King Nothing
3 Um pai de família
Morte.
Morte, morte.
Tanto sangue… tanto silêncio… Ninguém havia visto nada. Ninguém estava lá. Então ele guardou a arma e olhou ao redor, desviando sua visão dos três cadáveres. Numa esquina escura, encontrou o que estava procurando. Aproximou-se lentamente e apertou o botão, fazendo seus olhos brilharem. Agora ele tinha certeza.
Aquela era Jenny.
Dante e Mathias saíram da sala de aula e foram até o pátio, em direção à saída da escola.
–Ei Mathias, precisamos passar lá na delegacia antes de ir para o shopping. — Dante avisou.
–Por quê? — seu amigo perguntou, estranhando.
–Ué… vou falar com meu pai sobre você ir lá em casa!
–Ele é policial?! — disse indignado.
–Você me conhece há três anos e não sabia que meu pai é chefe da delegacia ao lado da escola?! — retrucou, mais indignado que seu amigo.
–Você nunca falou! Como queria que eu soubesse?
–Você que nunca me perguntou.
Seguindo com a discussão até chegarem à delegacia, Dante entrou na frente e apresentou os policiais que conhecia.
–Esse é o Gordon. — disse apontando para um homem de idade que se parecia — e muito — com Gary Oldman, ator que representou o comissário Gordon nos filmes do herói Batman. — Não preciso te explicar por que os outros chamam ele assim né?
Mathias riu, e Gordon acenou para eles rapidamente, antes de voltar a fazer o que estava fazendo.
–E este aqui — disse dando uns tapinhas nas costas de um homem mais gordo. — É o grande Mark! Certo Mark?
–He-ey! — Marcos disse ao se virar e encontrar os garotos. — Grande Dante! Como vai carinha? Quem é esse?
–Mathias. — ele mesmo se apresentou, apertando a mão do policial. — Prazer.
–O prazer é todo meu! Rosquinhas? — ele ofereceu, pegando um grande pacote de rosquinhas açucaradas, mas ambos recusaram.
–Ei, Mark. Sabe onde está meu pai? — Dante perguntou.
–Bem, ele está “em campo” agora, se é que me entende. Hoje o dia está agitado pra gente, falando a verdade.
–Má hora?
–Estava de saída. Vamos investigar o caso de um maldito fantasma.
–Como assim?! Mathias apenas observava a conversa, mas Dante se interessava pelos casos. E como Marcos era seu amigo, o policial sempre lhe falava dos melhores casos.
–Pois é. Um cara invadiu uma dessas empresas que na verdade são só escritórios dentro de uma casa, sabe? O cara desligou as câmeras, matou a recepcionista e o empresário e depois “puf!”, vazou do lugar.
–E vocês têm alguma pista?
–É o que pretendemos descobrir, né carinha? Por isso estamos indo pra lá. — Marcos disse pegando uma rosquinha e se apoiando na mesa de escritório.
–Sabe o nome do coitado que morreu?
–Você é curioso hein, carinha? — ele disse depois de dar uma mordida na rosquinha.
–Sabe que gosto de escrever histórias sobre esse tipo de coisa.
–Bom, o nome do “coitado” eu não sei…
–Marcos! — um homem parado na porta da delegacia gritou seu nome, fazendo com que ele se ajeitasse e largasse a guloseima.
–Tenho que ir garotos! Fiquem na escola e não pichem muros. — ele disse, indo rapidamente ao encontro de seu parceiro, deixando os dois sozinhos.
–Bem… parece que vou ter que perguntar depois. — Dante disse para Mathias. — Vamos!
Os dois foram embora a tempo de ver a viatura de Marcos sumir na esquina.
*******
Pedro — esse era o nome do parceiro de Marcos — estacionou a viatura atrás de outra, ao lado da calçada onde ficava a companhia onde o crime havia sido cometido. Ele e Marcos entraram na cena, onde alguns outros estavam coletando provas e procurando por outras pistas. Marcos havia sido encarregado como chefe da operação… e estava atrasado.
–Onde você esteve? — perguntou o legista que estava no local.
–Ocupado. — foi tudo que Marcos respondeu. Pedro lançou um olhar raivoso para ele, que ignorou. — E então, o que temos até agora?
–Ele não deixou nem mesmo uma digital! Quem quer que seja, não é um mero amador.
–Algo mais?
–Bem… uma ligação anônima nos trouxe até aqui. Temos algumas coisas que eu e os outros conseguimos.
–Estou ouvindo.
–As câmeras já estavam desligadas antes dele chegar, então provavelmente outra pessoa veio antes dele ou ele mesmo já havia vindo aqui antes.
–Conseguem descobrir quem foi?
–Já mandei as fitas para análise. Talvez tenha filmado quem fez isso antes de realmente fazê-lo.
–Ok.
–Além disso, pela trajetória das balas que atingiram a recepcionista, é quase certo que ele atirou daqui do meio do saguão.
O legista parou no local em que estava indicando e apontou seus dedos indicador e médio para o rosto desconfigurado e ensanguentado da recepcionista, imitando uma arma.
–E isso significa que…
–Bom, primeiro pensei que ele tivesse entrado com pressa e a matado rapidamente.
–Mas… — Marcos detestava ter que começar uma frase para ter que fazer outros continuarem o próprio raciocínio.
–Siga-me.
O legista os levou até o escritório do empresário, onde haviam outras duas pessoas, uma analisando a cena e outra tirando fotos da mesma. O corpo ainda estava estirado na poltrona. O legista chamou a atenção de Marcos e Pedro para a cadeira de visitantes.
–Ela foi usada.
Marcos caçoou do comentário por não ter entendido direito.
–Caramba, já estava pensando em vendê-la como semi-nova…
Ignorando o comentário, o legista continuou.
–De acordo com o que Sandro conseguiu na agenda do empresário, só havia um horário marcado para hoje. Esse horário bate com a hora da morte de ambas as vítimas.
–Espera… então temos um nome?
–“Sérgio”.
–Ótimo! Tudo vai ficar mais fácil. Pelo jeito ele não era tão profissional então, não é?
–Pode facilmente ser um nome falso, Marcos. — Pedro disse, com um certo tom de desprezo na voz.
–Claro que poderia. Por que seria um nome verdadeiro?! Pelo amor de Deus, Pedro, achou que eu estava falando sério?
–Não me admiraria se estivesse. -Tá, tá. E então, por que raios me disse que a cadeira foi usada? -Isso pode significar que a vítima conhecia o assassino.
–Pista boa. Isso diminui bastante os suspeitos. Mais alguma coisa?
–Bom, é isso até agora. Um projétil já foi enviado pra balística e…
–Espera, balística? A gente tem isso?
–Pelo jeito… — comentou Pedro.
–Quem era esse cara?! — Marcos perguntou.
–Lucas Santore. — Pedro respondeu. — Empresário de alta renda. Mas os registros e o dinheiro que ele gastava não batiam. Estavam investigando ele.
–Aaah… então esse cara tem um nome. — disse, enfatizando o final da frase. — Ele é alguém importante.
–Nem tanto. Sua lista de clientes é bem limitada.
–O que ele fazia?
–Era um advogado. Abriu uma pequena “companhia de advocacia” com uma quantia de dinheiro não justificado. Deixou de ser advogado pra ser empresário. Foi quando começou a ser investigado.
–Você é bom, Pedro. Conhecia o cara?
–Estou lendo a ficha dele. — disse com o documento que lhe fora dado momentos antes.
–Hum… faz sentido.
Marcos olhou o escritório e começou a deduzir depois de alguns segundos.
–Essa é fácil. O cara mexeu com quem não devia. Daí o dinheiro não explicado. Quando cansaram dele, marcaram essa “reunião” com alguém que ele conhecia, o tal do "Sérgio". O pobre coitado achou que ia ser mais um bom negócio.
–E agora?
–Bom… — ele falou enquanto pensava. — Vamos ver se a família conhecia esse lado da vida dele.
Ele pegou o retrato em cima da mesa. Por trás das manchas de sangue, era possível ver uma família feliz, composta de Sérgio, sua esposa e seu filho.
–Puta que me pariu! — ele exclamou, num tom de tristeza e espanto. — Esse moleque estava na delegacia ainda hoje, com o filho do chefe...
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