Kurohanayome - A Noiva de Negro
16 Outro Foco
Notas iniciais
Enfim, boa leitura. ♥
Sebastian realmente era incrível e cada vez mais me fazia esquecer da imagem, construída pela igreja, dos demônios: seres brutais, que devoram as almas pecadoras, vivem entre as chamas infernais e não tem compaixão alguma. Embora isso fizesse parte dele de fato, ele – e Ciel, que ainda estava se desenvolvendo – não era totalmente aquilo: o mordomo esbelto exalava um ar de tranquilidade e carisma, sempre pró-ativo e astuto. Em questão de horas, ele havia retornado à mansão Phantomhive com informações valiosas, que eu escutava atenciosamente enquanto meu noivo legítimo mantinha-se em silêncio.
-Fui a vários lugares para buscar informações: o castelo, a sede policial, algumas ruas sem saída e outros bons pontos de referência... – ele começou a passar seu relatório. – Fiz uma relação de fatos e descobri que, desde antes dos assassinatos misteriosos envolvendo a nobreza, o rei não estava tão bem assim.
-Como assim? – eu quis saber.
-Ele anda doente, ultimamente. – o mordomo me respondeu. – Essa informação não pode ser divulgada porque isso poderia enfraquecer a defesa do reino, embora ele esteja usando um anjo da morte ao seu favor.
-... E sacrificando pessoas em troca. – Ciel resmungou. Ele ergueu a cabeça e perguntou: — Você soube qual é o diagnóstico dele?
-Os médicos estão com dificuldades para compreender o que está havendo exatamente com ele, mas até agora acreditam que são rumores de ataques epiléticos e ele está tomando uma medicação controlada. – Sebastian respondeu.
Fiquei pensativa: Quando eu havia chegado à sala de piano durante o confronto entre Ciel e Charlie, escutei alguma coisa a ver com uma casta de anjos revoltada com o rumo que a humanidade estava tomando. O rei estava com sintomas de uma doença que alguns julgavam como problemas espirituais envolvendo demônios. Uma faísca cintilou em minha mente: a casta que Charlie mencionou, que estaria à disposição de continuar o tal pacto, estava possuído o corpo de Edward VII e o fazendo se comportar daquela forma?
Imediatamente me agitei e quis expor minha hipótese, porém, antes que eu falasse, Ciel olhou para mim e me respondeu:
-Isso pode ser bem provável.
Eu ainda não havia me acostumado com a capacidade dele ler a minha mente. Corei ao imaginar se ele já não havia “escutado” outras coisas que eu tinha vergonha de dizer verbalmente. Sebastian nos olhou com curiosidade e perguntou:
-O quê?
O Phantomhive de cabelos cinza respondeu:
-E se o rei, na verdade, está possuído pela tal casta que Charlie citou e, por causa disso, está agindo de uma forma tão desumana?
Sebastian estreitou os olhos e questionou:
-Como se ele tivesse procurado uma saída para alguns problemas e acabou se envolvendo em outro bem maior?
-Exatamente! – eu e Ciel respondemos ao mesmo tempo e depois nos olhamos.
O mordomo pôs a mão no queixo e pensou. Eu esfreguei minhas mãos e murmurei:
-Meu pai nunca se deu bem com Sua Majestade, porém ele me disse uma vez que ele se encontra mais insuportável do que o normal. Sem contar que sabemos que ele tentou matar a minha família. Deve haver algo muito errado mesmo nessa história.
-Sim. – Ciel meneou a cabeça.
O demônio de cabelos negros dirigiu-se ao seu mestre:
-O que faremos, então?
Ciel olhou para mim, cruzou os braços e disse solene:
-Teremos que mudar o nosso foco.
-Como assim? – fiquei perplexa.
Ele continuou olhando para frente:
-Charlie é apenas um galho da árvore de problemas. Se temos que nos livrar do estorvo, devemos arrancar o mal pela raiz.
Arregalei os olhos e imaginei o pior:
-Você está pensando em matar o rei? Ciel! – achei aquilo precipitado.
Ele franziu as sobrancelhas e disse:
-Se essa for a única solução, sim.
Sebastian sugeriu:
-Ao invés de matar o rei, poderíamos chantagea-lo.
-Sebastian, ele não irá aceitar, pois está fora de si. – Ciel protestou.
Movi as mãos num sinal de nervosismo:
-Pelo fato dele estar fora de si é que não devemos mata-lo! Ele está sendo usado como um copo para reter um líquido.
-Mas, para o líquido ser derramado, deve-se quebrar o copo. – o garoto me respondeu em metáfora.
Retruquei na mesma figura:
-Se quebra-lo, você pode se cortar. Depois, não é bem mais fácil vira-lo de cabeça para baixo?
Antes que ele respondesse, bateram à porta. Nós três olhamos para a entrada e meu coração bateu com força: seria a polícia?
-Sebastian, atenda. – Ciel o mandou.
Perguntei hesitante:
-Mas, e se for a Scotland Yard?
Ciel sorriu e respondeu:
-Não é. Já imagino quem seja. – pôs a mão sobre minha cabeça e me tranquilizou: — Não irá acontecer nada de mal a você e nem aos outros.
Abaixei os olhos. Neste momento, Sebastian abriu a porta e escutamos uma voz grave e serena dizer alto:
-Boa noite, senhores.
Virei para trás e reconheci Lau com Ranmao logo ao seu lado. Ciel afastou-se de mim e foi em direção dele:
-Isso é hora de visitas, Lau? Não é que eu não precise mais dormir que você pode aparecer na hora que quiser!
-Desculpe, Conde. – ele respondeu de modo cortês. – Mas, ultimamente, andar sob a luz do dia tem sido um perigo para mim.
-Entrem. – Ciel os chamou para dentro e o mordomo abriu mais a porta.
Os dois visitantes adentraram a sala e sentaram-se no sofá. Os cumprimentei e reparei que eu estava de roupão. Fiquei constrangida em estar assim na frente das visitas, porém o chinês me disse amistoso:
-Lady Elizabeth é tão bela que até sem estar ornada com suas jóias continua irradiante como um nascer do sol.
Não pude conter um sorriso aberto e sincero:
-Obrigada. – disse.
Sebastian nos anunciou:
-Irei preparar um pouco de chá. – se retirou da sala de visitas.
-O que aconteceu enquanto estive fora? – Ciel perguntou. Olhei para ele e vi que seus olhos já haviam voltado a serem azuis e os chifres haviam desaparecido.
Lau inclinou a cabeça de lado e respondeu:
-Muitas coisas desagradáveis. Desde que a guerra terminou e o príncipe dandy assumiu o trono, a situação ficou difícil. Não consigo mais trazer tantos produtos de meu país como antes e isso está começando a afetar nossa economia. Se fosse apenas a economia da China ainda seria “aceitável”, porém os novos movimentos do reinado inglês estão afetando muitos outros países de várias formas. Sem contar os assassinatos dos nobres.
-Você sabe que isso faz parte do jogo de Sua Majestade, não é? – Ciel o perguntou.
Ele balançou a cabeça:
-Sim, sei. – passou o braço sobre o ombro da bela chinesa que o acompanhava sempre em silêncio. Lau continuou: — Achei que não teríamos salvação até saber que você estava vivo e de volta.
Ciel riu seco e rolou os olhos:
-Por enquanto estou de volta. – senti que os olhos dele se voltaram para mim rapidamente a fim de ver minha reação diante daquelas palavras, mas eu olhei para o lado oposto do cômodo. Ele suspirou: — Quanto a parte do “vivo”... É quase isso.
Lau sorriu discreto:
-Entendo. Mas, acredito que, então, sua passagem por aqui já está quase no fim, afinal a notícia sobre o incêndio na mansão Middleford já se espalhou por boa parte de Londres. Por isso que estou aqui.
Cruzei os braços e senti meu estômago se contorcer de nervosismo. Meu primo andou pela sala com as mãos nos bolsos por um tempo e, de repente, parou num canto olhando para um quadro e disse:
-Eu sabia que isso aconteceria e já estou procurando um jeito de resolver este problema logo antes que acabe envolvendo mais pessoas inocentes. – olhou sobre o ombro e perguntou: — Aliás, até que parte você sabe sobre os motivos que me trouxeram de volta?
-Na verdade, sei de bem poucos. – o outro respondeu. Suspirou: — E, sinceramente, acho melhor eu não saber de tudo... Você sabe que não se pode confiar integramente em alguém.
Ciel balançou a cabeça. Senti minhas pernas começarem a doer de tanto ficar em pé e me dirigi ao outro sofá, me enterrando num dos cantos com os braços e pernas cruzadas. Lau deslizou a mão pelo cabelo de Ranmao e finalmente expôs seu propósito de estar ali:
-Quero fazer um trato com você. Eu lhe ajudo a se aproximar da origem do problema, em troca você cumpre sua missão e, finalmente, ajuda meus negócios com a liberação de importações. A rainha não é tão radical quanto o rei. Elimina-lo será perfeito.
Não consegui disfarçar a minha repugna àquilo:
-Ainda acho que isso é desprezível.
-Dê outra solução, então, Elizabeth. – Ciel me sugeriu desafiador.
O encarei com descaso e disse:
-Eu tenho um, sim.
Lau riu baixo e disse:
-Podemos fazer essa troca, Conde?
-O que eu preciso fazer? – o conde demônio perguntou interessado.
-Haverá uma festa daqui uns dias para comemorar os altos lucros da sociedade inglesa. Tenho contatos com alguns dos organizadores e sei que Sua Majestade estará lá e também sei como te infiltrar sem problemas.
Sebastian apareceu com uma bandeja com chá. Lau pegou uma xícara e disse entre alguns goles:
-Só precisa de um bom disfarce e encenação.
-Posso assumir a forma que eu quiser. – Ciel expôs.
O homem discreto e com ar sereno sorriu de lado:
-Acredito que o disfarce que você terá que usar para atrair o alvo poderá te deixar constrangido...
Arregalei os olhos, Sebastian olhou estranho para Lau, Ranmao o encarou curiosa e Ciel perguntou hesitante:
-Como assim?
Fale com o autor