Kthall

2 O Túnel do Carvalho


A primeira coisa que me ocorreu, ao entrar dentro daquela árvore já pútrida por dentro e corroída pelo o tempo, foi de que eu estava finalmente dentro do corpo de um real Deus ou algo maior. Ao invés de uma batida no caule da árvore morta, eu me senti caindo, mas algo de um instante, sem que eu me lembrasse a sensação depois. Uma breve explicação seria o de sonhos sem sentido; aqueles em que descemos ou subimos uma escada, ela desaparece, nós caímos e é quando sentimos que aquilo foi de verdade, um salto na cama ou uma levitação sobre ela.

A escuridão, como a queda, fora veloz e em seguida eu enxergava novamente. Ali dentro, como um vazio, quase nada existia.

Era poeirento, com a sujeira formando pequenos montes e se acumulando até mesmo em teias de aranha baixas. As paredes eram simples rochas, mesmo que eu forçasse um pouco o olhar. A forçação do olhar era necessária quando um vento forte surgia e me cegava com o pó que e existia, mas no chão eu enxergava algumas folhas que estavam verdes, mesmo ali dentro só tendo a vida das aranhas.

Spiders from Mars.

O nome não desaparecia da minha mente e quando eu relembrava, o álbum com uma parte do nome me vinha à mente.

As rochas que formavam as paredes seguiam direto por aquela luz fraca em que eu enxergava. Eu segui, então, direto. Era o único jeito que eu tinha e por muitas vezes eu via aranhas que corriam para lá e para cá, enroscando-se em suas teias. Quando eu havia começado a minha caminhada, de início, eu notava que as paredes tinham, na minha mente e na minha matemática de percepção, dois metros de largura e a passagem era bem livre de teias. Porém, quando cheguei em uma placa de madeira, esta com inscrições que não entendi e que se assemelhavam a imagens, senti que ao menos cinco centímetros elas diminuíram em sua largura.

Não estava com o relógio, nem mais nada que me mostrasse o horário, mas acho que ao menos uma hora de caminhada direta ali dentro fora o suficiente para que eu compreendesse que estava preso em um labirinto de um caminho só. Um tempo mais à frente e eu notei um túnel de rochas diferentes: o teto era bem mais alto e suas paredes se abriam para a esquerda e direita.

Eu entrei, sem querer e imaginar, em uma encruzilhada.

O caminho que tomasse decidiria se eu alcançaria o tão amado e idolatrado Kthall. Assim que pisei no caminho da direita, pois sou daqueles que crê em algumas superstições, os três caminhos deixados para trás foram engolidos e uma escuridão os levava para baixo, em um abismo que eu acho ser sem fim.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer, mesmo com o coração acelerado. Segui pela a direita, com medo do que encontraria em frente e por isso andando devagar, até que vi algo que me assustou: uma luz diferente irradiava, uma tocha presa na parede. Foi quando vi que mais à frente, a iluminação cessava. A tocha era a luz seguinte.

Segui direto, arrancando a tocha de seu lugar. Do espaço em que ela estava presa, veio um tiro, mas não uma pistola, mas sim um tiro de fumaça. Um vapor que percorreu em volta de mim e me obrigou a inalá-lo. Era o mesmo do campo que hospedava o carvalho.

Foi quando vi, atrás de mim, algo que se movia, apagando a luz que antes me ajudara a enxergar tudo. Era uma forma que se conectava na escuridão, mas que eu via suas mãos ou... não eram mãos. Eram... eu não sei. Mas apagava a luz ou então o que tinha aquelas mãos devorava a luz que já era fraca. Somente uma luz aquilo queria e eu a possuía, bem na minha mão direita.

Um som veio, enquanto eu já corria pelo o túnel e aquilo que me seguia se tornou mais veloz e mais voraz. O som estava aumentando pelo o corredor e assim veio mais uma encruzilhada, o som se tornando um grito e as paredes diminuindo mais um pouco, o teto menor do que o de antes e peguei o caminho que seguia direto. A parede ia se fechando, atrás de mim ia desmoronando, aquilo que me seguia ainda me seguindo, sem cair. O teto diminuía e a parede começando a se tornar alguém íntima demais para mim.

O que antes era um corredor largo, já estava um pouco apertado. Eu já estava sem ar, eu já estava quase ficando sem ar naquele espaço e atrás de mim seguia aquilo que eu não sabia o que era, desesperada para me matar. Mais um som viera e mais um desespero por parte do que me perseguia. O grito viera mais raivoso, mas desta vez notei algo que considerei ser uma palavra divina, na língua que a entidade ou algo que fosse dela falasse:

RUR'GR'JUUSK

Achei que fosse algo assim. As paredes me engoliam e assim eu não conseguia andar, mas o que me seguia conseguia sem problemas. Foi assim que eu fui engolido, me vendo, antes de ter sofrido aquilo, como um simples pão pisoteado e bem pisoteado.

E caí na escuridão medonha, mais uma vez por dois segundos ou menos. E o grito fora pior.

JUUSK'LOR'ORR'FARK

Acho que era assim que ele dissera e me dera um medo maior.

Me senti morto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.