Klon
5 Por Sofia
Notas iniciais
A garota corria, o tempo parecia sempre pouco para ela. A velocidade dela não era alta, mas era o máximo que seu corpo conseguia imprimir, isso porque em suas costas ela carregava outra menina, igualzinha a ela.
Tamires estava no desgaste máximo tanto físico quanto psicológico, mas a sua mente e sua consciência a impulsionavam a continuar.
A garota que ela carregava tinha cabelos castanhos escuros que não chegavam aos ombros, estavam todos bagunçados e no caso dela manchados de sangue.
Aquele sangue era proveniente da sua mão, mas isso não era o que preocupava Tamires, na verdade o pior estava em seus olhos, um talho no olho esquerdo.
Felizmente ambos os ferimentos de Sofia estavam bandagens, tudo feito por Tamires, não que isso significasse muito, porque aqueles machucados estavam além do que o simples pousar e descansar poderia curar.
“O mundo é tão cruel que me mostrou as suas cores para no momento seguinte esmaga-los para ao cinza novamente” revoltava-se Tamires.
Cada passada era mais difícil que a anterior, porém ela se forçava a continuar afinal além da garota poder morrer e ser quase sua gêmea, ela também a salvara e por isso estava naquela condição.
As imagens pareciam ter ficadas gravadas na sua mente, porque ela sempre se pegava pensando naquilo, o homem prestes a atirar uma faca certeira em sua cabeça e uma salvadora que se estendeu e avançou contra todas as dificuldades do medo para enfrenta-lo.
E isso não era o cerne do problema de Tamires, porque se isso tivesse acontecido algum tempo antes, talvez até dois dias atrás, ela até ficaria um pouco feliz por aquilo, mas agora, nem tanto.
Tamires não sabia até que ponto aquilo a influenciara, mas certamente a fizera pois fora graças a Sofia que Tamires deu de cara com o livro que ela carregava no bolso interno da blusa, não era nenhuma obra de arte nem um patrimônio da humanidade, mas era o primeiro livro que a fizera sentir algo.
Foi um sentimento estranho, ela que nunca sentira, de repente sofreu esse baque que despertou suas emoções, e mais ainda a bondade que Sofia expressara quanto ao livro realmente a moveu.
Então o mundo completou a artimanha do seu plano, mostrou para ela todo seu esplendor e a encantou com todas as possíveis imagens, uma mais bonita que a outra, a natureza do rio que mostrava suas luzes, lá no fundo o rio que desembocava no mar, a calamidade da natureza em seus desabamentos de terra. Tudo tão emocionante, para bem ou para mal, e teria sido bom se isso permanecesse desse jeito.
Mas não aconteceu isso, ao invés de estonteá-la mais, o mundo a imprimira o medo, o desespero e agora a agonia.
A agonia se devia por que por mais que ela se esforçasse, em sua cabeça ou em algum pedacinho dela ela sabia que a garota chamada de Tamires não conseguiria salvar Sofia, e isso era o que mais a deprimia.
Mais ainda sim ela seguia teimosamente carregando aquele quase corpo ou assim ela pensava, ela não sabia o que era aquilo se era só teimosia ou se era algum tipo de amor, mas isso não importava.
O seu corpo começou a falhar depois de algum tempo correndo, por isso ela se sentou num banco para repor as forças, não faria sentido ela continuar e cair ao chão de cansaço. Ela repousou a cabeça de Sofia em seu colo e observou os arredores.
O banco onde Tamires estava era um dos vários de uma praça que continha uma certa igreja que ela já visitara pouco tempo antes, um chuva caia levemente e a levava a indagar em voz alta:
–Por que isso mundo? Por que passar por tudo isso? Por que!? Porque me cativar se pretendia me quebrar logo depois?
Ela estendeu a mão para os céus como se pudesse pega-los por dentre os dedos e o esmaga-lo para acabar com aquela joça que faziam dela. No seu braço estendido ela sentiu alguma coisa ausente.
Era a pulseira verde que ela carregava desde a infância, não a mesma, mas o símbolo era o mesmo, e ela se sentia incompleta sem aquilo, por mais que aquilo a causasse dor e preconceito de um Klon.
A pulseira verde agora repousava no braço de Sofia, fora a última ordem, não, o último pedido de Sofia, mas Tamires não estava num estado psicológico suficiente para concluir o que aquilo seria, a única parte indesejável era na parte do “último”. Não seria o último pedido.
Por isso ela se levantou e colocou a menina desmaiada em suas costas e seguiu desafiando a chuva, ainda faltava metade do caminho, mas ela faria aquilo querendo seu corpo ou não, não importando as consequências.
Num certo momento as pernas já começavam a falhar novamente, mas ela não desistiu e seguiu fazendo o máximo para leva-la morro acima, era uma subida íngreme que ela nem começara, entretanto a sua determinação a motivou a continuar.
Quando ela já estava nos vários barracos no morro, as pernas pesaram e ela quase caiu, a noite já caia e Tamires sabia que faltava pouco, ou enganava a si mesma com isso, o morro parecia enorme e cada passo doía todo seu corpo assim como cada passo a deixava mais perto.
Faltavam mais 6 passos, talvez 5 para ela conseguir chegar ao topo, ela já sentia o cheiro e as vozes dos humanos acampados ali naquela clareira, todavia aqueles últimos passos eram os mais dramáticos, porque deixavam um caminho de quase 90° graus.
Já faltavam 2 passos e Tamires via as pessoas reunidas em fogueiras, a noite já caíra a muito, e todo seu corpo estava dolorido, o pensamento do descanso já enchia sua mente quando ela deu o penúltimo passo para o lugar.
Mas o mundo realmente conspirava contra Tamires pois ao dar penúltimo passo, no último degrau daquele morro, a terra desabou sob seus pés, o corpo caia e o único pensamento que passava por sua cabeça era “A queda é alta, não posso cair, não posso cair, não posso cair, não posso deixa-la cair”.
Por causa disso a primeira coisa que Tamires fez foi passar a mão por suas costas e assegurar Sofia junto as suas costas, a segunda foi levar a outra mão livre para segurar em alguma coisa “o último degrau ainda não caiu” e ela o agarrou.
Debaixo dela a terra cedia e levava como numa avalanche mais terras, e ainda mais abaixo ela levou boa parte dos barracos na base do morro.
O chão que devia estar sob Tamires não existia mais, o morro literalmente se transformara num penhasco, a única coisa que segurava as duas era o braço de Tamires que segurava incessantemente a borda de terra restante.
“Não vou largar você, nunca mais” se congratulava Tamires por tamanho feito para esconder o desespero daquilo, ela não conseguia subir Sofia, não depois de correr aquela maratona, o que mais a preocupava era o braço provavelmente cederia a qualquer momento, na verdade ele já começava a ficar dormente, “não, não agora”.
Mesmo assim ela segurou firme no penhasco, ela já havia soltado berros para o ar, mas ninguém a ouvira, ou se ouvira não se importara.
O braço já parecia querer se separar do resto do corpo de Tamires, tanto o que segurava a ponta do penhasco quanto o que a segurava Sofia junta a ela.
–Por favor, alguém! Qualquer um! Suplicou Tamires numa última tentativa de superar aquele dogma que o mundo impusera a ela.
Então um barulho de passos foi ouvido, eles estavam correndo em sua direção e ela suspirou em alívio, mas o mundo realmente não se contentara com tudo aquilo por que ele utilizou seu último recurso.
Não foi a braço dela que se soltou, foi a ponta do penhasco na qual ela se segurava que se soltou. Finalmente ela realmente desistiu daquela jornada, ninguém diria que Tamires não tentara ao máximo, por isso ela finalmente deixou-se cair, sem esforço algum, apenas agarrado a sua idêntica.
Mas não foi a tranquilidade da morte que o destino decidiu para ela porque algo agarrou seu braço...
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