio mais novo viu, antes de sair pela varanda sem olhar para trás.
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