Passaram-se quase dois anos desde a tragédia de Arcadia. A Princesa Yan foi declarada como culpada por todos os que tiveram intuições a respeito do incidente; havia desaparecido, e ninguém conseguia descobrir onde ela estava. Como não houve nenhum contraponto, essa foi tomada como a versão oficial dos fatos. Houve uma grande efervescência política por causa disso; em vários lugares, fortalecia-se cada vez mais um discurso mais duro, alarmista e protecionista. Os estatistas da monarquia de Neo Zeon diziam que o problema era da má administração do local, Arcadia precisava de lideranças mais fortes, foi o modelo de autogestão da colônia que a levou à ruína. Já os grupos liberais de Axis criticavam a colônia de Arcadia por “facilitar” demais as coisas para os estudantes, fazendo com que eles vivessem um mundo de utopias e benesses, não se preparando adequadamente para os percalços da vida real, não tendo por isso conseguido pressentir o perigo. “Tempos difíceis criam homens fortes, tempos fáceis criam homens fracos”, diziam. A posição foi acatada pela ex-reitora da universidade, Maya Wissen, que deu entrevistas dizendo que estava “tomando uma postura mais madura sobre a educação” e que “a utopia rebelde da juventude é bela, mas tem um limite, já que a grande maioria se torna mais realista quando amadurece; a função do desejo juvenil de mudar o mundo é formar um caráter solidário nas pessoas, mas é ineficiente para governar um local”. Isso acabou fortalecendo a candidatura de Yu Wong para a presidência do asteroide, fazendo-o virar as pesquisas e vencer as eleições. Isso particularmente irritou Kouga, que estava abalado por ter perdido a mãe recentemente, e mudou-se para Neo Zeon. Não concordava com a política de Wong sobre benefícios sociais, diminuindo as políticas públicas de assistência social e de saúde, para que “o dinheiro permanecesse nas mãos dos cidadãos e não fosse para o Estado”. Decidiu então passar uns tempos na monarquia dos Zabi, trabalhando com pesquisa de armas inteligentes para Mobile Suits, vendo como funcionava o sistema de políticas públicas do local, para, mais tarde, tentar reverter a situação em Axis. Isso perturbou Albertina, que era uma entusiasta defensora das políticas de Estado mínimo de Wong.

— Ele.. parecia tão decidido – comentou ela com Nix, no desfile cívico de posse do novo presidente. — Parecia que ficar longe de mim não faria diferença nenhuma para ele.

— Bom… eu infelizmente não o vejo voltando para Axis – comentou Nix. — Provavelmente ele fará a vida dele em Neo Zeon Mesmo…

— Kouga anda perturbado desde que a mãe dele se foi. Nada tira da cabeça dele que a dosagem dos remédios não era adequada para de fato combater a doença. Por motivos pessoais, condenou o projeto de governo do Presidente Wong, como se a culpa do que aconteceu fosse do governo, e não da doença em si. Por isso eu digo, o pessoal que apoia um governo mais intervencionista em termos de Estado tem algum tipo de problema emocional, e transfere isso para a política, o que é muito perigoso. Uma sociedade com pessoas mentalmente saudáveis não precisa de Estado forte.

— Isso tudo me deixa tão confuso, odeio política – respondeu o rapaz de cabelos longos – só sei que a família Wong e a Anaheim Electronics são aliados desde a formação da antiga AEUG, na Guerra contra os Titans, mas de qualquer forma… se precisar desabafar… você tem em mim um ombro amigo. Sei que você preferia que fosse o Estel, mas ele não quis vir ao desfile.

Nesse momento, passou na frente dos dois o carro principal, com o presidente Wong e seus principais apoiadores: Louis Anaheim, Maya Wissen, Lucius Lynx (banqueiro renomado), Sama Garden (dona do laboratório Samashim, fabricante de medicamentos), Nicholas Holodomor (dono de um mega conglomerado de empresas de produtos alimentícios), e Nebbia Stromboli (dona de uma famosa grife de roupas, produtos de beleza e acessórios diversos). Todos que assistiam bateram palmas, saudando o novo governante; a fanfarra em frente ao carro tocava animadamente.

— Ah, Estel só quer saber da decisão que Wong tomará em relação à Terra… não está interessado em mais nada além disso. Pediu para eu contar a ele se for dito algo interessante sobre isso.

— Ué, mas o que a Terra tem a ver com isso?

— Seu avoado, com a extinção da Federação da Terra, o planeta está sob nossa jurisdição provisória, como se fosse um território ultraespacial. Isso foi arranjado pela Anaheim Electronics, que fornecia Mobile Suits tanto para a Federação quanto para nós.

— Ah, é verdade, tinha esquecido…

— Credo, Nix, memória ruim tem limite… esquecer uma coisa importante dessas! Bem que o Estel diz que usar muito a energia Newtype deixa as pessoas meio lesadas…

Albertina distraiu-se um pouco com o esquecimento de Nix, mas logo depois voltou a pensar em Kouga, ficando melancólica. A intuição Newtype do rapaz de Axis sempre foi boa para detectar sentimentos; ele detectou a melancolia da amiga, sentiu que ela precisava de amparo, e a abraçou.

— Eu posso ser tonto o suficiente para me esquecer de algo grande como a Terra… mas não esqueço de ver se os meus amigos estão bem, e o que posso fazer para ajudá-los. Conte comigo.

Na fanfarra, “Phillip” — que descobriu ser Erzulie Wolf, a irmã mais nova de Ilya – era a baliza, usando uma elegante roupa de banda marcial, rodando dois bastões com incrível habilidade, dançando no ritmo da música. O cabelo tinha crescido um pouco, ficando na altura dos ombros. Estava radiante de felicidade. Não muito perto de Nix, estavam Keisha e Ilya; Erzulie acenou para o irmão quando a viu.

— Onii-san!

— Sua irmã parece muito feliz...

— Ah, sim, Keisha, é a primeira vez que ela usa uma roupa feminina em um evento oficial. Graças à influência de Louis, Erzulie não foi punida pelos Cyber-Guards por insubordinação. Ele viu grande potencial de pilotagem nela, e talvez ganhe um Mobile Suit especialmente projetado para maximizar suas habilidades. Por isso eu não aceito essas críticas de “empresários são malvadões que só pensam em lucro e em prejudicar a população pobre”, isso não tem base científica nenhuma. Mesmo porque, o livre mercado foi o estilo de governo que deu mais certo até hoje.

(Música – Corte de Neo Zeon)

Em Neo Zeon, Karma e Arturia declararam noivado poucos meses antes. Isso rendeu uma briga feita entre o rapaz e seu pai, Julius, que não aceitava ver o filho se unindo à família que matou seu antepassado, Zeon Zum Deikun. Karma saiu de casa, indo morar no castelo dos Zabi. A união foi anunciada com entusiasmo pela Tv Orwell, como uma “combinação perfeita de duas pessoas com enorme potencial” e “a redenção dos Zabi com o antigo governante do ex principado de Zeon, acolhendo os Deikun novamente ao seu local de direito, a liderança do povo de Zeon”. Havia assistido o desfile cívico de Axis na Tv Orwell, com sua noiva; estava tomando banho sozinho, lembrando-se da conversa que tiveram.

“- Não gosto desse Wong.

— Eu também não, amor… quando fui visitar a Terra, antes ainda de eu conhecer Arcadia e te encontrar, achei o lugar tão desassistido… e sinto que vai piorar.

— Se ao menos pudéssemos fazer algo pelo povo da Terra… se ela estivesse em nossas mãos, nada disso aconteceria.

— Temos que tomar cuidado com esse tipo de pensamento, poderia nos levar a uma guerra, e colocar nossos cidadãos em perigo… mas de qualquer forma, vamos observar como será o governo de Wong, identificar os problemas e propor soluções. Afinal, nós também somos Zeon, assim como eles, podemos interferir.

— Não existe Zeon em nossa época sem nós dois – murmurou ele ternamente, dando um beijo na testa da noiva. — Nós somos Zeon.”

— A Terra – disse Karma para si mesmo, enquanto olhava o vapor da água da sua banheira subir. — Sinto muita distorção de energia ali… e em muitos lugares do espaço. Junto com Arturia, poderei alcançar todos estes lugares, e corrigir estas distorções. Temos muito trabalho a fazer.

Começou a pensar no espaço aberto, lembrando-se do planetário de Arcadia; recordando-se vagamente da discussão que teve ali com Daiya. Onde ela estaria? O que estaria fazendo?

— Bah – exclamou ele, afastando o pensamento de sua mente – eu sempre soube que ela iria sumir e não faria muita diferença em minha vida. Não sei porque estou pensando isso agora.

(Música – Tema emocional de Roxanne: The Swan)

Mas continuou se perguntando onde a amiga estaria, lembrando-se de vários lugares no espaço. Foi acordado de seus devaneios ouvindo o grito de uma criança através de sua intuição Newtype, seguido de um choro longo e sofrido. Era um bebê de olhos negros e cabelos lilases. A sensação era como se a menina estivesse ali, presente; a angústia que ela transmitia era muito forte, fazendo Karma sentir seu coração apertado. Tentou afastar essa sensação de sua mente; com frequência, não conseguia dormir bem à noite por escutar vozes de pessoas aflitas e compartilhar sensações de angústia e desamparo com outros indivíduos através da energia Newtype, de modo involuntário. Por um tempo, conseguiu que a sensação parasse; mas no meio da noite, ouviu novamente o choro da menina, que parecia estar pedindo ajuda, não sabendo exatamente como fazer isso. Karma não fazia ideia de quem era a menina, ou por que estava pedindo socorro, mas como a intuição havia voltado, realmente deveria ser algo importante e ligado a ele.

— Onde você está? Onde? Eu vou te ajudar, só me diga onde você está! — perguntava o rapaz, no sonho. Seu corpo suava e se debatia.

Várias imagens difusas começavam a aparecer, como se a própria menina estivesse tentando mapear onde estava. Uma das imagens era a do planeta Júpiter.

—… a frota Júpiter? É um pouco longe, mas… se você me chamou… eu não vou te abandonar. Guie-me… Guie-me, que eu vou te achar, e te salvar.

— Karma? — chamou Arturia, sacudindo o noivo com delicadeza. — Karma, meu amor, acorde, você está bem? Está se debatendo, suando frio, ofegante… alguma voz perturbadora de novo?

— Desta vez é bem mais forte do que antes. Geralmente, eu só escuto, como se estivesse escutando uma conversa qualquer na rua… mas dessa vez a pessoa parece estar me chamando. É uma menina… um bebê que deve ter mais ou menos um ano.

— Um bebê? Seria… o espírito de algum futuro filho nosso?

— Creio que não, sinto que ela está viva hoje, e não se parecia nem comigo, nem com você. Apesar de eu já ter visto olhos parecidos com os dela em algum lugar…

— Mas… por que uma criança desconhecia estaria te chamando? Tem certeza de que é isso mesmo que sentiu?

— Certeza absoluta. Nunca imaginei que sentiria tanto sofrimento em uma criança pequena como ela. Preciso ajudá-la- Arturia – disse ele, levantando-se da cama.

A princesa correu para o banheiro para pegar uma toalha, enxugando o suor de Karma enquanto ele vestia sua farda oficial.

— Sinto que você está com pressa… pode usar Demacia, é nossa nave mais veloz. Parte da Guarda Real irá te acompanhar.

— Peça para colocarem meu Hyaku-Shiki Mark II na nave também, por favor. Sinto que vou precisar dele.

Quando ele terminou de se vestir, recebeu um forte abraço de Arturia, e um beijo de boa sorte. Quando chegou ao hangar do palácio, já estava tudo preparado. Demacia era uma nave verde, comprida e triangular; funcionava tanto como cargueiro de carga média como nave de ataque, tendo como arma máxima um poderoso canhão triplo chamado TriStar, em honra ao Esquadrão TriStar, heróis do principado de Zeon no tempo da Guerra de Um Ano. Possuía recursos de mudança de formato conforme o terreno e as necessidades do momento; o piloto, através do ZeroSystem (um aprimoramento da tecnologia Psycommu), podia desmembrar a nave em caso de disparos de mega canhões, podendo até mesmo dividi-la em vários caças temporariamente, caso isso fosse mais efetivo para o ataque ou para a defesa. A piloto oficial da nave era uma Cyber-Newtype chamada Marin Ruby, uma moça gordinha, ruiva e muito bonita, que usava um capacete com o desenho de um dragão laranja na parte de trás.

(Música – Launching!)

— Espero que você tenha um bom motivo para me acordar a essa hora da noite para ir à frota Júpiter, Karma – disse ela, levantando uma sobrancelha quando o rapaz entrou no veículo.

— Talvez você também escute o chamado da menina, conforme estivermos nos dirigindo para lá.

— Certo… vá para o seu lugar, e coloque os cintos para a decolagem. Ajustando curso de navegação… de Side 3 para Júpiter. Navegação modo EX Speed. Tempo estimado de chegada à frota Júpiter: 5 dias.

— 5 dias? Não dá pra ser mais rápido que isso?

A pergunta foi abafada pelo barulho das turbinas impulsionando a nave.

— Decolagem em 3, 2, 1… lançar!

Para atingir o modo EX Speed, Demacia utilizava combustível nuclear, que por ser mais forte, dava maior velocidade; só podia ser usado em espaço aberto, para não haver risco de contaminação nuclear de nenhum local com vida. Isso demandava todo o esforço da nave, tornando-a praticamente inútil para combate, mas era um recurso fundamental caso fosse necessário defender rapidamente um local que estivesse longe, com uma tropa de Mobile Suits. Como em uma colônia não existia o problema de diminuir a velocidade por causa da atmosfera, a nave rapidamente atingiu sua velocidade máxima, fazendo com que Karma se sentisse quase arremessado no ar.

— Eu… retiro o que eu disse – murmurou ele, quando começou a se acostumar. — Acho que não dá mesmo pra ir mais rápido do que isso… senão a nave iria se despedaçar.

— Sorte sua que a frota está novamente se aproximando da Terra, trazendo o suprimento de hélio… se eles estivessem em Júpiter mesmo fazendo a extração, iria levar quase um mês, isso em modo EX Speed. Em modo normal, leva-se quase seis meses para fazer o trajeto, com os cargueiros enormes e lentos da Jupiter Fleet. Por isso decidiram fazer da frota uma colônia itinerante, pois assim, mesmo com as grandes distâncias, os operadores da frota sempre estarão “em casa”.

Durante os próximos três dias, os pressentimentos pararam. No quarto dia, Karma voltou a conectar-se com a energia da menina, que não estava chorando, mas estava indiscutivelmente com muito medo. “Eu estou chegando”, pensava o rapaz. “Guie-me… guie-me para onde você está...”

No começo do quinto dia, a frota foi avistada. Marin pediu permissão para estacionar a nave na colônia móvel indicada por Karma, mas a permissão foi negada por conta de “problemas internos”. Nisso, Karma voltou a ouvir o choro do bebê, desta vez mais forte e desesperado do que nunca. Pediu licença para Marin e usou o comunicador da nave:

— Aqui é Karma von Deikun, de Neo Zeon. Nosso Reino pressentiu o problema e enviou reforços. Permissão para acesso, câmbio!

— Permissão negada… permissão negada…

— Será que está acontecendo um ataque terrorista, parecido com o de Arcadia, e os terroristas tomaram o espaçoporto?

— Já vamos descobrir, Marin. Vou decolar em meu Mobile Suit, e vou entrar nessa colônia, seja por bem ou por mal!

(Música – Tema de batalha de Karma)

— E se acharem que VOCÊ é um terrorista?

— É só analisar minhas intenções, verão que não sou. Prepare a rampa de lançamento, Marin.

— Entendido!

Os Mobile Suits de Newtypes eram geralmente ativados por sistema Psycommu, programados para só funcionarem ao contato da energia do dono designado. O uso por outra pessoa dependia de autorização do capitão da nave, apesar de, se a pessoa fosse parente próxima do dono, poderia haver “autorização” da máquina em alguns casos. No hangar, o Hyaku-Shiki abriu o cockpit e estendeu o elevador de acesso assim que o rapaz entrou no local.

— Karma von Deikun, Hyaku-Shiki Mark II, lançar!

Assim que o Mobile Suit dourado decolou, Karma sentiu a presença de quatro forças hostis vindo na direção dele. Não sentia nenhum ser humano como parte dessas forças.

— Marin, tem quatro Mobile Dolls vindo em minha direção!

Os inimigos se espalharam, e atiraram de várias direções. Karma conseguiu desviar dos disparos, tendo que rebater alguns com o sabre. Dois deles investiram para batalha corpo a corpo, um usando sabre simples e o outro um bastão laser duplo. Eram de cor cinza-chumbo, com a cabeça circular rodeada por dezesseis sensores de luz verde em toda a circunferência. Marin sentiu que Karma não conhecia aquele tipo de Mobile Doll, e antes que ele perguntasse, deu a informação:

— Esses inimigos são classe MBTI Prototype, um dos mais novos lançamentos da Anaheim Electronics. São Mobile Dolls com inteligência sensorial, capazes de estudar os movimentos do inimigo com seus sensores, captando a energia do adversário e explorando seus pontos fracos. Foram criados principalmente para lutar contra Newtypes. Eu achei que ainda estavam em teste...

— Droga de livre mercado… a Anaheim fica vendendo Mobile Suits para qualquer um, sem controle, e é nisso que dá!

— Não demore muito para derrotá-los, eles estão estudando seus movimentos! Estão vendo como é seu estilo de luta corpo a corpo, para passar as informações para os outros dois que estão longe! Com esses dados conseguidos na batalha pelas Mobile Dolls, mesmo que sejam derrotadas, um piloto de verdade pode entrar em combate com muita vantagem!

— Podem estudar meus movimentos o quanto quiserem, não vai fazer diferença… pois EU VOU VENCER! Estou com pressa, não tenho tempo pra ficar brincando com vocês agora!

Disparou na direção da colônia móvel, sendo perseguido pelos robôs inimigos, que mudaram a formação de ataque, ficando dois perseguindo atrás, um em cima e outro embaixo. Marin começou a se concentrar, tentando usar sua intuição para ajudar Karma:

— Os que vêm de trás estão preocupados em te manter longe da colônia, não estão te monitorando nesse momento, acerte-os, agora!

O Hyaku-Shiki virou-se bruscamente, dando três tiros em um dos perseguidores, que explodiu. O que estava logo ao lado foi arremessado com a explosão, ficando vulnerável, logo sendo cortado ao meio por Karma. Os dois que estavam em cima e embaixo dispararam uma rajada de tiros, acertando alguns, deixando o rapaz atordoado com os impactos sucessivos; sentir novamente a energia da menina que o trouxera até ali fez com que ele rapidamente voltasse a si. Com a visão ainda embaçada, viu através de sua intuição um cisne voando em uma direção qualquer; ao olhar para ela, viu um vislumbre de luz verde. Sentia que devia atirar, e atirou; ouviu uma nova explosão. Seus sentidos voltaram ao normal bem a tempo de se defender do último Mobile Doll, o do bastão duplo.

— Seja lá quem for que enviou esse cisne… obrigado – murmurou o rapaz, bloqueando os golpes do bastão, concentrando-se para achar uma brecha em suas defesas. Não podia usar o rifle, pois o Mobile Doll estava muito perto, e podia derrubá-lo antes que conseguisse atirar. O inimigo realmente parecia estar “aprendendo” o estilo de luta de Karma, contra-atacando com cada vez mais precisão.

(Música – Desespero)

Subitamente, ouviu-se a menina gritar, como se algo realmente horrível tivesse acontecido. Até Marin sentiu o impacto da onda emocional, debruçando-se sobre o cockpit de Demacia. Karma sentiu o grito como se alguém tivesse enfiado a mão dentro dele e esmagasse seu peito.

— SAI… DO MEU… CAMINHO! — berrou ele, atravessando o Mobile Doll com seu sabre. Essa manobra impulsiva e um tanto imprudente custou-lhe um de seus propulsores e sua câmera principal por ter baixado a guarda para atacar, mas finalmente conseguira aniquilar os quatro inimigos. “É o fim? Eu fracassei? Ela… se foi?” — pensou ele, tremendo de ódio, depois da explosão do último inimigo. Como se fosse uma resposta, apareceu novamente o cisne, envolto em uma aura iridescente, como se pedisse para ser seguido.

— Ela… ainda está viva, não está? Mostre-me o caminho!

Como estava sem a câmera, essa ave ilusória era o que o guiava. Arrombou o portão da colônia com o rifle; assim que entrou no local, ejetou sua cápsula de escape, que poderia se transformar em um Core Fighter ou em um speeder terrestre se fosse mais conveniente. Ainda seguindo o cisne, dirigia pelas ruas da colônia na velocidade mais rápida que conseguia. Atraiu muitos olhares, pois os Newtypes e Cyber-Newtypes do local notaram seu estado emocional alterado. Alguns speeders de policiais tentaram abordá-lo, mas não conseguiram pará-lo. Quando chegou em algo que parecia ser um hangar de consertos de naves, o cisne desapareceu.

— Deve ser aqui – murmurou Karma, entrando no local ainda dentro do veículo, pois sentia que estaria mais seguro nele. Começou a receber vários tiros; ainda em estado de fúria, não se importou em usar as armas do seu speeder para atirar nas pessoas que tentavam pará-lo. Dois deles estavam com uma arma laser mais poderosa, que pegou de raspão no veículo; assim que desviou dos disparos, o rapaz atropelou estes últimos dois algozes. Por fim, chegou ao meio do hangar, que estava repleto de peças jogadas em vários lugares e máquinas montadas pela metade. Foi até onde havia duas pessoas caídas; saiu do speeder de arma em punho. Deu um tiro certeiro em um último inimigo que estava empoleirado em cima de uma das naves. Ficou estarrecido com o que viu: um homem baixinho e de cabelos pretos estava inconsciente, abraçando uma mulher de longos cabelos lilases e olhos verdes, que parecia já estar morta, como se ele quisesse protegê-la. Perto deles, uma arma laser de luta corpo a corpo; foi o que provavelmente matara a moça, pois não havia sangue. Sentada perto do casal… a menina, exatamente igual à visão que trouxera o rapaz até ali. Parecia estar esgotada de tanto chorar; tinha o rosto inchado e os olhos vermelhos, e dava apenas alguns soluços, como se se sentisse fraca e abalada demais para continuar chorando.

(Música – Chagas da Guerra)

Após alguns instantes parado, recuperando-se do choque, Karma decidiu, após sentir que não havia mais nenhum inimigo no local, verificar se todos estavam bem. Seu olhar e o da menina se cruzaram, finalmente; ela pareceu abandonar uma parte do medo, olhando para o rapaz com curiosidade. “Esses dois… são os pais dela”, intuiu ele.

— Ei – o rapaz foi até a menina, acariciando seu cabelo – eu vou ver se o papai e a mamãe estão bem. Já venho cuidar de você, está tudo bem agora. Os caras maus já foram embora.

O bebê parecia mais calmo, mas ainda parecia triste. “Mamã… mamã”, murmurava ela.

Karma se esforçou muito, mas não conseguia sentir mais nenhum sinal de vida na moça. “Cheguei muito tarde”, pensou com amargura. “Malditas Mobile Dolls. Aquele grito que ouvi há pouco deve ser quando a menina sentiu que sua mãe morreu. Ainda é muito cedo para uma criança desse tamanho despertar a intuição Newtype… mas este assassinato deve ter despertado os poderes dela precocemente”. Tirou seu casaco, fazendo com ele um encosto de cabeça. Desvencilhou o corpo da moça do seu marido inconsciente (ele ainda estava vivo) e deitou-a delicadamente no chão, apoiando sua cabeça no casaco. Foi então verificar o estado do homem. Quando viu o rosto dele, reconheceu-o imediatamente, mesmo antes da intuição confirmar.

— Siren? Siren, é você? Acorde, acorde!

Teve que chamar algumas vezes, e usar a vibração mental da energia Newtype, para que o amigo acordasse.

— Ai… minha… cabeça.

— Até que enfim, eu já estava quase pegando um vidro de WD-40 e espirrando na sua cara pra ver se você acordava.

— Espera, eu conheço essa voz… Karma? Eu estou ficando louco, ou é você mesmo?

— Sou eu, Siren. A sua… sua filha me chamou aqui. Pressentiu que ocorreria algo ruim… e pediu ajuda.

— Roxanne! — berrou ele, levantando bruscamente, depois caindo de joelhos por não ter forças. — Ela… ela está bem? E Ondina? Eu senti que algo aconteceu com ela… não lembro de absolutamente nada… só sei que algo me dizia que Ondina tinha que morrer, e eu dizia que eu não queria isso… Ondina? ONDINAAAAA!

Siren havia visto o corpo da esposa deitado no chão. Arrastou-se, desesperado, até onde ela estava. Segurou a mão, que começava a esfriar, tentando sentir o pulso (estava fraco demais para usar a intuição que tinha adquirido como Cyber-Newtype; sua dor de cabeça era um efeito colateral do procedimento), não sentindo nada.

— Não… não adianta, Siren. Ela se foi. Perdoe-me… perdoe-me por não ter chegado antes.

— NÃO FOI NÃO! Não aceito isso! Vou tentar… mais uma vez…

Nisso, ouviram Roxanne balbuciando alguns sons, tentando levantar, ficando sobre dois pés. Siren fez menção de ir até ela, para pegá-la, mas Karma o impediu.

— Deixe que ela venha até nós. Não sei por que disse isso, mas…

(Música – Tema de Roxanne)

— Só se ela vier engatinhando, porque ela ainda não sabe an… dar…

Nisso, ela deu um passo, apoiada somente nos dois pés.

— Isso. Isso, Roxanne. Que nome bonito você tem! Mais um passo, isso, muito bem! Opa, cuidado! Se cair, levante de novo! Não desista!

Estabelecendo uma conexão Newtype com o rapaz de Neo Zeon, a menina foi, com dificuldade mais sem hesitar, andando até ele. Seu pai ficou olhando, emocionado, sua filha dar os seus primeiros passos. “Em um momento crítico como esse… ela ainda é capaz de me fazer sentir alegria… sempre agradecerei ao Destino por ter me dado você, Roxanne. Você… sempre será a maior de todas as minhas criações”. Ela tinha os traços da mãe, mas os olhos, negros, enormes e expressivos como o abismo profundo do oceano, eram os do pai. Toda vez que ela olhava fixamente para alguém, parecia estar olhando para o fundo da alma da pessoa. Passo a passo, ela chegou até Karma, pedindo colo; uma vez no colo, começou a chorar novamente, como se finalmente encontrasse um local seguro para expressar sua angústia. O rapaz lembrou-se de quando sua irmã, Belle, era do tamanho da menina, e aninhou-a.

— Xá… xá… — balbuciou ela, duas ou três vezes, antes de adormecer. “É impressão minha… ou ela me chamou de Char?”, pensou Karma. “Como um bebê de cerca de um ano saberia quem é Char Aznable? Não sei se estou louco… mas é o que minha intuição diz… seria por isso que ela me chamou para ajudá-la? Por saber que tenho ligação com ele?”

— Um médico… eu quero um médico aqui AGORA! — berrou Siren. — E a polícia também! Vou quebrar em mil pedacinhos cada osso de quem fez mal à Ondina!

O corpo de Ondina Ashta foi levado para o hospital, onde os médicos constataram o que Karma já havia percebido: não havia mais esperanças. Siren teve que ser sedado para não ter uma crise histérica; rompantes emocionais eram particularmente perigosos para a saúde física e mental de Cyber-Newtypes. Os dois foram levados para Demacia; Marin enfim conseguiu permissão para estacionar. O corpo de Ondina foi colocado em uma cápsula criogênica, para ser enterrada em Neo Zeon, e Siren foi colocado em uma maca médica, recebendo calmantes na veia até que sua condição cerebral ficasse estável o suficiente. Ficou assim por cerca de três dias. Arturia foi contatada, e ao saber da situação, prometeu enviar seus melhores investigadores para a Frota Júpiter, para verificar quem fora o autor daquele assassinato. Quando o pai de Roxanne ficou suficientemente são para poder conversar, Karma disse a ele o que tinha decidido, após pensar na situação:

— Você e sua filha vão morar conosco em Neo Zeon. Estarão seguros lá.

— Não seguros o suficiente – respondeu o outro, ríspido. — Eu só vou sentir que Roxanne estará segura em um lugar fortemente armado, blindado, longe de tudo.

— E que lugar seria esse?

— Bom… que eu saiba, Neo Zeon praticamente não tem bases na Terra. O que acha de me deixar construir uma?

— Que ideia maluca é essa, Siren? Nós nem estamos em guerra!

— Mas podem ficar, primeiro Arcadia, e agora isso, as coisas só vão piorar daqui em diante! Quero construir uma base submarina; a pressão da água, o conhecimento do terreno a nosso favor e o fato do inimigo ter que usar Mobile Suits adaptados para a água seriam pontos fortes para a defesa. Faço isso sem cobrar nada, vocês só me fornecem os materiais e a mão de obra, o projeto é por minha conta. Tudo o que eu quero em troca… é manter segura quem eu mais amo nesse mundo. Prometo que darei o meu melhor.

Pensando racionalmente, parecia loucura; Karma fechou os olhos e refletiu sobre. Sua intuição foi favorável: conhecia o incrível talento de seu amigo Siren Atma para a engenharia bélica e mecânica, e sentia que ele realmente usaria toda sua habilidade e sua força de vontade para criar uma fortaleza praticamente inexpugnável, já que a segurança de Roxanne estaria em jogo.

— Não posso decidir sozinho, tenho que falar com Arturia e os outros membros da corte primeiro… mas por mim, seu projeto está aprovado. Contamos com você para aumentar o poder do nosso reino. Sieg Zeon!

— Sieg Zeon! — exclamou Siren, levantando o punho como Karma havia feito. Viram que Roxanne, que estava sentada no colo de Marin, também estava com o bracinho levantado e o punho fechado.

— Ah, você quer fazer a saudação junto com o papai e o tio Karma? — disse ternamente o rapaz loiro, achando bonitinho o fato da menina estar imitando o gesto. — Pode deixar, eu garanto que depois de “mamã”, “papá” e “Xá” as primeiras palavras que você vai aprender serão “Sieg Zeon”!

“Eu falhei com você”, pensava ele, olhando para Roxanne. “Não consegui salvar sua mãe. Fui fraco, fui inútil, meu pai tem razão ao dizer esse tipo de coisa para mim. Mas eu não vou falhar de novo. Eu não tenho o direito de cometer falhas, pois essas falhas podem custar a vida de alguém. Chegarei à perfeição… terei poder e controle sobre tudo à minha volta… e ninguém mais vai sofrer”.

Notas finais
A visão desoladora que Karma teve quando encontrou Roxanne deixou nele uma forte impressão, será um impacto que ele carregará pelo resto de sua vida. Como isso afetará seu psicológico e sua maneira de agir? Conseguirão descobrir quem assassinou Ondina Ashta? Será construída a base na Terra, conforme Siren solicitou? Qual será o impacto do possível casamento entre Karma e Arturia para o reino de Neo Zeon? Em Axis, como será feita a administração da Terra pelo novo presidente? Isso deixará os cidadãos satisfeitos? Não perca o próximo episódio de Kidou Senshi VP Gundam! A sombra do Caos está à espreita.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.