Kian, a assassina
20 Capítulo 18 - Os meus sentimentos
Notas iniciais
P.O.V. KIAN
Eu já sabia que a separação não iria ser fácil. Flashes das memórias que fizemos juntos passam incessantemente na minha cabeça.
“Nikarel parece bem contente com uma espada nova; eu, por incrível que pareça, estou contente por vê-lo contente. Que estranho.”
Estranho... Realmente, gostar de alguém deve ser estranho para uma adolescente antissocial como eu.
“Quando ele chegou lá e me viu, parecia que estava hipnotizado.”
“Depois de um tempo, percebi que ele não estava olhando minhas caudas, estava me olhando!”
“Ele alcançou o topo da montanha e começou a conversar comigo. Seria uma típica cena romântica se não fôssemos só amigos.”
Ah... O pôr do Sol. Um momento tão lindo...
Eu estava realmente vivendo e não sabia.
Eu o amava e não sabia.
Eu era feliz e não sabia.
“Desde que Nikarel chegou aqui, não sei mais o que é solidão.”
Claro. Ter alguém que mora na sua casa e que sempre te faz companhia é a melhor coisa do mundo. Ainda mais se você tem uma série de coisas em comum com essa pessoa, porém é burra o suficiente para não entender os próprios sentimentos e ainda dizer que tudo não passava de uma grande amizade em um momento conveniente.
Quando seus pais fazem dez anos de falecimento.
—Flashback on—
—Ei, Yuuki-chan! – mamãe me chamou, sorridente, abrindo os braços para receber num abraço a antiga criança alegre e inocente que eu era.
—Mamãe! – respondi, com a mesma alegria. Ela fazia carinho em meus cabelos e afrouxava os prendedores das minhas marias-chiquinhas. Seu abraço era quente e acolhedor; Dava-me a sensação de que estava para sempre protegida.
—Yuuki... – ela novamente chamou meu nome, dessa vez com o sorriso um pouco menos aberto.
—O que foi, mamãe? – perguntei, em minha inocência, fazendo uma cara de dengo enquanto ela continuava fazendo aquele carinho gostoso em mim.
—Eu e seu pai vamos fazer uma pequena viagem. Não se preocupe, voltamos amanhã, está bem? Eu te amo e nunca se esqueça disso, sim? – ela finalmente falou suas últimas palavras dirigidas a mim, numa despedida que parecia ser como todas as outras.
Mas não foi, porque foi a última.
—Flashback off—
Dez anos passam depressa demais. E, durante esses dez anos, eu nunca fui capaz de superar a morte da minha mãe, aquele ser que era a bondade encarnada em uma pessoa como todas as outras, porém especial.
Até conhecer Nikarel.
Veja bem, Nikarel foi a única pessoa capaz de me fazer esquecer todas as coisas ruins que passei. Ele me fez rir muito, e também chorar um pouco, às vezes... Mas nunca quis me machucar, justo eu, a pior pessoa do mundo, na qual trocou seus amigos por um posto idiota de representante de classe. Não que eu nunca quis ser; pelo contrário, meu maior sonho, desde que cheguei aqui, era ser a melhor jogadora desse MMO, e jurei que um dia seria, não importa o que eu precisasse fazer para tal. E, bem, olhe como estou, sozinha de novo e deprimida.
Esse deve ser o preço por todas as maldades que fiz com as pessoas.
Todas as vezes que pensei que eu não precisava de alguém para me completar... Eu estava errada sobre isso.
Sinto como se um pedaço de mim estivesse faltando, uma parte muito importante.
Ele.
Nikarel.
Ele era a parte que faltava.
“Devo dizer que agora não consigo mais viver sem ele.”
Realmente não. Eu estava certa... Não consigo mais viver sem ele.
“Acho que vou sofrer muito sem ele.”
Eu não acho... Eu tenho certeza.
“Mas ninguém, ninguém mesmo, toca no Nikarel.”
“—Kian, isso é sério. Eu tenho uma suspeita e preciso comprovar algumas coisas para saber se estou certa ou não. – Thath me disse, séria.
—Tá, e sobre o que você está suspeitando? – perguntei, ainda surpresa.
—Eu acho que Nikarel está correndo um grande perigo vivendo com você, mas só acho.”
Não.
Aquilo definitivamente não podia ser real.
Enquanto eu ainda estivesse próxima dele, sempre, sempre o protegeria.
Porque eu o amo... Amo muito, muito mesmo.
Então, ficaria tudo bem se você fosse um pouquinho egoísta com ele, certo?
“Vou protegê-lo de tudo o que possa ameaçar a vida dele, não importa o custo.”
Isso.
Isso mesmo...
Eu o protegerei de tudo, tudo, não importa o que precise fazer por essa causa.
Sabe por que?
Porque você o ama. Isso já não é motivo o suficiente?
Sim, é. E é por isso mesmo que devo ficar cada vez mais forte sempre, sempre mais e mais forte. Para protegê-lo de todos e tudo o que possa ameaçá-lo, para enfim vivermos realmente como um casal, mesmo que com uma enorme diferença entre nós.
Afinal, o amor não precisa de razão para existir, certo?
Sim, certo. Então, o que você fará agora, Kian?
Eu? Eu vou agir como sempre. Ser a “Kian” de sempre... Mas agora eu tenho motivos.
Ah, Kian, todos esses “motivos” são só desculpas para você fazer a única coisa que você sabe fazer...
Matar.
De fato, eu só sei matar, e, mesmo assim, apenas em um jogo idiota. Não sei fazer nada além disso... Não tenho talento algum, não sei tocar instrumentos, não sou uma pessoa especial...
NÃO!
Espere... Uma nova voz em minha consciência.
Escutemos o que ela tem a dizer.
Você é alguém! Você tem talentos! Você é especial, tanto para seu tão amado Nikarel quanto para outras pessoas! E seus amigos, você se lembra? Você é importante para eles assim como eles são para você!
Meus... Amigos?
Sim! Thath, Shellow, Jids... Eles são seus amigos, não são?
Claro, mas... Mesmo assim, isso não muda a péssima pessoa que eu sou, a Kian malvada e desprezível de sempre.
Você não é uma péssima pessoa! Ainda há bondade em seu coração! Por favor, me escute!
BASTA! Cale-se, sua inútil! Ter compaixão dela é o mesmo que ter compaixão de uma marionete assassina... E todos sabemos que ela é uma.
Ela não é! Ela pode até ser nessa realidade, mas se ela despertar daqui, todos poderão ver que ela é bondosa e gentil como a mãe!
Des...per...tar?
SIM! Acorde, Kian, saia daqui! Saia... daqui...
Até quando vai continuar com essa autoindulgência ridícula?
Até nunca. Igual a você... Cansei de ser sádica.
Cansei de ser alheia a meus erros.
Cansei de fingir ser o que não era.
Cansei de dormir e ter esses pesadelos...
Chegou minha hora de despertar.
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