Knightmares
3 Dúvida
Notas iniciais
Rodrigo pegou um líquido transparente que tinha uma cheiro forte. Colocou esse líquido em uma vasilha de plástico e pôs a carta sob o líquido. Depois de alguns minutos, ele colocou um outro líquido em cima da carta. As manchas começaram a soltar e em aproximadamente 30 minutos, a carta já estava legível. Rodrigo a pegou com uma pinça e a colocou de frente para uma lâmpada fluorescente. Em cinco minutos, o papel secou e a carta ficou mais legível ainda.
– Bom, Helena... Demorou, mas conseguimos.
– Não. Você conseguiu. — Disse, rindo. — Mas vamos ver o que está escrito aqui.
"Jerônimo,
Talvez você tenha se esquecido de mim. Afinal, foi algo mais passageiro do que imaginava. Mas não me esqueci de você, pois ao ir embora, você deixou comigo algo. Alguém. Uma vida. E ela não pertence a mim. Pois é algo que fizemos juntos, mas que não posso arcar. Sei que aqui, ela terá todos os cuidados. Amor, compreensão,
liberdade e será feliz. Tenho certeza que ela irá te ensinar muitos valores como ela me ensinou, em apenas 4 meses de idade. Fique com o que eu tenho de mais precioso. Pois também é seu. E se ainda duvida, embaixo do cesto, está o exame de DNA que foi feito. Adeus, Jerônimo.
Mercedes Knightmare"
– Então quer dizer que meu pai já teve algo com outra mulher antes da minha mãe?
Rodrigo põe a mão sobre o queixo, como se estivesse analisando algo.
– Isso tem cara de nome artístico. Ninguém que é brasileiro se chamaria Mercedes Knightmare. E esse documento tem aparência de uns 20 anos, mais ou menos. Há quanto tempo seus pais são casados?
– Meus pais estariam fazendo 23 anos de casados, minha idade.
– Provavelmente, essa mulher era garota de programa e seu pai a engravidou. É uma hipótese. E na carta, ela se refere a criança como "ela". Hipótese de que possa ser menina.
Helena se levantou na hora.
– Rodrigo! Está tentando me dizer que talvez eu tenha nascido de uma relação entre meu pai e uma prostituta?! Meu pai tinha suas recaídas, mas ele nunca trairia minha mãe!
– Quem falou em trair, Helena? A carta deve ter mais ou menos 20 anos. Isso pode ter ocorrido quando seu pai ainda era solteiro. Ou em uma despedida de solteiro.
– Meu pai nunca foi desses.
– Essa é uma das coisas a se fazer em história. Temos que levantar todas as hipóteses. Sendo agradáveis ou não. E na maioria das vezes, a menos agradável, é a correta.
Helena suspirou. Estava duvidosa. Não acreditara que seu pai faria algo assim.
– Não se preocupe, Helena. Esse documento vai ficar comigo para análise. Mas mesmo assim, é algo pessoal. Se está com alguma dúvida ou querendo alguma resposta, procure conversar com seu pai. Ou tente descobrir por si só. A escolha é sua.
– Está bem. Obrigada, Rodrigo.
Helena estava indo em direção a porte de fora e Rodrigo a acompanhando. Quando ele repentinamente fala.
– Helena!
– Sim?
O professor, meio envergonhado, diz.
– Bem... Eu sei que pode soar meio estranho para você. Mas... Gostaria de sair algum dia? Quero que você se sinta bem e se distraia. Esqueça que sou seu professor. Mas se não quiser, eu entendo.
Helena fez uma cara de surpresa e ao mesmo tempo, uma cara pensativa.
– Hum... Por quê não? Sim.
Era impossível não notar o sorriso no rosto do professor.
– Está bem. Que tal sexta que vem? Depois da aula? Você me espera e saímos. Te levo em casa depois.
– OK. Combinado.
– OK então. Até mais.
– Tchau... — Helena anda alguns passos. Depois se vira. — ...Rodrigo.
O professor dá um sorriso e fecha a porta.
Ainda eram cerca de 13h da tarde. Helena resolveu passar pelo atalho que havia pegado ontem à noite para ver se encontrava o menino. Estava bem mais movimentado, mas ainda havia uns meninos agrupados e sentados em motos. Pareciam estar na faixa de 18 a 25 anos. Aquele menino não estava entre eles. Helena estava curiosa para saber onde ele se meteu, pois queria muito conversar com ele. Tomou coragem e mesmo que estivesse disposta a perder suas coisas, ela foi até lá.
– Com licença?
Um dos meninos, de cabelo raspado, olhos castanhos claros, fortinho e cheio de tatuagem, levantou da moto e foi até Helena.
– Opa, princesa! — Ele pegou a mão de Helena e beijou. — O que você manda? Algum problema?
– Não, obrigada pela consideração. Eu queria uma informação, na verdade.
Outro menino, de cabelos espigados e loiros, de aparelho e bem magrinho, desceu da sua moto e respondeu.
– Pois não, linda. Só falar.
– Vocês conhecem um menino de cabelos pretos, topete, aparelho, olhos escuros, boca grande, forte, alto, que tem uma voz meio que grossa? Não é forte de musculoso não. Forte porque tem os braços gordinhos... Eu não sei descrever ele muito bem, mas aparentemente ele é assim.
Todos os meninos se entreolharam e começaram a analisar o rosto de Helena. Até que um deles fala.
– Ih cara! É aquela mina de ontem. Que o PlayboySP deixou vazar.
Até que outro fala.
– Ela deve tá procurando ele. Descreveu direitinho hein?
– Então, vocês sabem quem é? Sabem onde ele está?
O menino de cabelo raspado disse.
– Ôu ôu ôu ôu, ó o respeito com a menina, morou? Sem caô, otários! Mano, PlayboySP não é mané como nós tava pensando não. Aí, moça, infelizmente não sabemos não. Mas procura ele por aqui de noite ou de manhã, falou?
O menino loiro ainda disse.
– E ó... Pode passar aqui quando quiser enquanto a gente tiver por aqui, morou? Ninguém vai mexer contigo. A gente dá o recado pro "Zé".
– Bem... Obrigada meninos. Obrigada mesmo. Digam a ele que eu quero ver ele. E conversar com ele também.
– E nóis, princesa.
– Tchau.
Helena pensou "Então o codinome dele é 'PlayboySP'... Qual será o nome dele de verdade? Quantos anos será que esse menino tem?". Caminhando de volta para casa, Helena sente algo tocando sua cabeça.
– Os mano daqui pode até te perdoar, gatinha. Mas eu não perdoo ninguém!
Helena já havia sentido que aquilo era uma arma e que estava prestes a ser assaltada. Sem dizer nada, ela entrega sua bolsa para o cara, sem olhar. Ele dá uma risada que assusta Helena.
– Quem disse que isso é um assalto? — Disse o cara, cheirando a nuca de Helena e respirando forte contra ela. — Vem comigo. Caladinha.
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