King Nothing
1 Intro: Come in, Introduce yourself
Notas iniciais
"O garoto estava encurralado. Àquela hora e naquele lugar, não havia uma alma que o ouviria gritar por ajuda. E se houvesse uma, essa não iria ajudá-lo. Ele estava sozinho. Por trás de sua máscara sem expressão, o garoto estava assustado. Ainda tinha tanto para viver. Tanto para fazer...
... e então som de balas sendo disparadas foi ouvido em todo o quarteirão.
... Ele estava morto."
Dante se levantava após uma longa noite de sono. A janela de seu quarto emanava, pelas frestas, suaves raios de luz, o que significava que o sol já havia nascido. Ele esfregou seus olhos e olhou para o relógio digital em seu celular. Sete da manhã.
Droga. Droga, droga, droga!!
Num pulo rápido, ele saiu de sua cama e alcançou seu armário. Pegou uma camisa qualquer e encontrou uma calça que ainda não estava suja. Aquilo deveria dar. Vestiu-os, colocou um tênis e rápida porém silenciosamente desceu as escadas e foi à cozinha. Preparou rapidamente uma caneca de achocolatado e bebeu mais rápido ainda. Subiu de volta, dessa vez para ir ao banheiro e escovar os dentes. Depois de tudo pronto, pegou seu celular com os fones de ouvido já acoplados a ele, botou sua mochila nas costas e saiu de casa. Descendo a rua em direção ao ponto de ônibus mais próximo, escolheu uma música adequada para começar o dia e lá esperou.
Por favor, que não tenha nada de importante hoje. Sério!
Olhando ao redor como de costume, analisava as pessoas que, como ele, esperavam por seus respectivos ônibus. Ele gostava de fazer isso. Gostava de deduzir coisas fantásticas sobre o que as pessoas iriam fazer e para onde estavam indo. Observando dois homens conversando, percebeu que um pagou ao outro uma pequena quantia em dinheiro. Foi o suficiente para que sua imaginação matinal começasse a fluir, descrevendo os homens mentalmente.
José da Silva. 33 anos, 70 quilos. Usuário de heroína passando por um divórcio devido ao seu vício. Deu ao traficante tudo que ele tem.
Marco Antônio. 31 anos, 85 quilos. Traficante de heroína procurado regionalmente. Não é independente. A identidade do seu chefe ainda é um mistério e... Ônibus.
Interrompendo os jogos mentais, Dante deu sinal para o ônibus e subiu no mesmo para ir à escola. Como ainda iria demorar um pouco, aproveitou para dormir um pouco mais.
*******
–Hmmm... — Marcos gemia, enquanto se espreguiçava em seu colchão. Acordando aos poucos, começou a sorrir, lembrando-se de sua "diversão" na noite passada.
–Baby, você realmente sabe como tratar o meu...
Procurando sua parceira apalpando diferentes locais da cama, não conseguiu achar nada além de lençóis amassados e uma camisinha usada. Abrindo os olhos e olhando ao redor, não achou mais ninguém naquela sala completamente caótica. O que conseguiu achar, porém, foi sua carteira revirada e sem um centavo sequer.
–Vaca!! — xingou. — Sabia que não devia ter confiado naquela... naquela.... Aargh!!
Nervoso, levantou-se ainda nu. Vestiu uma cueca e uma calça e foi direto à geladeira pegar uma cerveja. Num acesso de raiva, acabou socando a parede com força, o que deixou sua mão esquerda dolorida e seu dia ainda mais infeliz.
Como se não bastasse, seu celular começou a tocar. Marcos revirou a casa inteira até achá-lo, e conseguiu a tempo de atender o mesmo.
–Fala chefe.
–Você está atrasado, imbecil. — a voz do outro lado reclamou.
–Não há com o que se preocupar. Meu parceiro já deve estar vindo para cá. Quer que eu leve alguma coisa?
–Sim, a sua bunda gorda e a do seu parceiro! E rápido!
A linha caiu, e Marcos jogou seu celular no colchão.
–Idiota.
A buzina tocou do lado de fora da casa. Era o parceiro de Marcos.
–Marcos, vamos! Estamos atrasados!
Outro idiota.– pensou consigo mesmo. Bebeu mais um grande gole de cerveja, tirou a calça, vestiu o uniforme da polícia local e saiu de casa, levando sua carteira, seu celular e as chaves da mesma. Por fim, a trancou e entrou na viatura, que rapidamente seguiu em direção à delegacia.
*******
–Acorde. — uma voz feminina chamava suavemente.
–Hmmmmm... — Lucas não pretendia acordar.
–Vamos, amor! — disse a mulher, abrindo as cortinas e deixando os raios de sol do meio-dia entrarem nos aposentos. Lucas, por sua vez, colocou o cobertor por cima da cabeça. — Você tem que trabalhar! Sua pequena companhia não vai se comandar sozinha.
–Obrigado pelo "pequena". Quem precisa da minha companhia com a sua? — disse fazendo um trocadilho.
–Jura? A essa hora da manhã? — ela zombou.
–Não faço nem ideia de que horas são, Liz.
–Então descubra! Levante-se e vá tomar um banho. Vou preparar nosso café da manhã, ok?
–Estava pensando mais em deixar esse dia passar sem que eu percebesse. Você não está ajudando muito, querida.
–E nem vou! — disse ela risonha, tirando o cobertor do rosto do marido. — Sheila ligou, quer saber onde você está porque um cliente marcou horário para daqui a uma hora. Um tal de Sérgio...
Bruscamente, Lucas se levantou e correu ao banheiro, fechando a porta e ligando o chuveiro. Liz bateu na porta, assustada com tal reação. –
Amor... tudo bem?
Apenas uma hora mais tarde, Lucas estava trajando seu terno à frente da porta de seu escritório particular, passando por sua secretária e recepcionista, que mantinha um homem esperando no saguão. Com sua maleta em uma das mãos e uma caneca de café preto, entrou em sua sala, sentou-se em sua 'poltrona presidencial' — como gostava de chamar — apoiou o café em sua mesa e ligou o computador. Pegou o telefone e contatou a recepcionista.
–Sheila, mande-o entrar por favor.
–Sim senhor. — foi a resposta da recepcionista. Um ou dois goles de café e o homem já estava entrando em seu escritório, fechando a porta atrás dele.
–Sérgio, meu camarada! — disse Lucas levantando-se da poltrona e apertando a mão de seu convidado. — Como tem passado? Tem notícias para mim?
–Precisamos disso tudo mesmo? — perguntou Sérgio, sem espontaneidade na voz.
–Mas é claro, meu garoto! — respondeu, sentando-se novamente. — Por favor, fique a vontade para se sentar. Como tem passado sua mulher? Já se separou dela? — e soltou uma risada claramente forçada. Sérgio bufou e se sentou.
–Está ótima... patrão. Engordando como sempre.
Dessa vez a risada de Lucas fluiu espontaneamente.
–Um bom senso de humor. É assim que eu gosto. Então, aos negócios. O que posso fazer por você?
–Isso. — disse, tirando maços de notas de cem reais do bolso e colocando-os na mesa, resultando em 1.000 reais.
–Aaah... direto ao ponto. Do jeito que eu gosto. — Lucas tomou mais um gole de café e conferiu o dinheiro. Quando decidiu que tudo estava bem, continuou. — Ótimo, ótimo! Aqui está, como prometido.
O empresário municipalmente conhecido entregou a Sérgio um pequeno bilhete, com uma nota escrita nele. Sérgio observou o bilhete e olhou de volta para Lucas.
–É só isso?! — ele perguntou, inconformado.
–Me pagou pela informação, não foi? Aí está ela. Passagem livre. Não me responsabilizo por absolutamente nada que fizer com a mesma.
Sérgio permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando os cantos da sala cuidadosamente. Por fim levantou-se, guardando o bilhete no bolso.
–Ok então... — foi tudo o que ele disse.
–Mais alguma coisa? — perguntou Lucas, notando que seu amigo parecia preocupado.
–Na verdade... tem uma coisa sim.
–Só falar! Vou ajudar no que precisar. Digo... se eu puder, lógico. Sabe sobre o que eu estou falando, não? — disse com um sorriso malicioso enquanto esfregava os dedos num gesto sugestivo.
–Vai pro inferno, Lucas. Sem dar tempo para o empresário reagir, Sérgio tirou um revólver silenciado da cintura e acertou quatro tiros, sendo três no peito e um na cabeça de Lucas, que num espasmo inútil devido ao impacto da bala derrubou sua caneca de café no carpete. Não havia dúvidas que o mesmo já estava morto.
Sem demora, Sérgio pegou sua maleta e saiu pela porta da frente, sem antes conferir se as câmeras haviam mesmo sido desligadas e se Sheila estava mesmo tão morta quanto Lucas. Despreocupado ao saber que tudo ocorria como o esperado, ele então entrou em seu carro e saiu tranquilamente para evitar suspeitas.
Seu carro parou em uma escola ao perceber que mais a frente havia uma delegacia, obrigando-o a dar a volta para que não fosse notado. Um garoto observou o fato antes de entrar na escola, estranhando-o e deixando sua imaginação fluir involuntariamente.
Felipe. 28 anos, 72 quilos. Foragido da polícia. Seu carro é um Ford Sierra, placa JNY... droga.
Frustrado por não conseguir ver toda a placa, Dante rapidamente entrou na escola e anotou as letras para não se esquecer. Sabia que era apenas uma brincadeira de sua imaginação, então apenas escreveu na contracapa do seu caderno do Iron Maiden o nome Jenny, sublinhando a primeira, a terceira e a última letras. Riu consigo mesmo.
Isso até que podia dar uma história....
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