Kiss The Rain
1 Capítulo 1
Os lençóis ásperos e manchados embaixo de mim irritam minha pele. O calor é sufocante, fazendo as poucas peças de roupa que uso colarem ao meu corpo. Logicamente o ar condicionado está quebrado, e não há nem um maldito ventilador para aplacar um pouco o calor que me faz passar as costas da mão na testa para limpar o suor, afastando os fios que insistem em grudar em minha pele. 22:47. Tenho certeza que você ainda está acordado. Você sempre me espera ligar quando estou longe. Ao olhar pela janela do quarto barato de beira de estrada, vejo a chuva torrencial cair lá fora, e uma vontade absurda de sair e me deixar lavar pela água fresca toma conta de mim, mas é nesse momento em que você atende o telefone.
— Alô? – e eu reconheço sua voz mesmo a mais de 800 quilômetros de distância. Mesmo com o barulho da chuva e o chiado do telefone. Sua voz me parece tão perto. Mas para mim, é como se você não pudesse estar mais longe. — Oi, Taka. — Aki-chan! – e um sorriso se forma em meus lábios quando ouço você me chamar pelo apelido que só você tem a permissão de usar – Eu já estava indo dormir, achando que você tinha esquecido de mim e não ia ligar mais – e do mesmo modo como reconheceria sua voz em qualquer lugar e situação, eu noto o tom mimado que me faz sorrir ainda mais. Você não me pergunta primeiro se estou bem, como está a viagem e como estão os negócios. Primeiro você demonstra sua insatisfação por eu não ter ligado mais cedo, sem nem passar por sua cabeça que eu poderia ter passado por algum problema. Outra pessoa poderia ficar irritada ou até mesmo chateada com essa sua atitude infantil e egocêntrica, mas não eu. Eu te conheço bem até demais para notar que você não age assim por não se importar. É apenas seu jeito, faz parte de quem você é. E eu nunca consigo ficar chateado com você. — Teve um acidente na estrada, e demorei pra achar um lugar para passar a noite – comecei, mas fui interrompido por um som grave a alto do outro lado da linha, seguido por um ofegar seu. — Está chovendo aí? – pergunto, acreditando ter reconhecido o barulho como um trovão. — Está. Uma tempestade horrível – você responde, e eu não posso me impedir de pensar no quanto eu gostaria de estar com você ouvindo essa mesma chuva cair, e não separados por quilômetros de distância e enfrentando tempestades diferentes. Eu posso até te ver, encolhido no sofá, incapaz de dormir por causa da tempestade. Você está longe de ser uma criança com medo de raios e trovões, mas o barulho sempre te incomoda e não deixa você dormir. Eu havia perdido a conta das noites em claro que passei com você vendo qualquer porcaria na TV, simplesmente porque você não conseguia dormir com o barulho da tempestade. Quando você finalmente me pergunta como está indo a viagem e eu começo a contar os detalhes monótonos de meu dia, você me interrompe. — A ligação está péssima, Aki. Eu quase não te ouço. Fala mais alto. — Eu estou com saudades, pequeno – digo, sincera e simplesmente, pois me dou conta de que é tudo que importa no momento. — Eu também estou com saudades – e mesmo não havendo nenhum pingo de hesitação ou dúvida em suas palavras, eu sei que você não sente tanta saudade quanto eu. Não só pelo fato de que é impossível alguém sentir tanto a falta de alguém quanto eu sinto da sua, mas porque você continua vivendo a sua vida, aquela que deveria compartilhar comigo todos os dias da semana, e não apenas algumas vezes no mês. Enquanto eu viajo, fazendo negócios pelo país todo, você ainda tem o consolo de chegar em casa depois do trabalho e encontrar aquele ambiente familiar e aconchegante. Nossas coisas, nossas fotos, as pequenas lembranças que construímos juntos ao longo de nosso relacionamento, estão todas ali. Os lençóis que dividimos todas as noites quando não estou viajando. Já eu sou obrigado a vagar por quartos desconhecidos, marcados por tristezas que não são minhas, durante dias a fio, quando tudo que eu mais quero é jogar tudo pro alto e voltar correndo pra você, pra nunca mais sentir nenhum pingo de saudade. Mas se eu queria manter nossa vida financeiramente segura, eu precisava desse trabalho. Do mesmo modo que você também precisava do seu, por mais cansativo e desgastante que fosse para você também. Ao fundo, posso ouvir o barulho indistinto da televisão, e de repente uma risada se infiltra pela linha até meus ouvidos. — Tem alguém aí com você? – pergunto, intrigado. Você fica em silêncio por alguns instantes, e quando responde, sua voz é hesitante e eu sinto um traço de culpa por trás da aparente casualidade com a qual você responde. — Só o Uruha. Ele ligou e viu que eu estava acordado, veio me fazer companhia – e eu aperto o lençol sob meus dedos ante a menção de seu amigo. Seu amigo, porque eu não conseguia gostar do loiro que havia invadido nossas vidas. Que passava mais tempo com você do que eu. Que começava a descobrir as pequenas coisas que fazem você ser quem é, quando antes esse posto era só meu. Eu deveria ser o único a te fazer companhia em noites de chuva, o único a quem você recorreria quando quisesse se sentir seguro.
Mas eu não podia culpa-lo, podia? Não quando eu quase nunca estava lá. Me é extremamente frustrante saber de sua carência e não poder fazer nada para diminuí-la na maior parte do tempo. Quando começamos a ficar juntos, a vontade de estarmos próximos um do outro era tanta que em poucos meses já vivíamos juntos, para a enorme apreensão de nossos amigos. Mas eles não entendiam, não é? Nunca entenderam essa necessidade que temos um do outro. E como foi difícil nos acostumarmos com a distância quando eu passei a viajar semanalmente... Acho que foi isso que acabou com a gente, não foi? Porque as coisas não são como antes, e eu tenho medo de que mesmo que eu desista da vida que levo, elas nunca mais sejam as mesmas. Eu sei que alguma coisa se perdeu, mesmo que qualquer pensamento racional que me leve a essa conclusão seja veementemente afastado e ignorado. Eu sei que, apesar das investidas de seu novo amigo, você não me trai. Eu saberia no momento em que você dissesse “alô” se você tivesse estado com alguém. Eu consigo te ler e interpretar todas as suas reações corretamente, mesmo que seja pelo telefone, prova de que ando passando tempo demais longe de você, e perto demais de pessoas com quem eu não queria estar. Mas o simples pensamento de que há outra pessoa preenchendo seus dias me enlouquece. Eu sei o quanto você sente a minha falta. É impossível não perceber o modo como você sempre parece querer me tocar, as vezes de modo inocente, as vezes não. Eu sempre faço questão de chegar de viagem quando já é noite, porque sei que você vai estar lá para me receber. Seja com beijos e abraços carinhosos, seja com toques quentes que me fazem perder o juízo. Você não se importa que eu mal consiga parar em pé após dirigir por horas intermináveis até chegar a você. Você só se preocupa em me livrar das roupas e esgotar qualquer fiapo de energia que eu ainda possa ter, em qualquer superfície plana que encontra, o chão normalmente sendo sua escolha. E, ao observar seu rosto carregado de luxúria e seu corpo se movendo tão sensualmente sobre o meu, o prazer se irradiando por meu corpo todo, eu me sinto em casa. Eu me contentaria em somente olhar pra você, estudar todos os seus gestos e me encantar com seus sorrisos, mas você sempre me dá muito mais do que isso. Muito mais do que eu mereço. Quando foi a ultima vez que transamos em nossa cama? Eu não consigo nem me lembrar. Para nós a cama já não é mais o local favorito de dois amantes, é somente um lugar para descansar os ossos no fim do dia. Sempre que transamos são rompantes de paixão e luxúria, como se estivéssemos descarregando nossas frustrações do único jeito que conhecemos e no local em que nos é mais próximo. Mas nunca na cama. Mas eu sinceramente não me importo. Não enquanto tiver seu corpo pequeno e quente junto ao meu nas noites que passo em casa. Me encanta o modo como você se aconchega em mim quando dorme, mesmo que sua posição original ao adormecer tenha sido longe de mim. De alguma forma você sempre acaba entrelaçando seu corpo ao meu enquanto dorme, de maneira tão inconsciente que me faz perceber o quanto você precisa dessa proximidade. — Aki? – sua voz me trás de volta à realidade. — Estou aqui, Taka. — Você ficou bravo? Bravo porque o Uruha está aqui? – o volume de sua voz diminui para que seu amigo não ouça, e eu impeço o suspiro que se prende em meus lábios. — Não, pequeno. Eu não estou bravo. Fico contente que você tenha achado alguém pra te fazer companhia quando não estou aí– e as mentiras fluem como verdades por entre meus dentes. Eu não minto quando digo que estou contente que você arranjou uma companhia. Por mais que isso me doa, eu sei que não posso estar lá pra você sempre que quiser. Mas eu estou bravo. Estou furioso. Não com você. Nunca com você. Esse sentimento é voltado unicamente para mim, por sempre acabar te magoando, mesmo que isso seja a última coisa que quero no mundo. Um longo silêncio se segue, até que você o quebra numa clara tentativa de mudança de assunto. E eu te agradeço por isso. Por não arrastar o assunto adiante, trazendo apenas mais mágoas. — Está chovendo aí também, Reita? — Está – e eu tenho vontade de gritar tudo que tenho vontade e que está entalado na minha garganta há tempos. Tenho vontade de gritar que odeio o que fiz com nosso relacionamento, que odeio ficar longe de você, odeio te magoar e não poder pedir desculpas logo em seguida. Tenho medo de que você ache que eu tenho menos amor por você do que eu realmente tenho. Porque eu digo que te amo, digo o tempo todo. Mas meus atos não condizem com esse sentimento, e eu não posso culpá-lo por duvidar disso. E eu nunca me perdoaria se te perdesse por esse motivo. E é esse sentimento que me prende, me faz querer sair correndo, me livrar disso tudo e voltar pra você. Correr até a chuva, sabendo que você compartilha das dores que eu sinto por estarmos longe. Estamos sob o mesmo céu, não é? Estamos sempre ligados, de alguma forma. Mesmo que a tempestade não seja a mesma, ela cai da mesma noite que nos cerca e nos aprisiona — Eu queria você aqui comigo, Aki — Também queria estar aí com você, pequeno. --X--Hello Can you hear me? Am I gettin\' through to you? Hello Is it late there? There\'s a laughter on the line Are you sure you\'re there alone? Cause I\'m Tryin\' to explain Somethin\'s wrong Ya just don\'t sound the same Why don\'t you Why don\'t you Go outside Go outside Kiss the rain Whenever you need me Kiss the rain Whenever I\'m gone, too long. If your lips Feel lonely and thirsty Kiss the rain And wait for the dawn. Keep in mind We\'re under the same sky And the nights As empty for me, as for you If ya feel You can\'t wait till morinin\' Kiss the rain Kiss the rain Kiss the rain Hello Do you miss me? I hear you say you do But not the way I\'m missin\' you What\'s new? How\'s the weather? Is it stormy where you are? Cause you sound so close but it feels like you\'re so far Oh would it mean anything If you knew What I\'m left imagining In my mind In my mind Would you go Would you go Kiss the rain And you\'d fall over me Think of me Think of me Think of me Only me Kiss the rain Whenever you need me Kiss the rain Whenever I\'m gone too long If your lips Feel hungry and tempted Kiss the rain and wait for the dawn Keep in mind We\'re under the same skies And the nights As empty for me, as for you If you feel You can\'t wait till morning Kiss the rain
Notas finais
Espero que tenham gostado! Drama nao é muito minha praia, mas estava com vontade de escrever uma assim ^^
Dica: reviews me deixam MUITO feliz, e nao doem nada XP
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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