Kozmic Blues

1 me and bobby mcgee


Notas iniciais
"bem,eu trocaria todos os meus amanhãs
por um só ontem
para segurar novamente o corpo dele perto do meu

liberdade é só mais uma palavra para 'nada a perder'
e nada é o que ele me deixou" - me and bobby mcgee/janis joplin

A brisa outonal daquela tarde teimava em esfriar minha pele, atacando-me de todos os lados. Em contraponto, o sol espreitava e lutava entre as nuvens cinzentas que ameaçaram estragar aquele dia perfeito. Tudo conspirava ao nosso favor. Estendi meus braços e deixei tanto brisa quanto sol me tocarem, enquanto meu amor, ao meu lado, sorria e acelerava o carro.

Cortando a estrada vazia naquele conversível cada vez mais veloz, a brisa se transformava em vento. O rádio, ligado, não se fazia ouvir contra o ventar.

Meu amor foi mais devagar e eu acendi um cigarro. Ouvia-se algum blues antigo sendo transmitido por uma rádio qualquer. Traguei longamente, observando a paisagem de campinas e mais campinas, imensidões vazias e secas. Passei o cigarro a ele, oferecendo também um sorriso. Recebi de volta um daqueles olhares cheios de significado que eu nunca conseguia interpretar e também uma nuvem de fumaça. Quando olhou para frente, tive um vislumbre de seus olhos por trás dos óculos escuros redondos e pude vê-los brilhar.

Quase uma hora se fez passar, embalada por cigarros, blues e olhares subjetivos. Demos algumas boas risadas, contagiados pelo nervosismo e também por certa felicidade proporcionada pelo momento. E, repentinamente, o destino se fez presente e o carro parou. Encostamos perto de onde a vegetação se tornava alta e espessa. Meu coração, em resposta, deu um salto, e meus olhos travaram na trilha que se via a alguns metros de onde estávamos. Respirei bem fundo e fechei os olhos. No instante seguinte, senti a mão de meu amor tocar minha nuca, me puxando para um longo beijo para ganhar coragem.

Antes que eu recuperasse o fôlego, ele estava fora do carro, com a mochila nas costas e seguindo para a trilha. Deixou-me com um suspiro, o maço de cigarros e uma grande sensação de receio. Não tive escolha alguma além de segui-lo.

Caminhamos durante pouco tempo, sempre em silêncio. Os únicos ruídos eram nossas respirações, os insetos e um burburinho de água corrente, que ficou mais e mais audível conforme andávamos. Tentei manter-me calmo, mas meu estômago dava voltas e meus olhos ameaçavam derramar umas lágrimas (embora, talvez, de alegria).

“Podemos esperar?”, perguntei.

“Não”, foi a resposta.

Em alguns minutos chegamos ao ponto final da trilha, que se abria para dar na margem de uma cachoeira. O terreno, gramado, situava-se entre algumas pedras e à borda da mata fechada. Meu olhar foi imediatamente chamado para a visão esplêndida das selvagens gotículas de água saltando da queda d’água e sendo pegas, desprevenidas, pelo sol, fazendo surgir um lindo arco-íris. Distraidamente, vaguei até bem na beirada e perdi meus pensamentos no fluir da cristalina e revolta água e nos peixinhos que se movimentavam à esmo.

Mas, então, uma mão puxou meus pensamentos perdidos e os trouxe bem para a terra firme. Senti o toque da realidade novamente se fazendo presente junto ao toque daquela pele. A mão de meu amante. Os ágeis e delicados dedos correram por meus ombros e acariciaram muito gentilmente meu peito. Enquanto as mãos me distraiam, ele me prendeu em um abraço, chegando por trás e pressionando seu corpo contra o meu em um abraço arrebatador, para dizer o mínimo. Seus lábios encontraram meu pescoço e por ali ficaram até que, subitamente, as gentis mãos encontraram liberdade e rasgaram minha camisa, jogando-a para longe. Meu amante me contornou, posicionando-se de frente para me encarar. Olhos fortes, determinados, avançando contra os meus, tão tímidos e fracos, que rapidamente desviavam-se novamente para os peixinhos.

“Olhe bem para mim”, disse ele, puxando meu queixo com violência e me forçando a devolver o olhar. Utilizei da contemplação para permanecer forte, podendo então admirar cada traço seu que me cativava. Alguns segundos nos encarando e tudo que nos restou foi se entregar ao beijo. Nossos lábios se encontraram com violenta devoção e desejo, e logo minhas costas nuas tocaram a grama da margem. Depois disso, o tempo perdeu o sentido, assim como a dualidade, e nos tornamos só um, perdidos no atemporal.

Talvez fossem algumas horas depois, ou mesmo alguns minutos, ou outro dia... mas sei que à certo ponto tornei-me sóbrio e individual novamente, enquanto nos deitamos e acendemos cigarros, trocando as últimas carícias.

“Tá tudo certo, né?”, perguntei.

“Sim, está tudo certo”, confirmou ele, que me abraçou fortemente e depois levantou-se, indo até a mochila. De lá, trouxe uma lâmina e me entregou.

Segurei a lâmina alguns segundos em minha mão e vi meu reflexo em seu metal polido. O sol refletia na lâmina direto no peito de meu amante, que acariciava meus cabelos, confortando-me. Dei-lhe um longo sorriso e passei a lâmina em minha garganta.

Acho que depois disso foi só muito sangue em nossos corpos nus, ele se banhando na cachoeira enquanto meu corpo seguia correnteza abaixo.

Notas finais
qualquer crítica, positiva ou negativa, é bem vinda
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!