Kisetsu
4 Capítulo 4
Takanori decidiu fugir de casa numa madrugada de inverno. Impulsivo como todo jovem, chegou a essa resolução enquanto jantava e assistia a uma novela com pessoas bonitas que ostentavam um belo amor.
Porque foi ali que percebeu pela primeira vez na vida que desejava algo clichê, porque isso sim seria diferente.
- Boa Noite.
Despediu-se de todos ao subir para o seu quarto, achando aquelas duas palavras muito dignas de um adeus. Seriam impactantes. Assim como nos filmes, seria lembrado por “suas últimas palavras foram Boa noite e, depois, sumiu no meio da neblina”, com direito a lágrimas e belas lembranças no futuro.
Enquanto os degraus rangiam sua cabeça ia arquitetando o que ele considerou um plano perfeito.
Fez as malas com o que considerava essencial, incluindo suas revistas de música, maquiagem, CD’s e LP’s, a pedrinha brilhante idiota que achou quando era pequeno na praia e um caderno e caneta, só parando para perceber que não trouxe nem uma escova de dentes e muito menos roupas quando já estava pisando nas flores do jardim de sua casa. Tateou o bolso traseiro e constatou que pelo menos a carteira estava lá.
No caminho a lugar nenhum percebeu como seu plano já nasceu fadado ao fracasso e decidiu parar naquela lanchonete 24 horas com luzes idiotas e cadeiras idiotas e menu idiota e comida idiota e idiotaidiotaidiota.
E agora com um Takanori idiota sentado na cadeira idiota tomando o refrigerante idiota.
Oh, e havia Suzuki Akira.
O Suzuki Akira que não excedia expectativas, que era tão comum e parecia quase não ter problemas – só o de trabalhar num lugar idiota e usar um boné idiota e estar sendo tão simpático agora com o Matsumoto Takanori idiota.
Mas por um momento, sua vida foi realmente agradável com alguém ouvindo os relatos de toda sua vida num raciocínio não linear e desesperado, com várias doses de lágrimas e palavreado feio.
A generosidade de Suzuki deixou o outro lamentar-se da situação de sua vida até se cansar, seus olhos doerem e começar a perguntar sobre a vida do próprio Akira.
E riu ao perceber que pensou tudo a respeito do outro, menos o mais coerente. Era apenas um estudante que morava sozinho, trabalhava e estudava, estudava e trabalhava. Só saiu de casa cedo porque seu pai o expulsou e o mesmo acabou morrendo depois num acidente de carro envolvendo um motorista alcoolizado. O pai de Akira sempre teve tendências alcoólicas, era só questão de tempo.
Desde então seguia a vida nessa rotina. Sem nada nem ninguém. Seus sonhos estavam tão esquecidos quanto os de Takanori, só esperando uma época que talvez nunca chegasse para aparecerem.
Com isso, Takanori aprendeu a ver os dois lados das situações.
Ele não era o único sofrendo. E as pessoas ao seu redor que ele ignorou? Sua mãe e ainda mais sua irmã?
E agora o não mais estranho Akira.
Sentiu-se tão egoísta e frustrado e... E idiota por ser tão... Humano.
Enquanto lamentava e chorava silenciosamente pelas tentativas frustradas de qualquer coisa em toda sua vida, pela perspectiva vazia de vida e pela causa recém descoberta, sentiu mãos consoladoras nas suas costas e depois um singelo toque de lábios em sua testa e um tímido sorriso em seus próprios lábios.
- Hey, você fica mais bonito sorrindo.
Sentiu as lágrimas sendo enxugadas por mãos alheias e ao abrir os olhos, deparou-se com o sorriso mais caloroso que já recebeu na vida. Tão, mas tão, mas tão, mas tão... Verdadeiro.
Riram cúmplices e conversaram até a escuridão se tornar dia e Takanori ter que voltar para casa.
No caminho de volta, agradeceu pelas noites de inverno serem as mais longas do ano.
Fale com o autor