King Nothing
2 O que importa são os contatos que se tem
Notas iniciais
–Quando se tem um homicídio, qual é a principal coisa que temos que procurar?
–Hmmm… digitais?
–Não. Será muito bom conseguí-las, mas não é isso. Afinal, não acharemos só a digital do assassino, não é?
–Hmmm… testemunhas oculares?
–Não, essa é a última coisa que procuraremos. Muitos ficam confusos em relação ao que viram e, se houver mais de uma pessoa testemunhando, é capaz de ficarmos ainda mais perdidos.
–O assassino!
–Esse nós temos que encontrar, não procurar. Pelo amor de Deus, você não aprendeu nada?!
Ele pensou mais um pouco e repentinamente a resposta veio a sua mente.
–A arma do crime.
Seu pai sorriu pra ele. Ele tinha aprendido algo, afinal.
*****
Dante entrou na sala de aula e sentou-se onde costumava sentar todos os dias. A professora que daria a primeira aula ainda não havia chegado, e muito menos um de seus amigos. Então apenas sentou-se e começou a desenhar no final do seu caderno do Iron Maiden, deixando que a música lhe dissesse o que fazer.
Batucando o ritmo da música com uma mão na mesa e desenhando com a outra, logo perdeu-se em seus pensamentos. Quase não percebeu que seu amigo havia sentado ao seu lado e não teria percebido se não tivesse terminado o desenho quase que na mesma hora.
–Mathias! — cumprimentou. — Que milagre você por aqui tão cedo!
Mathias riu com a ironia matinal de Dante, que chegava a ser costumeira. Dante retirou um dos fones de ouvido e abaixou o volume da música para ouvir melhor seu amigo.
–O pior é que é verdade. — respondeu, espreguiçando-se de sono. — Mas cheguei agora porque saí muito cedo de casa e achei que teria trânsito, quando na verdade não teve nada!
–Aah… explicado então. — Dante comentou risonho. — Mas me diga uma coisa que eu sempre quis saber…
–Hum?
–Morando tão longe, por que não escolheu um colégio que fosse mais perto de sua casa? Digo, eu sei que esse aqui é bom, mas deve haver outro que seja tão bom quanto esse e mesmo assim ser mais perto do fim do mundo onde você mora. — ele zombou.
–Muito engraçado. Mas não tem nenhuma escola que se compare a essa. Não é a melhor que tem… mas considerando o custo e a qualidade, está na minha lista de favoritos.
–Eu sinto muito por você ter que vir de tão longe então. — caçoou.
–Pelo menos tenho um motivo para chegar atrasado, não é?
Mathias pegou Dante. Muitas vezes ele chegava na segunda aula, mas pura e simplesmente porque acordava atrasado. Ele esfregou a cabeça e desviou o olhar como se fosse desentendido do assunto, o que só fez Mathias rir mais.
A professora entrou na sala e todos se aquietaram. Ela dava aulas de biologia, e tanto Dante quanto Mathias não eram fãs de biologia. E assim como não eram fãs de biologia, também não eram fãs da professora. Então, enquanto ela escrevia a matéria do dia no quadro negro, os amigos continuavam a conversar, com a voz num volume mais baixo porém.
–Por que tem um boneco de palito dando tchau desenhado no seu caderno? — Mathias perguntou.
–Hmm… acabei de desenhar. Não tinha nada para fazer, então…
–Sei. Tédio nos arranja várias coisas para fazer, né?
–Exato. — ele concordou com a cabeça. — E falando em coisas para fazer… Você vai na festa a fantasia na semana que vem?
–Não sei. Meus pais não querem deixar porque é muito longe e vai acabar muito tarde, mas estou tentando arranjar uma maneira de convencê-los.
–Não é longe. Você é que não mora perto.
–O que torna a festa longe para mim, Dante!
–Bem… olhando por esse lado, acho que posso perguntar aos meus pais se você pode dormir em casa quando a festa acabar.
–Sério?!
–Não é nada certo, mas provavelmente posso quebrar esse galho pra você.
–Valeu cara!
–Amigos são pra isso, não?
*****
O Ford Sierra estacionava ao lado a calçada, em uma as ruas mais pobres da cidade. A vizinhança não era muito agradável, isto é, se é que havia alguma vizinhança. A rua era principalmente constituída de prédios abandonados, casas destruídas e moradores de rua viciados. Definitivamente não era muito agradável.
O homem saiu do carro carregando sua maleta e vestindo um terno azul marinho, atraindo a atenção de alguns mendigos. Ele trancou o carro e guardou as chaves em seu bolso e em seguida dirigiu-se ao edifício o qual havia estacionado seu carro na frente. Subiu os três degraus que separavam a calçada da porta do prédio e bateu três vezes na mesma cuidadosamente, com medo de que a porta cedesse.
O prédio em questão possuía três andares. Estava aparentemente abandonado, devido às pichações nas paredes esburacadas que ameaçavam ceder e às tábuas de madeira postas nas janelas quebradas para tentar impedir a invasão da propriedade. Mesmo assim algumas das tábuas já haviam sido retiradas, demonstrando que tinham sido colocadas lá em vão. Embora não parecesse, aquele era o lugar certo. Ele sabia disso.
Depois de ouvir alguns passos vindos de dentro do prédio, a porta se abriu numa fresta, e apenas um olho pôde ser visto. O olho encarou o homem da maleta.
–Quem é você? — perguntou o dono do olho.
–Eu sou o homem que seu chefe quer ver. Agora seja gentil e me deixe entrar antes que eu seja roubado aqui, sim?
O olho analisou o homem de cima a baixo, pensando se deveria ou não confiar no mesmo. Por algum motivo, decidiu que sim.
–Está bem. — ele disse, fechando a porta. Após um *click*, a porta abriu-se novamente, dessa vez não só numa fresta, revelando o enorme homem que era dono do olho. Era um dos seguranças que levaria você para fora de onde quer que estivesse se fosse necessário… com apenas uma mão.
– Ele está no segundo andar, fim do corredor.
O homem da maleta ficou levemente intimidado com o tamanho do segurança, mas não deixou transparecer. Apenas manteve sua postura e continuou em frente.
–Obrigado. — disse ele, disfarçando a hesitação na voz.
Já no interior, o segurança trancou a porta atrás do homem, que começou a analisar os arredores. Por entre os buracos e rachaduras nas paredes, ele podia ver outros cômodos do prédio, cheios de viciados. Alguns estavam encolhidos em seu canto com um cachimbo na mão, outros andando de um lado para outro e falando sozinhos, inquietos. Mas o que mais chamava a atenção do homem era aquele que se contorcia no chão em espasmos incontroláveis. O homem sabia que o problema não eram os espasmos, mas sim a hora em que eles acabariam.
Diante desse pensamento, obrigou a si mesmo a desviar o olhar e seguir ao seu destino. Subindo as escadas lentamente para não quebrar nenhum degrau — e, talvez, não quebrar uma parte do corpo junto — ele chegou ao segundo andar e entrou na sala no fim do corredor, fechando a porta atrás dele. Dentro da sala, um homem acendia um cigarro com seu isqueiro atrás de sua mesa de escritório.
O lugar era mal iluminado, pois a única fonte de luz era a janela que havia atrás do fumante, por onde feixes da luz do sol passavam por entre as tábuas de madeira. O lugar estava empoeirado e o ventilador de teto ameaçava cair, enquanto girava lentamente devido às brisas que vez e outra traziam um pouco do ar poluído da cidade para a sala. Além da poltrona onde o fumante estava sentado, havia apenas uma outra cadeira, na frente da mesa.
–Sente-se. — disse o fumante, seco e sério. O homem fez como mandado e nada falou.
–Então… você é quem mesmo?
–Faz sentido não saber quem eu sou. Afinal, nunca viu meu rosto não é? — o homem da maleta disse, simpático. O fumante não respondeu. — Sou Lucas, o empresário que o senhor havia contatado.
Com um sorriso malicioso e sutil no canto da boca, Lucas estendeu a mão em gesto amigável, mas o homem apenas deu uma tragada em seu cigarro. O empresário recolheu a mão, entendendo a mensagem.
–Então… senhor empresário, o que o traz aqui?
–Bem, consegui o que o senhor pediu. E está tudo aqui.
Lucas colocou a maleta em cima da mesa e a abriu, tirando alguns documentos de dentro da mesma e entregando-os ao fumante, que analisou cuidadosamente cada um deles.
–Para o que eu estou olhando?
–Estes são os nomes daqueles que estão competindo com você no mercado, senhor…
–Sérgio. Meu nome é Sérgio. E não precisa puxar o meu saco me chamando de senhor.
–Como queira. Bem, Sérgio, estas são as fichas daqueles que estão competindo com você no “mercado”. Nomes que não querem ser conhecidos e que controlam boa parte da região.
–Boa parte? — Sérgio estranhou.
–Sim. Estou desconsiderando a parte que o sen… que você controla.
Sérgio deu mais uma tragada enquanto olhava os papéis.
–Como conseguiu esses nomes?
–Eu tenho meus contatos, Sérgio. Contatos que deverei desfazer depois disso. É claro que pela quantia oferecida valeu a pena, porém. E, falando nisso…
Sérgio interrompeu Lucas colocando outra maleta na mesa e empurrando-a para o empresário. Ao abri-la, encontrou vários maços de notas de cem empilhadas e alinhadas umas às outras. Sorrindo, ele fechou a maleta e se levantou.
–Foi um prazer fazer negócio com você, Sérgio. Espero não termos que nos ver mais. A não ser, é claro, que tenha mais…
–Suma. — disse Sérgio, sem expressão na voz. Então mudou para um tom ameaçador — Espero não ouvir mais nada sobre você, entendeu?
–É claro, como quiser. — ele disse. — Adeus.
E então saiu do prédio, passando pelo segurança enorme e pelos viciados, principalmente o que estava deitado no chão, agora imóvel. Entrou no carro e saiu rapidamente, olhando para trás para ter certeza de que não seria seguido. Após ter se distanciado algumas quadras e garantir que estava sozinho, estacionou em um beco qualquer e pegou seu celular. Ligou para o único número que havia em sua agenda telefônica e aguardou. Após dois toques, alguém atendeu.
–E então? — perguntou a voz do outro lado da linha. — Conseguiu?
–Foi muito fácil, pra falar a verdade. — o homem respondeu. — Só o que precisamos fazer agora é aguardar.
–Sérgio está com todos os contatos? Você conferiu?
–Exceto o nosso, o qual eu tirei da maleta.
–E Lucas?
–Morto. — o homem disse com um tom orgulhoso na voz.
–Alguma prova ou pista que possa levar até você?
–Câmeras desligadas, testemunhas mortas, ninguém na rua para identificar a mim ou ao meu carro e não toquei em absolutamente nada sem minha luva. Nem mesmo na maleta.
–Perfeito.
–Tem certeza que Sérgio é o nosso cara? — ele perguntou, um pouco hesitante. — Digo, fui à sede dele, e conheço gente muito melhor que estava naquela maleta. Se ele for atrás daquele pessoal, é quase certo que irá morrer.
–A questão não é se ele irá morrer. Sérgio pode não parecer, mas ele é um dos cinco chefes que controlam esse mercado. E ao contrário de todo o resto, ele faz questão que saibam quem é ele. Não conseguem encontrá-lo, mas sabem quem ele é.
–Você o quer morto. — deduziu.
–Um pouco mais do que os outros, sim. Ele apenas nos ajudará a… vencer a concorrência como um bônus. O verdadeiro alvo é ele.
–Bem pensado. — admitiu por fim. — Bem, tenho que ir. E acho que você também, não?
–Obviamente. Não se esqueça de sumir com esse celular.
–Não tenho que te falar para fazer o mesmo, tenho?
Ouviu-se um leve riso do outro lado da linha.
–Aproveite seus 50 mil reais.
A linha caiu. O homem quebrou o celular no meio com as próprias mãos e jogou-o pela janela. Tirou as luvas e ligou o carro novamente. Olhando para a maleta cheia de dinheiro no banco do motorista, abriu um largo sorriso e, entusiasmado, seguiu sem rumo ou destino com seu Ford Sierra.
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