Kimi no sekai.

2 Boas crianças não choram.


Notas iniciais
Olá! A música que escolhi como tema deste capítulo é Ray of Light - Nakagawa Shoko (foi uma ending de FMA, linda música). Deixarei o link postado nas notas finais. Notas: - Hashi: São aqueles palitinhos/pauzinhos que os orientais usam para comer. - As cidades e províncias citadas na estória são reais, no entanto, os dados relacionados às mesmas, como tempo, tamanho, distâncias e etc, são puramente fictícios. - Chan, San, Sama, Kun, dentre outros, são títulos/sufixos honoríficos usados nos nomes japoneses. - As frases em itálico são narrações do ponto de vista de alguma personagem e/ou pensamento quando antecedida de travessão. Boa leitura!

Aquela solidão...

Aquela angústia...

Aquela frustração...

Aquela inquietação...

Todo aquele aperto no peito, eu o sentia, tão profundo, tão doloroso, tão sufocante. Sentia tudo em silêncio, sentia tudo sozinha. Afinal, aquele era o meu fardo — meu pesado fardo.

Naquela noite eu estava só. Aquela já era hora de boas crianças estarem dormindo em seu sétimo ou oitavo sono, mas eu não. Eu estava lá, bem acordada, esperando aquele alguém voltar mais uma vez, como o fizera em incontáveis outras noites. Inúmeras e inúmeras vezes.

A pequena existência recostada à parede no canto escuro do quarto abraçava as pernas esguias enquanto os joelhos amparavam a cabeça repousada sobre eles. O semblante era acobertado pelos braços envoltos pelas mangas macias do pijama que abafavam os seus suspiros e acolhiam as suas lágrimas silenciosas.

Já passava das quatro da madrugada e repentinamente ela ouvira um ruído, certamente vindo da porta do apartamento que ficava ao fim do corredor. Um fio de esperança fez-lhe erguer o rosto e rapidamente esfregar o tecido da blusa em sua face pálida e gélida, retirando alguns vestígios de lágrimas. Jamais aquele alguém iria vê-la chorando — jamais!

Após aquele ruído que se assemelhava a uma porta sendo aberta, ela ouviu alguns poucos passos. Provavelmente alguém havia chegado e não, ela não se movera do canto em que estava sentada, afinal, ela já sabia o que se sucederia a partir daquilo:

— Hikari... A mãe chegou! — avisou a familiar voz feminina, trêmula e desafinada. Em seguida o som dos passos voltou a ressonar sobre o assoalho do corredor. — Venha, meu amor... Vamos lá! — a voz feminina convidou desafinando irritantemente.

— Claro, se você insiste... — uma voz masculina desconhecida respondeu.

Uma voz estranha, mais uma das vozes estranhas que a menina nunca ouvira antes. Provavelmente seria mais um daqueles estranhos que aportavam em sua casa na companhia daquele alguém em inúmeras madrugadas.

A pequena intrigada pôs-se a engatinhar sorrateiramente e um misto de medo e curiosidade guiou-lhe até a fresta da porta. Daquele momento em diante, os olhos azuis brilhantes passaram a observar tudo o que se passava naquele corredor atentamente:

— Venha Yusuke... — a mulher cambaleante abriu a porta de outro quarto e estendeu uma de suas mãos ao homem desconhecido que estava atrás dela.

— Yusuke? Quem diabos é Yusuke? — o homem indagou atônito.

— Hãn? — a mulher apertou os olhos e analisou o homem que a acompanhava. — Espera... Você não é o Yusuke, vá embora! Eu quero o Yusuke... — ela o empurrou estabanadamente.

— Mas o que... Sua vagabunda! — ele desferiu-lhe uma forte bofetada na cara, que a fez cair ao chão e ela começou a chorar escandalosamente. — Você que me convidou para dormir contigo essa noite e agora está me expulsando, é? — aproximou-se dela, pegando-a pelos pulsos.

— Seu desgraçado, me solta... Vai embora! Some daqui! — ela começou a se debater enquanto berrava.

— Aliás, esse tal de Yusuke é mais um dos seus homens, sua cadela? — questionou irritado e de repente percebeu que alguém lhe observava da fresta da porta. Aquele olhar trêmulo, marejado e amedrontado lhe encarava sem pestanejar. — Pobre criança... — o homem tocado com tamanha tristeza estampada naquele pequeno rosto infantil, deu de costas e caminhou até a porta do apartamento, deixando-o sem olhar para trás.

— Isso mesmo, vai embora logo... Seu otário! — a mulher levou as mãos ao rosto e tapou os olhos. — Porque você me deixou Yusuke? Desgraçado, porque você foi embora? O que eu fiz? — ela indagava a si mesma, chorando como se não houvesse o amanhã.

Vagarosamente a menina se levantou e abriu a porta de seu quarto, seguindo silenciosamente até a mulher que permanecera jogada ao chão e agachou-se a sua volta:

— Está tudo bem agora, mamãe! — ela abraçou a mulher e se pôs a acariciar-lhe os cabelos. — Levante-se e venha comigo! — ela estendeu sua pequena mão ajudando a mais velha, notavelmente embriagada, a ficar de pé e guiou-a ao banheiro da casa.

No banheiro, a mulher sentou-se sobre o pequeno banco em frente ao espelho e a menina apanhou a ducha portátil, esguichando água fria no rosto da outra.

— Hikari... — desajeitada, ela olhou nos olhos da filha e colocou suas mãos sobre os seus ombros franzinos. — Cadê Yusuke? — inquiriu com a voz embargada pelo choro.

— Mamãe... — a menina carinhosamente colocou a mão desocupada sobre a cabeça de sua mãe. — O papai não voltará mais, aceite! — inexpressiva, ela retirou a mão da cabeça da mulher e permitiu que ela se aninhasse em seus braços outra vez para chorar um pouco mais, molhando o seu pijama. — Não precisa chorar mamãe, eu estou aqui! — confortou a outra enquanto fitava o nada, abatida.

Embora a tristeza lhe rasgasse o peito e a vontade insuportável de ceder às lágrimas lhe embaçasse a visão, a menina se mantinha firme e inabalável como sempre. Não choraria jamais na frente daquela pessoa, que por si mesma, já tinha tantas lágrimas para chorar.

A menina ajudou a mãe se despir, banhar-se e vestir-se, e assim que acabou, guiou-a até o seu quarto, deitando-lhe sobre a cama e cobrindo-a com a manta.

— Boa noite! — beijou a testa da mais velha que já caíra desacordada sobre o leito, apagou as luzes, saiu do quarto da mãe e voltou para o seu.

No final daquela madrugada, as horas transcorreram-se rápidas e logo já era hora de levantar, afinal, o café da manhã nunca se fez sozinho e jamais assim o faria.

O relógio sobre a cômoda ao lado da cama já apontava ao meio-dia daquele domingo e entontecida, a mulher sentou-se à beira da cama:

— Ah, que dor de cabeça! — ela levou as mãos aos olhos, esfregando-os e se levantou.

Um pouco atordoada, porém sóbria, ela saiu do quarto e seguiu pelo corredor, até chegar à cozinha, onde o café da manhã sobre a mesa já lhe aguardava e a menina sentada na ponta da mesa já almoçava o seu macarrão instantâneo:

— Bom dia, mamãe! — ela deixou os hashi sobre a vasilha, apanhou uma xícara sobre a mesa e foi até a garrafa térmica, colocar água quente.

— Bom dia... — abatida, ela retribuiu o cumprimento e puxou uma cadeira, sentando-se à mesa.

A garota voltou com a água quente e colocou o sachê de chá preto suspenso por um fio amarelado dentro da xícara, colocando-a a frente da mãe:

— Obrigada... — a mulher agarrou a alça da xícara e começou a mexer o pequeno sachê, ajudando-o a diluir e poucos segundos depois tomou um gole rápido do chá. — Né, Hikari... — ela depositou a xícara sobre a mesa e pôs-se a encarar o chá. — Desculpa... — cabisbaixa, ela voltou a levar a bebida quente à boca.

— Está tudo bem! — a menina esboçou um singelo sorriso e voltou para o seu lugar, para terminar de comer o seu almoço enquanto ainda estava morno.

O silêncio instalou-se naquele apartamento por alguns minutos, no entanto, logo aquela calmaria foi quebrada pela pessoa que espalhafatosamente abriu a porta da cozinha:

— Bom dia família! — a mulher sorridente cumprimentou e aproximou-se da mesa, puxando uma cadeira para se sentar. — Uau, como o esperado da Hikari-chan! Que café da manhã incrível! — ela começou a comer rapidamente.

— Droga, Aya! Fala baixo, a minha cabeça está estourando! — a outra exigiu franzindo o cenho enquanto pressionava as têmporas.

— Bom dia Aya-san! — a menina saudou enquanto mastigava o macarrão.

— Ora, Keiko... Você está de ressaca? — ela indagou observando a expressão da mulher. — Nossa... Você está tão acabada! — comentou com ironia.

— Apenas morra sua maldita! — proferiu sem olhar para ela. — Aliás, você dormiu fora? Aposto que também encheu a cara e está fingindo que não está de ressaca! — suspeitou olhando pelo canto dos olhos para a outra, com sarcasmo.

— Amadora! Eu sou uma diva, e divas não ficam de ressaca! — ressaltou com um brilho no olhar.

— Ah, claro, claro! Uma diva de casa noturna! — rebateu com um olhar zombeteiro.

— Olha só quem fala... O sujo falando do mal lavado! É incrível como essa criança pura e bondosa pode ser sua filha! — olhou para a menina, com irônico pesar.

— Morra Aya, apenas morra! — a mulher rugiu com aquela provocação.

— Nossa, pra que tanto? É isso que você deseja à sua melhor amiga? — questionou falsamente magoada e não obteve resposta. — Mas mudando de assunto, Keiko... Eu tenho uma coisa muito importante pra te dizer! — contou receosa.

— Diga... — sugeriu de forma desdenhosa. Não estava nem um pouco interessada no que a amiga tinha para dizer.

— Eu... Eu fui rebaixada de cargo na empresa! — confessou abaixando a cabeça.

— O que? — ela arregalou os olhos, chocada.

— N-Não me olha assim e... Essa não é a pior parte! — argumentou aflita. — Eu queria ter te contado antes, mas fiquei com vergonha e custei reunir coragem para isso! — continuou o desabafo.

— Merda, e qual é a pior parte? Vamos, conte! — exigiu irritada e espantada.

— Nós vamos ser despejadas! — cuspiu aquelas palavras aterrorizantes.

— O QUE? Explica-me isso direito! — a mulher notavelmente transtornada questionou atônita.

— Bem, nós moramos aqui há cinco anos e o valor do aluguel subiu muito nos últimos dois anos... E agora que eu fui rebaixada lá no serviço, então vou ganhar menos ainda e bom, nós já temos alguns aluguéis atrasados e fora que a vizinhança nos detesta e como eu sou a responsável por lidar com o locador, estive tentando negociar, mas ele não quis nenhum acordo! — anunciou tudo em um único fôlego.

— E-Eu não acredito nisso... Você está brincando né, Aya? — inquiriu pasmada com aquela revelação.

— Infelizmente, não! Aliás, eu soube disso há alguns dias atrás e eu andei dando umas pesquisadas por aí, mas os aluguéis aqui em Yokohama estão muito caros ultimamente... — complementou aquele argumento assustador.

—D-Droga, então o que iremos fazer? — perguntou estarrecida, sem pestanejar.

— Hum, a única solução que eu encontrei foi... Mudarmo-nos para o interior, afinal, as cidades menores possuem aluguéis mais baratos! — sugeriu apreensiva.

— O QUE? Mas e o nosso trabalho? — indagou consternada.

— Bom, eu achei uma cidade de custo de vida barato no interior da província de Kanagawa, Miura. De lá até aqui, de trem deve levar de uma hora e meia a duas horas de viagem... Dá pra gente continuar trabalhando aqui! — afirmou calmamente e recostou-se à escora da cadeira.

— Mas e a escola da Hikari? Mês que vem ela retorna às aulas e ela estuda em um bom colégio... — olhou para a filha que continuava a comer como se não ouvisse nada. — Hikari, você ouviu... Ficará triste se nos mudarmos daqui? — inquiriu receosa e finalizou o seu café.

— Não tem problema algum, mamãe! Você ouviu a Aya-san! Lá nós poderemos viver com o dinheiro que temos, não é? — ela terminou sua refeição e se levantou, pondo-se a retirar a mesa.

— Incrível... Sua filha tem apenas onze anos e é mais madura e responsável que você! — admirou-se encantada com a criança e também concluiu o seu café.

— Tsc. Eu não quero ouvir isso de você! — resmungou aborrecida.

— Ótimo! Então eu irei alugar a casa barata que encontrei lá em Miura e vamos nos mudar amanhã! — levantou-se com empolgação.

— O que? Mas porque tão de repente? Por lei o locador é obrigado a aguardar trinta dias antes do despejo! — comentou confusa e olhou para a amiga.

— B-Bom, é que, amanhã completam os t-trinta dias... — ela desviou os olhos e engoliu a seco.

— O QUE? Você disse “que soube disso há alguns dias atrás”! Sua maldita... — rosnou com uma aura assassina.

— Keiko, eu fiquei com medo de contar, droga... Estive reunindo toda a minha coragem para confessar! — revidou arrependida.

— Merda, que seja! A minha cabeça está me matando, eu vou dormir mais um pouco... — ela se levantou e deixou a cozinha.

— Tudo bem! Eu vou ir fazer algumas ligações! — pôs-se de pé e seguiu até a porta. — Hikari-chan, se você quiser já pode ir encaixotando suas coisas! — avisou e saiu da cozinha.

A menina nada respondeu e como acabara de retirar a mesa, começou a lavar a louça suja do “café almoço” que tiveram ao meio-dia daquele domingo.

No dia seguinte, dentro do trem expresso em direção à cidade desconhecida, a mulher, sua filha e sua amiga, seguiam para o seu novo lar.

Eu posso ver os vultos da paisagem urbana acinzentada tornando-se aos poucos arvoredo verdejante como num passe de mágica. Não deixei meus pertences, não deixei amigos e nada que me importasse para trás. Não deixei nada do qual sentirei falta, ou melhor, eu nunca tive algo que me significasse dessa forma.

Talvez algum dia eu me sinta nostálgica ao pensar na vida em Yokohama que deixei para trás devido às necessidades, afinal, embora não houvesse felicidade, ainda assim, lar é lar. No entanto, eu apenas tenho de ser uma boa menina, assim como ele me pediu naquele dia, que mesmo há tanto tempo naquele passado, eu jamais pude esquecer. Esse é o meu fardo, esse é o meu fado. Boas crianças não reclamam. Boas crianças não choram.

Notas finais
L I N K D A M Ú S I C A https://www.youtube.com/watch?v=accaMcuY9FA Agradeço a quem leu! Kissus de chocolate :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.