Kingdom
1 Capítulo 1 - Lágrimas
Notas iniciais
A chuva caía pesadamente naquele fim de tarde e uma jovem ajoelhava-se diante de um grande túmulo numa área particular do cemitério. Os cabelos castanhos encharcados grudavam em seu rosto salgado pelas lágrimas, uma lama pegajosa tomava conta da saia do vestido preto. Uma mão pálida pousou sobre seu ombro.
— Clarice – disse gentilmente uma garota alta e esguia de não mais que catorze anos. Uma trança negra jazia sobre suas costas — Vai ficar doente nesta chuva.
Clarice pareceu não ouvir e continuou a encarar a lápide acinzentada como se de tal forma pudesse mudar algo naquele dia. A garota de cabelos negros correu de volta à carruagem onde um pajem tão encharcado quanto tudo naquele cemitério a esperava.
— Alteza – ele cumprimentou com uma reverencia.
— Ela está num extremo estado de choque, Nicholas – disse a garota. – Traga-a, por favor. Preciso leva-la para casa.
— É claro, princesa Claire – disse Nicholas. – Lamento muitíssimo por sua perda. Foi terrível para todo o reino.
— Sim – disse gentil e formalmente. Não poderia perder sua pose na frente dele, não. Ele era um súdito e ela, como princesa, era um exemplo para os súditos. Tinha de manter forte, especialmente com o reino chorando a perda de seu rei e sua rainha. – Sim, foi. Obrigada pelas condolências. Por favor, vá busca-la.
Com um aceno de cabeça, Nicholas andou até o tumulo onde estava Clarice. Suas botas ficando cada vez mais cobertas com a lama pegajosa daquele lugar. Depois de alguns minutos ele voltou com a garota agarrada a seu braço, seu olhar perdido não demonstrava qualquer emoção.
Ela subiu na carruagem seguida por Claire.
— Clarice – disse gentilmente a princesa de cabelos negros. – Tudo ficará bem, minha irmã. Ficaremos bem.
A carruagem entrou por uma estrada de tijolos que levava direto ao suntuoso palácio real do reino de Nyclestorn. Clarice foi levada pela governanta para tomar um banho e Claire pediu para ficar sozinha. Uma vez em seu quarto, a princesa trancou a porta, fechou todas as janelas e despiu-se completamente. Em seguida desfez a longa trança, deixando os cabelos caírem em ondas sobre suas costas e enfiou uma camisola fina pela cabeça.
Claire sentou-se no chão agarrada ao pé direito da cama de dossel e em fim deixou que as lágrimas lavassem seu rosto. O reino chorava pela morte de amados reis e também dos herdeiros do trono, mas logo isso seria superado quando tivessem sua nova e bondosa rainha. As famílias governantes daquele reino eram sempre dotadas de magia e, embora Clarice não houvesse herdado o poder celestial que acompanhava sua linhagem, fora criada para ser uma princesa exemplar e uma grande rainha, embora não esperasse que tivesse de governar tão cedo.
Claire, por outro lado, possuía em seu sangue magia de sobra. Ela costumava treinar o uso dela numa academia especial. Fora criada para ser simplesmente uma boa princesa e, quem sabe um dia, pudesse se casar com um rei.
Naquele fatídico dia ela chorava a morte dos avós e dos pais, perdera quase toda a sua família num trágico acidente, quando a carruagem rolou de um penhasco. Reunindo toda a sua força ela se levantou e manteve a compostura de sempre. Vestiu um hobby de seda e foi ver sua irmã. Clarice sempre fora mais sentimental, provavelmente precisava de apoio naquele momento.
Ela encontrava-se sentada em sua poltrona favorita e enrolada em cobertores até o pescoço quando Claire entrou em seu quarto.
— Claire – seus olhos brilharam ao ver a irmã mais nova.
— Como está, querida? – perguntou Claire. – Quer que eu mande trazer seu jantar até aqui?
— Não. Não, obrigada – Clarice limpou as próprias lágrimas. – Irei até a sala de jantar. As pessoas não estarão confiantes se eu não parecer forte. Sou jovem demais, não quero que achem que levarei o reino à desgraça.
— Será uma boa rainha, irmã – disse Claire agarrando a mão de Clarice. – Terão orgulho de você. Eles já a amam, lhe serão fiéis.
Naquela noite, após o jantar, as princesas deitaram-se juntas para dormir enquanto Claire sussurrava para si a canção de ninar que sua mãe lhes cantara tantas vezes.
— Nasci num palácio
Cercada de Riquezas
E tudo o que conheço
É feito de beleza
No meu salão de bailes as luzes estão sempre acesas
E em algum lugar
Alguém me tece vestidos em seda
Tenho coroas brilhantes e sapatos de diamante
A elegância impecável que lhes lembra minha realeza
Jamais me cansarei de ser uma princesa
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