Notas iniciais
Oi, oi, oi, gente! *---* -rs
Vim postar o capítulo um dia antes do normal. o/
Espero que gostem. Boa leitura. :3

Lá estava eu novamente na antiga mansão Phantomhive e com seis anos de idade, cantarolando alguma cantiga inventada por mim mesma enquanto balançava minhas pernas suspensas na cadeira, que estava sob uma frondosa árvore do jardim de meus tios.

Tia Anne brincava de pique com Ciel e me chamou risonha:

-Venha, Lizzy!

Cruzei os braços e balancei a cabeça:

-Eu não quero.

Meu Deus, como ela estava linda aquele dia... O cabelo vermelho vivo brincava com o vento e dava para suas feições um ar de leveza. Ela sorriu:

-Tudo bem, querida.

Ciel apontou rindo:

-Ela não quer brincar por que é lerda como uma tartaruga!

Eu não gostei daquilo. Levantei da cadeira e bati os pés com minha irritação infantil:

-Não sou lerda como uma tartaruga!

Ele retrucou:

-É sim!

Nossa tia nos deu uma bronca:

-Parem de brigar por causa disso.

De repente, tia Rachel apareceu e deu uma bronca em meu primo:

-Filho, quantas vezes eu já lhe disse para não caçoar dos outros?

Ciel pôs as mãos para trás, me encarou fazendo um biquinho e resmungou:

-Desculpe.

Eu dei à mínima para ele. Apenas olhei para a minha futura sogra com um largo sorriso, “agradecida” pela bronca. Ela piscou para mim e disse para Anne:

-Não estou me sentindo muito bem, acho que é por causa do calor. Vou para o escritório. Leve as crianças para dentro depois, tudo bem?

A ruiva balançou a cabeça:

-Pode deixar.

Eu a segui até a entrada da mansão e disse:

-Quero ir com você.

Minha tia me estendeu a mão e sorriu de lado:

-Tudo bem, pequena Lizzy.

Quando estávamos passando pelos extensos corredores da casa, voltei minha atenção para o rosto sereno da mãe de Ciel: ela aparentava ser mais jovem do que na realidade. Fiquei encabulada em reparar que todas as mulheres da família Phantomhive e das irmãs Durless eram formosas e se vestiam bem. Verdadeiras ladies, enquanto eu era uma criança desajeitada e sem expectativas de me destacar em alguma coisa, afinal nem sabia falar francês direito ou tocar piano... Logo veio uma dúvida ligeira e inocente em minha cabeça. Suspirei e tentei faze-la sem hesitação:

-Tia... – de repente, faltaram palavras e veio o pudor de criança diante daquelas “perguntas arriscadas”, que poderiam resultar em alguns tapinhas para deixarmos de ser tão curiosos.

-O que houve? – ela disse sem olhar para mim.

Olhei para meu lado esquerdo e vi um quadro que tinha a foto dela e tio Vincent. Parei de repente e ela estacou ao meu lado. Finalmente, achei as palavras:

-O que um Cão de Guarda da Rainha faz, exatamente?

Imediatamente, ela riu nervosa, acariciou minha mão e tentou tirar meu foco:

-Lizzy, acho que você anda curiosa demais...

-Papai diz que não são as respostas que movem o Mundo, mas as perguntas... – eu a encarei. -... Porém, as respostas vêm logo após as perguntas serem feitas, certo?

Tia Rachel fez uma expressão pensativa e, por fim, inclinou a cabeça de lado:

-Está certíssima.

-O que um Cão de Guarda faz, então? – fiquei impaciente.

Então, ela tornou-se séria repentinamente e se agachou diante de mim. Logo, me respondeu:

-Elizabeth, ainda há coisas que são muito complicadas para te explicar, mas eu ainda posso te pedir uma coisa imediatamente, pode ser?

Fiquei um pouco contrariada:

-Isso tem a ver com a minha pergunta?

Ela balançou a cabeça afirmando:

-Tem a ver. Apenas prometa que vai se esforçar para fazer isso.

-O quê? – arregalei os olhos diante da probabilidade de finalmente entender.

Ela respondeu mansamente:

-Um Cão de Guarda da Rainha é uma pessoa muito especial. É ele quem vai proteger o reino ao lado de Sua Majestade. Por isso que a vida dele é muito arriscada. Lizzy, haja o que houver, fique ao lado de Ciel, entendeu?

Eu apenas balancei a cabeça. Ela deslizou os dedos nas mangas engomadas de meu vestido e continuou:

-Na família Phantomhive, acontece da seguinte maneira: eles nunca admitem quando precisam de ajuda. – ela riu fraco. – Por isso, mesmo que digam que está tudo bem, fique perto e pronta para prestar ajuda. Desde que vim fazer parte dessa linhagem, aprendi que não é a esposa de um Cão de Guarda que deve ser protegida, mas ela que tem de protegê-lo. – Rachel franziu as sobrancelhas e perguntou: — Acho que você não está entendendo muito bem, não é?

De fato, naquela época eu fiquei confusa com aquelas palavras. Mesmo assim, tentei fingir que compreendia tudo, porém minha tia reparou em minha farsa e me abraçou rindo:

-Tudo bem, um dia você entenderá. Mas, apenas me garanta que vai ficar do lado de meu filho.

-Pode deixar! – eu retribuí o abraço e jurei.

Eu prometi, não é tia? Sei que até agora só dei trabalho, mas corri atrás de cumprir a minha promessa. Talvez, meu primo não estava tão difícil de lidar pelo fato de não ser mais humano, mas, na verdade, podia ser por que ele ainda tinha aquele lado orgulhoso.

Entretanto, eu estava mergulhada na escuridão: parecia que meu corpo estava preso numa dimensão sem som e luz e apenas reparei nisso quando aquela memória abandonou minha mente.

Eu morri? Pensei.

Eu não poderia ter morrido: aquela voz que escutei no salão disse que não me levaria, mas... Será mesmo?

Será que Paul está bem?

Meu coração se apertou e senti vontade de gritar, porém não consegui me mover.

Ciel, eu falhei, desculpe. Tia Rachel, eu não consegui cumprir minha promessa. Agora Ciel está sozinho.

De repente, uma voz familiar soou próxima a mim:

-Você não morreu, Lizzy. Pare de drama.

-Ciel? – finalmente consegui falar e fiquei feliz em escutar a voz mal humorada dele.

-Vai ficar tudo bem. – ele me respondeu.

Murmurei:

-Se eu tivesse sido mais forte e até mais rápida, teria feito algo útil naquela hora.

Ele pareceu impaciente:

-Mais rápida ou não, você quase se matou.

-Desculpe. – ciciei.

Meu primo suspirou pesaroso e disse mais calmo:

-Eu já disse que tudo bem.

O silêncio pesado voltou ao meu redor. Suspirei e o chamei mais uma vez:

-Ciel?

-Sim?

Hesitei em continuar. Ele repetiu:

-Eu estou te escutando, Lizzy.

Inspirei profundamente e fui ao ponto:

-Acho que se eu tivesse sido transformada num demônio como você, isso não teria acontecido.

A voz dele tornou-se obscura:

-Nunca fale isso.

Desde aquele momento, Ciel não respondeu mais alguma de minhas perguntas.

Acordei sobressalta e suando frio. Com o coração aos pulos, olhei desesperadamente ao meu redor, tentando identificar onde eu estava. Acabei caindo da cama e quase arranquei a cortina. Pondo-me desajeitadamente de pé, abri o acortinado e reparei que estava mais viva do que nunca... E num quarto que não era meu.

Passei as mãos pelo meu rosto e corpo a fim de verificar se eu estava inteira e até aí parecia tudo normal. Porém, não saber onde eu estava exatamente me assustava.

Aproximei-me da porta e a abri. Então, reconheci o extenso corredor que era a cópia perfeita daquele antigo que, um dia, minha tia revelou parte do segredo da família Phantomhive para a menina Middleford.

Apenas de camisola, descalça e com o cabelo bagunçado, caminhei cuidadosamente pelas dependências da mansão a fim de encontrar alguém. Eu não fazia ideia se tinha dormido muito ou se já era de madrugada.

O ruído de móveis sendo arrastados, fogo estalando na lareira e vozes abafadas acalmaram meu coração: de fato, eu estava na casa de Ciel e todos pareciam estar sãos e salvos. Encolhi-me num canto para espionar o movimento e, ajeitando os cabelos usando os dedos como pentes, reparei que as expressões dos rostos deles não eram as melhores.

Sebastian demonstrava seu desgosto:

-Isso foi a coisa mais desorganizada que eu vi em todos os meus trezentos anos vivendo como um demônio... E olhem que eu já vi de tudo!

Meirin surpreendeu-se:

-Trezentos anos?

Ele virou-se para ela e explicou:

-Sim, estou nessa forma há trezentos anos.

-Quando foi que você foi transformado nisso? – ela perguntou.

Sebastian suspirou:

-Não me recordo mais, mas acho que eu tinha vinte e quatro anos.

Ciel estava sentado próximo à lareira, com a cabeça jogada para trás. Olhando para o teto, ele retrucou:

-Você chama de “desorganizado” algo que não foi eficiente logo de primeira. São coisas diferentes, viu?

-De qualquer forma, acredito que poderíamos ter feito um plano melhor para capturarmos Charlie. – Sebastian continuou na defensiva. Aproximou-se de seu mestre: — Ou, pelo menos, teríamos evitado que ele causasse aquele incêndio.

Meu primo inclinou o corpo para frente e admitiu:

-Foi um grande erro de cálculo.

Arregalei os olhos e pus as mãos sobre a boca: então, aquela era a resposta para a origem do incêndio.

Bard demonstrou-se zangado:

-Achei que íamos ter a nossa parte no plano também!

Ciel o olhou com indiferença e respondeu:

-E vocês tiveram: foram meus figurantes.

O cozinheiro inclinou o corpo para as costas do sofá e resmungou alguma coisa. Ciel irritou-se:

-Vocês queriam o quê? Que eu os usasse como iscas para o anjo aparecer e depois o atacasse? Já bastam as pessoas inocentes que estão sendo usadas pelo próprio rei para isso! Por favor... – ele alisou a testa com nervosismo. -... A rainha Victoria não merece um herdeiro desse tipo.

Finny suspirou pesaroso:

-Ninguém merece um rei desse tipo.

Bard virou-se para Tanaka, que estava encostado em um dos lados do sofá, e perguntou:

-Falando neles, a rainha está bem?

O velho respondeu ajeitando seu monóculo:

-De acordo com as últimas notícias, estão todos bem... – ele parou repentinamente e logo corrigiu: — Na verdade, houve uma criança morta.

Meus braços penderam nas laterais do meu corpo e senti um frio na espinha.

-Qual era o nome dela? – Ciel perguntou.

O servo mais velho respondeu:

-Paul Russel. Era uma criança de seis anos, que tinha muitos problemas de saúde e estava acompanhando a mãe no baile. Ele se perdeu e morreu sufocado pela fumaça do incêndio. Alguns dizem que os escombros caíram sobre ele antes de morrer asfixiado...

Eu não me contive e saí de meu esconderijo:

-COMO ASSIM ELE MORREU?

Todos olharam para mim.

-Lady Elizabeth... – Meirin murmurou meu nome e se levantou da poltrona.

Eu desci as escadas com passos furiosos e fiquei na frente de Ciel. Pus as mãos na cintura e disse ríspida:

-Por que você fez nada?

Ele arregalou os olhos e ergueu as mãos:

-Não fiz o quê?

Gesticulei freneticamente e desolada:

-Eu estava quase o salvando e você... Ele... – apontei para Sebastian. Joguei as mãos para cima e dei os ombros. -... Ah, seja lá quem for, o levou de mim!

-Falando assim, até parece que você era a mãe. – meu primo não se alterou.

Inclinei-me quase tocando a minha testa na dele e disse entre dentes:

-Eu... Estava... Quase... O... Salvando...

Ciel me encarou friamente e murmurou:

-Mais rápida ou não, você quase se matou.

Eu dei dois passos para trás e pasmei. Ele continuou sério. Engoli seco e franzi as sobrancelhas:

-Você...

Ele balançou a cabeça antes que eu terminasse de falar e, de alguma forma, confirmou que parte do meu estranho sonho havia sido um tipo de diálogo telepático entre nós. O jovem demônio continuou:

-Aquela rosa que lhe entreguei foi um favor disfarçado: ela faz com que shinigamis passem longe de você, pois ela simboliza que a pessoa que a porta tem uma missão suprema a cumprir na Terra antes de partir.

Me senti desnorteada:

-Como assim?

Ele disse rude:

-Você não queria cumprir aquela promessa estúpida? Pois, bem... Eu te dei algo para que impeça sua morte antes de você ficar satisfeita em cumpri-la.

Aquilo me magoou e eu não sabia se era por que Ciel tratou minha fidelidade à promessa com descaso ou por que eu achava injusto não ter livrado Paul da morte – nem sequer, pelo menos, o levado sem vida para fora daquele inferno artificial.

Olhando para o chão, perguntei:

-Por quanto tempo eu dormi?

-Por várias horas. Mas, seria bom se você voltasse para sua cama. – ele respondeu rispidamente.

Eu o encarei severamente e retruquei:

-Aqui não é o meu lar, portanto aquela cama não é minha. – a raiva estava me consumindo e eu queria descarregá-la na pessoa que mais se enquadrava no perfil de culpado.

-Nem meu. Estou aqui só de passagem. – ele me respondeu, se pondo de pé.

-Pra você nada disso faz diferença, não é? Já se acostumou tanto a ser um bicho papão que se esqueceu o que é ser humano!

-Não me diga que você descobriu isso sozinha. – ele disse sarcástico.

Ergui a cabeça e continuei o olhando furiosamente:

-Sim, descobri. – usei a mesma dose de sarcasmo. – Aliás, eu descobri que você está pior do que antes e isso não é culpa da sina que você carrega agora. De fato, você está mais cabeça dura! – apontei para Sebastian: — Ele está nessa há mais tempo que você e nem por isso deixou algum trabalho mal feito.

-Obrigado, lady Elizabeth. – Sebastian me agradeceu, porém eu senti que aquilo foi apenas um ato de caridade por me ver deslocada em todos os sentidos ali.

-E você usando os sentimentos mais do que devia. Menos, Elizabeth. – ele começou a ficar zangado de verdade. Os olhos azuis começaram a se tornar rubros.

Mesmo assim, eu não me intimidei:

-Alguém tem que ser o coração aqui. Seu idiota, aquela criança fazia parte da maldita Inglaterra que você disse que tem que cuidar e eu quis ajudar! Hoje foi ela, amanhã serão mais quantos morrendo a toa por causa de jogadas fúteis? Aliás, agora são quantos morrendo nessa madrugada?

-Do jeito que deixamos Charlie ontem, garanto que ele vai demorar um pouco para voltar à ativa. Até lá, temos tempo. – Sebastian comentou tentando apaziguar a discussão.

-Entendi. – eu respondi a ele e voltei a olhar para Ciel bem de perto. Expirei com força e apontei o dedo no nariz dele: — Sabe o que mais? Aquela não foi uma “promessa estúpida”... Estúpido está sendo você em menosprezar o que sua mãe me ordenou fazer.

-E mais estúpido ainda é você querer me impor alguma coisa. – por mais que eu tentasse ser cruel, as respostas dele eram piores do que as minhas e eu emudeci. Ciel disse com a voz quebrada: — Elizabeth... Depois que isso tudo acabar, eu quero que você me prometa uma coisa também e ela é bem simples... Apenas desapareça da minha frente e de perto de todos eles. – ele apontou para os servos, que eram pobres telespectadores daquela discussão nada agradável.

Apesar de estar me sentindo quebrada em mil pedaços, ainda o desafiei:

-E se eu não quiser, o que você fará? Matará toda a minha família? – murmurei cheia de ressentimento: — O que seu pai iria achar se soubesse que você colocou fogo de propósito na mansão dos Middleford assim como fizeram com os Phantomhive e destruíram todos os sonhos da família, hem? Roubaram seus sorrisos, expectativas, lembranças... E apenas sobrou o ódio e desejo de vingança. Hoje você apenas demonstra a péssima pessoa que se tornou lentamente desde aquele dia mais uma personalidade demoníaca que vem lhe envolvendo aos poucos. Apesar de que... Estou começando a achar que você pouco se importou em ver os corpos de seus pais virarem cinzas, não é... ?

Minha ousadia estava me expondo a muitos riscos, ultimamente. A única coisa que pude reparar, em segundos, era Meirin me puxando para trás, Sebastian em minha frente segurando Ciel que havia erguido o punho – e que, com certeza, ia direto a meu rosto se não tivessem nos segurado.

-VOCÊ NÃO SABE O QUE EU PASSEI! – ele gritou cego de raiva.

-E VOCÊ NÃO SABE COMO DÓI DESPREZAR AS COISAS QUE EU MAIS VALORIZO! – eu não suportei mais e comecei a chorar. Me livrei dos braços de Meirin e subi as escadas com a visão embaçada. – EU SÓ QUERO MEU CIEL ANTIGO DE VOLTA!

Aquele Ciel que sorria puro e que me chamava de tartaruga. Aquele também que era carinhoso e sempre ria. Sim, apenas aquele Ciel e não aquele demônio usando as roupas, aparência, voz e pequena parte da personalidade – parte negativa, diga-se de passagem – que meu primo tinha.