Kids

1 único


Um moleque de cabelos escuros carregava um chapéu de palha no topo da cabeça, abaixo de seu olho esquerdo havia uma cicatriz de um acidente que levara ainda criança com um casco de coca-cola. Se chamava Luffy e ele estava com os seus olhos mais aguçados como nunca, de frente a grade que pendurava todas as revistas em quadrinhos da mercearia de seu bairro. Ele pretendia roubar uma.

Olhou por cima do ombro e viu o dono do mercadinho — pessoa mais amarga que já conhecera em seus 15 anos de idade — atrás do balcão e com o rosto coberto ainda pelo jornal. Luffy voltou a olhar para a grade e fechou os olhos para fazer uma reza rápida.

“Deus, por favor, não deixe eu ser pego.”

Era inocente demais a ponto de achar que não cometia um pecado para praticar o delito e que ainda Deus o compreenderia. Pensando melhor, talvez esperto demais...

“Prometo parar de levantar as saias das meninas.”

Voltou a abrir seus olhos, olhou de novo para trás e o dono continuava coberto pelo jornal. Respirou fundo e pegou uma das revistas, logo em seguida pôs debaixo de sua blusa e saiu da loja como se não houvesse feito nenhum roubo. Na verdade, Luffy pensava que fora fácil demais ou que era até bom no negócio, talvez faria mais uma vez pra ter certeza de que deveria seguir aquele caminho.

Subiu na sua bicicleta e pedalou para se encontrar com o seu amigo Usopp, um moleque na mesma idade que a dele e de pele escura mas, o mais curioso nele com certeza era o seu nariz longo, que nunca incomodou Luffy como incomodava as outras crianças. Seguia pedalando muito feliz, era um garoto simples que toda vez que andava de bicicleta, agradecia aos céus o vento que batia em seu rosto e que deixava cair seu chapéu para trás, apenas preso na cordinha. Embora agradecesse de forma inconsciente.

Planejava encontrar Usopp na porta da casa dele para dar uma carona até a árvore que costumavam escalar. Se Luffy estava bem lembrado, seu amigo havia vendido sua bicicleta pra conseguir uma grana e, se haveria alguém mais pobre do que ele nessa cidade, essa pessoa seria Usopp. A mãe estava doente e o pai deixara o lar quando era apenas um garotinho, seu amigo costumava falar para Luffy de que não se lembrava mais do rosto dele e, por isso, queria revê-lo algum dia.

O garoto narigudo estava sentado no meio fio da calçada, mas assim que viu seu amigo se aproximar, resolveu se levantar. Luffy parou para que ele pudesse subir na bicicleta.

— Demorou, hein... Não se esqueça que estamos no verão! Quase virei um ovo frito nesse calor.

— Estava fazendo algo importante e você poderia esperar dentro da sua casa.

— Fazendo algo importante? Tá doente, Luffy?

O rapazinho deu um largo sorriso e acelerou a velocidade nos pedais. Usopp quase caiu da bicicleta e praguejou o idiota, contando uma mentira de que se corresse muito seus corpos desmanchariam pelo vento, mas Luffy sabia que era uma de suas várias mentiras. Não precisava ser um gênio pra conseguir entender de que Usopp era um completo mentiroso, coisa que agradava muito o menino do chapéu de palha.

No entanto, eles avistaram uma garota andando na calçada oposta, ela vestia uma saia longa e devia ser da igreja, até carregava uma Bíblia.

— Aposto um chiclete de que a calcinha dela é branca. — Disse Usopp, sacudindo os ombros do amigo.

— Ah, isso não é justo!!! Na maior parte do tempo são brancas!!!

— Não tenho culpa se eu falei mais rápido do que você.

Luffy fez um bico, mas resolveu trocar de calçada para se aproximar da garota. Quando estavam perto o bastante, Usopp levantou a saia e Luffy viu a tempo de que era vermelha. A garota ficou pra trás, enquanto berrava que os dois iriam para o inferno. Talvez Luffy fosse mesmo, por conta da promessa no mercadinho.

— Ganhei!! Era vermelha!! — O menino voltou a pedalar mais depressa por estar feliz.

— Vermelha? Me perdoe Luffy, mas eu não vi.

— Qual é! Vai mentir agora?

— Foi muito depressa!! Não vi, eu juro!!

Óbvio que Usopp estava mentindo, mas não importava mais quando os dois estavam na árvore observando o horizonte daquele céu sem nuvens. O verão era a estação favorita de ambos, porque estavam de férias e tinham mais tempo para caçar insetos.

— Ah! Já tava me esquecendo! — Disse Luffy de repente, depois levantou a camisa e pegou uma revista que estava pendurada no corpo pelo short. — Comprei para você!

Usopp observou o sorriso radiante que seu amigo dava naquele momento, enquanto estendia o braço com uma revista que colecionava e, por ser muito cara, precisou deixar de comprá-la.

— Você roubou isso, certo?

Diferente do outro, Luffy ficava incomodado quando contava uma mentira. Usopp suspirou pesadamente com a sua imagem tremelicando e suando para inventar uma desculpa bem simples.

— Você é péssimo nisso, vamos devolvê-la.

— Ele não notou!! — Luffy tinha um semblante triste. — Por favor, Usopp!! Sei como gosta de ler, é a única pessoa que eu conheço que gosta de histórias!

Isso era verdade, Usopp amava ler e tinha uma queda terrível por histórias de aventuras. Aquele quadrinho era o seu favorito, mas as coisas na família iam cada vez mais de mal a pior, que teve que abrir mão de seus luxos, ainda que fossem nada luxuosos.

— Você precisa continuar lendo, precisa continuar a contar suas histórias! — Suplicou Luffy, seus olhos estavam marejados. — Você é talentoso, vai ser um grande adulto! Diferente de mim...

Usopp puxou a revista da mão de Luffy quando percebeu que o idiota começava a levar aquilo para o lado pessoal.

— Você é talentoso também, Luffy.

Isso também era verdade, tanto que na maior parte do tempo o protagonista de suas histórias era baseado no seu melhor amigo. Sabe, Luffy era destemido e insistente, além de puro e empático. Contudo, desde que seu irmão morrera, ele ficava melancólico e dizia essas coisas...

— Eu gostaria de ficar pra sempre nesse corpo pequeno e continuar atentando as meninas, mas está tudo tão difícil que esse desejo parece se tornar impossível. Sabe, eu tenho pensado muito e você sabe que eu não sou de pensar muito, né? — Continuava a chorar, embora enxugava as lágrimas sem parar.

Usopp achou lindo o que ele disse, era simples e complexo ao mesmo tempo, seu amigo estava longe de ser burro e idiota como pensava ou como diziam a ele. Portanto, pegou uma de suas mãos, fazendo Luffy parar de chorar para observá-lo. Não entendia, mas ficou assustado com o toque. Era mais quente que o normal.

— É porque crescemos, Luffy.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!