Kumo no Ito

3 Capítulo 2


O dia amanheceu como sempre, mas a borda que delimitava o horizonte parecia um pouco mais vermelha que o normal. Ignorando esse sinal, o jovem ronin terminou os seus rituais matinais, mais por hábito do que por necessidade; ele não havia dormido desde a notícia de que o samurai assassino estava de volta à vila, e agora meramente se aprontava para a batalha.

No pequeno quarto da casa da mãe de Masahide que ocupava, o alto ronin apertou seu kimono, verificou se sua katana estava bem presa e apenas passou uma das mãos pelo cabelo. As suas madeixas tocavam o ombro, e estavam compridas demais para um espadachim, não obedecendo ao estilo padrão dos samurais. Mas no fundo, a última coisa que Yuji Baba sentia no momento era vontade de se parecer com o homem que havia matado o pobre filho de uma viúva.

Saindo para a rua, ele encontrou o garoto que lhe havia avisado na noite anterior da presença do samurai; o menino parecia agitado. Seus olhos não se fixavam em um determinado ponto por muito tempo, e ao encarar o ex-samurai, o mesmo notou que ele parecia prestes a chorar. Erguendo uma sobrancelha delicadamente, o ronin apenas colocou sua mão direita sobre o ombro do outro, perguntando com uma voz calma e descansada:

— Onde está o samurai que viu ontem?

— Na maior casa da vila. É do nosso líder.

— Líder? — o jovem ronin perguntou, enquanto começava a caminhar na direção que o garoto havia lhe apontado. A luz matinal batia nas folhas das árvores que margeavam a pequena rua de terra batida por onde andavam, conferindo um brilho dourado aqui e ali. Ele parou para observar as copas daqueles vegetais, sorrindo de uma maneira quase imperceptível antes de continuar com seus passos na direção do seu futuro oponente.

— Sim. Ele que nos ajuda com as plantações e a negociar com os comerciantes que passam por aqui.

— Wakarimashita. Aquela casa ali, não?

O garoto concordou com a cabeça depois de ver para onde o espadachim ao seu lado apontava; a casa em questão não era maior do que a maioria das habitações simples em grandes cidades, mas naquela pequena vila no interior do país, era uma construção de tamanho mais avantajado. O ronin avistou dois cavalos do lado de fora, parados e esperando pelos seus donos enquanto bebiam um pouco de água que sem dúvida havia vindo do pequeno poço logo ao lado.

Dispensando o menino e pedindo para que ele ficasse em segurança, o ronin por fim chegou à casa do chefe local, sentando-se em um banco tosco de madeira, encostando-se contra a parede da pequena habitação. Seus olhos dançavam pelo lugar calmo àquela hora, embora ele ouvisse algumas vozes mais distantes, para trás de onde ele havia vindo. Mulheres pareciam cantar enquanto faziam algum serviço; provavelmente lavavam a roupa.

Um sorriso tomou os lábios do jovem moreno enquanto ele lembrava das canções que sua própria mãe cantava enquanto também esfregava peças e mais peças de tecido contra a madeira de tinas ou pedra nos rios, a água ao redor do tecido ficando acinzentada. Era por isso que ele gostava quando sua mãe fazia o serviço em casa: ele podia ver a mudança da cor da água. Onde antes havia somente um líquido transparente que poderia passar desapercebido surgia outra coisa diferente, com uma essência oposta ao que era originalmente.

Fechando a sua expressão, o ronin esperava demonstrar que qualquer pessoa poderia ser assim: inicialmente nobre, honrada e honesta, mas depois se corrompendo a ponto de ter sua alma tingida daquele cinza doentio e sujo.

O ex-samurai não se assustou quando a porta da casa se abriu e quatro pessoas vieram para a rua: duas delas eram os bushis que haviam deixado seus cavalos do lado de fora, e o jovem supôs que o restante fossem o dono da pequena casa e sua esposa, que parara a uma boa distância do marido e seus convidados.

Silenciosamente sentado no seu lugar, a presença do ronin não foi notada até o mesmo se levantar e caminhar para o meio da pequena rua, encarando de forma decidida o samurai que possuía a armadura mais ornamentada e o aspecto mais arrogante. Alguns momentos depois, o homem observado se virou, e todos que estavam ali fora da casa do chefe da vila olharam para o ronin ali parado.

O samurai cuspiu no chão, fazendo uma careta e sacudindo a cabeça com vigor. A expressão de desdém era clara no seu rosto, e o outro bushi que o acompanhava não havia agido de forma muito diferente, embora se contivesse mais nas demonstrações de desagrado. Pisando forte no chão e levantando uma leve camada de poeira laranja, o samurai parou perto do ronin, bufando.

— Mas vejam só. Um exemplar da escória da humanidade bem aqui, nesse fim de mundo!

As palavras não exatamente elogiosas somadas ao tom de voz alto em que foram proferidas foram suficientes para chamar a atenção de algumas pessoas, que abriram as portas de suas casas ou apareceram na janela, observando a cena que se desenrolava na rua. O ronin conseguia ver o garoto que havia se afeiçoado a ele do seu lugar.

— Não poderia ter escolhido melhor as palavras, senhor.

O samurai ergueu uma sobrancelha, o seu companheiro parado alguns passos mais atrás, sem, no entanto, parecer preparado para um eventual confronto; o ronin aparentava pouca idade para ser de fato uma ameaça real.

— Você concordou com o que eu disse?

Os lábios do ex-samurai se curvaram um pouco para cima ao ouvir a pergunta.

— Foi o que eu disse. O senhor está realmente certo: um exemplar da escória da humanidade, o senhor, em um fim de mundo. Fim de mundo que o abrigou por uma noite inteira, por sinal. — o ronin se interrompeu para acrescentar aquele detalhe, sentindo que todas as pessoas que haviam ido para as portas, janelas e para a própria rua estavam olhando sem parar para ele e para o outro espadachim, que agora bufava de raiva.

— Como ousa? — o samurai gritou, impedindo que seu companheiro avançasse para ajudá-lo — Não se intrometa! Eu vou resolver as coisas com esse mal-educado! Eu sou Kajiwara Kagesue, e ninguém pode se dirigir a mim dessa maneira!

No momento em que o homem de armadura se preparou para tirar a espada da sua cintura e desferir um golpe no ronin, o alto moreno já havia se esquivado rapidamente; a ausência de uma armadura deixava o ex-samurai desprotegido, mas incrivelmente mais leve e ágil. Sem contar que havia uma diferença de idade considerável ali.

Os dois homens deram início a um embate no meio da rua, que não poderia ser chamado exatamente de confronto; os dois espadachins estavam parados, distantes mais ou menos três metros um do outro com as espadas prontas, mas nenhum deles se movia. Silenciosos, estudavam-se mutuamente, tentando perceber brechas e defeitos possíveis.

O samurai tinha uma expressão raivosa no rosto, o que era plenamente justificável pelo insulto que lhe havia sido feito pelo ronin. No entanto, se o outro havia se deixado levar por uma simples réplica de um comentário ofensivo, ele de fato não era um bom samurai, dono das suas emoções. Aquele Kajiwara precisava de uma lição, e o mais novo dos duelistas sabia que poderia fazer aquilo.

De repente, o samurai gritou e saiu correndo na direção do moreno, sua cabeça levemente inclinada para baixo por causa do peso do elmo que usava. O ronin sabia que se o outro homem não estivesse com tanta raiva, teria percebido aquele problema e consertado o mesmo. Não sendo esse o caso, foi fácil para o mais novo dos dois espadachins se esquivar do golpe de Kajiwara, girando no seu próprio eixo e mais uma vez levantando um pouco de poeira.

Os dois passaram a se estudar novamente. Quem iniciou os movimentos dessa vez foi o jovem ex-samurai, suas sandálias quase não encostando no chão devido aos movimentos leves que executava. Antes que tivesse chegado na metade da distância que o separava de seu oponente, no entanto, o alto moreno viu o samurai gritar mais uma vez e correr na sua direção.

Um som metálico encheu o ar da até então pacata vila, fazendo algumas das mulheres presentes fecharem os olhos ou desviarem os rostos dos filhos que teimavam e ver a luta. Os dois duelistas se observaram durante segundos, antes que as suas espadas se chocassem novamente, um claro embate que dizia respeito à força física dos dois se travando agora.

Com o peso da armadura alheia, estava ficando complicado para o ronin sustentar a sua posição, já que a lâmina de sua katana estava por baixo da espada do outro homem. Repentinamente, ele deu um salto para trás, desequilibrando o outro homem momentaneamente e colocando novamente alguma distância entre eles.

— Lute, seu maldito! Não sabe lutar como homem? — Kajiwara bradou, correndo novamente na direção do rapaz mais novo e parecendo cada vez mais nervoso ou zangado. Com calma e concentração, o moreno se esquivou novamente do ataque e de mais outros dois que se seguiram.

Observando por um breve momento o chão, o ronin descobriu que o sol se encontrava mais elevado no céu. Ele tinha como saber desse detalhe devido à posição das sombras no chão, e montou rapidamente um plano para poder usar isso ao seu favor.

Provocando o outro homem a atacá-lo, o jovem moreno conseguiu trocar de lugar com Kajiwara sem levar um único corte superficial, ficando contra o sol. Olhando para o outro homem, ele respirou profundamente, enchendo os seus pulmões de ar antes de gritar.

Quando a voz do duelista mais novo encheu o ar, não foram somente os olhos do samurai que se prenderam na figura do ronin, todo o resto das pessoas que estavam acompanhando o combate fazendo o mesmo. Nessa hora, a katana do ex-samurai foi erguida sobre a sua cabeça, o sol da manhã se refletindo no metal claro da lâmina.

O brilho ofuscou Kajiwara por alguns momentos, curtos porém suficientes para que o ronin corresse até o outro homem e pressionasse a ponta da sua espada contra a garganta do outro, uma das poucas regiões vulneráveis em uma pessoa com uma armadura como aquela.

O olhar no resto do moreno era de determinação; se o outro homem fizesse qualquer movimento, seria morto rapidamente, de forma que Kajiwara rapidamente fez um gesto com a mão livre, impedindo que seu companheiro viesse em seu auxílio. Sem afastar a parte cortante da sua arma do pescoço do samurai, o ronin falou novamente:

— Eu não vou matá-lo porque senão me tornaria igual a você.

A voz do moreno ecoou pela pequena vila, já que as pessoas simplesmente não andavam ou se moviam, a cantoria das mulheres que lavavam roupa tendo sido silenciada pelo combate. O jovem conseguia ver do seu lugar o garoto de antes, acompanhado da mãe de Masahide também. Ele esperava que pelo menos, aquele lugarejo não sofresse mais com ataques injustos de pessoas que se julgavam erroneamente superiores, como Kajiwara Kagesue.

— Seu... Seu... — o samurai falou por entre dentes cerrados, mas não tentou nada contra o ronin; não era possível escapar daquela situação — Você nunca vai ser igual a mim, um samurai de verdade. Você não passa de um ronin desprezível, um errante que só causa problemas a todos!

— Eu sou um espadachim sem mestre, verdade. Mas eu não mato pessoas por não me responderem quando as chamo. — o ronin assistiu com satisfação interna o modo como o samurai pareceu entender sobre o quê ele falava — O rapaz que você matou aqui, há uma semana. Ele era surdo.

Silêncio se abateu sobre todos os presentes mais uma vez, até mesmo o vento contribuindo para a cena e soprando devagar, balançando de leve os fios de cabelo escuros do ronin, mal movimentando as mangas do seu kimono. Devagar, ele se distanciou do samurai, não guardando sua espada ainda mas removendo-a de perto da garganta do outro homem.

— Você não deu uma segunda chance a Masahide, mas eu darei uma a você, Kajiwara. Nunca mais volte aqui ou maltrate alguém, senão você será o próximo a ser partido ao meio.

Satisfeito com a expressão de choque que encontrou estampada no rosto do outro bushi, o ronin se retirou, andando na direção da saída da cidade com calma. Olhando para as suas próprias mãos, ele pensou em como seu mestre aceitaria a notícia de que ele havia ameaçado a vida de um samurai fora de uma batalha, tendo iniciado um confronto que muitos julgariam desnecessário.

Não. Não havia sido desnecessário; era algo que tinha de ser feito, para evitar que outras pessoas encontrassem o mesmo destino de Masahide. Estranhamente, a idéia de ter dado uma lição em um samurai lhe pareceu egoísta, uma vingança por não ser mais um membro daquela categoria.

Naquele instante, ele percebeu que não era mais um ex-samurai, e sim um ronin. Um bushi livre para ir onde quisesse, para agir de acordo com os seus princípios. Princípios esses não desvirtuados como foi o caso de Kajiwara e seu companheiro. Seu mestre lhe havia ensinado muitas coisas belas para serem esquecidas com a sua morte, e agora cabia a ele passar a lição que havia aprendido para a frente.

— Ronin-sama!

O moreno parou a caminhada, se virando calmamente, surpreso pelo uso de um pronome de tratamento tão formal. O garoto cuja confiança ele havia conquistado corria na sua direção, e ele esperou pacientemente a aproximação do mesmo. Depois de alguns segundos que o menino gastou respirando fundo, ele ergueu a cabeça e perguntou:

— Qual o seu nome, ronin-sama?

Piscando, o bushi não soube responder. Baba Yuji certamente estava morto como samurai, e seu sobrenome também; não desonraria a sua família desse jeito, muito menos seu pai, um honesto samurai de anos mais antigos. Olhando ao redor, ele decidiu que era uma nova pessoa, uma segunda versão de si mesmo, pertencente ao povo e tão comum como aquele menino na sua frente era. Ni~ya.

— Ni~ya.

— Ni~ya? — o garoto repetiu, testando o som — E o quê significa seu nome?

— Nada. — o ronin respondeu com uma pequena mentira enquanto sorria, afagando o cabelo do outro — Eu não sou ninguém, não preciso de um nome que signifique algo. Até a próxima vez.

Despedindo-se, Ni~ya se foi pela estrada, o sol sobre a sua cabeça iniciado sua lenta caminhada para morrer mais tarde e depois renascer na manhã seguinte. E era isso que ele faria.

Foi com o canto de alguns pássaros que Sakito despertou na manhã seguinte, piscando para afastar o sono das suas pálpebras. Assim que seus olhos permaneceram abertos por um tempo considerável, a primeira reação do jovem nobre foi sentar, alarmado, ao descobrir que aquele não era o seu quarto.

Olhando para seu próprio corpo e vendo as roupas que usava todas em um estado em que elas normalmente jamais atingiriam, o jovem realmente se assustou, pensando as coisas mais terríveis que sua mente conseguia processar quando a porta de correr se abriu levemente, o cheiro de misoshiro recém-preparado enchendo o ar e as suas narinas.

Etsuko sorriu da entrada do aposento, fazendo uma pequena mesura antes de caminhar com passos curtos e delicados sobre o tatami, pousando a bandeja sobre o mesmo com graça e ajoelhando-se de frente para Sakito. A presença da gentil moça lembrou o jovem da noite anterior e de tudo que aconteceu, e além do nó na garganta que ele sentia ao relembrar o fato de que sua família estava morta, ele percebeu que tinha fome.

— Ohayou gozaimasu, Edokawa-san. Por favor, coma. Eu acho que deve estar com fome.

— Estou sim. Arigatou... Etsuko-sama.

— Não se preocupe com formalidades agora, Edokawa-san. Apenas se alimente bem, podemos conversar mais tarde. — ela sorriu amavelmente e Sakito conseguiu retribuir o gesto com uma pequena curva dos seus lábios. O gesto era contido, mas sincero.

O jovem Edokawa achou que não fosse conseguir comer com a presença de uma mulher tão refinada na sua frente, mas ele descobriu que mesmo a tragédia que havia se abatido sobre a sua família, propriedade e vida em geral não havia lhe tirado a elegância. Ainda que ele tivesse sofrido o pior trauma da sua vida, o vistoso nobre ainda comia com os gestos controlados e graciosos de sempre, fato que Etsuko notou com prazer.

Enquanto observava a paisagem do jardim interno da casa de Hitsugi, Sakito se descobriu mais calmo enquanto observava as nuvens andarem pelo céu, no seu ritmo lento de todos os dias. Sorrindo de leve para as mesmas enquanto mastigava um pouco de arroz, ele decidiu que já que havia escapado de um plano para terminar com a sua vida, ele iria fazer de tudo para continuar justamente vivendo. Deveria haver uma razão para ele ter sobrevivido...

Perdido nesses pensamentos, o jovem nobre quase se assustou quando a figura do taikomochi apareceu na porta, do lado de fora. Hitsugi vestia um kimono diferente do dia anterior, mas de aparência igualmente cara. Tendendo para o amarelo, o recém-chegado à grandiosa casa dispensou alguns segundos para examinar os dragões feitos com linhas pretas que enfeitavam as bordas das mangas e a barra do traje, antes de sorrir timidamente para o famoso homem que agora estava também no quarto.

— Bom dia, Edokawa-san.

— Bom dia, Hitsugi-sama. — o jovem nobre cumprimentou o outro com uma reverência profunda, tocando o tatami com a sua testa — Muito obrigado pela hospitalidade oferecida pelo senhor e por Etsuko-sama. Eu sou profundamente grato.

— Não há necessidade de agradecimentos, Edokawa-san. — o taikomochi falou, e Sakito percebeu como sua voz era sempre agradável e pausada — Eu conheci sua família, pelo menos um pouco dela, e sei que fariam a mesma coisa por mim se a situação fosse ao contrário.

— Me sinto honrado com tais palavras, Hitsugi-sama. — agradeceu o nobre enquanto o taikomochi se sentava logo ao lado da sua irmã; Sakito havia praticamente terminado sua refeição — Posso fazer alguma coisa para recompensá-los pela gentileza? Não acho que possa fazer muito em termos materiais no momento, mas...

— Edokawa-san. — a única mulher no quarto o interrompeu — Nós temos tudo o que precisamos, graças aos nossos pais e aos cuidados de Yamaguchi. O que nós queremos de você agora é que fique vivo.

O nobre ouviu tudo atentamente, sem interromper a simpática mulher. Concordando com a cabeça, quem deu prosseguimento à conversa foi o taikomochi:

— Ficou claro para mim que devemos protegê-lo, Edokawa-san. E o meio mais seguro de mantê-lo vivo é colocando-o em exposição constante. Acredito que seu rosto não era conhecido porque não era de seu feitio sair muito de sua casa, então acho que será seguro. Será o melhor jeito para não suspeitarem que o plano do incêndio falhou.

— Wakarimashita. Mas... Como pretendem fazer isso? Eu não posso pagar por nada que tenham em mente no momento, Hitsugi-sama... Etsuko-sama. — ele acrescentou o nome da mulher rapidamente, que sorriu.

— Eu e Hitsu-chan não estamos pedindo dinheiro algum de você, Edokawa-san. Nosso pai nos ensinou que as melhores coisas dessa vida não podem ser compradas, e sempre levamos muito a sério as palavras dele. Temos posições sociais confortáveis, e nada poderia me deixar mais realizada do que vê-lo prosperar novamente.

Um sorriso maior e emocionado iluminou o rosto do jovem Edokawa, fazendo com que o gesto se repetisse nas faces das outras duas pessoas no cômodo. Afastando lágrimas dos seus olhos com as costas da sua mão direita, ele agradeceu ao casal de irmãos novamente, tocando o chão com a testa:

— Doumo arigatou gozaimasu.

— Dou itashi mashite, ne, Edokawa-san.

— Agora, Edokawa-san... Preciso que me conte uma coisa. — o taikomochi falou, seus olhos novamente brilhando com uma perspicácia que chegaria a assustar se Sakito não soubesse que Hitsugi era uma pessoa bondosa — Quais eram seus passatempos?

— Passatempos? — repetiu o nobre sem compreender — Eram comuns, eu acho. Literatura, go, shodo...

O taikomochi sorriu.

— Excelente. Acha que consegue dançar?

— Dançar? Eu não tenho certeza disso, Hitsugi-sama. Nunca tentei.

A irmã mais velha do referido homem sorriu, entusiasmada:

— Eu observei seus gestos cotidianos, e acho que não terá problemas com isso! Depois, podemos ensiná-lo a dançar.

— Mas... Para quê?

— Edokawa-san. Todas as suas habilidades culturais serão preciosas agora, porque a partir de hoje... Você é meu aprendiz.

— Aprendiz de taikomochi?

A realidade demorou um pouco para atingir Sakito com força total, mas quando isso aconteceu, ele se viu com um pouco de medo. Ele não sabia nada sobre entreter os outros, e tinha dúvidas sinceras sobre a sua capacidade para tanto. Hitsugi era um taikomochi famoso e não podia se dar ao luxo de treinar alguém que não fosse ser bem-sucedido, mas...

Hitsugi tinha experiência. Ele precisava continuar vivendo, e aquela era uma saída perfeita. Se Etsuko e seu irmão acreditavam que ele poderia fazer aquilo, então a idéia poderia dar certo. Ele devia aquilo aos dois irmãos que o tinham salvo das ruas e da desgraça completa, ele precisava tentar.

— Muito bem. Eu acho que posso tentar.

Etsuko pegou a bandeja do chão e se levantou, ainda animada. Hitsugi fez o mesmo logo depois e Sakito não tardou a acompanhar os movimentos daquele que era seu mestre agora, notando que era ligeiramente mais alto que os dois irmãos.

Despedindo-se rapidamente com um sorriso, Etsuko se foi para a cozinha com a bandeja, enquanto Hitsugi conduziu o seu discípulo para o jardim interno. Olhando para as plantas e recebendo o ar da manhã no rosto, o taikomochi falou.

— A primeira coisa que iremos precisar para você é um nome, Edokawa-san.

Sem pestanejar, o jovem replicou:

— Sakayume.

— Um sonho que se contradiz pela realidade... Faz sentido. Especialmente porque você foi encontrado por nós na Masayume.

— Exatamente. — sorriu o outro de volta — Brincadeiras com palavras sempre fizeram parte da minha vida.

— Então você vai entrar no ramo mais que certo para você, com a sua nova vida... Sakayume.

Andando pelo jardim e voltando ao pequeno lago com carpas, Sakito se abaixou, permitindo que sua mão tocasse a água cristalina e imaculada daquele lugar; ele realmente esperava que as previsões do taikomochi fossem verdadeiras.

Continua...

Notas finais
Notas: 1) A palavra bushi (武士) se traduz como "guerreiro", não sendo a mesma coisa que samurai (侍); os membros de ambas as categorias vinham de classes sociais diferentes e suas funções também eram distintas. No entanto, eu me permiti usar a palavra bushi de vez em quando no texto para evitar a repetição de samurai. Licença poética? 2) Eu não faço idéia de onde o nome "Ni~ya" veio, então acabei criando uma origem bizarra para ele; bizarra MESMO. Bom, o "ni" (二) veio de "dois", e o "ya" (野) de "civil; ser do povo", segundo o dicionário Michaelis de Japonês-Português. Totalmente inventado com base em kanjis felizes, não tomem isso como realidade. E eu sei, a explicação para o Ni~ya ter escolhido esse nome foi tosca. 3) Igo (囲碁) ou simplesmente go (碁), como é mais conhecido nos Estados Unidos e por aqui também, é um jogo de tabuleiro oriundo da China, datando de antes de Cristo. Para vocês terem uma idéia da importância do jogo, o shogun Tokugawa Ieyasu apontou o melhor jogador de go do país e fundou uma academia para o jogo. As competições eram de altíssimo nível e os rankings dos jogadores eram semelhantes às posições conquistadas nas artes marciais. Isso tudo desapareceu com o final do shogunato Tokugawa, em 1868, mais de 100 anos depois do período desta fic. 4) Shodo (書道), por sua vez, é a arte da caligrafia japonesa. Na verdade, "shodo" é o nome dado à essa prática no caso japonês, já que isso também era uma atividade comum (e acho que ainda é) na China, Coréia e Vietnã. Existem 5 estilos básicos de shodo, mas os mais utilizados são o kaisho (kanjis mais quadrados e comuns, usado na vida diária), gyousho (derivação do kaisho e mais cursivo, ficando praticamente restrito ao shodo) e o sousho (a forma mais artística de todos, onde você praticamente não entende o que está escrito. Nem mesmo especialistas acham isso muito fácil). Para ter uma idéia de como as diferenças se operam, confiram esta ilustração que traz o kanji yume (夢), que significa "sonho" (aliás, usado pacas neste fic), nos 5 estilos. 5) Mais nomes! Dessa vez, o "nickname" que Sakito se deu, Sakayume (逆夢) realmente significa aquilo que Hitsugi disse: "um sonho que se contradiz pela realidade". Se isso faz sentido ou não por enquanto eu não sei, mas espero que faça com o decorrer da história. Tentei dar a ele o nome de uma música do Nightmare para ficar mais bonito, que nem eu fiz em Varuna (fanfic disponível no meu perfil), mas não tinha nada que combinasse.