O vento soprava forte, quando saí do aeroporto. Agasalhei-me suficientemente bem para não me constipar, mas não pude evitar deixar escapar um arrepio de frio. A minha amiga reparou.

- Não vens habituada a esta época, eu sei. Em Portugal devia estar bem quentinho! – disse ela, libertando ar enquanto falava. – Mas lá não podes fingir que estás a fumar.

- Baka! – disse eu. Uma das nossas brincadeiras preferidas em pequenas era, num dia muito friorento, respirarmos o ar pela boca, dizermos aos nossos pais que fumávamos e criar então uma bola de fumo... Mas acabávamos sempre por ficar de castigo, porque os nossos pais acreditavam. – Com que então casada e feliz… E aqui fico eu, a encalhada de sempre.

- Cala-te, sua póia. – disse ela, segurando-me na mão. – Sabes bem que, se tu quiseres, podes arranjar qualquer pessoa.

- Arranjar alguém, com o meu feitio? – arregalei os olhos. – Nem pensar. Sabes bem como sou, todos os namorados que tive me deixaram!

- Menos o João Pedro.

Eu fechei os olhos, incomodada. Porque é que ela tinha de falar nele logo agora, no nosso reencontro? Tentei mudar de assunto.

- Então, segundo o que me disseste, o Micky pertence a uma banda… Os TBSQ, não é?

- Não! – ela riu-se. – Os DBSK!

- Ah… Eles são japoneses?

- Não, não. A banda é coreana. Todos eles são simpáticos, quem sabe engraces com algum deles…

Estávamos já dentro do carro. Su empurrou a cadeira de bebé para o outro lado e pôs lá as malas que não cabiam no porta-bagagens. “Maldita sejas, mãe”, pensei. “Encheu-me de bagagem inútil, por que raio é que não reparei na quantidade de malas que tinha no carro antes de as colocar no tapete rolante? Ela conseguiu até uma autorização especial para eu conseguir levar mais bagagens… Devia ter imaginado!”

- Entra, entra.

- Obrigada. – disse eu e pus o cinto. Olhei para a cidade que tanto quis conhecer na minha adolescência. – Isto aqui é bonito.

- Ainda não viste nada. – retorquiu ela, com as mãos no volante. A seguir, para mal dos meus pecados, retomou o assunto que deixara por terminar. – Como estava a dizer, todos os membros são muito simpáticos. Já te falei deles, lembras-te?

- Hum… Pois. – disse eu, olhando pelo vidro. Por nada deste mundo iria admitir que nem chegara a abrir os e-mails que falavam sobre eles. – Eu sei, eu li. Mas, já te disse, não estou interessada.

- Mas porquê? O Xiah, o Yunho e o Jae continuam disponíveis! O Changmin também está, mas não quer saber muito disso. Diz que quando o seu amor quiser aparecer, aparece.

- De todos, o Changmin parece ser bem interessante. Gosto da sua filosofia.

- Ah, então espera sentada… Ele nunca vai reparar em ti. – disse a minha amiga, cruelmente e, com uma guinada, estacionou e destrancou as portas.

- Por isso mesmo. – respondi e fui ajudá-la a levar as malas. – A casa é bonita!

- Já pertencia aos avós do Mike – respondeu ela. – Nós só a remodelámos e, mesmo assim, continua a parecer uma casa de luxo!

Olhei bem para a casa da nova Catarina Park. O terreno era enorme, cheio de relva que parecia acabadinha de cortar. O carro estacionado em frente à garagem e diversas plantas a rodear a casa tornavam-na acolhedora e habitável. Só à primeira vista, eu já apostava que teria piscina.

- É mesmo linda! – exclamei, mais uma vez. – Ah, já agora… Quando é que vou conhecer a pequena Susana?

— Acabaste de chegar e só pensas na minha filha?

- Correcção: só penso na minha afilhada, se é tua filha ou não… isso é irrelevante.

- Obrigadinha. – respondeu ela e juntas levámos as malas todas para o quarto de hóspedes. – Aqui vai ser o teu quarto. Espero que gostes, qualquer coisa é só pedires.

Eu resmunguei, baixinho. – Bastava-me ir para um hotel.

- Eu ouvi-te e a resposta é não, nem penses nisso… Bem, vem. Vou mostrar-te a casa.

Fiquei a conhecer todos os cantos da casa, cuja decoração era tradicional, porém, bonita. O meu lugar favorito era a lareira e os puffs que a rodeavam, na sala de estar… Com um tempo destes, toda a fonte de calor era bem-vinda.