Kiss With a Fist
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Em cada rosto das pessoas presentes, uma expressão de choque estava estampada, sobretudo naqueles que já conheciam Emma Swan. No olhar de alguns também havia raiva, cinismo ou indignação. "A princesa pária." "A princesa que se renegou a cuidar de seu povo." Ou pelo menos eram essas as frases ditas pelos corredores do Parlamento, pelas tavernas lotadas das cidades e pelos becos sujos de Petroia. Midas foi o primeiro a cumprimentá-la, mas ganhou apenas indiferença em retorno. Emma não fazia questão em ser educada, por mais que George tenha ensinado a ela o contrário. Ninguém esperava por sua presença, mesmo que naquela situação fosse totalmente compreensível, e previsível, que ela retornasse para casa.
Regina não conteve sua repulsa em vê-la, mas era prudente que se mantivesse impassível. Embora ela tivesse que lidar com a tristeza do luto, não era muito elegante para uma duquesa se portar de forma tão descontrolada em público. Os conflitos com a princesa não eram recentes. Robin, quando vivo, sempre estimulou uma boa relação entre esposa e a irmã. Todavia, Regina se recusava a dar o braço a torcer e pedir desculpas por todos os confrontos travados em encontros familiares. Ela não gostava de Emma e Emma não gostava dela. Simples assim. Eram como água e óleo, que não se misturam.
Emma desviou seu caminho para receber os abraços e consolos dos poucos amigos que ainda lhe restavam. Amigos esses que ela não via há algum tempo, mas jamais lhe deram as costas. De longe, os herdeiros Swan observavam a irmã, preocupados com o que viria a seguir. Talvez Killian ainda sorrisse, mas era difícil dizer se pelas doses de conhaque ou pela ansiedade em ver o rei se reencontrar com a própria filha. No entanto, mesmo que sua indiferença fosse visível, Regina internamente notava Emma. E o que ela via, talvez a preocupasse um pouco. Emma estava muito diferente, abatida e quase irreconhecível desde a última vez em que se encontraram, há quase quatro anos.
Seus cabelos dourados, que antes eram bem curtos, agora estavam soltos, longos e rebeldes com ondulações nas pontas. Ela era da altura de David, e isso apenas evidenciava a magreza, que parecia exagerada e doentia. Os músculos estavam marcados por uma camisa preta, com gola alta e mangas compridas. Usava botas de cano alto, calças escuras de couro e carregava um casaco vermelho numa das mãos. Seu caminhar era duro, mas ao mesmo tempo, elegante e ritmado. Era como se estivesse em câmera lenta, mesmo percorrendo todo o jardim em poucos minutos. O suficiente para chamar a atenção das pessoas e principalmente de George, que retorceu o rosto numa expressão de desagrado. Não queria lidar com Emma, principalmente numa situação tão delicada como aquela.
Mesmo emocionada e sem conseguir prestar atenção em muita coisa, Regina não deixava de reparar no rosto da cunhada. Era delicado, mas que exalava também certa selvageria. No entanto, o que com certeza chamava mais a atenção eram seus olhos. Emma possuía uma beleza única, que Regina se lembrava de ouvir nos mitos relacionados a um herói petroiano. Ele, assim como a princesa, nasceu com uma anomalia genética, que os Ancestrais diziam ser a marca dos Deuses. Seus olhos eram de cores diferentes, o que os cientistas chamavam de heterocromia. Enquanto o direito era castanho claro como o tronco de uma árvore, o esquerdo era verde escuro como as folhas. Uma combinação peculiar e perfeita.
A princesa se aproximou com passos cautelosos, mas sem abandonar a postura desafiadora. Parecia séria demais para a situação. Na verdade, Regina tinha a impressão que a cunhada demonstrava uma frieza absurda para quem estava de luto. Seu olhar se alternava entre os outros dois irmãos. No entanto, sua expressão era praticamente indecifrável e indiferente. Isso desagradava a duquesa. Era como se Emma não sentisse nada com a perda de Robin. Como se para ela não importasse, ou sequer agisse como quem está numa cerimônia fúnebre.
Regina não se deixou afetar por aquela presença indesejável. Considerou que fosse melhor esperar pelo jantar escondida em algum lugar daquela mansão, ou do jardim. Seria desgostoso se continuasse recebendo as condolências de pessoas que ela nem conhecia, ou simplesmente tinha algum atrito político. Regina caminhou em direção a extremidade oposta à Emma. Não olhou para traz e nem fez menção de mudar de ideia. Lidaria com a cunhada num outro momento, mas rezava para que ela fosse embora tão rápido quanto da última vez em que esteve ali.
***
— Mãe? — Emma sussurrou assim que se aproximou da cama, onde Ingrid estava deitada.
Não precisou de muito tempo para ver a quão devastada a rainha se encontrava. Em volta de seus olhos fechados eram perceptíveis círculos escuros, que com certeza eram resultados do estresse e das noites mal dormidas. Emma desembaraçou os cabelos loiros da mãe com os dedos. Compreendia o luto, mas não apreciava nem um pouco o estado emocional dela. Vê-la tão frágil daquela forma trazia angústia ao seu coração. É verdade que a morte não queria dizer o fim, mas como julgar uma mãe por chorar a ausência do filho?
— Emma? — Ingrid murmurou, se remexendo com dificuldade. Nem deitada ela parecia confortável. — Emma! — arregalou os olhos azuis e eles voltaram a se encher de lágrimas. Seu rosto bastante inchado devido ao choro anterior.
A princesa não hesitou em abrir os braços para aconchegar a mãe, na tentativa inútil de acalmá-la. Percebeu então que ela estava mais magra, e constatou que o luto não era longo o suficiente para aquilo. Robin tinha morrido há três dias, Ingrid demonstrava sofrer há mais tempo. No entanto, Emma deixou suas próprias desconfianças para depois. Passaram minutos ali sentadas e abraçadas, num aperto quase sufocante, mas Ingrid não reclamava. Ela queria aproveitar a presença da filha, que estava ausente nos últimos meses.
— Quando chegou? — a rainha continuou agarrada à jaqueta vermelha tão conhecida.
— Hoje de manhã, mas só agora consegui vir para o palácio.
— Foi ao cemitério? — Sentiu o corpo da filha enrijecer com a pergunta.
— Sim — agradeceu por Ingrid não poder ver seu rosto naquele momento. Não queria demonstrar o desagrado que deixava um gosto amargo em sua boca. Perder a cremação de Robin era inadmissível, mas estava emocionada demais para encarar seus pais durante todo o processo. – O jantar será servido para todas essas pessoas?
— Apenas Sidney e sua família — explicou ao se afastar delicadamente do abraço. — Talvez Midas seja convidado. Você vai ficar, não é?
Emma desviou o olhar para suas próprias mãos. Não suportaria lidar com a súplica na expressão do rosto e na voz da rainha. Como explicar que não poderia ficar um segundo a mais no mesmo ambiente que Regina? Que a presença de George também a deixa nervosa e incomodada? Ingrid a conhecia melhor do ninguém, mas ela acreditava que existiam segredos pessoais, dos quais nem mesmo sua mãe podia desconfiar. Ninguém devia saber, de qualquer forma. O melhor era guarda-los num cofre interno e mantê-los inacessíveis para sempre. O cortejo fúnebre de Robin não mudaria isso e nem o passado.
— Penso que é melhor voltar para o hotel onde eu estou hospedada.
— Emma, não há necessidade de fugir do seu pai. — Bufou, quase irritada com a filha, caso houvesse espaço dentro de si para outro sentimento que não fosse melancolia. — Aqui também é minha casa e eu solicito sua presença.
— Mas...
— Não tem discussão! — aumentou o tom de voz, ciente de que a princesa não contrariaria sua ordem. — Essa situação já está insustentável. Eu perdi um filho, uma parte de mim. Não perderei você também.
A mais nova estalou a língua, quase numa birra infantil. Porém, não tinha mais o que fazer. Sempre respeitaria as vontades de sua mãe, sobretudo porque Ingrid dificilmente exercia sua autoridade para conseguir alguma coisa. Se ela o fazia agora, era porque o momento pedia por aquilo. Restava a Emma apenas aceitar. Ainda insatisfeita, disse para a rainha que precisava ir ao banheiro. Tinha que sair dali, não por motivos fisiológicos, mas porque de repente se sentiu totalmente sufocada. E ela sabia que aquela sensação duraria pelo restante da noite, quiçá de pelo restante de toda a sua breve visita à capital.
***
George se serviu com mais uma dose de conhaque. Tinha consciência de que não podia exagerar, mas quem o repreenderia agora? Seu médico ausente? Seu filho morto? Um sorriso mórbido cresceu em seus lábios. Não podia negar que algo para tirá-lo do sério, quem sabe uma discussão com algum adversário político, talvez fosse o que necessitasse para aplacar sua dor. Hoje, especialmente hoje não via razão para se manter íntegro e contido. Teria todas as desculpas do mundo para perder a cabeça por algumas horas. Porém, ninguém o tinha provocado. Bem, até aquele momento. Porque já não conseguia ignorar que aquela garota petulante estava ali. Não mais tão jovem quanto quando foi embora há quase doze anos.
— Nós precisamos de você para liberar o serviço da cozinha. – Sidney o tirou de seus devaneios. – Posso avisá-los que deu a hora?
— Todos os outros já foram embora?
— Sim. Consegui despachar os abutres.
— Até quando vão rondar a carniça? – respirou fundo e se virou para o amigo de longa data e braço direito. – Cadê meus filhos?
— Na sala de jogos. Acho que teremos problemas se Killian continuar bebendo. — Revirou os olhos escuros. Mesmo conhecendo os príncipes como seus próprios filhos, sempre achou que Ingrid os mimou demais.
— Alexis sumiu durante todo o tempo em que estamos aqui. — George pareceu verdadeiramente preocupado. — Será que ela ainda está por perto?
— Já mandei procurá-la. Parece que a encontraram próxima à piscina.
— Bêbada?
— Não. — Os dois respiraram aliviados. — Mas bastante abalada.
— Muito bem. Vamos então.
O rei trouxe sua bengala e a segurou próxima a lateral do corpo. Não se apoiava nela, mas a usava como um acessório. Era um costume remoto dos nobres, que George mantinha por pura conveniência cultural. Mesmo que nas últimas semanas sentisse que ela deixaria de ser apenas moda, e passaria a ter uma função dali para frente.
***
A duquesa adentrou à mansão, pois, Sean — o mordomo de olhar penetrante e postura altiva — anunciou o jantar para os convidados restantes. Ela sabia que logo estaria em seu apartamento, onde tomaria um banho quente e um calmante na expectativa de dormir o sono dos justos. Viu suas concunhadas no corredor principal, um pouco reclusas num canto, onde conversam em sussurros. Porém, não foram as amigas que despertaram sua curiosidade, mas sim uma figura atrás delas. Do outro lado do corredor, Emma a encarou diretamente. Regina não fazia ideia de como reagir, pois, a cena que viu mais cedo veio como jato em sua mente.
Estava indo ao banheiro, mais cedo, e assim que entrou no corredor que o acessava, uma voz chamou sua atenção. Num dos quartos dispostos no primeiro andar, a porta entreaberta dava uma visão direta da cama. Ali a princesa chamava pela mãe, que logo acordou e elas se abraçaram. Não era a primeira vez que Regina via a troca de afeto entre as duas, afinal não era segredo para ninguém que Emma sempre foi bastante próxima da rainha. Talvez, na visão da duquesa, a princesa fosse a favorita entre os cinco. Todas as mães tinham um e seria inútil negar isso. No entanto, diferente das outras vezes, Emma parecia muito mais emocionada e carinhosa do que demonstrava em qualquer ocasião.
Então, como uma criança prestes a fazer uma travessura, Regina se escondeu no cômodo mais próximo assim quando percebeu que a princesa saía do quarto sozinha. Emma se apoiou na parede bege do corredor, se segurando numa prateleira, que pela força exercida pela loira iria cair a qualquer momento. Ainda surpresa, Regina se aproximou tentando não fazer nenhum barulho, mas seus passos firmes e o salto alto do sapato fizeram ranger o piso de madeira. Quando Emma ergueu sua cabeça e se virou, a morena se amaldiçoou pela força exagerada exercida contra o chão, mas sua atenção se voltou para outro detalhe. Um detalhe muito mais importante e inesperado. Pela primeira vez em todos os anos em que se conheciam, Regina viu a cunhada chorar.
***
A lembrança recente se dissipou e Regina sentiu mais uma vez o olhar observador de Emma. Aquilo causou uma onda de calor por todo seu corpo. Malditas cores vivas e absurdamente harmoniosas nos olhos daquele rosto avermelhado pelo choro. Ela sabia que Emma tinha disfarçado como podia seu breve momento de vulnerabilidade. Talvez para alguns isso funcionou, mas não para ela. Pois a imagem de Emma tão frágil não saía de sua cabeça nem por um segundo. Regina se retirou até a sala de jantar, para onde a princesa não aparentava se dirigir. Emma não ficaria, então?
Sentaram-se quase todos à mesa ao mesmo tempo, enquanto alguns funcionários serviam os pratos principais. O silêncio perdurou por longos minutos e através da expressão arrasada de várias pessoas, a duquesa notou uma em especial que a deu ânsia. Midas não tinha ido embora, afinal. Claro que, por não o suportar, naturalmente ela desejou que ele fosse. George teria o direito de dispensar o homem, especialmente porque segundo as regras, apenas os que constavam no testamento poderiam participar. Regina se recordou imediatamente que Robin sempre tentou um contato amistoso com o primeiro-ministro, mesmo com o histórico que envolvia o clã Nolan e o clã Swan.
Midas sempre foi um homem ganancioso, conservador e que buscava poder acima de todas as coisas. Regina o conhecia devido à convivência de sua família com a dele, além de ser prima distante de sua filha, Kathryn Nolan. Não simpatizava muito com a garota, porém se encontravam esporadicamente para sair e colocar o assunto em dia. Um hábito comum dos petroianos, em virtude de alimentarem o bom relacionamento familiar. Graças aos Deuses, Kathryn não estava ali, pois trabalhava no Storybrooke Medical Center como neurocirurgiã. Sua prima e David chegaram a ter um breve relacionamento, mas isso foi antes que Regina apresentasse Mary para o cunhado. Inclusive, quando o fez, ela criou um desconforto entre seu clã e o de Midas, mas pouco se importou com o fato, considerando que David já estava solteiro na época.
O problema é que Midas não demonstrava um pingo de tristeza pela morte de Robin. O cargo de primeiro-ministro era praticamente vitalício, mas estava sujeito a mudanças. Robin poderia nomear outro para a função, seguido do voto popular, por isso Midas sempre o bajulava. Atitude essa que a duquesa repudiava em qualquer pessoa. Regina nunca foi uma mulher de falsos sorrisos e conversas interesseiras. Sempre bastante sincera com seus sentimentos buscava demonstrar, quando necessário, sua verdadeira opinião sobre as coisas e as pessoas. Não gostava de Midas, sobretudo quando o mesmo forçava assuntos políticos e comerciais durante seus encontros, como o fazia naquela altura do jantar, deixando a todos visivelmente desconfortáveis.
— Eu temo que não seja o momento, mas devemos discutir sobre as propostas do rei de Barbacenas. — Midas comentou, enquanto se deliciava com a carne de cordeiro assado. — Até porque estamos entre os íntimos agora para discutir tais coisas, e ele espera por uma resposta há semanas.
— A inconveniência é uma característica deselegante para aqueles que governam, senhor Nolan. — Killian respondeu rapidamente com um sorriso sarcástico. Também odiava o primeiro-ministro e fez questão de citar uma frase que sempre ouviu de George na juventude.
— O reino chora e se encontra desolado no momento. Não é em vão que as atividades estão suspensas pelos próximos sete dias. — Maleficent, irmã mais nova de Ingrid, pontuou. — Você deveria respeitar isso, primeiro-ministro.
— Oh, não foi minha intenção. Desculpe se...
— Desculpe se você só sabe falar merda? — Emma surgiu atrás da cadeira do irmão, onde pegou a garrafa de uísque da mesa e serviu uma dose no copo que carregava. — Caramba, eu passei doze anos fora e você continua o mesmo.
— Emma! — David repreendeu.
— O que? — Deu de ombros e se sentou ao lado direito de Killian e ao lado esquerdo de Alexis, o único espaço vago à mesa e distante propositalmente de Regina.
— Você não faz diferente ao se portar dessa maneira. Acabamos de cremar Robin.
— Ora, então comigo a cobrança é mais rígida. — Seu tom indicou uma falsa ofensa, mas sua expressão denotava divertimento. — Quem diria, você soa exatamente como nosso querido rei.
— Já chega! — George sentenciou e se dirigiu à filha com rudeza. — Não quero escutar nada, nem mais uma palavra que não seja o necessário. Principalmente vindo da sua boca, Emma.
Regina soltou o ar aliviada. Sua cabeça doía e aquele clima apenas piorava a situação, ou melhor, a presença da princesa fazia isso. Emma a irritava profundamente à medida que o jantar chegava ao fim, especialmente porque mantinha sua expressão cínica direcionada à Midas ou ao próprio pai. Killian e ela cochichavam o tempo todo, sob o olhar rígido de George. Mas a princesa foi a única que não encostou na comida. Os poucos momentos em que Emma não estava insuportável eram quando ela comentava algo com Alexis. Pareciam ser dar bem, embora a mais nova fosse muito pequena quando Emma saiu de Storybrooke.
A advogada agradeceu mentalmente pelo comentário da irmã de sua sogra. Maleficent era mais nova do que a rainha, mas possuía um semblante muito sério, deixando-a com ar de mais maturidade. O cabelo loiro, a pele clara e os olhos azul-escuros esbanjavam sua beleza. Sempre usando roupas elegantes e com um sorriso marcante, que resultava num ar de sensualidade e mistério bastante chamativos. Maleficent relava muito de seu charme, mas quase nada de sua personalidade. Regina se sentia estranhamente confortável ao seu lado. Concordavam em diversos assuntos, tinham o mesmo gosto para quase todas as coisas. E por muitas vezes, caíam num flerte mútuo, inocente e agradável. Além disso, ela era única com quem Regina possuía mais intimidade para conversar, que não fosse Mary Margaret ou Tinker.
Após o breve momento conflituoso, ninguém mais ousou tocar em algum outro assunto polêmico. Na sala de visitas, onde algumas bebidas estavam disponíveis, os convidados se acomodaram. Sidney, George e Midas conversavam sobre qualquer coisa importante e se encontravam mais afastados, em pé perto da janela. Ingrid sentou-se num sofá no canto da sala. Agora deixava algumas lágrimas escorrerem novamente, mesmo um pouco mais calma do que horas antes. Losva Glass — esposa de Sidney —, e Maleficent tentavam consolar a rainha conversando aleatoriamente sobre plantas. Sabiam que ela se distraía com um dos seus assuntos favoritos. Alexis, que não escondia sua insatisfação em passar por todos aqueles eventos, já tinha se retirado dizendo que iria dormir.
O restante estava próximo à lareira. Regina e Tinker ocupavam duas poltronas feitas de madeira e assentos de veludo vermelho, enquanto David ficava numa terceira com Mary sentada em seu colo. Estavam abatidos não só pelo recente acontecimento, mas também pelo cansaço físico e mental. Não dormiam desde o dia anterior, quando corpo de Robin foi finalmente liberado para todas as cerimônias fúnebres. Por conta do desequilíbrio emocional do casal real, o rapaz — como o bom filho mais velho que era — tomou conta de tudo, dizendo que assumiria alguns assuntos familiares até que George se recuperasse.
David e Mary experimentavam a sensação de serem pais pela primeira vez. Seu filho Owen, que já estava com um ano e meio, era o mais novo membro querido da família. Estava naquela semana sob os cuidados temporários dos avós maternos, pois o ambiente não era propício para crianças. Muito embora a morte fosse um assunto recorrente na educação petroiana desde os primeiros anos de vida de alguém. Mesmo assim, a atenção que um garotinho exigia deixava as coisas ainda mais tensas num contexto delicado como aquele. David temia não saber lidar com o filho, porque as angústias relacionadas ao reino o assolavam e ele precisava cuidar de sua cooperativa. Mary, por outro lado, sabia que era seu dever se recuperar de seu próprio luto muito cedo, cuidando para que assim Owen não sentisse tanto o clima pesado dali para frente.
— Eu não acredito que meu pai a tratou daquela maneira no jantar. — Killian comentou com um semblante irritado. Estava em pé, com o braço apoiado na lareira e segurando um copo de uísque na mão esquerda.
— Não podíamos esperar que fosse diferente. Essa briga entre os dois, eu desconfio que jamais terá um fim. — David respondeu o irmão. Até mesmo ele parecia saturado daquele conflito.
— É uma pena. Eu conheço Emma e sei que ela tem um bom coração. — Mary sempre via o lado positivo das pessoas. Prezava por admirar as qualidades, tentando compreender e aceitar os defeitos. Talvez sua ingenuidade natural ajudasse nisso.
— Pena que os jornais insistem em dizer ao contrário. — Tinker rebateu, mesmo querendo não contrariar o noivo já bêbado.
— Não passam de mentiras e intrigas. Todos sabem que a imprensa está vendida para a oposição, aqueles que querem ver o reinado de nosso clã ruir. — Seu tom carregava a mágoa que ressentia com a imagem que criavam de sua irmã. — Já tem nove anos que ela não coloca os pés em Storybrooke. Sua recusa em voltar para casa é tanta, que Robin foi obrigado a mudar a localização do casamento. Até mesmo David e eu resolvemos passar alguns dias com ela em outro lugar. Mas agora ela está aqui, ela veio porque nosso irmão está morto. Não me conformo que não deem a ela um minuto de descanso, nem para passar por seu luto...
— Espera. — A duquesa interrompeu, pois, sua curiosidade inata falava mais alto do que o ranço que tinha da cunhada. — Foi por isso que ele mudou o local não só da festa, mas também da cerimônia?
— Você não sabia disso?
— Não. — Balançou a cabeça negativamente, enquanto bebia vinho do copo que estava entre suas mãos. Esse era um detalhe que discutiram pouco na época, pois Regina não queria contrariar o noivo. Não fazia questão de escolher quase nada da sua festa de casamento, pois não apreciava tais cerimônias. – O motivo que ele me deu foi outro.
— Nossa, parabéns capitão. — Tinker repreendeu o noivo, dando um tapa em sua perna. — Você e sua boca grande.
— Ai! Como eu poderia imaginar? — indagou com uma careta de dor ao massagear o local.
Os outros três deram pequenos sorrisos com a interação do casal. Apesar do luto e da tristeza que sentiam, era bom ver que cada um tentava superar a perda da forma que os convinha. Killian e Tinker não perdiam o alto astral, já David e Mary optavam por transmitir todo o apoio e carinho aos demais, principalmente para George e Ingrid. A duquesa também tinha seus próprios mecanismos de defesa. Na maior parte do tempo se mantinha reservada, guardando para si seus sentimentos. No entanto, quanto mais vivia momentos dolorosos como aquele, mais distante das outras pessoas ela se tornava.
O grupo continuou conversando por mais algum tempo, embora a ausência de Emma após o jantar deixasse Regina curiosa. Logo os convidados se despediram. Sidney e sua esposa foram os primeiros a irem embora. Pediram desculpas por seus filhos não comparecerem, afinal ambos moravam no exterior. Já Midas atrasava sua ida ao máximo que podia. Com palavras bajuladoras e falsas, ele buscava estender o assunto e demonstrar uma lamentação que claramente não existia. Regina sabia que o primeiro-ministro não era capaz de sentir tanta empatia assim. Infelizmente, ela teve algumas experiências nada agradáveis com ele num passado recente. Finalmente o homem se vai sobrando apenas a família real.
Maleficent dormiria ali. Regina e ela trocaram poucas palavras, combinando de saírem para um café. Afinal, já tinha algum tempo que não conversavam sobre qualquer coisa. Ingrid e a irmã subiram as escadas, que levavam aos quartos mais reservados. Eram quatorze no total, fora os outros dois escritórios que serviam para depósito de quadros e esculturas. A rainha era bastante ligada à arte e fazia questão de deixar isso claro na decoração de seus imóveis.
George permaneceu ali, além das noras e dos filhos. No entanto, o rei estava distante e quieto demais. Era o quinto copo com conhaque puro que bebia. Claramente tinha uma forte resistência ao álcool, mas a morena são sabia dizer até quando ele se manteria sóbrio. Mary e Rose se despediram de seus parceiros, cada uma com um beijo casto. Ambos foram ao encontro do pai e os três se dirigiram ao escritório. Eles perceberam que o mais velho estava precisando de outro tipo de apoio. Para a política do reino, a morte de Robin não trazia apenas tristeza.
— Por que não passa a noite aqui, Gina? — ofereceu Tinker, chamando a outra pelo apelido que Robin costumava usar, sendo logo apropriado pelo restante da família e amigos.
— Amanhã temos que comparecer ao almoço, mesmo abalada Ingrid não dispensou nossa companhia. — Mary alertou.
— Prefiro ir para o apartamento, meninas. Agradeço pelo convite. Estarei aqui no horário combinado, não se preocupem. Eu só preciso de um... Tempo. — Comprimiu os lábios, pois não precisava dizer muito.
As outras mulheres compreenderam imediatamente. Era uma confissão indireta, onde a duquesa demonstrava que preferia remoer suas dores sozinha. Elas sabiam que não era do feitio de Regina lamentar pelos cantos e fazer performances dramáticas dignas de obras teatrais. Na verdade, todos mais próximos entendiam como a morena funcionava e respeitavam seu espaço pessoal. Mesmo que para a maioria dos desconhecidos, ela passasse a ideia errônea de uma frieza que não possuía.
Regina despediu-se das concunhadas e saiu do palácio. Sean já a esperava com seu casaco em mãos. A morena o agradeceu, ele era mesmo um homem gentil sem ser forçado. Não fazia isso porque seu trabalho exigia, mas porque era naturalmente bem educado. Com um pouco de frio, Regina caminhou até o carro. Um modelo clássico preto, que tinha há muitos anos. Gostava bastante de automóveis, principalmente os carros. Preferência que aprendeu com o pai e dividia também com a irmã. Quase amaldiçoou o motorista, que ao trazer seu carro para que ela não precisasse chama-lo tarde da noite, acabou por deixar o veículo longe demais do estacionamento.
Abriu a porta do carro, quando um barulho chamou sua atenção. Alguém estava na quadra poliesportiva, que se ficava do outro lado do jardim. Regina estranhou, pois já era tarde da noite. Aproximou-se da quadra com receio. Qualquer coisa gritaria pelos seguranças. Alguns ficavam à espreita durante a madrugada, tomando conta do palácio. Afinal, George ganhou alguns inimigos em seu longo reinado. Para a surpresa de Regina e até mesmo confusão, quem estava ali não era quem ela imaginou.
Emma segurava um taco de bete, uma espécie de bastão de madeira achatado. Do lado oposto ao dela tinha uma máquina, que lançava bolas amarelas e pequenas em sua direção. Pela iluminação forte da quadra e da distância em que estavam uma da outra, Regina viu uma garrafa de uísque no chão ao lado da loira. O líquido quase pela metade. Os movimentos dela estavam um pouco atrasados, mas bastante precisos. Indicavam seu estado ébrio, ainda que consciente. Mesmo assim, ela jogava bem. No entanto, havia alguma coisa incômoda que a fazia passar a mão nos cabelos dourados, repuxando-os e bagunçando-os cada vez mais. A duquesa deu alguns passos em sua direção.
Não entendia como a loira não estava com frio. Emma usava uma camisa longa branca, com o nome Misthaven escrito em letras garrafais e vermelhas e as mangas curtas. Aparentemente era o uniforme do maior time de tacobol do reino. Na cabeça um boné preto com a aba reta virada para trás e para completar, calças jeans escuras e um tênis da mesma cor. Tinha uma jaqueta vermelha de couro jogada numa pequena arquibancada, a mesma que ela vestia mais cedo. Ela tinha trocado de roupas em algum momento após o jantar. Suas tatuagens estavam à mostra e subiam do pulso esquerdo até o cotovelo, adentrando pela camisa. Além de uma pequena no pescoço, que Regina reparou quando Emma se movimentou de lado. Eram desenhos realmente muito bonitos e combinavam com seu estilo despojado. Um dos aspectos que Regina, inconscientemente, mais admirava no corpo atlético de sua cunhada.
— Vai continuar aí parada me olhando por quanto tempo? — Foi pega de surpresa com a pergunta da loira, que tomava um gole direto da garrafa e largava o taco de bete no chão.
— Não estava te observando, Swan. — Revidou e empinou o queixo. Não suportava aquele tom petulante bastante conhecido. — Apenas vim verificar quem era a pessoa insana que usava a quadra uma hora dessas.
— É o melhor lugar dessa construção, e de certa forma o que me sobrou. Afinal, eu não sou nem um pouco bem-vinda ao palacete do rei. — disse de forma jocosa, ainda que existissem traços de mágoa em seus olhos. — Porém, eu sou muito teimosa para evitar implicar com o papai Swan. — Deu de ombros, acendendo um cigarro.
Regina quase se permitiu rir do humor ácido dela, mas se irritava facilmente com pessoas como Emma, que levavam a vida como brincadeira e dificilmente respeitavam qualquer autoridade. Sua paciência nunca foi das maiores e já estava em seu limite. Queria sair dali, pois claramente estava conversando com uma mulher bêbada e abalada. Não apenas qualquer mulher, mas uma com quem jamais deu certo. Era e sempre seria simplesmente impossível ter alguma conversa educada com Emma. Portanto, a duquesa aprumou os ombros e se preparou para voltar ao carro, quando a princesa se aproximou.
— Ele era melhor jogador do que eu — sussurrou com a fala arrastada. Pela segunda vez naquele dia, a morena via lágrimas em seus olhos. Levando em consideração as marcas vermelhas no rosto, Emma não tinha parado de chorar desde o jantar. — Na verdade, ele era melhor em todos os sentidos.
— Era o time do coração de Robin. — A morena comentou automaticamente após alguns minutos, enquanto apontava para o uniforme. — Lembro-me de comprar uma camisa como essa no aniversário dele. Mesmo que eu torça para o time rival. Foi difícil conseguir uma autografada pelos jogadores principais.
— Você torce para a Neverland? Está explicado porque não é alguém confiável. — Fez uma careta. A morena por breves instantes considerou adorável, até que percebeu as más intenções por detrás daquelas palavras.
— Engraçado, eu sempre ouvi o mesmo a seu respeito. E já pude comprovar que os boatos eram verdadeiros. — Não compreendia muito bem o motivo, mas sentia prazer em atingir sua cunhada sempre que possível.
— Talvez porque você fale a língua das cobras peçonhentas, já que é uma — murmurou aproximando-se ainda mais da duquesa.
— Sua... idiota. — Bufou, deixando esvair todo o resto de etiqueta que tinha. — Voltou por quê? Para deixar seus pais ainda piores e pegar o trono de seu irmão?
— Quem tem interesse aqui é você. Diga-me doce Gina — pronunciou o apelido com ironia —, só se casou com ele por dinheiro ou poder? Não me surpreenda que seja pelos dois, já que tens essa cara de rameira — sibilou a ofensa com uma pontada de raiva.
A duquesa não se deu ao trabalho de responder, desferindo um tapa em seu rosto. A pele branca da bochecha, logo ficou marcada com os dedos de Regina. Ela se arrependeu na mesma hora. Nunca foi de seu feitio agredir as pessoas, muito menos fisicamente. Mas havia algo em Emma que a irritava profundamente, despertando sensações conflituosas e difíceis de explicar para si mesma. Pensou em pedir desculpas, porém desistiu quando a outra voltou lhe encarar. Castanho e verde brilhavam com as lágrimas, mas Regina enxergava dor e... Empatia? Não entendeu muito bem, mas a princesa não pareceu nervosa ou chateada. Emma estava estranhamente calma. Emma apenas sofria.
— Eu... — Regina abriu a boca, mas as palavras simplesmente não saíram.
— Não perca seu tempo se justificando. Eu mereço esse e mais todos os outros tapas que tem a me oferecer. — Abaixou o olhar, tomando mais um pouco de sua bebida. No seu lábio inferior abriu-se um pequeno corte, que sangrava um pouco. — Não estou aqui para atrapalhar a vida de ninguém, muito menos a sua. Deixarei você e minha família em paz.
Emma a encarou pela última vez, gravando cada traço de seu rosto. No entanto, saiu logo dali. Suas passadas largas marcavam a grama em direção ao jardim, que dava para o outro estacionamento nos fundos do palácio. Regina cogitou segui-la e pedir desculpas adequadas, mas ainda estava estática com as últimas palavras de sua cunhada. Na sua cabeça a confusão se instalava. Já não sabia identificar quem era a mulher das reportagens, dos encontros desastrosos no passado, dos boatos que escutava pelas ruas de Petroia ou a dona da tristeza palpável das últimas horas. Aquela Emma que viu hoje, não era nem de longe a mesma que conhecia como a irmã de Robin.
A futura rainha — ou não, já que Regina duvidava que George a escolheria — era uma verdadeira incógnita. Ela pensava que conhecia Emma, afinal até mesmo o sogro deixou escapar que sua filha não era uma boa pessoa. Porém, já não sabia se poderia concordar com ele. Em poucas horas, percebeu que aquela mulher a quem agrediu não era a mesma de suas impressões. Uma pessoa assim, jamais deixaria transparecer tanta mágoa através de apenas um olhar. E por falar nele, a duquesa se encontrava... Encantada. Totalmente fascinada por aqueles oceanos de duas cores, que se misturavam e se envolviam com peculiaridade quase poética. Castanho e verde. Uma combinação ousada e arrebatadora. Regina desviou sua atenção para a jaqueta, que ainda estava jogada na arquibancada. Poderia correr até Emma e devolvê-la, mas numa atitude impulsiva e que não reconhecia a causa, pois jamais se imaginou fazendo isso, resolveu levá-la embora consigo.
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