Kumo no Ito
8 Capítulo 7
Os acordes da música eram calmos, lentos e melancólicos, mas nem mesmo uma melodia tão finamente executada por Hitsugi e pelas ajudantes nos outros instrumentos conseguia ser algo mais do que um mero pano de fundo para o espetáculo de beleza e graça que Sakito estava apresentando; todos os convidados do casamento tinham seus olhos fixos na figura elegante que ocupava o tablado montado com uma perfeição que ninguém esperaria ver em um ser humano.
O herdeiro dos Edokawa estivera nervoso até o momento em que sua presença foi revelada; no entanto, assim que as notas musicais que ele havia ouvido por vezes intermináveis enquanto ensaiava começaram, toda a apreensão que ele sentia havia evaporado. Seu corpo, confiante e habituado àquela melodia, executava a coreografia praticamente sozinho e elegantemente, restando ao aprendiz de taikomochi colocar a sua alma na dança. Enquanto Sakito não teve qualquer dificuldade em se lembrar da noite mais terrível da sua vida e de todas as cenas grotescas que ele havia presenciado nessa ocasião, parar o seu olhar em cada uma das pessoas que estava ali se provou uma tarefa mais complicada. Hitsugi havia lhe ensinado que, se ele estivesse dançando para uma platéia pequena, ele deveria buscar os olhos de cada um dos presentes conforme executava sua coreografia, criando a impressão de que aquele espetáculo como um todo era dedicado àquela pessoa em questão; a recepção do casamento não deveria contar com muito mais do que algumas dezenas de pessoas, de forma que ele sabia que passar os olhos rapidamente pelos convidados deveria bastar. No entanto, um par de olhos insistia em atrair sua atenção a todo momento; era justamente o jovem que o havia salvado de um tombo nas escadas, mas alguma coisa nele fazia com que ele se concentrasse em especial naquele convidado. Sentindo a música chegando ao final, o nobre fez seus últimos passos, encerrando a coreografia com uma mesura profunda para os noivos e orgulhando-se internamente por não ter deixado seu rosto corar ao ouvir os aplausos entusiasmados da pequena platéia de pessoas tão influentes. — Parabéns, Sakayume-sama. Esteve fantástico no palco! — o primeiro elogio veio justamente de Michiko, a noiva. Sakito sorriu para a garota assim que se aproximou da mesa dela, ajoelhando-se para servir mais bebida e ouvir o que os convidados próximos dali tinham a acrescentar. Hitsugi, enquanto isso, percorria o outro lado do salão, também conversando com os outros presentes. Mestre e discípulo não haviam conversado ainda, mas o aprendiz havia visto um sorriso satisfeito e um brilho orgulhoso no olhar do taikomochi mais experiente. — Doumo arigatou gozaimashita, Michiko-sama. É uma honra saber que ajudei a contribuir de alguma forma para uma celebração tão bonita. — ele respondeu com um leve sorriso, oferecendo um pouco de sake para o homem ao seu lado, seu noivo. — Hitsugi-sama me visitou pouco antes da cerimônia e disse que tinha um segredo... Eu sabia que ele estava treinando alguém, mas não sabia que a estréia seria hoje! Me sinto tão feliz... — a garota junto as mãos espalmadas na frente do corpo, seus lábios curvando-se para cima de um jeito encantador e meigo. Enquanto isso, Sakito evitava franzir o cenho: era impressão dele ou... O noivo se parecia um pouco com aquele jovem que estivera trocando olhares durante a apresentação com ele? O aprendiz de taikomochi arriscou um olhar para o homem em questão, encontrando-se novamente no centro das atenções dele. Sustentando aquele contato silencioso por segundos antes de quebrá-lo com delicadeza e se voltar aos seus convidados, o herdeiro dos Edokawa teve certeza de que havia algo de semelhante entre o noivo e o seu misterioso salvador, mas ao mesmo tempo... Algo de diferente também. Enquanto o jovem das escadas lhe pareceu sincero e atencioso, Sakito não conseguia evitar uma certa apreensão ao redor de Baba Kenji... E a memória da tarde quando Hitsugi lhe confidenciou não saber nada a respeito daquele filho de samurais ajudava a manter esse desconforto. — Você deve estar se sentindo muito orgulhoso de ser o primeiro, Sakayume-sama! A atenção do nobre voltou-se novamente para a noiva; por sorte, ele havia ocupado suas mãos com uma chávena de chá que ele oferecia para outro convidado, de sorte que sua desatenção momentânea não fora notada. — Não acho que tenha lhe compreendido, Michiko-sama. — O primeiro aprendiz de Hitsugi-sama! — a garota explicou enquanto cortava um pedaço de salmão para si — Hitsugi-sama nunca aceitou aprendizes antes porque simplesmente não havia encontrado ninguém à altura de tal tarefa. Muitos tentaram e receberam negativas objetivas dele. — ela sorriu, colocando o peixe na boca e mastigando calmamente, pausa que ajudou Sakito a colocar ordem nos seus pensamentos. Hitsugi nunca havia aceitado um aprendiz...? Foi o próprio taikomochi quem despertou seu discípulo de seus devaneios com um aperto delicado no ombro. Erguendo a cabeça, Sakito encontrou a expressão serena de sempre de seu mentor, mas pôde detectar um brilho de preocupação nos olhos do profissional do entretenimento também.
— Sakayume-san, existem alguns convidados que gostariam de parabenizá-lo no fundo do salão. Seria muito inconveniente trocar de posição comigo? Isso, é claro, se Michiko-sama e Kenji-sama não se importarem? O herdeiro dos Edokawa sentiu um grande alívio ao perceber o que seu mestre estava fazendo por ele, restringindo as suas verdadeiras emoções e limitando-se apenas a trocar um ou outro elogio com seu mentor e o casal, colocando-se de pé sobre o tatami e caminhando graciosamente por entre os presentes. Ele também teria batido palmas para o taikomochi, se pudesse; a forma que ele havia solicitado a troca de lugares havia sido feita de um jeito suave e meigo, mas não deixava espaço para recusas sem que parecessem mal-educadas. Em um ambiente onde manter as aparências era vital, Hitsugi sabia usar as regras estabelecidas a sua favor como ninguém. A velocidade dos batimentos cardíacos de Sakito aumentou conforme ele passava pelas pessoas agrupadas ao redor da mesa, os estados de lucidez de cada uma variando de acordo com a quantidade de álcool já ingerida. Depois de dois homens particularmente bêbados e que estavam rindo muito alto sem qualquer motivo, o aprendiz de taikomochi se ajoelhou do lado do jovem que ele havia encontrado antes da apresentação, colocando em prática todos os tipos de técnicas e estratégias que ele havia aprendido para mascarar nervosismo, insegurança e qualquer outro sentimento que lhe pudesse atrapalhar. — Posso lhe servir um pouco mais de bebida, senhor... — Ni~ya. Meu nome é Ni~ya. O herdeiro dos Edokawa ergueu a cabeça, fixando seu olhar no rosto do outro homem. Ele estivera secretamente desejando que o outro lhe contasse seu nome, já que ele não sabia se seria muito adequado inquiri-lo de forma objetiva. Sakito controlou sua respiração e sorriu, fazendo um pequeno gesto afirmativo com a sua cabeça. — Ni~ya-sama, se me permite... Puxando a manga do seu kimono ricamente bordado, o aprendiz apanhou com cuidado a garrafa de sake que estava sobre a mesa, esperando que Ni~ya erguesse o pequeno copo de porcelana onde a bebida era servida. Ambos ficaram em silêncio conforme o ritual era realizado, o belo nobre sentindo em si o olhar penetrante do outro homem. Assim que o sake havia sido depositado de novo sobre a mesa, Sakito fez menção de recolher seus braços, mas teve seu pulso esquerdo preso de forma delicada porém firme por Ni~ya. Ambos voltaram a se encarar, sendo que dessa vez o espanto que o aprendiz havia sentido não havia se dissipado por completo do seu rosto. — Eu sinto muito pela sua perda. O bushi soltou o braço do outro homem suavemente, mas o herdeiro dos Edokawa não se moveu. O quê exatamente aquele estranho queria lhe dizer? Saberia ele de alguma coisa sobre o incêndio, as tramas para assassinar sua família ou sua verdadeira identidade? — Eu receio não ter lhe compreendido direito, Ni~ya-sama. — Sakito murmurou, os dedos da sua mão roçando de leve o lugar onde o ronin havia lhe tocado; embora as palavras do moreno tivessem lhe chocado com maior violência, a sensação do pequeno choque que ele podia jurar ter tomado ao seu corpo entrar em contato com os dedos cheios de calos e ásperos do seu jovem salvador não havia sumido por completo. — A sua dança. — o moreno abriu um sorriso pequeno mas sincero, seu cabelo escuro tampando a visão de parte de seu rosto e reforçando o aspecto misteriosamente charmoso que ele possuía — Ninguém pode dançar daquela forma, com aquela perfeição e com tal tristeza... Se não tiver conhecido emoção semelhante. — o olhar do bushi havia ficado desfocado enquanto ele falava, mas grudou novamente no rosto do aprendiz antes de concluir seu raciocínio — E eu lamento que alguém tão jovem e tão belo tenha sofrido dessa forma. — Agradeço seus elogios e as palavras de conforto, Ni~ya-sama. — o aprendiz inclinou a cabeça em sinal de respeito, descobrindo o que tanto lhe hipnotizava no moreno: compreensão. Ninguém até aquele momento havia visto mais do que uma bela apresentação, mas ele... Ele havia enxergado além; Ni~ya havia visto dor e sofrimento reais em um teatro certamente porque também ele havia passado pelo mesmo. — Se me permite a ousadia, tenho um conselho a lhe oferecer... — Sakito fez uma pausa educada, sorrindo ao verificar que o charmoso bushi também tinha a mais leve curva nos próprios lábios — Nada acontece por acaso, Ni~ya-sama. Tudo nesta existência tem um motivo, por mais que não consigamos compreendê-lo ainda... Tenho certeza de que as suas dificuldades e as minhas nos ajudarão a aprender com tudo e prosperar, Ni~ya-sama. Um homem baixinho e que o nobre havia visto durante a sua apresentação vinha na direção deles, acontecimento que pareceu a Sakito como sendo a hora ideal para fazer uma retirada elegante; ele havia visto a figura do diminuto companheiro de Ni~ya mais cedo, ao seu lado, portanto deveriam ser amigos. Apertando uma das mãos do bushi entre as suas com suavidade, o herdeiro dos Edokawa se levantou e continuou sua lenta procissão ao redor da mesa, enchendo copos vazios, agradecendo elogios e retomando o seu papel naquela noite. O moreno se assustou quando Yomi aterrisou com estrépito ao seu lado; ainda em transe depois da breve conversa com Sakito e sobretudo depois das sensações tão fortes que havia experimentado com aquele toque cálido e inocente do belo aprendiz de taikomochi, a chegada barulhenta do sacerdote não foi percebida pelo ex-samurai com anos de treinamento. — Ne, Ni~ya-san, acho que é uma boa idéia irmos embora. — Hmm? — o outro inquiriu, virando-se na direção do amigo com alguma dificuldade; era necessário algum esforço para desgrudar seus olhos da figura envolta em vermelho que ria com um dos convidados — Por quê diz isso? — Você não é o único que ficou bastante encantado com Sakayume-san... — o religioso falou em voz baixa, seu semblante anormalmente sério — Quase todos estão bêbados e não vão se lembrar de nada, mas existe um jovem perto da noiva que olhava insistentemente para vocês... E pelo lugar que ele ocupa, deve ser alguém da família ou de muito destaque. É melhor sairmos se quiser evitar perguntas. O ronin balançou a cabeça afirmativamente, concordando com o sacerdote; ele definitivamente estaria perdido naquela noite se os deuses não tivessem lhe enviado a companhia constante de Yomi. Aproveitando que ambos estavam bem próximos à porta, a dupla se esgueirou em silêncio para o corredor da casa de chá, descendo as escadas e saindo para a rua depois de calçarem seus sapatos. Durante o caminho de volta para o ryokan, Ni~ya não conseguia pensar em outra coisa a não ser em como ele poderia encontrar novamente o belo aprendiz em uma cidade tão grande como Edo, sendo que Sakito se perguntava a mesma coisa enquanto ainda se encontrava prisioneiro daquele mundo de aparências. O jovem que Yomi havia observado mais cedo, porém, sabia exatamente como fazer para ter Sakayume para si em qualquer outra noite. Afinal, Satoru era o filho mais velho dos Kano... E ele sempre conseguia o que queria. — Ótimas notícias, Sakayume-san! Sakito ergueu a cabeça do livro que ele estivera lendo naquela manhã; embora ele sempre tivesse apreciado a poesia de Matsuo Bashou, as letras dos versos que estavam diante dos seus olhos não eram absorvidas. Ele provavelmente estava na mesma página há horas, sua mente longe dali e mais precisamente relembrando os eventos da noite anterior com Ni~ya. Ni~ya... O nome tinha um som estranho. Seria algo inventado como seu próprio nome artístico? Seus pensamentos e o livro foram colocados de lado com a entrada de Etsuko na cozinha, a irmã mais velha de seu mestre colocando as compras que havia feito pela manhã sobre a mesa onde ele estivera lendo. Sakito imediatamente se levantou para ajudar com o resto das sacolas, mas Yamaguchi se negou a receber qualquer tipo de auxílio. O corpulento guardião da família, aliás, havia mudado completamente de comportamento após a adoção oficial do nobre por Hitsugi; o jeito super-protetor que ele adotava em relação aos irmãos havia se estendido ao aprendiz, não restando sequer sombra das suas maneiras rudes e agressivas do primeiro contato entre ambos. — Notícias, Etsuko-san? — Hai! Hoje eu fui fazer compras pelo mercado e ouvi todo o tipo de comentário a respeito da última noite. Sua apresentação para o mundo foi um sucesso, Sakayume-san. — Se eu não lhe conhecesse melhor, ne-chan, acharia que você teve dúvidas a respeito disso.
Os três ocupantes da cozinha cumprimentaram Hitsugi, que acabava de entrar no cômodo a fim de se servir de um pouco de chá; o taikomochi havia dedicado uma grande parte daquela manhã a uma longa meditação e algum tempo no santuário da família, só tendo ressurgido depois de algumas horas. — Hitsu-chan, é claro que eu tinha certeza de tudo isso! Mas estou feliz por saber que as pessoas estão comentando e o mais interessante: ninguém sequer suspeita da identidade de Sakayume-san. — Isso é bom, isso é muito bom. Vi algumas pessoas ontem na recepção que eu creio estarem entre aquelas que arquitetaram o incêndio. — o respeitado profissional do entretenimento japonês falou em uma voz séria e mais baixa, atraindo a atenção de todos — Infelizmente, não posso dizer com certeza. A festa onde ouvi os rumores pela primeira vez já faz algum tempo e estava bem cheia. — Não se preocupe, Hitsugi-san. — o aprendiz colocou uma das suas mãos sobre o braço do seu mestre, sorrindo para ele com uma gratidão genuína — Eu tenho certeza que eventualmente conseguiremos descobrir tudo. Afinal, estivemos em um casamento e os convidados de ontem não necessariamente têm o costume de freqüentar casas de chá. — Observação perspicaz, Sakayume-san. Mas, falando em convidados... — o taikomochi se virou na direção do seu protegido, encarando-o daquela forma penetrante e intensa que daria arrepios no jovem nobre se ele não conhecesse seu mentor — Foi impressão minha ou havia um certo jovem que lhe desconcentrou? — Hitsu-chan! Dessa vez, Sakito não conseguiu evitar que o sangue subisse para o seu rosto, tingindo suas bochechas de um vermelho adorável. — H-hai. Na verdade, há algo sobre ele que me deixou bastante intrigado também... — o herdeiro dos Edokawa comentou, colocando mais chá para si mesmo e fazendo uma pausa enquanto levava a chávena de porcelana à boca — Ele parecia... Com o noivo. — Hmmm. — foi a vez do taikomochi parar para pensar, seus olhos fixos no teto do aposento enquanto ele procurava se lembrar do rosto do ronin — Acho que você tem razão, Sakayume-san. Eles tinham os traços um pouco semelhantes, sobretudo a estrutura do rosto. — Também achei. — Etsuko emendou, finalmente chegando à última sacola e dispensando Yamaguchi para que ele fosse buscar alguns tecidos que haviam sido deixados dias atrás para serem tingidos — O jovem que lhe salvou na escada parecia gentil, mas a aura de Baba-san é estranha. — Escada? — o taikomochi ergueu as duas sobrancelhas, esperando uma explicação que lhe foi prontamente fornecida pela própria irmã e pelo seu aprendiz. Balançando a cabeça afirmativamente, ele emitiu seu próprio julgamento — Eu acho que Michiko-san parecia feliz, mas seu noivo não falou muito... Nem com os convidados, nem comigo. Para ser honesto, eu não acho que tenha visto convidados dele salvo por um ou outro nobre. Pareciam que todos eram convidados do Kano exceto... O jovem de quem estamos falando. — Seu nome é Ni~ya. — Sakito falou em uma voz baixa, lembrando da apresentação na noite anterior e levando sua mão ao lugar onde havia sido tocado no pulso inconscientemente — Ele... Ele disse que sentia pela minha perda. Ele falou que a minha dança só poderia ter sido tão triste e perfeita porque eu havia experienciado aquelas emoções. — Ni~ya. — o taikomochi repetiu — Nunca ouvi um nome parecido, parece... Inventado. — Pode ser. Eu uso um nome diferente também. — o herdeiro dos Edokawa deu de ombros, seu semblante ficando um pouco desanimado — Pelo jeito que ele falou, acho que ele também passou por alguma coisa ruim. Deve ter um passado a esconder e eu... Eu entendo isso. — Sakayume-san, não estou recriminando esse jovem de forma alguma. — o outro homem presente na cozinha falou, batendo de leve com uma das suas mãos sobre a do seu aprendiz de forma a animá-lo — Só estou preocupado porque não o conheço e temo pela sua segurança. — Eu acho que não há problema, Hitsu-chan. Lembra do que falei quando encontramos com ele na escada? Eu não senti nada de ruim... E eu normalmente não costumo errar nos meus julgamentos. — a anfitriã da casa falou com uma voz séria, sorrindo para o aprendiz logo depois — De qualquer forma, eu acho que devemos agradecer esse misterioso Ni~ya: foi graças a ele que ninguém se machucou antes da recepção e foi justamente durante a festa que eu vi os olhos de Satoru-san não se desgrudarem de você, Sakayume-san. — Satoru-san? — Sakito repetiu o nome, procurando associá-lo a alguém na festa mas falhando miseravelmente — Mas quem... — Sakayume-san, você realmente teve uma estréia e tanto se já prendeu a atenção de alguém como Satoru. — Hitsugi comentou, mudando de posição e tomando mais chá antes de prosseguir sua explicação — Satoru é o único filho dos Kano e irmão mais velho de Michiko. Ele é famoso por ser extremamente difícil de ser agradado... E não estou falando apenas de entretenimento: comida, roupas, presentes... Satoru é notório pela sua alta exigência em tudo. Uma batida à porta foi ouvida e Etsuko se prontificou a atender, sumindo do aposento com passos pequenos e graciosos. Sakito decidiu tomar mais chá, o silêncio confortável que havia ficado entre ele e seu mentor servindo para colocar alguma ordem nos seus pensamentos; Ni~ya podia ser alguém perigoso e ainda havia aquela estranha ligação dele com Baba Kenji enquanto a notícia de que Kano Satoru estava interessado nele era boa para todos os planos que Hitsugi vinha fazendo para ele... Mas o nobre não conseguia parar de pensar no moreno e na forma como um simples toque havia causado tantas sensações desconhecidas nele. — Precisamos de um novo número de dança ou de algumas histórias novas, Sakayume-san! — a voz de Etsuko alcançou os dois homens antes que sua figura simpática fizesse o mesmo, um pedaço de papel dobrado balançando em suas mãos — Os Kano acabaram de solicitar a presença de vocês dois em breve para uma noite de diversão com amigos da família! O aprendiz sabia que aquela notícia era positiva, mas não conseguiu evitar uma apreensão estranha de tomar todo o seu corpo; seus instintos lhe diziam que uma ligação mais profunda com Satoru não seria benéfica no final. Espreguiçando-se com vontade, Yomi esticou todos os músculos do seu corpo tal como um gato, sorrindo preguiçosamente enquanto sentia os raios do sol da manhã baterem no seu rosto. Arrumando o obi que prendia suas vestes, o pequeno sacerdote se virou para seu colega de viagem, somente para encontrá-lo sentado sobre o futon e com o olhar perdido. — Ne, Ni~ya-san? — Hmmm? — Eu receio que teremos de sair do ryokan. — o diminuto homem comentou, atraindo a atenção do moreno finalmente. — Sair? — Não acho que possamos pagar por muitas noites aqui, Ni~ya-san. — o religioso explicou, sentando-se sobre as pernas dobradas ao lado do amigo. Suspirando, ele deu duas batidas amigáveis no ombro do outro homem e desistiu de tratar de assuntos mais mundanos com o companheiro de viagem no momento — Ni~ya, o quê lhe preocupa? — Nada. Não há nada, Yomi-san. — Nunca lhe ensinaram que mentir é feio? Ainda mais para alguém aliado aos deuses? O sorriso brilhante de Yomi acabou arrancando uma pequena risada do bushi, que sentiu a tensão do seu corpo ir embora naquele momento. Sorrindo de leve para o amigo, Ni~ya deixou uma boa quantidade de ar escapar pela sua boca em um gesto de desânimo particularmente profundo antes de confessar: — Estou... Perdido, Yomi-san. — Perdido? Mas achei que chegar em Tokyo fosse sua prioridade e... — Iya, não é isso. Eu estou onde eu queria, mas... Não sei como proceder agora. Encontrei meu irmão e tenho minhas dúvidas a respeito dele ainda, mas... — Mas você não consegue parar de pensar naquele aprendiz. Os olhos castanhos do moreno se arregalaram como nunca enquanto o pequeno sorriso do sacerdote tomava proporções espantosas. Foi a vez de Yomi gargalhar enquanto Ni~ya mudava de posição, consertando a sua roupa e procurando melhorar a sensação de desconforto que havia lhe preenchido por dentro. — Está tudo bem, Ni~ya-san. Não é tão óbvio assim, mas eu sou bom em ler as emoções alheias. Modéstia a parte, claro. — o religioso sorriu novamente, conseguindo acalmar o amigo com aquela confissão. O moreno não podia negar que lidar com pessoas sempre fizera parte das tarefas de Yomi como sacerdote e, portanto, decifrar emoções não deveria ser nada complicado para ele. — Você tem razão, eu estou mesmo pensando nele... Sakayume. — Sakayume... — o menor dos dois amigos repetiu, deitando no chão do quarto que dividia com o ronin e encarando o teto enquanto continuava pensando — O aprendiz de ontem parece ser alguém especial. — O quê quer dizer com isso? — Conversei com muitos convidados durante a festa e parece que o mestre dele, Hitsugi-sama, é muito exigente e nunca havia aceitado um aprendiz antes. Ninguém sabia dizer onde ele havia vindo, também. Ele é um mistério. — Ele está fugindo... De alguma coisa. Alguma coisa que deu muito errado na sua vida, Yomi-san. — Ni~ya continuou falando, mudando de posição de forma a conseguir fitar o sacerdote nos olhos — \"Sakayume\" quer dizer \"um sonho que se contradiz pela realidade\". Eu acho que isso é uma pista a respeito da sua identidade. — Hai, entendo o que quer dizer. E o que pretende fazer agora? — Preciso vê-lo de novo, Yomi-san; é tudo que sei. — Ni~ya se levantou, começando a andar em círculos no quarto e a torcer as mãos; ele não se lembrava de ter estado tão ansioso como naquele momento, salvo, talvez, pela ocasião em que lhe avisaram que seu mestre havia morrido em batalha. Era um sentimento estranho, forte e sufocante que não o deixava em paz, levando-o minuto a minuto em direção à insanidade — Quando nós conversamos e depois quando ele me tocou com aquelas mãos delicadas e... — Ni~ya-san. — o religioso falou da sua posição no chão, sendo completamente ignorado pelo ronin que estava em um estado de fascinação tal que mal lhe ouvia — Ni~ya-san! — Hai? — o outro deu um giro e se focou no amigo, observando o outro que se levantava com um grande sorriso no rosto e uma expressão de triunfo que era contagiante. — Se você tivesse falado tudo isso mais cedo, poderíamos ter dado um fim a esse sofrimento. Você não merece ser punido pelos deuses dessa forma... — o pequeno religioso comentou, caminhando na direção da porta de correr do quarto e fazendo um gesto com a mão para ser seguido pelo seu companheiro de viagem — Enquanto você e outros convidados estavam em um verdadeiro transe, eu descobri algumas coisas na festa. — Descobriu algumas coisas? Que coisas, Yomi-san? — o ex-samurai indagou, apanhando o saco onde carregava sua katana e acompanhando o sacerdote para fora do quarto, descendo as escadas atrás dele e sentindo sua ansiedade crescer. Mas que sensação estranha era aquela? Seu coração batia forte e acelerado, suas mãos transpiravam, sua respiração ficava cada vez mais rápida diante da perspectiva de Yomi saber algo a respeito de Sakayume... Estaria ele doente? — Descobri onde Hitsugi-sama mora! Todos os nobres na festa sabiam do endereço... Afinal, ele é sempre muito requisitado. — o menor dos dois homens que caminhavam pelas empoeiradas ruas de Edo comentou, sorrindo para o amigo que parecia espantado com a revelação — Acho que você só vai conseguir se concentrar quando conversar de novo com Sakayume. Foram os deuses que colocaram vocês um no caminho do outro, dessa forma. — Os... Deuses... — Ni~ya repetiu, sem muita certeza a respeito daquela parte do raciocínio de Yomi. Ele sempre havia tido fé, mas acreditava mais na força das suas próprias ações para construir o seu destino no que na interferência celestial. O pequeno homem ao seu lado, porém, balançou a cabeça afirmativamente e com entusiasmo: — Tenho certeza absoluta disso, Ni~ya-san. Afinal, não dá para acreditar que alguém com tantas semelhanças com você apareceu na sua frente por mero acaso. Um jovem com um nome inventado e um passado a esconder ou esquecer, mas que continua praticando o bem e tentando fazer deste mundo um lugar melhor apesar de tudo... Eu acho que é o destino e não uma coincidência. Vocês parecem duas versões de uma mesma realidade. O ronin parou de andar, surpreso com a análise rápida e profunda que o sacerdote havia feito da situação em que ele se encontrava. Esboçando um sorriso antes de retomar sua caminhada, o moreno ergueu a cabeça e encontrou o céu azul de outono, as poucas nuvens brancas que interrompiam e imensidão cor de ciano deslizando calmamente por obra da leve brisa que ele também sentia no rosto e nas suas vestes. Talvez... Yomi tivesse razão. Estava na hora do bushi começar a acreditar no destino e nos fortes laços que ele tecia misteriosamente entre os seres humanos.
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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