Killer

40 Chamado Às Armas


Notas iniciais
Olá, Demorei um bocado para postar esse capítulo, mas eu estava meio enrolada com um projeto de pesquisa da universidade. Vim ter um pouco de folga essa semana e tenho aproveitado os dias para atualizar as minhas histórias e, agora, chegou a vez da Killer. O capítulo não está tão grande, mas eu espero que vocês gostem. Boa leitura.

[Bryan P.O.V.]

Os últimos cinco meses foram exaustivos. Não de uma maneira física, é claro, já que os anjos não se cansam, mas de uma maneira emocional. Nosso treinamento foi intenso e nosso planejamento foi minucioso e, quanto mais os planos tomavam forma diante de meus olhos, mais a realidade de tudo aquilo despencava sobre mim.

Nós estávamos prestes a começar uma guerra. Uma guerra da qual eu não sabia quantos de nós sairiam vivos ou não. Uma guerra que eu nunca havia imaginado que poderia acontecer – pelo menos não comigo lutando ao lado de Lúcifer, é claro –, mas que agora estava se avantajando sobre nós como a nuvem negra e espessa de uma tempestade.

Eu ainda não sabia direito o que pensar sobre isso. Obviamente eu estava furioso e realmente achava que Miguel merecia morrer por tudo o que ele havia feito à Loren, mas lutar contra os meus outros irmãos me parecia um erro.

Como eu poderia enfrentar Galgaliel e seus Anjos da Fronteira que nunca havia feito mal a qualquer pessoa? Como eu poderia lutar contra Lorelei e Jeremyah que sempre estiveram ao meu lado e que, muitas vezes, se arriscaram para poder me proteger quando eu era teimoso demais e decidia burlar todas as regras por causa de Lorem?

Eu sabia que, à iminência de uma guerra daquela magnitude, Miguel convocaria não apenas O Exército, mas também os Anjos da Fronteira e os Ceifeiros para a luta e, após todos esses meses de planejamento e treinamento, a única coisa que eu ainda não havia aperfeiçoado era, justamente, a coragem que precisaria ter para enfrentar meus irmãos.

Não sei se tal fato estava passando pela cabeça de todos os anjos caídos ou se isso, simplesmente, estava muito evidente em meu rosto, mas um belo dia, quando as folhas amareladas das árvores começaram a cair, Lúcifer me chamou para conversar.

– Você parece distraído. – ele disse enquanto alternava o olhar entre mim e suas tábulas de pedra. Atualmente ele vinha estudando aquelas escrituras secretas com mais afinco do que eu jamais vira – Há algum problema?

– Só estou pensando. – respondi casualmente – Não é nada de mais.

– Alguma coisa o incomoda? – Lúcifer insistiu – Talvez algo que Mammom possa ter dito ou, quem sabe, algum plano que Andras tenha feito com o qual você não concorde.

– Eu estou bem. – garanti – Pode guardar suas sessões de terapia para outra pessoa.

– Não sou terapeuta, Azrael, mas gosto de ter os meus soldados em perfeitas condições para uma batalha.

Aquele comentário me fez trincar os dentes.

– Não sou seu soldado. – refutei irritado – Não me trate como um de seus lacaios.

– Eu não quis ofendê-lo. – Lúcifer acrescentou calmamente – Só quis dizer que, em uma batalha como a que estamos prestes a enfrentar, é preciso que todos estejam comprometidos com o objetivo final. Você é o melhor dos meus aliados, Azrael. Preciso que esteja concentrado. Preciso que dê tudo de si nessa guerra.

– Isso não será um problema.

– Realmente espero que não. – Lúcifer cravou seus olhos nos meus – Porque, se você falhar, Loren e Jonah é quem sofrerão as consequências.

Nem pensei no que estava fazendo. Quando dei por mim, as tábulas de pedra que Lúcifer segurava estavam largadas no chão e a gola de seu sobretudo estava presa entre os meus dedos.

– Ouse ameaçá-los mais uma vez e, no final dessa guerra, eu terei a sua cabeça repousando ao lado da de Miguel.

– Terá mesmo? – os lábios de Lúcifer se curvaram em um sorriso convencido e ele pareceu não dar a mínima para o meu ataque de fúria – Se não se concentrar, Azrael, e se não direcionar sua raiva para aquele que realmente a merece, é Miguel quem terá a sua cabeça ao final desta guerra. E ele não terá apenas a sua, mas também a minha, a de Loren e a de Jonah, logo em seguida. É isso que quer?

– Eu só quero que parar de falar sobre eles. – respondi e o soltei, porque ele tinha razão. Se eu fracasse, Miguel nos mataria e, logo depois, ele iria atrás de Loren e de Jonah e os destruiria. Então, todo o meu esforço teria sido em vão.

– Entenda que eu não falo por mal, Azrael. – Lúcifer endireitou-se e voltou a se concentrar em sua tábulas, recolhendo do chão aquelas que eu havia derrubado – Se fosse para usar sua família como alguma espécie de moeda de troca eu não me daria o trabalho de mantê-los seguros e confortáveis em Veneza. Eu os trancaria num calabouço e usaria a vida deles para chantagea-lo, mas não é isso que quero. Eu me importo com eles, Azrael. Me importo porque você se importa, mas parece que eu só consigo a sua atenção quando os ameaço.

– Pois bem, você tem a minha total atenção agora. – cruzei os braços e me voltei para o canto onde eu estava, anteriormente – Pode falar.

Para ser bem sincero, eu não imaginei que Lúcifer fosse realmente começar um discurso. Ele já tinha dito que queria que eu me concentrasse na batalha, já tinha deixado claro que meu fracasso poderia custar as vidas de Jonah e Loren e já tinha explicado que só falava sobre eles para conseguir minha total atenção, então, não achei que ainda havia algo a ser dito, mas havia.

– Descobriu o ponto fraco de Miguel? – Lúcifer perguntou me fitando com seus terríveis olhos vermelhos.

– Não. – suspirei – Não descobri e, sinceramente, não acho que ele possua algum ponto fraco. Eu já lhe disse isso.

– E eu já lhe disse que todos tem um ponto fraco.

– Bem, se tem tanta certeza disso, então, descubra você mesmo o ponto fraco dele, Lúcifer. Miguel é o primeiro anjo de Deus. É o mais forte dentre todos nós. Suas defesas são perfeitas, não há como se aproximar dele.

Achei que Lúcifer finalmente entenderia o meu ponto de vista, que perceberia o quão inútil aquela discussão era, mas, para a minha completa surpresa, ele sorriu.

– Ora, Azrael. – disse depositando as tábulas de pedra de volta na urna negra que guardava em sua prisão rochosa – Se as coisas são como você diz, então, temos sorte. Já sabemos exatamente qual é o ponto fraco de Miguel.

Eu o encarei sem entender absolutamente nada. Será que ele não tinha escutado uma única palavra do que eu dissera?

– como é que o fato de Miguel ser invulnerável faz disso o seu ponto fraco? – questionei – Ele é invulnerável, Lúcifer. Essa palavra significa alguma coisa para você?

– Eu compreendo completamente o significado da palavra invulnerável, Azrael. Obrigado. Mas Miguel não é tão invulnerável quanto você pensa. Ele é como qualquer um de nós, apenas mais forte e com alguns dons a mais, mas o fato de ele achar que é invulnerável e que nada no universo seria capaz de atingi-lo, isso, sim, o torna fraco, porque quando formos até ele com isso. – Lúcier pegou uma das armas negras de dentro da urna – Ele não estará preparado.

– Ótimos. – debochei – Miguel realmente vai levar um susto quando perceber que essas armas são capazes de matar um anjo, mas deixe-me chamar a sua atenção para um pequeno detalhe. – tomei o punhal de suas mãos e o apontei para sua garganta – Nenhuma dessas armas será útil se não conseguir se aproximar dele o suficiente para atacá-lo.

– Eu não pretendo me aproximar.

– Então, o que você pretende? – baixei o punhal e o joguei de volta na urna – Atingi-lo com uma flecha, com uma lança? Você sabe que isso não funcionará. Já tentou uma vez e não obteve sucesso. Nenhum ataque à distância é eficiente contra Miguel.

– Eu tenho plena consciência disso, Azrael. É por isso que eu não irei atacá-lo. – ele ergue os olhos para mim – Você irá.

Eu o encarei por um longo instante, sem saber se realmente tinha escutado aquilo. Lúcifer não podia estar falando sério, porque, se estivesse, aquilo seria a nossa ruína.

– Eu? – questionei e não pude impedir que uma risada nervosa escapasse por meus lábios – Então, esse é o seu plano brilhante, Lúcifer? Foi para isso que estivemos trabalhando, incansavelmente, nos últimos cinco meses? Para que eu pudesse enfrentar Miguel em uma batalha, corpo à corpo? Diga-me que este não é todo o seu plano. Diga-me que pensou em alguma outra coisa porque se a nossa vitória depender disso... já estamos mortos.

– Não. Não estamos. – Lúcifer retrucou, despreocupado – Você é o primeiro anjo abaixo de Miguel em nossa hierarquia. Tem quase tanto poder quanto ele.

– Exato. E a principal diferença entre nós é que eu preciso me aproximar dele para atacá-lo, enquanto ele não precisa sequer tocar em mim para me derrubar. Isso é ridículo, Lúcifer!

– E se eu lhe disser que há uma forma de impedir isso?

– Então, eu, provavelmente, não irei acreditar em você, pois tenho certeza que se você soubesse de uma forma de impedir que Miguel o incapacitasse não teria sido pego durante sua revolta e banido para este lugar.

– Para uma criatura celestial, que viveu sob a graça divina por tanto tempo, você às vezes é tão cético, Azrael.

– Eu prefiro dizer que sou realista.

Lúcifer revirou os olhos e suspirou, parecendo tão frustrado quanto um professor que tenta ensinar a uma criança algo que ela não está interessada em aprender. Aquele, porém, não era o meu caso. Eu queria muito acreditar que havia uma forma de enfrentar Miguel, de igual para igual, e queria muito acreditar que Lúcifer realmente a conhecia, mas era difícil crer em algo assim quando ambos estávamos trancafiados no inferno exatamente por não termos conseguido enfrentá-lo.

– Sabe, Azrael, depois de passar tanto tempo no inferno quanto eu passei, nós acabamos descobrindo algumas coisas.

– Que tipo de coisas?

– Ensinamentos, novas formas de usarmos nossos dons e, a mais importante de todas, brechas nas leis que regem a nossa conduta.

– O que quer dizer com isso?

– Quero dizer que, após cair, descobri que podemos fazer muitas coisas que não podíamos fazer antes de sermos banidos. Enfrentar Miguel em um combate, corpo a corpo, é uma delas.

Estreitei meus olhos para ele, em dúvida quanto a acreditar naquilo ou não.

– Explique-me isto direito.

Lúcifer fechou a tampa da urna negra com um dos pés e manteve as mãos atrás das costas, enquanto caminhava, lentamente, por sua prisão rochosa.

– A nossa hierarquia possui uma estrutura muito bem definida. – ele começou a explicar – O Altíssimo nos dei dons conforme a posição e a nossa casta, para que essas habilidades nos ajudassem a executar nossas tarefas. Miguel por ser o primeiro de nós e, teoricamente, nosso líder, recebeu um grande poder e dons que o ajudam a nos controlar e nos manter em ordem. Você, recebeu quase tanto poder quanto ele e também recebeu dons que inspiram a liderança, embora não tão fortes, pois, como o segundo anjo do Altíssimo, se algo ocorresse com Miguel, você seria seu sucessor. Cada um de nós recebeu o poder e os dons que o Altíssimo julgou serem suficientes e nós aceitamos os limites que nos foram estabelecidos através da aliança que fizemos com Ele. Então, quando fomos expulsos do Paraíso e essa aliança se quebrou...

– Os limites também se perderam. – eu completei, começando a entender o que ele dizia.

Lúcifer assentiu.

– As leis hierárquicas que nos regiam antes já não se aplicam mais a nós e, embora Miguel ainda possua o mesmo grande poder, sua influência sobre nós diminuiu exponencialmente. Você deve ter percebido que já não conseguimos mais sentir a presença de nossos irmãos como conseguíamos antes. – Lúcifer parou e olhou para mim – Isso acontece porque a nossa conexão com o Paraíso se extinguiu quase que completamente e Miguel precisa dessa conexão para usar boa parte dos dons que recebeu por causa de sua posição. O que significa que, sem ela...

– Ele não pode nos controlar. – eu quase sorri.

Não podia acreditar que aquela era a resposta que eu tanto tinha procurado. Quão grande não era a ironia de que, ao nos banir para o inferno, Miguel tinha nos dado justamente a arma de que precisávamos para vencê-lo? Com seus dons de incapacitação tendo se tornado inúteis contra nós, enfrentá-lo poderia até não ter se tornado fácil, mas, certamente, tinha se tornado menos problemático. Agora tínhamos uma chance de vencê-lo e, tudo o que ainda me deixava com o pé atrás era o fato de que eu não sabia por que Lúcifer havia esperado tanto tempo para compartilhar essa informação comigo.

– Se você já sabia que os dons de Miguel não funcionam mais contra nós, porque só agora está me contando isso? – questionei – Porque nunca me falou nada?

– Porque não teria sido inteligente, da minha parte, compartilhar essa informação antes. – Lúcifer respondeu prontamente – Veja bem, Azrael, você estava cego pelo ódio. Se eu tivesse lhe contado que os dons de Miguel já não podiam mais ser usados contra nós, você teria achado que poderia lidar com ele sozinho e teria saído à sua procura. Então, Miguel o teria matado da mesma forma que fez com Gabriel e toda a nossa luta terminaria. Você não era páreo para Miguel naquela época. Como você mesmo frisou, ele é o primeiro anjo de Deus e o mais forte entre nós. Porém, agora, eu acho que você pode fazer isso. Você pode vencê-lo e é por isso que estou compartilhando essa informação com você. Quero que lute com Miguel e, assim que você vencê-lo, nós poderemos conquistar tudo o que quisermos.

Era essa parte do “poderemos conquistar tudo o que quisermos” que me preocupava. Miguel, apesar de ser uma criatura terrível, era a única coisa que ainda impedia Lúcifer de concretizar seus planos nefastos e, matá-lo, só faria com que Lúcifer se sentisse confiante para agir livremente. Eu estava no meio de uma briga entre dois leões e tinha plena certeza de que, não importava quais dos lados sairia vencedor nessa batalha, muita gente ainda se machucaria.

– Miguel tem muito poder. – Lúcifer continuou – E alguns de seus dons não serão afetados pela falta de conexão que temos com o Paraíso, portanto, você precisa treinar. Vou pedir que Lilith vá ao seu encontro hoje para que ela possa te ensinar algumas técnicas de combate.

– Lilith? – eu tentei não parecer tão debochado, mas nos últimos cinco meses era eu quem vinha ensinando técnicas de combate a ela e, sinceramente, eu não via que técnicas de combate ela poderia ter que eu já não soubesse.

– Não se deixe enganar. – Lúcifer abriu um sorriso – Lilith pode parecer uma princesa, mas ela é perfeitamente capaz de dar uma surra em todos os meus outros lordes e em uma parte de suas legiões. Ninguém nesse lugar ousa se colocar no caminho dela. – ele completou orgulhoso – Ela te ensinará alguns truques.

– Se você diz. – eu dei de ombros – Vou voltar ao meu trabalho com Andras e, caso Lilith me procure, pode dizer a ela que estarei no Sétimo Círculo.

– Eu direi. – Lúcifer assentiu e eu me virei para ir embora, mas antes que eu desse um só passo para fora de sua prisão, lembrei-me de Loren e de Jonah e me voltei para ele – Quando poderemos ir à Veneza novamente? – perguntei.

A última vez que eu estivera lá tinha sido há cerca de um mês e a velocidade com que Jonah tinha crescido me deixara embasbacado. Ele havia se tornado uma bela criança, inteligente e cheia de truques, que ainda se recusava a dormir cedo e, às vezes, deixava Loren louca. Cada dia que eu passava longe deles era uma verdadeira tortura, mas eu me contentava por saber que podia vê-los ao menos uma vez por mês e que, em breve, tudo isso terminaria e poderíamos ficar juntos para sempre. Não havia nada que eu quisesse mais que tê-los sempre por perto.

– Acho que devemos esperar até o final da guerra. – Lúcifer disse e eu senti meu coração se apertar.

– Ainda falta um mês para que ela aconteça. Você me prometeu que eu poderia vê-los com mais frequência.

– Eu sei, mas realmente não acho que seja seguro fazer isso agora. – Lúcifer explicou – Lisandra entrou em contato comigo e disse que tem notado algumas atividades fora do normal em Veneza nos últimos dias. Pode não ser nada, mas também pode ser um dos aliados de Miguel e não quero arriscar chamar a atenção deles. É melhor que esperemos.

– Miguel pode estar vigiando-os? – eu me apavorei – Precisamos fazer algo, Lúcifer. Precisamos tirá-los de lá e os levar para um local mais seguro. Se ele os encontrar, acabou.

– Fique calmo, Azrael. – Lúcifer depositou uma mão em meu ombro – Eu tenho tudo sob controle. Prometi que não deixaria nada de mal acontecer com Jonah e Loren e pretendo cumprir minha promessa. De qualquer modo, eu não tenho pretensão de esperar mais um mês por esta guerra. Acho que já temos tudo de que precisamos, então, podemos dar início à nossa rebelião. Iremos à batalha em três dias. – ele anunciou – Esteja preparado.

Eu não estava.

Notas finais
Então, galera, a Guerra está prestes a começar. Estão preparados? O Bryan ainda não está totalmente preparado, mas acho que até lá ele encontra seu rumo, até porque ele só tem três dias para fazer isso, né? Apesar de o capítulo ter sido menor que os últimos postados eu espero que vocês tenham gostado e que estejam ansiosos pelo próximo. Beijos e nos vemos em breve.