Kit Black: Viajantes De Mundos
9 Escamas e muito Fogo!/Parte I
Notas iniciais
Existem vários meios para conseguir fogo. Esfregar dois pauzinhos secos até produzir faíscas, esperar um raio cair numa árvore, trazer um isqueiro com você, ou ir se meter com um dragão. E a última opção é tiro e queda para que, além de arranjar fogo, você vire um monte de cinzas. Mas isso não impede algumas pessoas de ir procurar um ser desses, por motivos mais ou menos importantes. São monstros enormes, com corpos semelhantes aos de lagartos, cabeças de serpentes, chifres e asas de morcego enormes, para não falar na fileira de dentes colossais e que são capazes de soltar fogo pela boca e/ou narinas. Normalmente tem um número sem igual de variações de espécies, e em cada canto existe um grupo com particularidades que não se vê em nenhum outro.
Diamante tem sua maioria de dragões organizada numa cidade quase puramente vulcânica: Dragon. Como são monstros realmente inteligentes (em sua maioria), a cidade está sob o seu poder. Poucos humanos ousam se aventurar em suas terras, por pavor de serem devorados. Poucos dragões têm afinidade com humanos, de modo que era raro alguém entrar em Dragon, ou algum dragão sair de lá. E tudo ainda estava neste pé, antes da primeira vez que Kit sai-se numa missão.
Afinal, a Equipe Black não acabou. Com muita dificuldade e pesar, Iris conseguiu dar a volta por cima e, com os novatos, formou uma nova Equipe. Uma Equipe maior e tão poderosa quanto a última, até mais. A adaptação fora difícil, no inicio. Depois daquela chacina, todos ficavam desanimados a entrar na sala de treinamento. Mas aquilo era necessário. Eles foram separados em dois grupos: o grupo de campo, que sairia para completar missões; e o grupo de apoio, que trabalhava dentro da sede e tinha a função de passar informações para o que estava fora.
No grupo de apoio, se encontravam a inteligente Cloe, como estrategista; Sacha, como vigia (o que era desnecessário, porque estavam numa fortaleza impenetrável, mas não acharam trabalho que ela pudesse se encaixar); Iris, que voltara-se a um papel burocrático e se recusava a deixar a sede, mesmo sendo a líder; e Kira, que era notavelmente boa com programas e chegara ao posto de programadora e mecânica oficial.
Crós fazia parte dos dois grupos, por ser um feiticeiro e um curandeiro nato. Era difícil conseguir arrancar um sorriso do seu rosto agora, mas Kit conseguia essa façanha. Ela tentava a todo custo ser uma boa aprendiz, e pegara a mesma mania de Pandora, sem saber: chamá-lo pelo segundo nome, Salem. Da primeira vez que o chamou, quase o fez chorar. Ele sentia um nó na garganta, mas sabia que ela não tinha culpa. Acabou por se acostumar, finalmente, e tornou-se comum, depois de uma poção dar errado e quase demolir a mansão, um grito estridente sair de sua boca: -Salem! Tá tentando me matar?
No grupo de campo, se juntavam Kem, como arrombador (tinha mostrado uma intensa habilidade nessa área, em todas as sessões de treino); Hiei, o piloto; e Mitaray e Kit, como batedores. Os dois se deram muito bem juntos, e sua amizade foi ficando incontestável.
Kit, por si mesma, dava sempre o seu melhor. Tinha uma missão difícil nos ombros, e um juramento feito, no mais alto terror daquela manhã fatídica quando encontrara a Equipe anterior morta: que nunca mais veria aquela tristeza e desilusão estampadas nos rostos das pessoas que gostava. Haradja teria o que merecia, cedo ou tarde. E ela queria estar na frente da operação quando isso acontecesse. Mas ainda era cedo pra isso. Só havia se passado um mês desde o incidente, e eles se preparavam pra sua primeira missão que, aliás, não tinha nada a ver com Haradja
Eles se preparavam para ir cumprir essa incumbência nesse instante. Entretanto, é preciso dizer que havia algumas pessoas velando por eles, de uma colina alta e coberta de uma grama verde quase cintilante, observando-os por meio de um lago minúsculo. Parece-lhe familiar, caro leitor?
UM MÊS ATRÁS;
CAMPOS DA MORTE — PASSAGEM DOS MORTOS:
Os seis abriram os olhos simultaneamente. Pela primeira vez em toda a sua existência, Pandora estava enxergando. A maravilha da situação seria completa se ela não tivesse a certeza de que não respirava mais. Fitou o parque onde se encontrava. A sua frente, havia o mar. Kit não o notara quando estivera por lá, dias antes. Talvez para ela não fosse importante. O espirito sorriu e olhou para trás. Foi quando o viu: Aaron. Estava um pouco mais pálido que seu normal, mas parecia inteiro. E também lançava olhares confusos a sua volta. Até seus olhos se encontrarem com os de Pandora. Ele a abraçou, e notou que podia sentir o corpo dela. Isso porque estavam no mesmo plano físico. Se ele tentasse tocar qualquer pessoa viva, com certeza a atravessaria. Me desculpe Pandora. Eu prometi
Era inevitável.
Ela vasculhou com os olhos a aparência dele. Era realmente irônico que, para concretizar seus sonhos, tivesse que morrer primeiro. Ficou nas pontas dos pés fazendo uma experiência simples. Beijou-o. E chegou a conclusão que os beijos desse lado eram tão bons quanto os do plano de lá. Os outros foram se reunindo. Dave e Taylor de mãos dadas, também estavam fascinados com o lugar. Dayana voltava a demonstrar sua hiperatividade, correndo para lá e para cá, testando as coisas, tocando as plantas. Fez menção de se dirigir ao mar, quando Taylor a segurou pela camisa fina que agora usava: -Quieta, Dayana. Estamos mortos. Nem assim você consegue sossegar?
Me desculpe. Acho que faz parte da minha essência.
Aaron se contentou em erguer uma sobrancelha. Pandora girou em volta de si mesma, antes de alegar: -Isso é certo. Mas onde nós estamos?
Tsc, tsc, tsc. A tal de Kit Black estava menos perdida quando chegou aqui do que vocês.
O grupo se desvirou e encarou um vulto de preto. Tirando o capuz que cobria seu rosto, replicou de modo descontraído: -Sou A Morte. Vocês estão na Passagem dos Mortos, os Campos da Morte.
Ah, isso explica muita coisa -Dayana comentou, andando em volta da Morte, como se estivesse avaliando-a. O que você é, exatamente?
Uma divindade pequena e capciosa. Ela segurou Dayana para que parasse de rodar ao seu redor e sorriu pela primeira vez: -Venham comigo, senhoras e senhores, tenho umas palavrinhas para trocar com vocês, e esse não é um bom lugar para isso. Aparecem espíritos a cada segundo
Ela os guiou até a mesma colina onde ficava o lago onde podia se ver o que ocorria no Mundo Real. Na metade do caminho, eles notaram uma bifurcação na trilha. Mais além, essa pequena trilha se dividia em duas: uma era formada por ladrilhos de mármore branco, e seguia para a direita. A outra era de obsidiana, e ia em direção a esquerda. Ao longe, podia se ver que ela enveredava por um caminho escuro e aterrador. No lugar onde as duas pistas se dividiam, havia uma plaquinha comum, de madeira, desgastada pelo tempo, onde estava escrito, numa caligrafia tombada: JULGAMENTO. VIRE À DIREITA PARA ATINGIR O CÉU. SIGA PELA ESQUERDA SE SEU DESTINO É O INFENO.
Sutil. Comentou Aaron.
Morte lhe lançou um olhar pelo canto do olho. As coisas por aqui são diretas. Não há meio termo normalmente. Mas existem exceções. Kit é uma delas, e vocês também.
Pandora pensou em argumentar, mas se distraiu olhando para as trilhas. Agora que prestara bem atenção, aquele local estava apinhado de espíritos, de todas as formas diferentes. Como não notara aquilo antes? Em frente a placa, um rapaz de branco mantinha seus olhos num grande pergaminho. A cada espirito que chegava até ele, o rapaz dava outra olhada no manuscrito e apontava para uma das trilhas. A quantidade de gente que seguia pela esquerda era realmente maior que a daqueles destinados ao Céu.
Eric parece estar atarefado hoje -A morte disse, fitando o rapaz ao longe.
Eles continuaram a subir, chegando ao topo da colina, e se reuniram em volta do lago. Morte cruzou os braços, enquanto olhava pensativa para o grupo de recém-mortos e fez um esgar.
O que eu faço com vocês?
O grupo se entreolhou. Como?
Vocês vão ter uma segunda chance. Assim como Kit teve. Porém, é impossível trazê-los de volta a vida no momento, pelo estado em que estão seus corpos.
Nossos corpos? Alguém perguntou.
Fiz questão de que vocês fossem impossibilitados de vê-los. Acreditem, não iam gostar. Não posso devolvê-los a vida, embora isso seja necessário.
Necessário?
Eu lhes disse, estão tendo uma segunda chance, estão sendo privilegiados. Mas seu privilégio terá de esperar. O que me deixa em uma situação delicada, pois, se tratando de reencarnações
Reencarnar? Vamos reencarnar?
De certa forma. Normalmente, um espirito precisa de uma preparação mental delicada, e isso leva anos para se conseguir. Os espíritos mais evoluídos podem levar 100 anos para voltar à vida na Terra. Então, não posso deixa-los com os outros. Seria complicado. Estou pensando em mantê-los comigo até a hora chegar.
Com você???
É, comigo. Observando o mundo lá em baixo, quando tenho tempo sobrando. Aprendendo. Embora seja inútil aprender algo, já que vamos apagar suas memórias quando vocês reencarnarem. Mas sempre fica algo importante gravado em seu espirito.
E quando voltaremos?
A morte franziu o cenho, fazendo as contas mentalmente. Depois, respondeu: -Entre 2 a 5 anos.
Até lá o mundo já acabou! Protestou Dayana. -Haradja está mais forte, Diamante não tem esse tempo
Você está subestimando as pessoas que ficaram, menina. Eu sei muito mais do futuro que aparento. E se Deus disse para manda-los daqui a 5 anos, com certeza haverá uma missão para vocês nessa época. E, acreditem, serão bem mais úteis daqui a 5 anos Confiem em mim.
O grupo se olhou pela enésima vez: -Não temos escolha, a não ser confiar.
Fiquem relaxados. Estarão juntos. O destino fará com que Dave e Taylor, e Pandora e Aaron, que não tiveram a oportunidade de estarem unidos, retomem sua relação, mesmo sem se lembrar do que houve antes. E Dayana -Ela lhe lançou um olhar significativo. Bem, você terá um papel mais importante do que pensa. Você será capaz de fazer bater um coração que, por muito tempo, não sabia o que é o Amor ou a Afeição.
Dayana deu de ombros, descrente. Se você diz
A Morte sorriu: -Vamos descer. Não posso deixar que vejam o mundo lá fora por enquanto, então é desnecessário que fiquemos aqui em cima.
Por que trouxe a gente pra cá então?
Porque é mais legal pra bater papo. Resmungou a entidade. Vamos, quero lhes apresentar alguém. E, aumentando o tom de voz ao extremo: -Eric?
O rapaz fez uma cara muito zangada ao olha-la descer a colina com a antiga Equipe Black atrás. Estou ocupado. O que você quer?
Quero que conheça nossos novos hospedes.
Sejam lá quem eles forem, não é da minha conta
Não seja tão antissocial
Qual a parte de estou ocupado você não entendeu, Morte?
Seriam os de 2 a 5 anos mais longos que Aaron, Pandora, Taylor, Dave e Dayana teriam de passar, em toda a sua existência.
DIAS ATUAIS;
SEDE/MANSÃO BLACK:
Um sertanejo universitário tocando no último furo fazia o vidro das janelas tremerem. Parecia que a mansão estava indo abaixo. O refrão ficava repetindo sem parar. Algo como: delicia, delicia, assim você me mata/ai, se eu te pego , o que faria qualquer roqueiro ter vontade de se suicidar caso fosse forçado a escutar.
Sacha! Desliga esse troço, não consigo me concentrar aqui -Protestou Kira, na saleta, tentando reprogramar o computador central, depois dele ter dado uma pane. Ao reparar que a ruiva ou não havia escutado, ou simplesmente estava ignorando-a, bufou e se dirigiu à sala principal, que ficava praticamente em frente. Notou Cloe sentada no sofá, com dois tampões de ouvido, resolvendo um sudoku difícil. Ela parou e levantou seus olhos, desligando-se da revista e arrancando os tampões:
Diz pra mim que conseguiu consertar o computador.
Kira negou com a cabeça: -É impossível, com esse som horrível dentro dos meus ouvidos.
A Iris não vai gostar disso
Ela ainda não voltou do Palácio de Granito?
Se já tivesse voltado, isso aqui estaria num silêncio.
Estaria um paraíso, você quer dizer.
Cloe deu de ombros: -Isso tem que parar, se você não consertar o computador, eu não posso me contatar com a Kit e os outros e não posso ajuda-los. Eu sou a estrategista, lembra?
Sei, sei, mas mesmo tendo um cérebro do tamanho de um T-Rex adulto, vai ser improvável que você consiga pensar em algo com essa distração
Distração é elogio Onde está o Crós?
No laboratório dele, preparando alguma poção escabrosa.
Sacha desceu as escadas, sacudindo o corpo no ritmo da música. Usava uma saia jeans curta e uma blusa xadrez, mesclando rosa-bebê e branco. O curto cabelo estava preso num micro rabo-de-cavalo, do qual algumas mechas escapavam. Parecia não estar prestando muita atenção a sua volta, pois quase tropeçou no sofá onde Cloe estava sentada.
Olha pra onde anda, amiga, ou vai dar de cara no chão. Alegou Cloe, segurando-a.
Ah, valeu
Se eu fosse você ia desligar esse som agora, antes que a Iris
A porta da frente se abriu com um estalo, deixando ver uma semifada estarrecida: -Por Ajax! Que som é esse?
Música. -Respondeu inocentemente Sacha.
Não pensei que a música do Mundo Real pudesse ser tão ruim.
Chama isso de música? Retrucou Kira.
Eu chamo de poluição sonora. Objetou Cloe, recolocando os tampões de ouvido.
O refrão continuava se repetindo. Iris já começava a ficar irritada. Ela cruzou a sala e subiu a escada. Quando chegou lá em cima, abriu a porta do próprio quarto, e quando ia se fechar lá dentro, chamou: -Sacha?
Sim?
VÁ OUVIR ISSO COM UM FONE DE OUVIDO OU EU VOU ENFIAR ESSE APARELHO DE SOM NOS SEUS OUVIDOS ATÉ ELE CHEGAR AO SEU CÉREBRO! Ela gritou, batendo a porta do quarto. Sacha correu a fim de desligar o rádio, antes que Iris resolvesse cumprir a ameaça. Kira voltou à sala do computador, seguida de perto por Cloe.
Vou tentar resolver isso o mais rápido possível. Assim você pode fazer seu trabalho.
Só espero que eles ainda estejam vivos quando você terminar.
A loira de olhos verdes deu um sorriso de escárnio e começou a teclar códigos e senhas no computador. Fica fria. Eles devem estar bem
Kit deveria saber que aquela não era uma boa ideia. Quer dizer, quando mandam você buscar escamas de dragão para uma poção de QUASE invulnerabilidade, e quando você tem que pegá-las de um dragão VIVO, cercado por seus parentes e que provavelmente vai querer devorá-lo inteiro, o mais inteligente a se fazer é negar. Mas Kit era uma boa aprendiz de feiticeiro, e como toda boa aprendiz não pensou duas vezes antes de resolver ir buscar o que seu mestre mandou. Na teoria era até fácil. Ir para Dragon, matar um dragão, arrancar as escamas e voltar. Simples.
Ela deveria ter aprendido que, quando se tratava de Crós, NADA era simples.
Dragões são criaturas fascinantes -Começou Mitaray, enquanto saia do jato mais amado (e utilizado) da Equipe Black. O Jato Fênix era o meio de transporte mais rápido e prático para ir a qualquer lugar, e todos usavam e abusavam dele quando tinham chance.
Fascinantes, com certeza. É fascinante como eles podem engolir a gente numa só bocada. Também é fascinante o jeito que eles têm de nos pisotear ou arrancar pedaços. Realmente, Mitaray, dragões são fascinantes. Hiei irônico como sempre, agora descia do jato, depois de abandonar a cadeira de piloto.
Mitaray o ignorou. Lançou os olhos cinzas a sua frente, avaliando o local. Tinham pousado nos limites de Dragon, onde não havia a ocorrência de dragões. Abriu um sorriso cínico. Vamos, Kit. Temos um local para analisar.
A garota meneou a cabeça. Vestia uma calça, blusa e uma capa, todas as peças de roupa vermelhas e manchadas de preto e marrom, de modo que poderia simplesmente se confundir com a paisagem vulcânica a sua volta se ficasse completamente parada. Como batedores, ela e Mitaray tinham a função de ir à frente e analisar a situação, antes que os outros pudessem seguir. Basicamente, num termo mais moderno, espionagem. O essencial seria que eles não fossem descobertos. Caso fossem, seria um tanto quanto Desastroso.
Na realidade, os quatro usavam de cores dos mesmos tons em suas roupas, tentando manter-se o mais sutis que fosse possível. Aquela situação já era bem desagradável sem ninguém morrer. Manteriam suas peles guardadas para bater de frente com Haradja.
Kit começava a achar que não era mesmo uma boa ideia. Salem não poderia simplesmente buscar escamas de dragão numa loja de feitiçaria qualquer? Deveria haver um lugar daqueles por lá. Diamante era tão grande e tão Fora do comum.
Tenho de aprender a dizer não para as pessoas. Ela resmungou consigo mesma, invocando sua forma felina.
Realmente, estamos aqui por sua causa Se virarmos desjejum de dragão, a culpa é toda sua. Alegou Hiei. Aparentemente ele não estava nada feliz com aquela missão.
Ela abaixou as orelhas de gato, exasperada. Minha culpa? Não fui eu que entrei no laboratório sem permissão e acabou derrubando uma garrafa com mais de um litro de poção de invulnerabilidade.
QUASE invulnerabilidade. Ele fez questão de frisar. E não fui só eu. Quem você acha que abriu a porta?
Kit lançou um olhar acusador para Kem. O rapaz estava mexendo em um notebook, tentando fazer contato com a Sede. Não contente com a conversa (e muito menos com o fato de ainda não estar conseguindo contatar nem a irmã nem Cloe), contestou em resposta: -Ele me obrigou. E, mudando de posição e de assunto, avisou: -Ainda não consegui contatar as garotas, mas posso receber informações de vocês dois.
Mitaray revirou os olhos: -Vamos logo, Kit, quanto mais cedo começarmos, mais cedo terminamos. E o humor dos dragões não deve ser melhor a noite do que de dia.
Ela não pareceu gostar da sugestão de piada, mas o acompanhou mesmo assim. Puxou o capuz de modo que cobrisse uma boa parte do rosto e escalou uma pequena escarpa, de modo que durante toda a expedição pudesse ficar uns bons metros acima de Mitaray. O fato de ter um instinto felino tornara quase desgostoso ficar muito tempo perto do chão.
Dragon era uma, como já foi dito anteriormente, cidade basicamente vulcânica. A terra que lhe servia de base era vermelha, e aglomerados gigantescos de obsidiana se formavam aqui e ali, principalmente nos vales, resultado de erupções constantes. Uma cordilheira de picos escarpados cor de sangue formava um semicírculo, cuja abertura era voltada para o continente. Qualquer embarcação que viesse do oceano encontraria um fim horrível, pois além do paredão intransponível, ainda teriam que ultrapassar um recife que percorria todo o mar ao longo da costa. No centro dessa fortaleza natural, montanhas menores se aglomeravam, formando algo como um ninho, onde se abriam buracos e grutas. Esse projeto de colmeia era conhecido em todo lugar como Berço das Chamas. Os dragões se amontoavam naquele lugar exatamente como abelhas, a serviço de um rei. E o rei tinha paciência zero quando se tratava de humanos.
Havia ainda aqueles que se mantinham longe do Berço de Chamas, que perambulavam ou guardavam a entrada da muralha, com um apetite mordaz e um grande desejo de devorar carne humana. Uns poucos saiam para caçar.
É fato que a maioria dos dragões não se alimenta de nada além de lava quente, para manter seu fogo queimando enquanto viver (e dragões tem vida muito longa), mas alguns experimentam carne, e nesse sentido provam do peixe ao ser humano, sem muita preocupação. Raros cuspidores de fogo ousam mais e mantem sua dieta a base de vegetais. A esses não existe lugar em Dragon. Lá não cresce nada, nem um musgo sequer. É uma terra estéril e infértil, cuja única coisa que prospera é o fogo.
Kit deixou-se escorregar numa encosta, se escondendo atrás de uma rocha qualquer, bem a tempo de evitar ser vista por uma coisa que, para ela, que vivera toda uma vida num Mundo Real, ainda parecia fantástica. Um dragão vermelho fogo atravessara seu caminho, voando. A garota se perguntava como aquelas asas, que pareciam tão frágeis, conseguiam suportar um peso tão grande. Decidiu que não era da sua conta. Olhou de esguelha para onde estava Mitaray. O rapaz permanecia tão imóvel que parecia parte da paisagem. Como ela queria ser tão boa assim
Certificou-se que o monstro já havia passado e fez sinal a Mitaray, que já a procurava, questionando se ela estava bem.
Essa foi por pouco -Ela comentou, pondo-se a subir novamente. Algumas pedras rolaram, e Kit acabou escorregando para dentro da pequena fresta mais uma vez.
Kit? Você está bem? A garota ouviu o amigo questionar, de onde estava. Ela tentou manter-se sempre acima dele, mas agora podia notar, pelo angulo de onde vinha a voz, que Mitaray estava num nível acima dela. Xingou uma imprecaução para si mesma. Detestava ficar presa. Estou.
Consegue sair?
Ah Talvez. Chegou para trás, sem ver um novo fosso que se abria ali. Mas pedras rolaram, e dessa vez ela literalmente caiu. Tentou se segurar em uma rocha, que se soltou ao seu toque. Tentou cravar as garras no chão, sem muito resultado. Só caía, sem nada para deter a queda. Por um instante, pensou que ia encontrar Dona Morte mais cedo do que imaginava. Foi salva desse destino por uma pontuda reentrância, que viu surgir na montanha a frente daquela por onde deslizava.
Pense como um gato, Kit.
Mais uma vez aquela voz Mas ela não tinha tempo pra bater papo consigo mesma dessa vez. Pense como um gato, Kit. Era isso que ela era, em parte
Ela saltou, impulsionando-se com as pernas e usando a própria encosta como base. Por milésimos de segundos ficou suspensa no vazio, e suas grandes garras se cravaram na reentrância. Agora, finalmente, tinha conseguido se firmar. Jogou o peso do corpo para cima, e entrou no buraco. Ia se lembrar de nunca mais voltar àquele lugar. Respirou fundo. Tirando as costas cheias de arranhões e a roupa, agora em farrapos, estava se sentindo bem.
Foi quando notou que, dentro da reentrância, havia coisas estranhas: ovos maiores do que qualquer outro que já tinha visto, com uma casca que parecia ser feita de escamas, e sobre o fogo. Sim, sobre o fogo, embora ela não soubesse como aquilo tinha ido parar ali, ou imaginasse quem estaria a fim de comer omelete por aquelas bandas. Apenas um estava inteiro. Os outros tinham sido destruídos. Pelas coisas que tinham dentro ou por algum fator externo, ela não sabia ao certo.
Sua calda estalou como chicote, inconscientemente. Não estava gostando daquilo. Um crack medonho fez eco na pequena caverna. O ovo estava rachando
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