Killer
4 Capítulo 4
Eu definitivamente odeio o verão. Qual é? Faz um mês que tá nesse calor dos infernos, e eu não senti um ventinho frio no meu rosto hoje. Estou morrendo aqui. Estou esperando minha mãe na saída da minha escola. Hoje ela tem que me buscar porque eu tenho uma consulta marcada no ginecologista. Pois é, porque será que alguém ia querer ficar mexendo na pepeka dos outros? Vai saber. Mas como nasci com o organismo feminino eu tenho que ir todo mês. Minha mãe ainda não me contou sobre seu comportamento estranho, e isso faz 3 semanas que está acontecendo.
Tem alguma coisa errada, ela de repente diminui seu turno de serviço, isso consequentemente diminuiria o dinheiro né? Não. Porque a cada dia ela aparece com alguma coisa diferente em casa. Uma tv nova, aparelho de som, brinquedos pra Sol. Eu, recentemente ganhei uma bolsa de couro, de marca ainda. Quero questionar, mas ela parece tão feliz dando essas coisas pra mim e pra Sol, mas mesmo assim eu quero saber de onde ela tira esse dinheiro. Isso esta ficando muito estranho. Percebi também que ela mudou seu jeito comigo. Tenho hora pra chegar em casa, pra sair, tenho que relatar com quem saio. Ela está ficando obcecada. Talvez se eu tentasse convers...
“Oi lindinha, por que está aqui fora sozinha.” Sei bem de quem é essa voz, Sr. Cara de caçapa. Nem parece que fazem 3 semanas que ele entrou na escola, porque o cara é o novo Troy Bolton do colégio. Depois da minha delicada retirada em ser sua amiga, ele parece ter esquecido disso. A gente nem se falou mais, bom até hoje. Mas tenho a sensação de que ele me segue. Sei lá. Sexto sentido ou algo do tipo. Acho que ele tem fetiche por gordinhas, ou algo assim.
“Estou esperando minha mãe e você ? Por que dá o ar da graça nesse dia tão lindo?” — Certoo, talvez ele me deixe um pouco nervosa, mas qual é? ele é um gato gente. Mas eu também fico nervosa jogando mortal kombat então, isso é normal. Eu acho!
“Só observando seu rostinho lindo.” — Ele diz piscando e me fazendo corar. Porra. Controlem-se hormônios fdp. “Eu até tentei te deixar em paz, mas você fica me atraindo. Não sei o que é. Acho que é sua bunda. A carne é fraca e tudo mais!” — Ele fala como se isso fosse a coisa mais normal do mundo...Pera aí? Minha bunda? Mas bom, já recebi vários comentários sobre ela, a maioria não eram legais, não que esse seja. Esse cara não consegue ser mais escroto?
“Por que tá esperando sua mãe?” – Ele pergunta me olhando profundamente.
Eu sinceramente não sei de onde esse ser saiu, mas acho que ele parece não entender quando alguém não quer fazer amizade com ele. Mas, nunca fui mal educada na minha vida, bom, pelo menos nunca com alguém que não merecia.
“Ela vai me levar no médico hoje.” — Respondo olhando pra frente. Acho que se eu der só respostas vagas ele se manca e vai embora.
“Hum, que médico?” — Ele pergunta me encarando. Rebobina por favor, esse cara esta cruzando uma linha de intimidade que não existe entre nós. Eu não saio perguntando por ai em que médico alguém vai. Não respondo, tentei ser educada, mas ele é intrometido poxa. Depois de alguns segundos me encarando e percebendo que eu não vou responder ele fala:
“Então, não vai responder?Pensei que você era muitas coisas, mas nunca pensei que fosse uma mal educada” — Me viro pra ele pra encontra-lo sorrindo pra mim. Por um segundo me perco naquele sorriso lindo, mas logo me recomponho. Ele pensou muitas coisas de mim? O que ? Stop Ana Elena. Para com isso sua burra.
“Ginecologista. Minha menstruação esta atrasada e talvez eu possa estar doente, mas só talvez, obrigada pela preocupação.” — Digo séria a ele. Ele quer se intrometer? Bem feito pra ele. A maioria dos garotos iria ficar com vergonha em tocar nesse assunto. Mas é claro que o Caio não. Para a minha surpresa ele não sai batido quando falo isso, ele solta uma gargalhada gostosa. E que gargalhada. Me faz ter vontade de sorrir também e acabo me rendendo. Pelo menos por agora.
“Desculpa Caio, não quis ser grossa. Só estou cansada de ficar aqui nesse calor infernal.” — Digo me desculpando, ele não me fez nada, tenho que parar de descontar minha raiva nos outros. E ele claramente quer ser meu colega, que mal tem ?
“Tudo bem Ana, sempre soube o tipo de mulher que você é quando fica na tpm.” — Ele diz sorrindo e piscando pra mim. Acho que essa coisa de piscar é um tique. “Você é do tipo paus e pedras.”_- Continua , sorrindo.
“Não se esquece do canivete!”- Digo provocando o também. Percebo que eu fiz uma imagem errada do Caio, ele até pode ser legal. Ele sorri mais um pouco e coloca o braço em volta do meu ombro. Sabe, eu sempre lia em livros, como as meninas se arrepiavam quando sentiam o toque do cara que estavam afim. E eu sempre pensei, besteira. Mas cara, eu arrepiei todinha quando ele fez isso. Não que eu esteja afim dele, é claro. Mas mesmo assim me afasto, não estou acostumada com o contato físico do sexo oposto.
“Desculpa Ana, não fiz por querer. Eu...Eu...parecia natural!”- Ele diz, dando um risinho.
“Olha, eu quero mesmo ser seu amigo, por que a gente não esquece o que acabou de acontecer e começa tudo de novo? Não sou um stalker, eu juro! Palavra de escoteiro” Ele diz, levantando as mãos ao torax e fazendo sinal de paz.
“Você já foi escoteiro por acaso?” – Pergunto, levantando minha sobrancelha.
“Não” – Ele responde confuso.
“Então esse juramento não cabe a você querido.” — Dou um sorriso. Acabo de perceber que seria bom ser amiga dele. Com Julio ainda doente, fico meio sozinha esses dias. E a Gabs esta meio estranha comigo também. Não custa fazer uma nova amizade. Mas só isso.
“Combinado. Amigos!” — Digo levantando minha mão pra ele. Me olha por alguns segundos e aperta minha mão dando um sorriso. No momento em que acho que ele vai falar algo, minha mãe buzina e me chama. Me viro pro lado, pego minha mochila, dou tchau pro Caio, e vou de encontro á ela. Percebo seu olhar aguçado no Caio e logo digo:
“É só um colega mãe!” — Falo, sentando no banco do carro, que é um gol preto 1998, bem conservado. Ela me olha, dá um sorriso e me dá um beijo na testa. Ponho os fones de ouvido e dou play nas minhas músicas, mas não antes de ouvi-la sussurrar: “Não por muito tempo filha.” — Pensando que foi algo da minha cabeça, volto pras minhas músicas e espero que minha decisão de uma amizade com Caio não tenha sido burrice.
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“Como será então Ana Elena?” — Me visto e olho para o Dr.Raul, meu ginecologista. Sim, ele é homem. Por mais que eu insistisse em ter uma médica mulher, minha mãe não aceitou e disse que ele era de confiança. Faz 30 minutos que estamos aqui e não estou aguentando mais, ele é muito chato. Fala comigo como se eu fosse um jegue.
“Sua menstruação está atrasada, e acho melhor nós começarmos aplicando em você um anticoncepcional para regular daqui em diante.” — Ele olha pra mim e espera. Sério, minha menstruação nunca foi certinha, mas não sabia que isso era perigoso, é estranho minha mãe querer me forçar a tomar remédio justo nessa altura do campeonato. Mas aceito mesmo assim. Livre de cólicas. Estou até me sentindo mais feliz agora.
Quando saímos, minha mãe passa em uma loja de roupas e me empurra junto.
”Você precisa de roupas novas Ana, as suas estão ficando agarradas demais.”- Ela diz ,não me olhando. O que ? Agarradas demais ? Ela nunca foi chata com oque eu usava, e minhas roupas não estão agarradas, nunca usei roupa justa demais. Bom, talvez eu tenha ganhado uns quilos e não percebi isso.
“Vamos comprar um tênis também...” – Ela diz, puxando minha mão de encontro com a loja.
“Mãe! Para, me diz o que esta acontecendo? Por que esta agindo estranho essas últimas semanas? O que houve?” — Pergunto pra ela na entrada da loja. Não queria fazer isso no meio da rua, mas ela não esta me dando escolha, tem alguma coisa diferente e eu quero saber. Ela me olha espantada, como se a surpreendesse que eu percebi que as coisas mudaram. Hugh. Não sou burra mamãe.
“Não tem nada de errado Ana, eu só quero comprar roupas pra minha filha, não posso?”- Ela me pergunta, erguendo a sobrancelha.
“A gente não passa muito tempo juntas e queria te agradar.”
“Eu entendo mãe, mas as coisas mudaram. Aonde está arrumando dinheiro sendo que está trabalhando menos? Por que tenho que começar a usar anticoncepcional?” — Pergunto pra ela. Esses detalhes estão me deixando louca. Ela me olha por alguns minutos, respira fundo, coloca seu cabelo pra trás da orelha e diz:
“Escuta filha, você não está pronta pra ouvir sobre o que está acontecendo e eu não estou pronta pra falar. Me dê algumas semanas e eu te explico tudo, Okay?” — Ela pede, dando um aperto no meu ombro. Eu não gosto disso, mas ela nunca mentiu pra mim, e tenho certeza que quando estiver pronta vai me contar. Por hora, eu escolho acreditar na mulher que mais amo no mundo. Dou um abraço nela e entramos na loja. Pelo menos vou tirar proveito disso.
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