Kumo no Ito

6 Capítulo 5


— Acho que poderia ter sido... Pior.

— Ni~ya-san. Eu não sei se você é normalmente modesto, mas se você não estivesse aqui, isso teria sido um massacre.

Yomi parou de falar para cobrir o curativo do ronin, checando as condições do mesmo; o moreno parecia ter facilidade para cicatrizações, o que não era de todo estranho dado o passado de treinos duros ao qual ele provavelmente havia sido submetido.

— Não é questão de modéstia, Yomi-san. Os forasteiros não eram em muitos e os homens da vila fizeram um bom trabalho. Eu só ajudei.

— Sabe, Ni~ya-san. Eu sou um homem religioso, e começo a acreditar que sua vinda aqui foi de alguma forma premeditada pelos deuses que protegem Ohira. — o sacerdote então balançou a cabeça de modo afirmativo por duas vezes, enfatizando seus pensamentos. Um pequeno sorriso se alojou no cansado porém satisfeito rosto do bushi.

— Fico feliz por ter ajudado. Desde que eu... — o moreno então se calou repentinamente, mordendo o lábio inferior. Yomi achou que era devido ao curativo em que mexia, mas na verdade, Ni~ya havia reparado que nunca mencionara a real razão que havia feito dele um ronin para as pessoas antes. Mas por algum motivo... O pequeno sacerdote parecia alguém em que se poderia confiar com a vida, e ele prosseguiu — Desde que eu deixei de ser samurai, decidi começar a viajar pelo Japão para tentar combater ataques injustos à vilas. Já presenciei alguns, e não me conformo em ver... Minha antiga classe agindo assim.

O mais baixinho dos homens então ergueu a cabeça, surpresa evidente nos seus olhos que haviam se arregalado ligeiramente, voltando ao tamanho normal logo depois. Com uma pequena curva gentil nos lábios, Yomi bateu gentilmente no ombro do outro homem antes de subir o hakama, finalizando sua tarefa ali com o guerreiro.

— É algo muito louvável o que está fazendo, Ni~ya-san. A maioria dos ronins não pensa dessa forma e... Bem, você já deve ter percebido que a fama em geral da sua nova categoria precede a sua chegada. Mas quem sabe você não faz isso mudar?

A voz sincera e tão cheia de entusiasmo do sacerdote fez o bushi sorrir mais animado, mesmo tendo consciência de que aquela seria uma tarefa quase impossível. Ni~ya se levantou, limpando a sua roupa de poeira e qualquer outra coisa que pudesse ter se prendido ao tecido, caminhando para a parede onde a sua fiel katana estivera apoiada.

— Doumo arigatou por tudo, Yomi-san. Me considero afortunado por tê-lo encontrado pelo caminho.

O homem de branco então se ergueu também, os pés descalços levando-o rapidamente até onde o moreno estava:

— Você vai embora?

O bushi concordou com a cabeça, não sem antes lançar um olhar gentil para o outro homem:

— Não se preocupe, eu acho que a vila irá se recuperar bem.

Enquanto conversavam, os dois atingiram o patamar do templo, de onde era possível ver parte da vila. Do lado de dentro do santuário, as conversas das três famílias que haviam sido abrigadas ali podiam ser ouvidas pela dupla, bem como os murmúrios de outros habitantes da vila que agora se empenhavam em remediar os estragos causados na noite anterior.

— Os corpos dos forasteiros já foram enterrados. — Yomi comentou — Mesmo não merecendo um ritual fúnebre completo, nós o fizemos. Afinal, eles estão mortos e merecem o devido respeito daqueles que não estão mais entre os vivos.

Uma sobrancelha negra foi arqueada elegantemente na direção do homem mais baixinho, que alternava momentos de seriedade notáveis com atitudes pouco ortodoxas para a sua ocupação. Inalando o ar matutino da pequena vila de Ohira, Ni~ya se espreguiçou e bagunçou o cabelo de Yomi em um gesto quase fraternal; ele havia se apegado ao outro.

— Vou sentir sua falta, Yomi-san. Cuide de todos, está bem?

O sacerdote ficou sem palavras ante a demonstração de afeto do outro, que já havia calçado suas sandálias e amarrado sua trouxa às costas; o novo conjunto de roupas que lhe havia sido prometido tinha sido entregue, bem como um bom suprimento de comida e outras coisas como lembranças das pessoas que declararam estar muito agredecidas por tudo ao ronin.

Mal Ni~ya havia dado dez passos em direção à rua principal do vilarejo quando a voz de Yomi chegou até seu ouvido, ligeiramente esganiçada. O ronin se virou, a dúvida sobre o quê possivelmente o sacerdote desejava dele óbvia no seu rosto atraente enquanto observava o outro homem se aproximar correndo:

— Ni~ya... — ele parou para respirar — Eu vou junto com você.

— Nani? — o outro replicou, surpreso. Yomi então se ergueu e deu um sorriso brilhante para o bushi, o sol da manhã brilhando nos seus olhos escuros que eram poços de simpatia como sempre.

— Vou junto com você. Eu sou um sacerdote, eu posso fazer as coisas mais fáceis para você quando chegar em vilas estranhas. E depois, eu sinto que estou em débito com você e quero pagá-lo com honra.

— Mas, Yomi-san... E o templo?

— O shintoísmo não é uma religião complicada, Ni~ya-san. Não acreditamos que deve haver formalidades entre qualquer pessoa viva que deseje se comunicar com os deuses. — ele explicou com calma, levantando uma das mãos e o dedo indicador da mesma de um jeito que o ex-samurai achou engraçado — Portanto, qualquer pessoa de Ohira pode me substituir sem qualquer problema. Vários dos homens da vila podem perfeitamente ocupar meu lugar.

Ni~ya se encontrou sem palavras; não havia, afinal, o que dizer ao caridoso sacerdote. Rapidamente pesando os pontos positivos e negativos que a sua jornada traria para Yomi, ele falou:

— Não será fácil, Yomi-san.

— Ni~ya-san... Nada é fácil na vida, certo? Me dê alguns minutos e logo podemos ir. Só preciso me certificar de que tudo está em ordem antes da nossa partida. Temos de pegar mais comida, comunicar às pessoas a minha saída e pagar algumas pessoas que me emprestaram dinheiro. — o homem baixinho sorriu, parecendo embaraçado — Eu sempre dizia que iria pagá-las quando deixasse o templo, então...

O bushi sorriu, seu rosto iluminado por uma alegria genuína:

— Eu ajudo.

O treino de Sakito havia sido constante pelos últimos dias. Ele poderia honestamente dizer que não imaginava que tanto rigor e disciplina eram necessários na vida de um taikomochi, mas ele não reclamava da sua rotina. Pelo contrário: ficar com a mente ocupada não dava chances para o herdeiro dos Edokawa lembrar de tudo que ele havia perdido.

Era bom ter um novo foco em mente, algo que lhe inspirasse uma vontade renovada de viver. Quanto mais ele assistia a Hitsugi, mais ele desejava chegar no mesmo nível daquele homem que lhe havia acolhido em momentos de dificuldade. O taikomochi mais famoso de Edo não só era uma pessoa culta e agradável como todos já sabiam nas casas de chá da cidade, mas também afetuoso e muito, muito confiável.

Em uma rara oportunidade de descanso, Sakito havia escolhido se deitar próximo ao lago de carpas da mansão de Hitsugi, depois de estender algo sobre o solo para não sujar seu hakama. Usando o braço direito como um travesseiro debaixo da sua cabeça, o atraente jovem ficou então passeando com a ponta dos dedos sobre a água, assistindo às vibrações minúsculas que elas causavam sobre a superfície daquele lago. Se ele ficasse quieto por vários minutos, os peixes chegavam próximo dos dedos dele, dando mordidas que mais pareciam pequenos beijos na ponta dos mesmos enquanto tentavam entender se aquilo era comida ou não.

Rindo sozinho, o nobre só percebeu a chegada de outra pessoa pelo barulho que os passos da mesma faziam contra o cascalho que cobria o piso ali por perto. Rolando na toalha que havia estendido, Sakito deu de cara com seu mestre.

— Sakayume-san. Aproveitando seu tempo livre, eu imagino? — a voz calma de Hitsugi deixou os lábios do mesmo que haviam assumido a forma de um sorriso.

— Hai. Costumávamos ter carpas em casa também... — o herdeiro dos Edokawa comentou, sentando-se na toalha e inconscientemente abrindo espaço para seu mestre que, apesar do hakama mais elaborado, sentou-se sem cerimônias ao lado do protegido — Como eu não saía muito, eu ficava horas perto do lago tentando brincar com elas. Eu conhecia cada uma pelo nome. — Sakito confidenciou com um sorriso quase infantil que em nada tirava a beleza já madura que seu rosto possuía.

— Sou desu... Você pode dar nomes para elas também, se quiser. Etsuko as conhece melhor do que eu porque é ela que as alimenta com freqüência.

— Falarei com ela.

O aprendiz de taikomochi então se inclinou para trás, apoiando os braços para além da toalha onde os dois estavam sentados. As nuvens caminhavam devagar pelo céu, enfeitando uma tarde tão bonita como há muito o jovem nobre não via.

— Eu já sei de mais detalhes sobre o casamento da família Kano. Gostaria de saber também? Posso manter em segredo se quiser.

O herdeiro dos Edokawa mordeu o seu lábio inferior de uma forma quase imperceptível; Hitsugi já havia notado que aquele era o sinal padrão de Sakito quando ele pensava em algo profundamente, normalmente acompanhado de um olhar vago e um pouco sem foco. No entanto, essa rápida alteração facial se desfez em segundos, um sorriso iluminando seu rosto devagar enquanto ele aquiescia com a cabeça.

— Hai, Hitsugi-san. Acho que quanto mais informação eu tiver, menos nervoso eu ficarei no dia.

O outro homem curvou os lábios rapidamente, mostrando que entendia o modo de pensar do herdeiro dos Edokawa antes de virar o corpo de modo a ficar completamente de frente para o seu protegido; Sakito inconscientemente fez o mesmo, adotando uma postura respeitosa que Hitsugi elogiou mentalmente. Ele definitivamente tinha o dom para aquela profissão.

— Informação é sempre algo valioso, Sakayume-san. Aprenda o máximo que puder sempre, porque nunca nenhum conhecimento é fútil ou descartado nas nossas vidas. — o taikomochi aconselhou na sua voz baixa e calma, o ritmo agradável de se escutar.

Os olhos castanhos de Sakito brilhavam com alguma coisa diferente quando ele respondeu:

— Hitsugi-san... O quê possivelmente resta neste mundo que você não tenha aprendido?

A pergunta fez o famoso profissional do entretenimento jogar a cabeça para trás em uma risada alta e genuína, algo que ele raramente se permitia fazer, mesmo quando não estava trabalhando. O jovem nobre assistiu fascinado àquela demonstração rara do outro homem até o momento em que a risada se transformou em algo mais controlado e suave, o taikomochi novamente encarando seu protegido:

— Não sei de muitas coisas, Sakayume-san. Eu não sabia, por exemplo, que alguém que perdeu tanta coisa inesperadamente na vida podia ser tão forte ou determinado.

Um leve rubor subiu no rosto do aprendiz, que optou por olhar para o tecido que protegia os hakamas da sujeira do cascalho enquanto tentava controlar o ardor da sua face. Hitsugi bateu de leve a mão direita contra a esquerda de Sakito e o mesmo ergueu a cabeça novamente, grato pelas palavras do outro mas ao mesmo tempo lutando para não lembrar da noite mais terrível da sua vida.

— Perdoe-me, desviei o nosso raciocínio... Bom, o casamento. A família Kano não é tradicional nem nobre, Sakayume-san. Apenas na geração passada eles obtiveram algum renome, e a fama deles continua a crescer agora com o comércio em Edo. São comerciantes, na verdade... E como tais, possuem dinheiro, algo que é muito atraente para que alguns esqueçam dos seus preconceitos ou princípios.

— Entendo. — o jovem nobre concordou bem rápido com a cabeça.

— Muito bem... O casamento é da filha dos Kano, que completou dezessete anos há alguns meses. Eles decidiram casá-la com o filho de um samurai bem-sucedido de Miyagi, que embora não tenha seguido os passos do pai na carreira, carrega seu status nobre.

Hitsugi fez uma pequena pausa que deixou Sakito curioso.

— Há algo errado, Hitsugi-san?

— Iie, iie. Eu conheço a garota, Junko. Ela é doce, simpática e bastante tímida com estranhos... Mas é o que se espera de qualquer filha que venha de uma família que assumiu a posição dos Kano. No entanto, é o noivo que me preocupa. Eu não o conheço.

O aprendiz piscou. Hitsugi percebeu a confusão do seu protegido e explicou:

— Sakayume-san, é rara a ocasião onde um casamento se realiza e eu não tenho nenhuma informação sobre um dos noivos.

— Talvez por que ele seja de Miyagi, então? — sugeriu o outro, compreendendo a natureza do problema.

— Talvez... — foi a vez do taikomochi parecer preocupado — Eu gosto de Junko, apesar de seu pai raramente permitir que eu converse com ela... Ela ficou mais quieta depois que sua mãe morreu alguns anos atrás e agora só tem ao pai e ao irmão mais velho.

Sakito soriu.

— Você se preocupa com ela.

— Hai. Assim como me preocupo com você, Sakayume-san. Espero que o pai dela saiba o que está fazendo... — ele então pareceu imerso nos seus próprios pensamentos, sua mente girando em torno de detalhes e pessoas que o aprendiz sentado na sua frente ainda não conhecia mas que definitivamente não o esqueceriam depois do casamento. Essa realização fez o taikomochi fitar seu protegido novamente — Sakayume-san.

— Hai, Hitsugi-san?

— Esse casamento vai ser grande e luxuoso. Todas essas pessoas de quem falo saberão quem você é em breve. Mas nunca se deixar levar pelas impressões delas; seja você e apenas você que tudo dará certo. Você nasceu no mesmo mundo que elas e não tem porque ter medo de entrar novamente nele.

O jovem nobre fez uma curta mesura para o seu mestre, sorrindo ao erguer a cabeça:

— Não há como ser diferente com a sua ajuda, Hitsugi-san.

Hitsugi ergueu uma sobrancelha, impressionado.

— Quantas formas diferentes de elogios e lisonjas Etsuko lhe ensinou?

O sorriso de Sakito se alargou alguns milímetros, sua pose relaxando.

— Alguns... Mas como você sabe que foi ela que me treinou?

— Ah, Sakayume-san. — o rosto de Hitsugi assumiu uma expressão soturna e sua voz, um tom de conspiração conforme ele se aproximou do outro homem — Ela esquece que fui eu que ensinei essas táticas a ela.

Os dois riram alto e com vontade, o som reconfortante da alegria dos dois ecoando pela mansão do taikomochi.

Ni~ya e Yomi caminhavam em um silêncio agradável pelas estradas de terra sinuosas que deixavam Ohira e rumavam para o sul do país. Enquanto andavam, o pequeno sacerdote contava algumas lendas que o bushi não conhecia, cada uma das histórias fazendo o guerreiro rir baixinho ou então sorrir largamente; ele conseguia entender porque as crianças de Ohira nunca queriam voltar para suas casas quando Yomi contava as lendas no templo.

— E então, os dois sapos apoiaram um no outro e olharam na direção das cidades que desejavam conhecer... E descobriram que eram idênticas de longe! E resolveram retornar para casa depois de metade do caminho já ter ficado para trás.

— E eles nunca mais se encontraram?

— Iie. Os sapos viveram até o final das suas vidas acreditando que Osaka e Kyoto eram iguais. — o sacerdote balançou sua cabeça com convicção, trazendo um sorriso novamente ao rosto do ex-samurai. Espreguiçando-se enquanto andava, Yomi falou de novo — Para onde estamos indo, Ni~ya-san?

— Eu não sei. Para onde essa estrada terminar.

— Mas por que o sul? Achei que estivesse indo para o norte quando chegou em Ohira.

E era verdade. O samurai de fato pensara em seguir adiante naquela direção, mas... Era arriscado. Ele não queria pensar no que aconteceria se chegasse de novo na sua cidade, se alcançasse sua terra natal. Ele não queria lidar com o provável desgosto do pai, com a angústia da sua mãe e com a presença nefasta do seu irmão mais velho.

— Estamos ficando cada vez mais próximos do inverno... Acho que ir para o sul é uma boa idéia para escapar das temperaturas que vão descer em alguns meses.

— Boa idéia. — o sacerdote pareceu satisfeito com a resposta e não pressionou mais o assunto, os dedos da sua mão brincando com um galho de árvore que ele havia apanhado na beirada da estrada há alguns quilômetros e que agora usava de cajado — Não conheço nada fora de Miyagi e não sei nem se a lenda dos sapos é verdadeira. Será que podemos passar em Kyoto?

— Claro. — o ronin respondeu junto com um aceno amplo com a cabeça — Algo me diz que você tem segundas intenções a respeito da minha jornada, Yomi-san. — ele observou o outro homem com o canto do olho e um sorriso travesso — Uma oportunidade de ver o país enquanto me ajuda na minha... Nobre tarefa?

O homem baixinho abriu um sorriso largo, usando uma das mãos para coçar a parte de trás da cabeça. Tirando esse gesto característico do pequeno religioso, nada mais traía seu embaraço com a total ausência de qualquer rubor no rosto jovial do sacerdote.

— É mais ou menos isso mesmo.

O outro riu com a franqueza do seu companheiro.

— Não tem nada de errado nisso, Yomi-san. Eu conheci um pouco do Japão enquanto ainda era samurai. Porém não muito... Até porque essa fase não durou tanto assim. — ele acrescentou com uma nota amarga na voz, sua expressão traduzindo um tipo de dor que não parecia deixá-lo em paz antes dele retomar o assunto mais leve de antes — É claro que podemos fazer alguns desvios. Mas eu acho que não passaremos muito tempo em cidades grandes; os relatos de abusos que eu escuto geralmente são no interior e em vilarejos.

— Não sonharia em mudar seu propósito inicial, Ni~ya-san. Quando eu disse que eu estava em débito e que desejava honrar minha dívida de gratidão, eu estava sendo sincero. Iremos no seu ritmo e seguindo as suas ordens. — o outro comentou piscando um olho, correndo alguns passos na frente do ronin quando avistou uma ponte logo a frente — Ni~ya-san, venha ver!

O pequeno religioso havia parado na frente de uma estaca de madeira que sustentava um painel de madeira largo, cheio de inscrições e pedaços de recados pregados. O ex-samurai se aproximou no seu próprio ritmo, chegando quando Yomi já havia devorado todos os anúncios que eram fixados ali para que os viajantes pudessem se informar.

Passando seus olhos negros pelas letras desenhadas nos papéis, Ni~ya de repente se deteve em um anúncio em especial, a cor do seu rosto se esvaindo lentamente. Foi naquela hora que Yomi se virou para trás a fim de fazer um comentário engraçado, mas percebeu de imediato a mudança na expressão do outro homem. Franzindo o cenho, o sacerdote seguiu a linha dos olhos do ex-samurai, encontrando um recorte mais bonito e mais novo que os outros.

— As famílias Baba e Kano têm o orgulho de anunciar a união de seus filhos Kenji e Junko, a ser realizada no dia vinte e cinco de setembro em Edo, no templo de Sensoji. Todos que desejarem felicitar os noivos serão bem-vindos à cerimônia.

Um estranho silêncio caiu entre os dois viajantes após a leitura em voz alta do recado pelo mais baixinho dos dois companheiros. Curioso e ao mesmo tempo sem saber o que dizer ou perguntar para Ni~ya, Yomi quase se assustou quando a voz do bushi chegou até ele, baixa e grave como ele nunca havia escutado antes.

Dando uma meia-volta, o sacerdote encarou o ronin, assustado com a expressão sombria e com a postura imponente do outro homem. Em momentos como aquele, era difícil acreditar que Ni~ya não era mais visto como um samurai e sim como alguém insignificante e desprezível pelos seus colegas de antes. Era dolorosamente óbvio para o pequeno homem que o moreno merecia o título de guerreiro, tendo ou não a aprovação dos seus antigos pares.

— Yomi... Nós vamos para Edo.

O sacerdote notou a ausência do pronome de tratamento que seguia seu nome e percebeu que o outro viajante falava sério.

— Vamos? Para... Esse casamento?

— Hai. Eu quero ver muito essa cerimônia. — ele disse, começando a andar novamente e seguindo a ponte para o outro lado da margem do rio. Yomi só notou que o outro se afastara momentos depois, correndo atrás do guerreiro e respirando ligeiramente mais rápido ao lado dele antes de perguntar:

— Conhece alguma das famílias, Ni~ya-san?

— Conheço. — o outro afirmou com a mesma tonalidade grave enquanto mantinha os olhos fixos no horizonte, movendo seu olhar para o sacerdote apenas quando falou novamente — Uma delas é a minha.

Continua...

Notas finais
Notas:

1) A lenda dos sapos contada pelo Yomi é verdadeira; o texto foi retirado daqui.
2) Quanto à placa que eles encontraram na ponte, eu me lembro de ler sobre algo parecido em Musashi (o livro gigante escrito pelo Eiji Yoshikawa). Bom, no livro, existia uma espécie de "mural" ou de quadro de madeira que eram afixados em lugar de grande movimento, onde se anunciavam diversas coisas para que os viajantes pudessem saber o quê estava acontecendo - e também porque não tinha telefone nem e-mail na época, então era complicado das notícias chegarem a tempo. Eu posso estar viajando na maionese ao escrever sobre isso, mas qualquer coisa... Finjam que é uma licença poética.