Kinkaku-ji

1 O templo de Ouro


Notas iniciais
Boa leitura!

Toushirou alisou o envelope e suspirou, como se estivesse de saco cheio daquilo. Ouvir Matsumoto reclamar mais uma vez sobre algo que havia sido apenas uma exigência, vindo de alguém de cima, seja lá quem fosse.

Havia um tempo que cartas estavam chegando aleatoriamente, requisitando que a tenente do décimo esquadrão fizesse algo, mas muitas foram ignoradas e outras pessoas fizeram os serviços que eram requisitados – e todos os motivos possíveis eram alegados pela mulher de cabelos ruivos.

Rangiku fazia bicos e caretas de arrancar roladas de olhos, de forma indignada, do capitão tão novo, que colocou o envelope amarronzado novamente sobre a mesa, e suspirou. Ela realmente iria tentar novamente.

- Matsumoto, já disse que vai ter que ir!

- Ah, taichou... – ela ronronou – Eu não quero fazer isso... Por que não mandam outra pessoa? Alguém que vai achar mais divertido que eu?

- Não posso fazer nada, Matsumoto. – Hitsugaya levantou-se e ficou de frente para a tenente, que entortou os lábios, entediada – Preciso que se arrume e vá, logo. Em breve, o Senkaimon será aberto para que você chegue até o mundo real.

A mulher parou um segundo e pensou. Logo em seguida, um imenso sorriso irradiou em seus lábios carnudos – ela sabia como tirar vantagem de uma oportunidade, sobretudo quando reconhecia uma.

- Nee, taichou! Posso ir em algumas lojas? – ela foi saindo – Acho que será ótimo!

- Matsumoto!

Cinco e vinte e três da tarde.

O sol ia se pondo ao longo das construções, que inundavam a cidade de Kyoto. Matusmoto carregava um mapa em mãos e ia acompanhando o trajeto que fazia, rumo ao local que estava indicado num círculo azul, num canto.

Parou ao sinaleiro. Poderia não viver ali, mas tantas foram as vezes que veio àquele local que já entendia e se virava com muitas regras, sem supervisão. Poderia até olhar em volta e comporta-se como uma pessoa normal... Não, ela era Rangiku Matsumoto. Uma inigualável mulher de cabelos ruivos, num tão inigualável kimono preto com flores azuladas.

Quando o recebeu para vestir, assim que chegou e foi recepcionada por Urahara, achou muito estranho, mas resolveu que cumpriria logo com todas as suas obrigações, para logo fazer compras.

Cinco e quarenta e um da tarde.

Parou na frente de uma placa e leu: “O Kinkaku-ji é o nome dado ao templo Rokuon-ji, situado na cidade de Kyoto e rodeado pelo Kyōko-chi. Todo o pavilhão, exceto o rés-de-chão, está coberto de folha de ouro puro e no telhado do pavilhão está uma fenghuang dourada (fênix chinesa)”.

- Hum... Deve ser aqui...

Matsumoto andou um pouco, reparando no muro e na dificuldade que teria para abri-lo, simplesmente. Achou uma fenda entre o muro, num cercado de árvores, e desvencilhou-se entre elas para conseguir alcançar o outro lado.

O vento soprava leve e o local estava vazio. Não havia nada ali, além do leve sussurrar de folhas secas, arrastando-se pelo chão, e da água correndo entre os lagos.

Carpas nadavam prazerosamente no lago maior, que banhava o tempo principal. O gramado ia, aos poucos, perdendo a graça e a luminosidade daquele entardecer. O céu ia sendo tomado pelo véu negro da noite, que carregava pequenas estrelas de enfeite.

Não havia lua no céu, quando a shinigami abandonou a gigai de lado e passou a caminhar pelo jardim principal, indo em direção ao templo.

- Bonito... Não?

Matsumoto ouviu o sussurro, sentindo-o causar-lhe um arrepio na espinha. Olhou em volta, buscando com o olhar. Aquela voz... De quem era? E de onde veio? Seria mesmo...?

- Você estava mais bonita naquele outro kimono... Mas aceito que venha comigo assim mesmo...

- G... Gin?

O capitão do terceiro esquadrão caminhou de trás de um grupo de árvores e parou na frente da mulher, que o olhava com certo ar de curiosidade. Ele arrumou o pano cor-de-rosa que adornava o pescoço da tenente e sorriu, virando-se.

Voltou a caminhar em silêncio em direção ao templo dourado, que reluzia por holofotes intensos, e passou pela corrente que impedia a entrada de pessoas ali. Mas não era uma pessoa qualquer. Era uma shinigami, e seu nome era Matsumoto, a mulher que merecia todo aquele ouro a seu redor.

Ichimaru sentou-se na beira do templo, olhando o lago em volta e a cidade iluminada por trás dos muros. Esperou até que Rangiku estivesse sentada ao seu lado, para então falar.

- Gosta daqui?

- Sim... – ela murmurou, olhando em volta – Nunca vi esse lugar, mas... É lindo...

- Uhum... Tem bastante tempo para admirar o local. Pensei bem no tempo que levaria para achar, disse que era um caminho difícil, assim poderia passar mais tempo aqui.

- Com você?

Ichimaru Gin calou-se. Não houve nenhuma palavra que foi proferida naquele instante de tempo. Houve apenas o farfalho de folhas, galhos e a natureza em si, entoando seus mantras particulares, sentimentais e emocionados, carregados pelo vento.

Ao contrário, o capitão deixou a mão carinhosamente tocar sobre a mão da tenente, que sentiu uma sensação boa lá dentro de si... E sorriu, levemente.

Os olhos se cruzaram e Gin pode ficar admirando-a, solenemente. Ela pareceu ruborizar por alguns instantes, antes que ele pudesse lhe aproximar os lábios e oferecer-lhe um beijo, suave, silencioso, que poderia nunca mais ser repetido.

O dourado os iluminava, e a fênix, no topo do templo, ia ressurgindo das cinzas de dentro dos corações. Matsumoto apoiou a cabeça no ombro de Gin.

Sentiu seus dedos serem entrelaçados, como se curtissem aquele momento sagrado, entre paredes de mil anos atrás, encarregadas, agora, de guardar outra história.

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