Killer

29 O Último Adeus


Notas iniciais
Olá pessoinhas, Há quanto tempo não dou ás caras aqui, não é? Digo que estou de férias e que vou atualizar a fanfic com mais frequência e, ao invés disso, sumo. Eu não sei como vocês me aguentam, mas agradeço por isso. Dessa vez eu não tenho nenhum grande desculpa para dar. Não fiquei sem tempo, meu pc não quebrou, minha net não tava com problemas, nem viajar eu viajar, mas... encontrei um jogo de RPG e eis o motivo da minha ausência: passei as férias quase todas jogando. Sorry! E Sorry de novo. Agora que estou de volta, gostaria de dedicar esse capítulo a minha incrível leitora Jéssica Salvatore que mesmo eu sendo uma enrolada, ainda não desistiu de mim kkk Jéssica, muito obrigada por todo o apoio. Agora vamos ao capítulo? Desejo a todo uma ótima leitura.

[Bryan P.O.V.]

Eu devia ser alguma espécie de louco masoquista por aceitar atravessar o inferno inteiro, na companhia perturbadora de Lúcifer, apenas para me torturar um pouco mais assistindo ao funeral de Loren, mas simplesmente não pude recusar àquela oferta.

Mesmo sabendo que a alma de Loren – aquilo que que a tornava quem ela era – já não estaria mais ali e que tudo o que eu encontraria na Terra seria seu corpo, frio e inerte, eu precisava vê-la uma última vez, ainda que fosse apenas para dizer adeus da forma mais humana que eu já havia feito em toda a minha existência.

– Preste atenção no caminho. – Lúcifer me alertou, apontando para um grande rochedo que se erguia além das pilhas de corpos em chamas – O inferno não foi feito para que as pessoas saiam dele, então o próprio lugar vai tentar te confundir. Fica mais fácil encontrar o caminho depois de um tempo, mas se der um passo errado agora, você vai acabar andando em círculos por décadas antes de perceber que está na direção errada.

Assenti e observei a paisagem desoladora a minha volta com atenção, tentando absorver dela o máximo de detalhes que eu pudesse usar como ponto de referência no futuro. Eu não gostava da ideia de ter que confiar nos conselhos de Lúcifer a respeito de qualquer coisa, mas aquele era o território dele e eu não queria correr o risco de pagar para ver e acabar andando em círculos por décadas depois.

– Para onde, exatamente, nós estamos indo? – perguntei. A desconfiança e a curiosidade ardendo dentro de mim como as chamas das fogueiras a nossa volta.

Lúcifer chutou uma pedra para fora de seu caminho.

– Apesar de o inferno ter sido ter sido criado como uma prisão para mim e para meus seguidores, ao longo dos anos nós encontramos algumas brechas, pequenos portais que conectam esse lugar ao plano terreno e permitem que façamos uma visitinha aos mortais de vez em quando. – ele explicou calmamente – Estou conduzindo você ao que está mais próximo de nós, mas quando voltarmos posso te mostrar o restante, se quiser.

– Quando voltarmos? – questionei – Estaremos do lado de fora, livres. Porque acha que eu iria querer voltar para cá?

– Porque você não tem escolha. – Lúcifer se voltou para mim e sua expressão neutra se endureceu um pouco quando me encarou – Você, assim como todos nós, pertence a esse lugar agora, Azrael. Nós podemos sair, mas o inferno é a nossa morada e, mais cedo ou mais tarde, ele sempre nos traz de volta.

Lúcifer me encarou por mais um breve instante, seus olhos vermelhos me fitando como se pudessem ver através de mim e através dos meus medos e, por mais desconfortável que aquilo fosse, eu não deixava de pensar que, de alguma forma, ele podia mesmo ver.

Enquanto estava no Paraíso, Lúcifer nunca foi grande coisa. Era o anjo mais belo do Reino Celeste, a Estrela da Manhã, mas fora isso era apenas um anjo comum, bem diferente de Miguel – O Arcanjo – e de mim, o segundo anjo na Hierarquia Celestial. Ao ser aprisionado no inferno, entretanto, Lúcifer havia mudado bastante e, segundo diziam, essas mudanças iam além de sua aparência. Eu nunca soube qual era, realmente, a extensão dos poderes que Lúcifer adquirira ao ser banido do paraíso, mas, entre os Ceifeiros, comentava-se que agora ele possuía poder suficiente para desafiar Miguel e, talvez, o próprio Deus.

Se aquilo era verdade ou não, eu não sabia, mas a julgar pelas atitudes de Miguel – que ao mínimo sinal de que Lúcifer havia escapado de sua prisão colocou todo O Exército em polvorosa – eu tinha a terrível, mas sincera, impressão de que havia mais verdade naquele boato do que as pessoas realmente imaginavam.

– Precisamos nos apressar. – Lúcifer disse, finalmente desviando seus olhos de mim – O tempo não espera, Azrael. Nem mesmo por nós.

Ele voltou a caminhar a minha frente e eu o segui, em silêncio, enquanto ele me ditava mais alguns conselhos sobre os caminhos tortuosos e confusos do inferno e apontava para os pontos em que eu devia me concentrar para chegar ao tal portal a que ele me conduzia.

Talvez fosse por eu estar concentrado em decorar os pontos de referência do caminho por onde Lúcifer me levava ou talvez fosse porque, assim como ele havia me dito, o inferno era um lugar de várias faces interpostas, que não percebi quando a paisagem a nossa volta mudou, deixando as fogueiras repletas de corpos para trás e cedendo espaço a centenas de rochas lisas e avermelhadas, onde seres humanos, completamente nus, estavam acorrentados enquanto eram açoitados e abusados por criaturas grotescas, metade homens e metade animais.

– Que lugar é esse? – perguntei, interrompendo meus passos enquanto observava toda aquela paisagem desoladora.

– Esse lugar? – Lúcifer também parou e olhou em volta como uma expressão de completo tédio no rosto, como se nada daquilo o abalasse – Muitos demônios o chamam de A Sala dos Jogos, mas eu costumo chamá-lo apenas de Círculo da Luxúria. A propósito – ele se voltou para mim e um sorrisinho surgiu em seus lábios, revelando os dentes pontiagudos –, bem vindo ao Quarto Círculo do Inferno.

– Quarto Círculo? – eu o encarei sem entender.

Tudo o que eu sabia sobre o inferno era que ele era um lugar horrível, para onde ninguém gostaria de ser mandado e que também servia como uma prisão para Lúcifer. Quaisquer outros detalhes a respeito daquele mundo era um mistério para mim e, tenho certeza, para os demais anjos também, porque Miguel era o único de nós que sabia exatamente como era esse lugar e ninguém ousava perguntar nada a ele. Na verdade, a grande maioria dos anjos tinha medo do inferno e se afugentava com mera menção ao assunto, por isso ele permanecia uma incógnita.

– Deixe-me lhe dar uma rápida explicação sobre esse lugar. – Lúcifer disse notando a minha confusão – O inferno é composto por nove regiões que nós chamamos de círculos. O Primeiro Círculo, que fica mais próximo da superfície, é o Limbo e, o último, e mais profundo, é a maldita jaula onde Miguel me colocou ao me banir para cá. Os outros setes círculos são divididos entre os famosos pecados capitais e, nesse momento, nós estamos no Círculo destinado a todos aqueles que cometeram o pecado da luxúria. – ele explicou – Adoraria lhe mostrar as diversas formas de se divertir aqui, mas agora, nós precisamos andar.

Lúcifer recomeçou sua caminhada, mas eu não consegui mover um músculo. Todo o meu ser estava sendo consumido pela cena atordoante daqueles corpos nus sendo abusados e chicoteados a minha volta e aquilo me deixava tão enojado que eu simplesmente não conseguia me mexer.

– Tudo isso é tão... – comecei sem encontrar a palavra certa para descrever aquilo. Cruel? Perverso? Sujo? Nada parecia apropriado e eu tinha certeza de que, mesmo que eu juntasse todas aquelas palavras, ainda assim elas não seriam suficientes.

– Tente “repugnante”. – uma voz suave ronronou atrás de mim e eu me virei em sua direção, surpreendendo-me ao encontrar uma ruiva seminua, que trazia uma grande serpente negra enrolada ao redor de seu corpo, me fitando.

– Quem é você? – perguntei antes que pudesse me impedir.

A ruiva abriu um sorriso e desenrolou a serpente de seu corpo, deixando-a deslizar livremente pelo chão, aos seus pés, antes de responder:

– Todos aqui me chamam de rainha. Em algumas civilizações mortais antigas já fui chamada de deusa. Atualmente, os mortais se referem a mim como Súcubos, mas para você, meu querido Azrael, posso ser quem desejar.

Ela me fitou com seus grandes olhos dourados e senti minha respiração falhar por um momento, antes de ouvir os passos de Lúcifer ressoando atrás de mim.

– Lilith, minha amada. – ele disse aproximando-se dela e beijando sua mão – É sempre um prazer revê-la.

– Lúcifer. – ela o cumprimentou com um breve aceno de cabeça – Sempre tão galanteador. Pena que também é conhecido por ser o pai da mentira.

– Você não deveria acreditar em tudo o que escuta, minha rainha. – Lúcifer abriu um sorriso torto – A honestidade é apenas uma das minhas virtudes.

Lilith assentiu, rapidamente, e então seus olhos dourados se concentraram em mim, avaliando-me tão detalhadamente que chegava a ser incômodo.

– Aonde vão? – sua pergunta foi dirigida a Lúcifer, mas seus olhos permaneceram sobre mim e, apenas por orgulho, sustentei seu olhar, recusando-me a ceder e a demonstrar qualquer fraqueza ou desconforto.

Lúcifer se aproximou de mim.

– Azrael e eu vamos ao Plano Terreno. – ele pousou uma mão em meu ombro – Meu irmão sofreu uma grande perda e prometi levá-lo até lá para que ele encontre algum conforto para seu coração.

Lilith, mais uma vez, assentiu. Seus olhos dourados subiram e desceram por meu corpo e senti como se minha pele estivesse em chamas enquanto ela me observava daquela forma.

Havia algo nos olhos daquela mulher, um brilho que eu não conseguia identificar exatamente o significado, mas que me incomodava.

– Você a amava? – Lilith perguntou, pegando-me de surpresa – A mulher que você perdeu. Você a amava, Azrael?

Engoli em seco e, mesmo disposto a não demonstrar qualquer fraqueza perto de Lúcifer ou de Lilith, tive de desviar o olhar. As palavras dela reacenderam em mim todas as lembranças que eu tinha de Loren – desde seus olhos assustados quando me viu pela primeira vez, aos doze anos, até o toque cálido de suas mãos, antes de ela fechar os olhos e dar seu último suspiro em meus braços.

Cada uma daquelas lembranças era linda e, ao mesmo tempo, triste, pois agora eu a havia perdido e havia uma ferida em meu peito que eu não sabia se algum cicatrizaria, mesmo que eu tivesse a eternidade inteira para tentar me curar.

– Eu a amo. – consegui responder, por fim, e ergui os olhos para encarar Lilith novamente – Não no passado, mas agora, no presente, e provavelmente por todo o meu futuro.

Lilith me encarou por mais um momento. Seus olhos dourados, assim como os de Lúcifer, parecendo ver através de mim e de cada uma das minhas memórias, como as pedras no fundo das águas de um rio límpido e claro.

– Eu sinto pela sua perda. – ela disse, finalmente, e então desviou os olhos dos meus e seguiu em direção a Lúcifer. – Cerberus está guardando o portal. Vou levá-los até lá.

– Cerberus? – Lúcifer franziu o cenho – O que Cerberus faz guardando este portal?

– Alguns dos meus estavam tentando escapar. – Lilith apontou para um grupo de humanos cujas costas já estavam em carne viva, mas que permaneciam sendo açoitados por duas criaturas horrendas, metade homem e metade bode – Não quero que o meu lixo se espalhe por aí.

Ela passou por Lúcifer, caminhando a passos rápidos e decididos e sem mais uma palavra, nós a seguimos através do Quarto Círculo do inferno, passando por humanos em desespero e por criaturas que os puniam enquanto eu tentava ignorar os sons dos gritos e dos açoites se chocando contra a pele.

Lúcifer ainda me apontava alguns locais que eu deveria gravar caso quisesse encontrar àquele lugar novamente, mas eu já não estava mais prestando atenção. Só percebi que havíamos chegado ao nosso destino quando uma série de rosnados guturais seguidos pelo som de garras cavando a terra inundaram meus ouvidos.

Estaquei e olhei para o alto, sentindo que minha boca se abria um pouco mais à medida que a forma gigantesca de um cão negro, de três cabeças, surgia a minha frente.

– Isso é...

– Cerberus! – Lilith exclamou, respondendo a minha pergunta antes mesmo que eu tivesse tempo de completá-la – Ouça a sua Rainha.

O cão, que possuía três pares grandes olhos vermelhos, voltou-os na direção de Lilith e fungou algumas vezes no ar, enquanto ela se aproximava dele e tocava uma de suas patas.

– Deixe-os passar. – disse acariciando o animal que rosnou mais uma vez em nossa direção antes de se deitar no chão com um baque, ainda nos encarando.

– Vamos. – Lúcifer passou rapidamente por Cerberus e se encaminhou para a abertura escura de uma gruta que havia logo atrás dele, mas eu ainda perdi alguns segundos encarando os olhos vermelhos daquela fera gigantesca antes de segui-lo.

– Espero que seu coração encontre o conforto pelo qual você procura. – Lilith disse quando passei por ela e, sem saber se suas palavras eram sinceras ou não, apenas assenti e caminhei em direção à gruta aonde Lúcifer já havia entrado.

Achei que minha viagem de volta a Terra seria como passar por um túnel, que eu e Lúcifer andaríamos no escuro pelo interior daquela gruta até encontrarmos a saída que nos levaria ao mundo dos mortais, mas me surpreendi quando a luz intensa do sol da manhã cegou os meus olhos assim que coloquei os meus pés para dentro dela.

Incomodado, levei as mãos ao rosto e estreitei os olhos tentando me acostumar à claridade que tanto contrastava com a atmosfera sombria do inferno, onde eu estava segundos antes.

– É sempre um choque voltar à superfície. – ouvi a voz de Lúcifer ecoar a minha frente.

Pisquei e quando os meus olhos finalmente se acostumaram a luz, pude vê-lo encostado a uma grande árvore de folhas amareladas não muito longe de mim.

– Onde estamos?

– Não reconhece? – Lúcifer fez um gesto abrangente para a paisagem a nossa volta – Até onde sei você passou muito tempo aqui.

Olhei ao redor, confuso, mas assim que avistei as colunas brancas de uma pequena igreja a alguns metros de distância, percebi exatamente onde estávamos.

Aquela era a cidade natal de Loren. A cidade onde ela havia morado com a avó antes de se mudar para Trevolts com o pai e onde sua mãe estava enterrada.

Nós havíamos nos conhecido ali, há seis anos, quando Loren e sua turma da escola sofreram o acidente de ônibus ao voltarem de uma excursão. Depois disso, eu a havia acompanhado diversas vezes ao hospital que ficava algumas quadras abaixo de onde estávamos, enquanto ela realizava sua fisioterapia, a observara na escola que ficava apenas seis ruas acima dali e até a acompanhara a casa de repouso, nos limites da cidade, onde sua mãe havia ficado internada antes de falecer.

Havia tantas coisas ali que me lembravam de Loren, tantos locais que eu a vira frequentar enquanto a seguia em busca de respostas para o fato de ela continuar viva após o acidente, mal sabendo que, anos depois, estaria chorando por sua morte. Cada pedaço daquela cidade era uma recordação permanente de tudo o que ela era e de tudo o que eu havia perdido.

– Ela será enterrada ao lado da mãe. – Lúcifer caminhou até o meu lado e concentrou seu olhar nos vitrais coloridos das janelas da pequena igreja para a qual eu olhava – O corpo dela está lá agora, mas em breve será levado para o cemitério.

– Eu preciso vê-la. – disse, sentindo que um nó se formava em minha garganta – Preciso vê-la uma última vez.

– Você não pode ir até lá, Azrael. – Lúcifer pôs as mãos em meus ombros, antes que eu pudesse dar um passo sequer. – Nossa presença não é permitida na casa de Deus. Se colocar um único pé dentro daquela igreja você será lançado no inferno de novo e não vai poder voltar a tempo de dizer adeus.

– Você me prometeu uma despedida adequada. – eu o lembrei.

– Vê-la ser enterrada na cidade onde cresceu, ao lado da mãe, é tudo o que eu posso lhe dar, irmão. Por favor, aceite de bom grado. – ele me encarou – Você não prefere que sua última lembrança da Loren seja vê-la descansar em paz, ao lado de alguém que ela amava, ao invés de jogada sobre um terraço sujo, aos pés de Miguel?

Cerrei os punhos.

– Azrael – as mãos de Lúcifer apertaram meus ombros com um pouco mais de força –, lembre-se do porque de estar aqui. Lembre-se do que o trouxe a essa cidade. Não sou eu o seu inimigo.

Parei e respirei fundo, tentando fazer a raiva que ardia em meu interior se dissipar aos poucos. Eu odiava Miguel e odiava o destino que Loren tivera de suportar. Odiava estar ao lado de Lúcifer e odiava, principalmente, que fosse ele a estar ao meu lado em um momento como aquele, mas ele tinha razão.

Eu estava ali por um motivo e esse motivo era me despedir da garota que eu amava e do meu filho, a pequena vida que eu nem tivera a oportunidade de conhecer. Qualquer sentimento além do luto por sua perda teria que ficar para depois. Loren merecia mais que isso.

– Muito bem. – Lúcifer afrouxou o aperto em meus ombros, soltando-me devagar – Toda essa sua ira será melhor gasta em outro momento.

– Que momento?

Eu não pude deixar de notar o tom sugestivo das palavras de Lúcifer. Sendo quem era, eu sabia ele devia estar armando alguma coisa, como se ele já tivesse uma boa ideia de qual momento seria aquele e de qual seria o meu papel e eu não queria me tornar mais uma peça de xadrez em suas mãos.

– Em breve você saberá. – ele respondeu calmamente– Por hora concentre-se no motivo que o trouxe até aqui.

– Que momento, Lúcifer? – Agarrei seu braço e o encarei com seriedade, recusando-me a deixar que ele se afastasse antes que eu tivesse uma resposta.

Lúcifer já havia me colocado em muitas situações complicadas ao longo de minha existência e eu não deixaria que ele me colocasse em mais uma. Toda a confiança que, um dia, eu tivera nele já não existia mais e, fora a ajuda que ele havia me dado até aquele momento, tudo o que queria dele era distância.

– Miguel fez mal a nós dois. – Lúcifer começou a explicar depois de longo momento em silêncio – Nos tirou tudo, Azrael! Nossa casa, nosso poder, nosso respeito! – seus olhos faiscaram com um brilho assassino – Não podemos deixa-lo sair impune.

– Então é isso? – perguntei estreitando os olhos para ele, sentindo-me um pouco traído – Só está aqui porque quer me convencer a me unir a você em sua vingança contra Miguel?

– Não é apenas a minha vingança! – Lúcifer retrucou e senti meus punhos se fecharem.

– Cuidado com o que vai dizer! – adverti, mas ele me ignorou, soltando-se de minha mão e se afastando.

– Ele destruiu tudo o que você amava, Azrael! Assassinou a sua garota e o seu filho bem diante dos seus olhos! Você é mesmo tão fraco?! Vai apenas se afundar no seu luto e deixar que as coisas fiquem assim, sem que Miguel pague pelas atrocidades que fez?! A morte da Loren significa tão pouco assim para você?

– Cale a boca, Lúcifer!

Sem que eu pudesse me conter agarrei o colarinho do sobretudo surrado de Lúcifer e o empurrei de encontro ao troco da árvore, fazendo suas costas se chocarem, com força, contra o local.

– Junte-se a mim. – ele disse sem se alterar com minha atitude – Nós podemos ser grandes juntos, Azrael. Com você ao meu lado podemos acabar com a tirania de Miguel.

– E depois o que? – perguntei entre dentes – Você trai a minha confiança como fez antes? Você diz que quer acabar com a tirania de Miguel, mas eu sei que não é apenas isso, Lúcifer. Tudo o que você deseja é poder!

– Tudo o que eu desejo é vingança! – ele protestou – Contra Miguel e contra todos aqueles que me baniram para o inferno!

– E isso inclui o próprio Deus? Nosso Criador, Lúcifer? Aquele que te deu a vida!

Lúcifer se libertou de minhas mãos e me empurrou para longe.

– Você acha que Deus se importa conosco? – ele praticamente cuspiu as palavras na minha cara – Você o defende, mas o quanto ele me amava quando me baniu para o inferno e me trancafiou em uma prisão? O quanto ele amava você, Azrael, quando permitiu que Miguel acabasse com a vida da Loren daquela forma, apenas porque ela estava grávida?

Ele parou, me encarando e eu apenas sustentei seu olhar, sem saber como responder. A morte de Loren era como um buraco negro em meu peito, sugando toda a vida e felicidade que eu tinha, mas meus instintos ainda me diziam que eu deveria ser obediente e fiel ao Meu Pai, amando-O acima de qualquer coisa.

Os sinos da igreja soaram e Lúcifer desviou o olhar para eles, rapidamente, desfazendo-se de sua expressão severa.

– Você ainda vai perceber que estou certo, Azrael. – ele disse voltando-se para mim – Pode não confiar em mim agora, mas sei que vai.

– Eu duvido. – afirmei.

Talvez Lúcifer estivesse certo sobre o que dizia a respeito do amor de Deus. Talvez, algum dia, eu percebesse que tudo em que acreditava era uma mentira. Talvez eu acabasse concordando com ele no fim das contas, mas nunca, nunca, confiaria em Lúcifer novamente. Disso eu tinha certeza.

– Não vou discutir. – Lúcifer se afastou alguns passos – Eu preciso ir e você tem algo muito importante para fazer. Apenas me procure quando perceber que não sou o traidor que você imagina, Azrael. Estarei esperando por você de braços abertos. Como sempre estive.

Eu ia retrucar, mas antes que pudesse abrir a boca para dizer qualquer coisa, Lúcifer já havia desaparecido. Passei as mãos pelo rosto e pelo cabelo, soltando um suspiro cansado. Toda essa convivência com Lúcifer ainda me enlouqueceria, mas, por hora, eu não queria pensar sobre isso.

Pelo canto do olho vi quando um pequeno grupo de pessoas vestidas de preto deixou a igreja, acompanhando um caixão de mogno polido e senti aquela ferida que havia se aberto em meu peito começar a sangrar novamente.

Aquele era o fim.

Juntando todas as minhas forças e todos os pedaços do eu que parecia ter se desintegrado naquele momento, respirei fundo e tomei coragem para seguir aquele pequeno cortejo até o cemitério. Eu não tivera a chance de ver o rosto de Loren uma última vez, não tivera a chance de tocar sua pele ou seus cabelos macios, mas ainda teria a chance de lhe dizer adeus. E, embora eu não tivesse certeza se aquilo me deixava triste ou aliviado, era tudo o que eu podia fazer.

Era hora de me despedir do grande amor da minha vida.

Notas finais
Bem, galerinha, espero que tenham gostado do capítulo. Sei que muitos de vocês ainda estão de luto pela Loren - assim como o Bryan -, mas tenham calma comigo, ok? ^^ Vejo vocês novamente assim que eu concluir o capítulo 14 da minha outra fanfic, o que (eu espero) não deve demorar muito. Beijos e obrigada por acompanharem.