Kiss it all better
1 Prólogo
Notas iniciais
Minhas mãos doem, mas eu não resisto. É quase um alivio poder descontar o ódio que sinto. Imaginar que aquele saco de areia vermelho é uma pessoa se torna fácil quando ela virou a fonte de todos os problemas da minha vida. É tudo culpa daquela desgraçada, sempre foi.
Caio de joelhos, meu corpo não aguenta, e lágrimas escorrem pelo meu rosto, toda a dor de uma vida se derramando de uma vez. Todas aquelas pessoas, como pude causar tanta destruição? Penso como minha vida é vazia e sem sentido, como eu exterminei todo o amor que tinha e como a desgraçada me arrancou de uma vida pra me tornar só mais um número em meio aos seus milhares.
“Devia se orgulhar do que te tornei”, ela diz, “devia me agradecer por te tirar daquela vida medíocre”.
Uma vida medíocre não carrega tamanha dor e culpa como a que carrego, mas já está tudo feito, não há como escapar de meu destino agora, não quando se é a “especial”. Odeio essa palavra.
Levanto e caminho pela casa, tão grande e tão solitária, deve ter um pedaço de frango frito na geladeira ainda, estava muito bom ontem, crocante com aquele molho do restaurante e, maldição, será que eu vi alguém na sala? Volto e paro na haste da porta, eu já devia saber quem era, a desgraçada.
— E então? Vai falar algo ou veio só pra fazer parte da decoração? – ela ergue os olhos pra mim de forma repreensiva, eu poderia jogar uma faca e acertar o olho dela.
— Só vim informar que você tem uma última missão como Cinco – não, ela conseguiria desviar, talvez eu possa imobiliza-la e torcer seu pescoço – passei todas as informações para seu tablete, depois de concluir a missão não precisará se preocupar mais, logo será promovida a Sete.
Mas ela é melhor que eu em força, a aparência de velha é só um disfarce, talvez quando ela estiver saindo eu possa apunhalar ela pelas costas. Ela revira os olhos e começa a estalar os dedos pra mim.
— Devia tentar parar de pensar em formas de me matar e se concentrar no que estou falando – ela tem razão, eu estou a encarando desde que começou a falar, era obvio que estava pensando em como mata-la – logo sairei da sua vida, não precisará me ver todo dia mais.
— Te ver uma vez por ano ainda não me deixa feliz – respondo.
— E o que te deixaria feliz? – fala como se não soubesse, ela se levanta e ajeita o blazer cinza, aquela roupa a faz parecer uma senhora milionária de 50 anos, se as pessoas soubessem quantos anos aquela velha coró tem de verdade sentiriam nojo.
— Sua morte, talvez – retruco enquanto olho para minhas unhas com desdém, elas estão precisando de uma manicure mesmo, a velha lança o olhar de repreensão de novo, odeio aquele olhar, ela não é minha mãe para agir daquele jeito.
— Segure essa língua, Cinco, posso permitir que solte a sua raiva quando estamos sozinhas, mas não tolero falas desse tipo.
— Você é que sabe, então, quem tenho que tirar do caminho dessa vez? – caminho até o tablet e o pego, vendo as informações.
— Só mais um rico mimado, você dá conta do serviço – agora ela já esta na porta, prestes a sair.
— E que dia serei promovida?
— Como um presente que estou dando a você, será no dia do seu aniversário – que presente de merda, agora em todos os meus aniversários iriei me lembrar do monstro que me tornei.
— Ah, que emocionante – falo olhando pro tablet, minha animação é igual à de alguém que vai a um enterro, ou seja, nenhuma – Mas, Sete, tem algo errado aqui, estou procurando o solicitante do contrato e aqui diz que não tem! Como pode?
— Porque fui eu que pedi. Não me desaponte Cinco, seu futuro depende disso – ela fecha a porta, estou, enfim, sozinha.
Mas para que isso? O que ela ganharia? Não tem dinheiro envolvido, ela só quer me testar! Velha coró desgraçada, sempre fazendo joguinhos, e eu sempre como um dos peões, seria ilusão minha acreditar que depois de tomar o cargo dela finalmente ficaria em paz, ela vai estar sempre ali, atrás das cortinas – como sempre esteve.
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