Kurohanayome - A Noiva de Negro
4 Dança Phantomhive
Notas iniciais
O inverno estava chegando ao fim. Era possível reparar nisso enquanto a diligência se deslocava na estrada que levava à mansão Phantomhive: a neve espessa estava se reduzindo a uma ligeira camada branca sobre a vegetação e o frio estava perdendo sua intensidade.
Finalmente chegamos à entrada da antiga residência de meus tios. Fazia muito tempo que eu estive lá pela última vez. Parecia que tudo estava da mesma maneira desde o dia da fundação do memorial. A mansão não foi derrubada devido a uma ordem da rainha e legado deixado por Vincent para os antigos servos: viver naquela casa como se fizessem parte da família.
Porém, após o encerramento sem sucesso do caso do desaparecimento de Ciel, eles partiram — pelo menos, foi o que me contaram, pois eu também virei as costas para aquela mansão por medo de sofrer mais diante da realidade.
O jardim de lá parecia mais verde do que o meu. Ao erguer meus olhos para entrada, reparei em Tanaka e Bard parados na frente da escadaria. Vê-los novamente me deu uma sensação que parecia um misto de euforia e tristeza. Talvez, isso tivesse uma simples explicação: o retorno dos antigos servos não era para uma simples reunião de amigos; a Inglaterra corria perigo outra vez.
Paula, que esteve silenciosa durante o caminho todo respeitando meu jeito reflexivo do dia, sorriu e disse:
-Vamos?
-Sim. – eu balancei a cabeça.
Após sermos auxiliadas a descer do tílburi, novamente pude cumprimentar ambos.
-Há quanto tempo que não a vejo, lady Elizabeth! Seja bem-vinda outra vez! – Tanaka sorriu.
-O jovem mestre saiu, mas daqui a pouco estará de volta. – Bard nos avisou.
-Espero que não tenha vindo num momento inoportuno. – eu franzi as sobrancelhas. – Quando perguntei a ele se isso seria um incômodo, não era brincadeira. – suspirei e finalmente disse: — Concordo. Há muito tempo que não os vejo também.
-Não foi nada. – Bard sorriu.
-Vamos entrar. Aceitam uma xícara de chá com bolinhos? – Tanaka perguntou cortês.
-Claro, por favor. – eu e Paula respondemos quase em coro.
Apesar de fazer muito tempo que a mansão ficou “desativada”, a conservação do espaço e mobília estava perfeita. Fomos até a sala de estar onde havia o sofá espaçoso diante da lareira e o tapete felpudo vermelho com uma mesinha de mogno sobre ele. A bandeja, que continha o chá e os bolinhos, reluzia como a fina prata. Em pé ao lado da mesa, estava Meirin com seus trajes de empregada, mas com um detalhe que fez diferença: sem os óculos.
Sem conter a surpresa, fui até ela e a segurei pelas mãos:
-Meirin, quanto tempo! Meu Deus, você está sem óculos!
Ela ficou vermelha como a cor de seu cabelo e gaguejou:
-Elizabeth! Digo, lady Elizabeth! Faz muito tempo mesmo. Que bom que está bem. – abaixou os olhos. – Sim, estou sem eles. Sou tão desastrada que acabei quebrando e não arranjei outros. Minha visão acabou até que acostumando...
-Ah, você ficou linda assim. – eu ri.
Bard apontou:
-“Acostumando”? Ontem você quase pôs fogo na mansão, de novo, e ainda acha que está acostumando, Meirin?
Finny apareceu na escadaria:
-Bard, ela não é a única aqui que vive pondo fogo nas coisas. Você faz até pior.
-Ah, mas... Mas... Não tenho culpa que fogo, explosões e coisas do tipo sejam tão legais! Aliás, eu sou profissional e... – Bard parou de falar e disse a parte: — Mas, o que raios eu estou dizendo?
-Isso é uma maneira de desviar o assunto para não admitir que eu não sou a única desastrada com fogo aqui. – Meirin sorriu presunçosa. Olhou para mim e disse gentil: — Muito obrigada, senhorita Elizabeth. Espero que os bolinhos a agradem.
Bard resmungou:
-Espero que esses estejam comestíveis, pois os outros daquela vez...
Finny deu uma cotovelada nas costelas dele, sem intenção de machucar, mas acabou incomodando, e disse num tom calmo:
-Menos, por favor.
-Não estão como aqueles que Sebastian faziam, mas eu fiz. – Meirin balançou a cabeça num gesto de indiferença para o crítico Bard.
Eu apenas observava a conversa entre eles – assim como Tanaka, enquanto Paula comia ao meu lado – e notei que não fui a única a mudar. Meirin parecia mais segura, Bard mais reclamão e Finny menos juvenil. Alguns pontos não pareciam ser positivos, mas não deixavam de ser mudanças.
A fim de terminar com aquela pequena discussão, perguntei solenemente:
-Por que Sebastian não faz mais bolinhos?
-Viu? Estão ruins! – Bard riu.
Meirin suspirou impaciente:
-Ruins estão as suas piadas, isso sim. – virou-se para mim e disse: — Desde que ele e o jovem mestre voltaram, estão bem menos focados nas antigas tarefas rotineiras...
Eu parei de comer e vagamente pensei se eles não sabiam sobre a verdade. Logo Finny soltou:
-Também não é para menos. Além do jovem mestre ter sido transformado num demônio, agora ele tem que se preparar para enfrentar aquele anjo que está a serviço do rei...
Meirin suspirou:
-Sim.
De repente, escutamos a xícara de chá de Paula cair no chão e ela gritar:
-DEMÔNIO?
Todos nós olhamos para ela e minha mente me lembrou de uma coisa importante: ela não sabia.
-Ela não... Sabia? – Finny ficou com a voz cortada e fez uma expressão de susto.
Meirin tentou amenizar a situação:
-Na verdade, Paula, “demônio” foi apenas uma força de expressão. Nesse caso é sinônimo de “audácia”, “coragem”...
Paula relutou, balançando os braços com veemência:
-Não, eu sei que não é isso! Entendi perfeitamente que foi “demônio” no sentido literal da palavra! Eu já havia suspeitado antes que Ciel estava estranho devido ao gestos dele serem tão calculados quanto os de Sebastian, que eu sempre suspeitei desde o início. Por Deus... – ela olhou para mim, com o corpo trêmulo, e ciciou: — Lady Elizabeth, onde foi que você foi parar? Se envolver com criaturas amaldiçoadas... Meu Deus, a família Middleford será maldita!
Eu me levantei e fiquei com os braços hesitantes em tocar nela. Tentei impor uma voz segura, porém eu também estava nervosa com aquela situação:
-Paula, acalme-se. Não é por aí.
-Bem que seus pais sempre disseram que a família Phantomhive era uma maldita! Demônios ao nosso lado, meu Deus...
Eu fiquei surpresa com aquela declaração, pois, até onde eu sabia, minha mãe defendia seus parentes com unhas e dentes. Mas, poderia ser verdade até, afinal ser um cão de guarda da rainha era similar a uma maldição: sua morte se aproximava mais rápido do que o normal enquanto você se arriscava pelo trono.
Porém, naquele momento, o foco principal de meus pensamentos eram os efeitos causados pelas palavras inocentes de Finny em Paula. Pior que ela começou a falar muitas coisas sem nexo e outras muito reveladoras. Fiquei em dúvida se não era pelo fato dela estar em estado de choque. Então, eu disse com voz impositiva:
-Você não falará com meus pais ou com qualquer outra pessoa a respeito disso!
Finny ocultava o rosto entre as mãos, num gesto de extrema vergonha:
-Desculpe.
-Joguem uma banana de dinamite nela. – Bard resmungou.
-Aproveita e se amarra na banana. – Meirin olhou estreito para ele.
Na fração de segundos que todos nós nos distraímos naquela pequena contenda, ouvi Paula parar subitamente no meio da sala. Quando voltei minha atenção a ela, vi que Sebastian se encontrava à sua frente e a segurando pelos ombros. Ele a olhou no fundo dos olhos e perguntou com voz suave:
-Você está bem?
O silêncio na sala foi repentino. Olhei para trás do mordomo e vi Ciel olhando fixamente para a cabeça dele.
Paula murmurou:
-Eu não sei... Minha cabeça está rodando. – ela olhou para Ciel com os olhos vagos e balbuciou: — Ciel?
-Sim? – ele também a encarou profundamente.
Mas, ela não falou mais nada. Acabou desacordando e não se foi para o chão graças a Sebastian a sustentando pelos ombros.
Avancei um pouco meus passos e perguntei apreensiva:
-Ela ficará bem?
-Sim. Quando acordar, estará novinha em folha e não se lembrará de nada. – Sebastian respondeu e olhou friamente para Finny: — E que ela não se lembre de mais nada mesmo, entenderam?
-Sim. – Bard e Meirin responderam.
-Me desculpe. Eu realmente não sabia que ela não estava consciente disso. – as palavras dele soavam com a inocência infantil. Olhou para mim: — Aliás, não sabia que ela era tão sensível assim.
Ciel analisou:
-Na verdade, Paula tem uma aura delicada para detectar forças sobrenaturais.
-Como assim? – olhei para ele.
-Há pessoas nesse Mundo que têm a capacidade de perceber quando tem algo sobre-humano por perto. Ela reparou nisso logo que viu Sebastian e a mim pela primeira vez, quando eu não era mais humano, mas agora só esperava por uma confirmação. Como ela não deve ter muita experiência com coisas do tipo, foi natural ficar tão chocada.
-Como você sabe disso? – fiquei perplexa.
Ciel sorriu e disse:
-Há coisas que demônios não podem dizer aos mortais. Mas, te garanto que foi de uma forma muito eficiente.
Não fiquei satisfeita com aquela resposta, porém demonstrei indiferença.
Meirin se aproximou:
-Sejam bem-vindos de volta.
Eu notei que Tanaka estava calado. Olhei para o canto onde ele estava e vi que ele havia voltado a sua pequena e silenciosa forma, bebericando um copo de chá.
-Obrigado Meirin. – Ciel sorriu. Olhou para mim com ar preocupado e perguntou: — Você está bem?
Deslizei a mão em minha nuca e suspirei:
-Estou sim. Se Paula ficar bem, realmente estarei feliz.
Sebastian rolou os olhos e caminhou até o sofá, pondo o corpo dela deitado sobre ele.
Ciel ergueu o tom de voz e declarou:
-Eu trouxe novidades.
Todos olharam para ele. O conde continuou:
-Entrar naquele castelo a fim de resolver logo as coisas será difícil como eu imaginei, mas não é impossível. O rei está cercado de guardas e pessoas importantes, sem contar seu próprio mordomo...
-Outro “um mordomo e tanto”? – Bard indagou sarcástico.
Sebastian olhou para ele e deu um meio sorriso:
-Não tanto quanto eu.
Eu comecei a entender melhor a situação:
-Espere, Charlie é o anjo da morte?
Ciel olhou para mim e balançou a cabeça:
-Sim. Isso está similar ao caso da rainha Victoria. Ela havia feito um acordo com Ash e ele acabou se apresentando na sociedade como seu mensageiro, mordomo e afins. Só que a troca feita entre os dois não chega nem aos pés da insanidade que o filho dela está fazendo agora.
Meirin perguntou séria:
-O que faremos então para penetrar nessa bolha protegida do rei Edward VII?
De repente, Tanaka voltou a sua forma normal e sugeriu:
-Acredito que, por mais que o jovem mestre esteja com algumas vantagens físicas, devemos fazer isso com máximo de cautela possível.
-Com certeza. – Ciel concordou com ele. – Por isso, queria testar algumas forças daqui uma semana.
Eu fiquei com dúvida sobre o que ele quis dizer:
-Como assim “testar algumas forças”?
Meu primo disse com o olhar voltado para Tanaka:
-Daqui uma semana será o aniversário da rainha e eles promoverão uma festa, certo? Com certeza seremos convidados...
Finny perguntou preocupado:
-Isso não vai causar muito transtorno?
Bard deu os ombros:
-Seremos convidados de qualquer forma. Depois, a situação que está envolvendo o país é bem mais terrível do que uma festa de aniversário fracassada.
Finny calou-se. Ciel balançou sutilmente a cabeça:
-Sim, sim.
Eu também não gostei muito da ideia: a rainha tinha quase a mesma idade do que eu e já havíamos nos visto uma vez antes dela se tornar esposa do rei. Era uma garota gentil e vivia cercada de cuidados especiais. Imagina-la perdida num salão conturbado era assustador demais até para mim.
Meirin perguntou interessada:
-Qual será o plano então?
Meu primo sorriu enigmático e seus olhos brilharam:
-Apenas sigam exatamente o que eu disser. – voltou-se para mim. – Principalmente você, Elizabeth.
Apenas o encarei com expressão séria e ficamos assim por um tempo. Acredito que ele conseguiu sentir minha aura de preocupação com aquilo. Por fim, ele sorriu e garantiu:
-Não acontecerá nada de perigoso. Eu e Sebastian seremos tão silenciosos quanto gatos.
-Sim. – Sebastian concordou.
Eu suspirei e cedi:
-Tudo bem. Estou com vocês nessa também.
Ciel me olhou com uma expressão que eu traduzi como “você não está sendo convincente”. Ah, e daí que eu não estava sendo convincente! Ele não ia me escutar mesmo. Depois, convincente ou não, eu havia prometido que estaria ao lado dele e se era para me sacrificar daquela forma – deixando as delicadezas e sensibilidade de lado -, eu faria isso.
-Muito bem, pessoal... – ele olhou para o sofá e escutei Paula murmurando alguma coisa, demonstrando que estava voltando a ficar consciente. Me estendeu a mão e anunciou: — Que comece os ensaios para nos tornamos pés de valsa quase que perfeitos para não fazermos feio na festa de aniversário da bela rainha.
Eu dei a minha mão para ele, que me puxou para uma dança improvisada. Reparei que Sebastian mantinha sua expressão enciumada para mim. Entretanto, o ignorei e me deixei ser guiada pelos braços e passos de meu antigo noivo.
Ali começava a dança Phantomhive pelo salão da Inglaterra e, até o último toque de piano, todos nossos passos deveriam ser calculados e graciosos.
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