Kian, a assassina
22 Capítulo 20 - Nossa história
Notas iniciais
—Ops!— quem quer que esteja me abraçando, tem a voz da Kian. O tamanho da Kian. O jeito da Kian. Ou estou ficando paranoico ou... Ela realmente veio me salvar.
—É... você mesma, Kian? – perguntei, incrédulo. Era impossível que ela estivesse ali, junto a mim, tentando mais uma vez me salvar do perigo. O que diabos eu estava fazendo ali, a início de conversa? Eu estava enlouquecendo com a falta dela? Era tão fraco a ponto de não resistir à dor da saudade? Eu mesmo não me reconhecia.
—Sim, sou eu. Desculpe por ter te deixado sozinho... Mais tarde eu explico por que estou aqui, você deve estar confuso. Agora, tenho que consertar a besteira que fiz. Perdoe-me por tudo, por favor. — respondeu, me soltando e analisando o lugar onde estávamos. Foi aí que lembrei que estava prestes a desafiar o boss de nível mais alto do jogo, algo bem idiota se parar para analisar. Me senti culpado pelo meu egoísmo, motivo para estarmos presos numa masmorra em vez de estarmos juntos em casa.
—Terra para Nikarel, câmbio! – ela me chamou. Estou pensando em coisas erradas no momento errado! Saquei minha espada e olhei em frente. Deathbones era realmente gigante, um minotauro bem musculoso e estava furioso no momento.
Pensando melhor, desafiá-lo realmente não foi uma boa ideia.
—Tem alguma estratégia? – indaguei, na esperança de que ela tivesse bolado algum plano para erradicar aquela criatura que se projetava diante de nós.
—Sim. Ataque direto. – aquilo era sério? Nós éramos como formigas diante de um leão! Atacar direto era loucura, mas era nossa única opção naquele momento.
—Ok. – o monstro começou a andar a passos lentos, porém largos, e a arrastar seu grande machado para nos atacar. Mas antes que partisse para a luta de fato, Kian sacou suas duas katanas e eliminou todas as sentinelas (aliás, eu nem tinha percebido a existência dos seis ajudantes do grande boss que urrava e brandia sua grande arma em nossa direção) que estavam ali tão rápido que parecia um raio branco. Após isso, ela correu em direção ao nosso maior problema no momento e fez um grande talho em seu braço direito.
—Troque! – ela exclamou, e imediatamente fui até ela com Kuraki, a espada que tinha comprado numa cidade com Kian. Procurando brechas na armadura do grande minotauro, notei que esta era venenosa – e esse era o mais provável motivo para Kian ter solicitado a troca.
Agora, caro leitor, vamos parar um pouquinho o tempo e fazer uma curta análise da situação.
Estou desviando de um machado colossal feito de aço, portado por um monstro gigantesco com tendências homicidas. Esse mesmo monstro possui uma armadura com o design ridicularmente estranho e, para piorar, ela é venenosa. Enquanto isso, Kian está num canto da masmorra tentando recuperar o HP perdido pelo contato com o veneno. Ela está com um casaco branco, diferente do preto de sempre. Olhando assim, ela fica bem melhor com essa cor – aliás, se ela já fica linda com um casaco branco, imagine com um vestido branco numa igreja.
Foco, Nikarel. Você está sonhando demais. Vamos voltar ao que estava acontecendo, com o curso do tempo normal.
Deathbones tentou acertar-me com sua arma – desviei, subi em seu braço e pulei para apoiar-me em seu ombro. Obtive sucesso; com isso, ele ficou confuso e aproveitei seu estado para dar um salto em direção à sua cabeça e fazer um corte profundo em sua face, que estava completamente desprotegida, e acabei cegando-o. Kian veio logo em seguida, invocando uma imensa esfera de fogo e lançando-a em direção a ele. Isso quebrou sua armadura, o que deixava as coisas bem mais fáceis. Com o peitoral desprotegido, foi possível ver seu ponto fraco – o coração que saltava para fora da pele. Sem hesitar, cravei Kuraki naquele ponto, e Kian também o fez com suas duas katanas. Saltamos para trás e observamos a morte e o desaparecimento do monstro com um forte clarão dourado.
Finalmente tudo havia acabado; Kian estava comigo e tínhamos derrotado o boss mais forte do jogo juntos, proeza que nem a maior guilda do jogo conseguira realizar. Mas não ficaria para receber as congratulações pelo feito, eu queria ver Kian e não era somente num jogo. Se todos os meus sentimentos fossem verdadeiros, a amaria assim que a conhecesse de fato.
—Seu idiota! Você podia ter morrido! O que eu faria sem você? – ela começou a me dar alguns socos que foram perdendo a força com o tempo para se transformarem num abraço apertado.
—Me desculpe por isso, Kian. Fui realmente um idiota. – só pude dizer essas palavras. Queria expressar em palavras como a amava, porém aquele não era o momento. Elas ainda estavam presas em minha garganta, e não importava o quanto eu quisesse dizer, eu simplesmente não conseguia.
—Tudo bem... Eu te perdoo, você me perdoa, estamos felizes assim. Está bom para você? – ela me olhou, e pude ver a sinceridade de suas palavras por aquele olhar.
—Claro. Mas ainda falta algo para eu ficar feliz... – era algo audacioso, mas eu queria pedir isso a muito tempo.
—O que falta? Posso fazer isso por você? – coloquei minha mão em sua nuca e a beijei. Eu não podia sentir o calor de seus lábios num jogo, mas a intenção era a mesma.
—Eu, você, mundo real, na minha casa, 17:30. Vá, por favor. Eu te imploro.- eu disse assim que separamos o beijo e a entreguei um papel onde estava anotado meu endereço e telefone, esperando que ela se lembrasse dos dois.
:: QUEBRA DE TEMPO – CASA DE KINOSHITA SORA, 17:20 ::
Eu ainda não acredito que disse aquilo a ela. Finalmente irei conhecer a pessoa quem amo tanto, mas estou um pouco nervoso. Como será que ela é de fato? Como será que ela vai estar? Melhor não ter expectativas sobre isso para não me decepcionar depois. Peguei um copo e enchi até a metade com água; talvez isso me acalmasse um pouco. Estava lavando o copo quando escutei a campainha tocar. Ela tinha chegado com cinco minutos de adiantamento – eu admirava pessoas pontuais assim. Estava vestida com um vestido xadrez azul e vermelho e um casaco branco. Seus cabelos lisos e negros estavam soltos num penteado bem natural e seus grandes olhos tão escuros como a noite irradiavam um brilho inesquecível.
—Olá. Acho que... Prazer em conhecer? – ela sorriu. Seu sorriso era a coisa mais linda que já tinha visto na vida. – Meu nome é Ishida Yuuki, e você se chama...?
—Kinoshita Sora. Prazer em conhecer, Ishida-san. – retribuí o sorriso. Logo em seguida a convidei a entrar em minha casa; ficamos conversando por um bom tempo e constatamos que temos muito em comum além de um jogo.
Fazendo uma retrospectiva dos últimos grandes acontecimentos de minha vida, percebi que só conheci a menina que amo por meio de um MMORPG, e que tudo o que senti não foi em vão. Ela também me ama, e só faltava uma coisa para ter meu final feliz:
—Ishida-san, eu te amo desde que percebi a falta que você me faz. Não há um único dia em que eu não pense em você... Eu te amo por quem você é e como eu sou quando estou contigo; meu coração já não é mais meu, pois ele te pertence. Então, por favor... Fique comigo. Você... quer namorar comigo?
Ela me abraçou fortemente e pude sentir minha blusa ficando molhada. Eram as lágrimas – prefiro acreditar que eram de felicidade – de minha tão amada Yuuki-chan. Quando me soltou, me disse um “sim” bem baixinho, mas isso foi motivo o suficiente para puxá-la de volta para mim e a beijar. E, meu Deus, poder sentir o calor de seus lábios, suas lágrimas quentes... Aquilo era o paraíso para mim.
Minha felicidade finalmente estava completa. Mas a minha, a nossa história tinha apenas começado.
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