Korine
1 Capítulo 1
A agua da chuva que escorria pelo meu rosto era quase tão fria quanto minhas mãos e pés, as gotas espessas e pesadas pareciam chumbo caindo em minha pele. Por algum motivo eu estava em frente a loja que nossa família tinha “Artefatos para Jardins dos Brokes”, olhei para os lados e não vi ninguém, a rua sempre fora escura daquela maneira? Uma rajada de luz surgiu de dentro da loja e joguei-me na calçada para não ser vista. Meu pai saiu de dentro da loja, olhou para as luzes e logo depois percebeu minha presença.
-O que faz aqui, cachinhos dourados? –Ele se ajoelhou na minha frente e abriu o guarda chuvas. Percebi suas mãos sujas de sangue e uma arma habitava sua mão direita.
Em gritos eu acordei e logo depois Tia Morgana estava abrindo a porta de meu quarto depressa. Apenas dois segundos depois de ela e meus três primos entrarem no guarto eu parei de gritar, Tia Morgana sentou-se na beirada de minha cama e me abraçou.
-Vai ficar tudo bem, querida –Dizia ela- Foi só um sonho ruim!
-Então eu ter assistido meu pai assassinar minha própria mãe e depois se matar foi apenas um sonho ruim? –Meus primos, Jonas, Joanna e Sarah se calaram assim que eu terminei a frase.
-Querida, se continuar respondona assim creio eu que terei de deixa-la de castigo! –Tia Morgana deu um sorriso falso e logo depois voltou a me abraçar.
-Essa vida já é um castigo, querida- Disse eu retribuindo o abraço.
Tia Morgana mandou JJS, como eu sempre chamava os trigêmeos, saírem do quarto. Ela me olhou com aquele olhar “amedrontador” que sempre fazia tentando me deixar com medo dela. Tia Morgana fechou a porta de meu quarto e o trancou, cinco minutos depois ela passou um bilhetinho em papel rosa fluorescente escrito.
Querida Penelope
Você ficará sem agua ou comida por um dia,
isso é para o seu bem minha sobrinha petulante!
Ela ainda estava do outro lado da porta esperando uma resposta ao bilhete. Eu apenas o amassei e joguei pela janela. Voltei à porta e pensei em gritar “Boa noite Tia Morgana, amo vocês”, mas ela apenas mandaria outro bilhete me mandando calar a boca e ir dormir.
A Culpa não era minha se o irmão dela era um insano que matou a própria mulher com vinte e oito facadas, sendo 20 pelo corpo e oito na cabeça, ela era igual a ele, ambos sempre me prenderam, e no dia do assassinato, eu corri para avisar tia Morgana e ela só disse “Querida, você não deveria ficar xeretando o que seu pai faz ou deixa de fazer!”. Odeio-a e seus filhos, todos dizem que eu devo ser mais agradecida, pois se não fosse por ela eu teria ido parar em algum orfanato horrível e ficar passando de família em família até fazer 18 anos. Eu farei 18 anos daqui a um mês e estarei livre, mas, se bem que eu te passado 4 anos de família em família teria sido melhor do que passar esses 4 infernais anos na casa de Tia Morgana.
Depois de muito pensar no quanto eu odeio essa casa e todas as pessoas que vivem nela, eu adormeci. Acordei com o cantar dos passarinhos a minha janela, coloquei a cópia da chave que eu tinha escondida na maçaneta e pulei a janela. Meu vizinho e melhor amigo, Tadeu, sempre me deixava ficar na casa dele quando Tia Morgana me ponha de castigo. Fiz como sempre havia feito, pulei a janela, escorreguei pelo telhado, desci pelo cano que ficava na lateral e depois só pulei a cerca da casa de Tadeu. A Sra. Teddy, mãe de Tadeu, era uma mulher adorável e linda, porém ela havia se casado com um homem horrível que sempre batia nela e em Tadeu. Não sei se devo dar pêsames ou “Graças a Deus”, mas ele morreu a menos de um ano, Sra. Teddy chorou em seu velório porém no jantar que deu depois ela parecia muito feliz.
-Ah Penny –Disse a Sra. Teddy assim que eu abri a porta- Tadeu está la em cima, tem roscas de leite na mesa se quiser!
Eu entrei mas recusei as roscas, subi as escadas correndo e entrei no quarto de Tadeu, ele ainda dormia abraçando um travesseiro, deitei-me ao lado do travesseiro deixando-o em nosso meio, ele parecia um anjo dormindo.
-Tadeu, amorzinho –Disse tirando o cabelo de seu rosto- ESTÁ NA HORA DE ACORDAR INPRESTÁVEL!
Em um pulo Tadeu estava de pé e havia me jogado ao chão junto com o travesseiro, nós rimos por um instante e logo depois ele me ajudou a levantar. Contei sobre tudo a ele, desde o sonho até a cara que tia Morgana havia feito quando eu perguntei se tudo era um sonho. Tadeu era o melhor amigo que uma garota poderia ter, ele ouvia cada palavra que eu estava falando e quando eu o perguntava se ele estava ouvindo ele fazia que sim com a cabeça e logo depois repetia toda a frase.
-Ela é uma vaca! –Disse ele se levantando.
-Isso é um insulto para as vacas! –Disse rindo e me deitando novamente em sua cama.
-Tudo bem, ela é uma vagabunda!
-Isso é um insulto para as vagabundas! E não venha me dizer que ela é uma prostituta, essa é uma profissão mais honrosa que a dela!
-Afinal, qual é a profissão dela? –Tadeu se deitou ao meu lado e viramos um de frente para o outro.
-Ela é a Rainha do Inferno, sabe? Mulher do Diabo, ou alguma coisa assim!
Tadeu iria começar a falar algo quando eu cheguei mais perto dele e me aconcheguei em seus braços, ele deu um beijo em minha testa e ficamos ali, deitado junto, se passaram alguns segundos e Tadeu já havia pegado no sono, olhei para ele e vi que era mentira. Ficamos encarando um ao outro durante alguns segundos.
-Posso confessar uma coisa, Penny? –Perguntou Tadeu desviando um pouco os olhos.
-Claro que sim.
-Você deixaria eu te beijar?
-Não, desculpa Tadeu, mas você e eu seremos só amigos!
-Droga!
Eu e Tadeu sempre brincamos assim, todos de Korine sabem que Tadeu é apaixonado por Elizabeth desde que ela se mudou, na mesma época em que meus pais morreram. E eu, bem, Tadeu me chama de Serpente de vez em quando, pois eu nunca me apaixonei ou nem mesmo fui a fim de garoto algum. Tenho muita coisa pra me preocupar, não tenho tempo de ter o coração partido por um idiota, e, além disso, eu tinha o Tadeu.
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