Klon
12 O mundo não é o suficiente para elas
Notas iniciais
A cela onde ela estava não era nada confortável, a madeira por quase todos os cantos estava despedaçada, deixando aquelas pontas de madeira à mostra. Tamires estava no único canto onde a madeira ainda estava inteira, felizmente não havia mais ninguém ali para disputar o pequeno canto.
Agora que ela pensava já devia estar quase amanhecendo, ela vira o sol se por 2 vezes ali então já era sábado, o dia da sua execução, mesmo assim ela tinha fé de algo impediria aquilo, em algum lugar deveria existir justiça.
A manhã veio com uma névoa espessa que cobria toda a visão da pequena janela de onde ela conseguia ver parte de Alta Tempestade.
Quando já se passavam algumas horas desde que amanhecera ela ouviu o trincar da cela, dois homens entraram e a tiraram de lá.
Por mais desesperador que fosse ela pensou em correr para escapar, mas isso logo se dissolveu na mente dela quando ela viu uma multidão na entrada do edifício, Tamires viu Laura, Antônio, Alberto, o Prefeito e todo o resto de Alta Tempestade que ela conhecia.
“Até os klonholics assistem execuções como o povo normal” pensou ela quando percebeu que na multidão estavam Rodrigo, Joseph, Amanda e Scarlet, “no final são todos iguais”.
Os guardas a levaram para um canto de Alta Tempestade onde estava montado um palanque com uma estrutura acima dele, nessa estrutura havia uma alavanca e também uma corda cujo final terminava num círculo, “um clássico enforcamento”.
Tamires foi posta no palanque onde estava o Prefeito. Os guardas a acompanharam a todo canto, quando ela viu aquilo, a esperança foi embora do seu corpo. Embora tudo estivesse pronto ninguém se moveu.
Sofia não estava na multidão, o que poupou Tamires de avisa-la para sair dali, a visão que todos veriam não era algo que ela gostaria que Sofia visse, Tamires percebeu que todos os guardas de Alta Tempestade estavam um pouco agitados, embora ela nem imaginasse o porquê.
Os klonholics, que ela viu enquanto a escoltavam até ali, não estavam juntos como ela esperaria, Amanda estava lá no fundo da multidão, Rodrigo e Joseph estavam na primeira fila enquanto que Scarlet estava à extrema direita do povão.
Logo aquela massa de pessoas começou a se irritar com a demora e murmúrios começaram a serem ouvidos, como “começa logo” “anda logo” “mata logo” “enforca, enforca, enforca...”.
Ela não percebeu, mas o Prefeito ao lado dela estava suando frio ao lado dela enquanto ouvia outro guarda e o doutor Alberto. Assim que ele ouviu a multidão gritar um “enforca” em tom rítmico e alto o Prefeito dispensou o guarda e o doutor e tirou alguns papéis do seu bolso.
–Ó povo de Alta Tempestade, apresento-lhes Tamires, Klon de Sofia Amundstêin filha de Laura e Antônio.
Todos vaiaram o mais alto que conseguiam, não havia coisas a tacar nela, mas se houvessem Tamires tinha certeza que atirariam.
–Essa Klon, falhou como Klon ao deixar sua original se machucar e propositadamente inverter as funções de Original e Klon ao trocar sua pulseira.
O povo fez um “uhhhh” desagradável.
–Por isso eu condeno-a a morte por enforcamento.
Sugiram gritos de alegria e entusiasmo com a declaração, mas nada daquilo já alentava Tamires, ela já desistira de tentar e pensar, só queria uma morte rápida e indolor, ela já ouvira falar que os enforcados morriam ou de asfixia, depois de muita agonia, ou quebravam o pescoço com a queda.
Ela esperava a segunda morte, mas ela bem sabia que o destino não era bondoso o suficiente para isso, não para Tamires.
Um dos guardas colocou a corda no pescoço dela, e o outro acionou a alavanca ao lado do Prefeito. O chão abaixo dela se abriu com uma porta para baixo, e acorda pressionou seu pescoço.
“É estranho, sempre dizem que você consegue ver sua vida passar nesses momentos” pensou ela enquanto o ar se acabava no seus pulmões, porque tudo que ela conseguia fazer era fechar os olhos e ficar o mais estática possível, “eles não terão prazer na minha morte”, mesmo assim ela sentiu o choro brotar dos olhos.
Ela estava prestes a sair do estado consciente quando algo milagroso aconteceu, foi tão rápido que ela nem acreditou.
Começou com um cheiro de fumaça no ar, ela abriu os olhos e viu todo mundo olhando para a direita dela, onde algo queimava e tirava a atenção de todos. Foi onde aconteceram duas coisas simultâneas, primeiro o pânico tomou conta do povo que começou a correr para suas casas e segundo ela caiu no chão.
Alguma coisa cortara a corda e ela estava no chão, ainda incapacitada, duas pessoas vieram e a colocaram em seus ombros e a levaram dali. A multidão ajudou-os a escapar dos guardas que tentaram persegui-los, logo eles já haviam despistado os perseguidores, mas eles continuavam a correr.
Tamires ainda não conseguia falar direito e também não conseguia ver quem a ajudava.
Em alguns minutos correndo eles já estavam numa parte sem pessoas da comunidade, era ao lado da grande parede que circundava Alta Tempestade, lá além deles estavam outro encapuzado cheirando a fumaça e Amanda.
Amanda apontou um grande buraco no chão onde havia uma camada de grama, um pouco diferente, parecia artificial. Um dos encapuzados que a carregavam levantou essa camada e ela viu um túnel que ia em direção para fora.
Amanda pegou em sua mão e a guiou pelo buraco/ túnel, logo elas já estavam do lado de fora, ela começou a guia-la em direção a floresta.
–O que está acontecendo Amanda?
–Não tempo agora, assim que nós entrarmos na floresta eu te explico. O túnel eu usava para sair para me acalmar e chorar quando era criança.
Logo a vegetação já cobria todas as direções e Tamires parou para respirar.
–Agora dá tempo, mas primeiro você precisa saber que tudo isso só foi graças a sua irmã, se não fosse ela provavelmente você estaria morta agora.
–Mas, como?
–Nós fizemos uma troca de favores, ela destruía a máquina e eu salvava você, acabando com dois problemas de uma vez só, mas eu nem falei com ela depois disso, então nem sei se ela está viva, nós veremos isso daqui a pouco. Precisamos nos apressar
A adolescente que quase fora enforcada continuou o caminho calada, realmente ambas estavam mortas se fossem pegas. O caminho que elas seguiam era uma trilha que depois de 15 minutos acabava em um rio. No final Amanda parou para falar com ela.
–Agora nós estamos com mais tempo, ainda há algo que você queira perguntar?
–Bom, até onde eu entendi aquelas outras pessoas encapuzadas eram Scarlet, Rodrigo e Joseph? E o incêndio? Foi tudo obra sua? Só para me salvar?
–Você está certa em tudo, o plano foi todo meu, mas quem botou fogo foi a Scarlet, era necessário criar a distração. Quanto a você, eu acho que você se menospreza demais, você é nossa amiga, Sofia é sua irmã e todos nós faríamos de tudo por você.
–Tá, mas só não entendi essa parte da máquina, que máquina?
–A máquina, era o dispositivo que garantia vocês Klon serem substituíveis, e portanto sofrerem preconceito, com ela fora os Klons de lá nunca mais serão maltratados, essa é a idéia. Se você seguir 30 minutos rio acima, você vai chegar numa clareira, se Sofia estiver lá continue com ela, se ela não estiver não a espere.
–Mas e vocês, não vão ser pegos?
–Com essa confusão ninguém vai reparar em quem estava lá e quem não estava. Agora está na hora de você ir, se a sua irmã estiver viva, agradeça a ela por mim.
Tamires deu um abraço em Amanda, aquela menina tinha mais coração do que sua mente deixava passar. Amanda retornou a trilha até desaparecer da sua vista, deixando-a seguindo pelo rio.
...
Sofia estava em cima de uma árvore esperando, já passava das onze horas e Tamires já devia estar ali, “alguma coisa deu errada” era o pensamento que mais passava pela sua cabeça. A camisa que ela estava já ficara branca quando Sofia mergulhou ela na água corrente do rio.
O pensamento foi esquecido quando ela viu na figura distante o semblante de sua irmã Tamires, ela desceu da árvore e foi até ela correndo, derrubando-a.
As duas rolaram na grama rindo da própria sorte, chorando finalmente reunidas sem adversidades, quando finalmente as duas pararam, ofegantes no grama, Tamires agradeceu a ela.
–Não há o que agradecer você já havia me salvado antes.
–Mas...
–Nada de mais, você é minha irmã e isso por si só já é motivo suficiente.
–E agora? Nós nunca vamos voltar, e a sua mãe? Seu pai?
Sofia se ergueu do chão e fitou o horizonte antes de respondê-la.
–Nunca gostei muito deles mesmo, e o que importa é que nós duas estamos bem. Quem sabe o que nós faremos agora, temos o mundo inteiro a nossa frente, eu soube de algumas comunidades ao Sul que não tem Klons, quem sabe ir para lá, ou quem sabe descobrir um pouco mais sobre a calamidade da Civilização Antiga, o mundo é infinito para nós! Tudo o que nos impede é nossa determinação, haha.
Tamires assim como Sofia aceitaram o que o destino reservara a elas e seguiram caminhando, não mais como Klon e Original, mas como irmãs.
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