Kháos

10 Fernweh


Notas iniciais
S. Do alemão: 1. a necessidade de distância. 2. o desejo de escapar da vida cotidiana para viajar.

Cruzando os braços atrás do corpo, balançou satisfeita em seus pés. Um sorriso orgulhoso abrindo caminho aos poucos em seu rosto enquanto olhava para a sala e cozinha que começavam a tomar as cores de seus dois moradores. O sofá verde musgo, um novo e muito bem utilizado, contrastava com a parede cinza em que estava apoiado. A cozinha possuía armários brancos, já vindos com o apartamento, mas as frutas colocadas em uma tijela em cima do balcão e panelas coloridas mudavam todo o ambiente. Um pequeno degrau separava os dois cômodos, esse foi um dos pequenos detalhes que a fizeram convencer Jackson de que aquele lugar era perfeito para eles. Suspirou encantada, finalmente um apartamento que tinha cara de lar. O seu antigo era maravilhoso, até porque fora o seu primeiro imóvel, um que ela pôde pagar sozinha e que abriu seu caminho como uma mulher adulta e independente. Mas agora que estava ali, nesse novo lugar há quase um mês, se sentia muito mais confortável e acolhida. Mesmo que estivesse desempregada e com uma virose horrível.

Fungou incomodada, puxando um lenço de papel do bolso enquanto assoava o nariz. Detestava ficar doente, principalmente porque as escolas não concediam entrevistas ao sinal do menor resfriado, a sombra do covid ainda pairava por todos. Amassou o papel e o jogou na lata de lixo que ficava na cozinha, lavando as mãos em seguida enquanto pensava no que poderia fazer para o jantar. Eles estavam ficando sem nada, deveria conversar com Jackson para que ele parasse de fazer pratos mirabolantes se os ingredientes iriam custar um rim. Nenhum dos dois tinha muito dinheiro, sua reserva era apenas para as contas básicas e eventuais emergências e o salário do Fuller só sofreria mudanças se ele ganhasse uma promoção. Considerando que ele estava trabalhando há menos de seis meses, ela não viria tão cedo.

Abriu a pequena geladeira, inclinando o corpo para procurar algo que pudesse misturar e fazer um prato minimamente decente. Nunca foi fã de cozinhar, amava comida, mas dava tanto trabalho. Por sorte Jackson adorava cozinhar, mas naquele dia ele chegaria tarde e ela ficou responsável pelo jantar. Apesar do novo apartamento ser próximo do trabalho do Fuller, sua chefe estava exigindo mais dele nos últimos dias, algo sobre uma crise na segurança de alguma empresa que seu namorado não soube explicar. Sorriu minimamente à palavra, ainda era estranho, mas curiosamente satisfatório dizer que Jackson Fuller era seu namorado, mesmo que fosse apenas dentro de sua mente.

Torceu o nariz quando retirou alguns pimentões vermelhos da geladeira, há semanas comia tudo o que combinava com eles, mas estava começando a enjoar, mesmo que ainda sentisse vontade de comê-los. Os colocou em cima da bancada, no fim faria algo com aquelas verduras e que Jackson gostasse e não opinasse. Se ele desse uma de jurado de programa de culinária novamente, Ramona iria fazer com que ele se arrependesse amargamente. Notando o silêncio que preencheu subitamente a cozinha, girou a cabeça para encontrar seu celular na bancada. O rosto sorridente de Kimmy Gibbler a saudou, sendo a causa da interrupção de sua música. Enxugou as mãos em uma toalha de pano, atendendo rapidamente a ligação.

— Oi, mã-Atchim!

— Não me venha com "Oi, mãe", Ramona Gibbler!

Torceu o nariz para o tom repressor. Não se lembrava de nada que poderia ter feito de errado nos últimos tempos. Bom, tirando Jackson.

— O que aconteceu?

— Como eu descubro que a minha filha está doente pelo tio dela? Não pensou em me contar? E se algo horrível acontecesse com você e eu só fosse saber quando...

— Mãe, mãe! — a interrompeu, revirando os olhos carinhosamente para a sua preocupação. — Eu estou bem, é apenas uma virose.

— O que você está realmente sentindo, filha? E não minta se não eu pego o primeiro avião e apareço na sua porta sem aviso.

— Apenas enjoo e mal-estar, nada que um antiácido não resolva.

Declarou, abrindo as cortinas da sala para que a luz de fim de tarde pudesse entrar. A porta de vidro que dava para a sacada continuava fechada, não precisava que o frio de fora se infiltrasse para dentro do apartamnto e piorasse seu resfriado. Retirou o celular da orelha quando o sentiu vibrar, era uma mensagem de Jackson avisando que iria conseguir voltar mais cedo e já estava a caminho de casa. franziu a testa quando leu "O sistema está operando normalmente agora", ela realmente não sabia o que o Fuller fazia para viver, em específico não, e ele era péssimo em explicar.

— Ramona.

— Mãe, estou falando a verdade. — retomou a conversa, brincando com alguns pimentões em cima do balcão.

— É melhor você procurar um médico, só me informa os dados que eu pago, meu amor.

— Não precisa, dona Gibbler, eu posso pagar por uma consulta.

— Ramona...

— Olha, mãe, vamos fazer assim, eu faço uma consulta e ligo na hora que o médico informar que eu tenho apenas um resfriado. — propôs, tentando soar animada e impedir um espirro quando sentiu seu nariz coçar. — Tudo bem?

— Certo, concordo com isso, mas. E é um mas bem grande, Ramona Gibbler, se for algo sério eu pego o primeiro voo. Não vou deixar meu bebê sozinha nesse mundo cruel e frio de Nova Iorque.

— Não estou sozinha, o Jackson está aqui comigo.

Kimmy estalou a língua do outro lado, como se não tivesse importância o que ela havia acabado de falar.

— Eu amo aquele garoto, de verdade, mas ele não pode cuidar nem de si mesmo, Ramona.

Sentiu sua boca abrir em indignação. Aquilo era injusto, Jackson era uma das pessoas mais responsáveis que ela conhecia. Eles firmaram um contrato de aluguel por um ano, caramba, um ano! Que maior prova de que ele sabia o que estava fazendo do que aquilo? Na verdade eles poderiam estar cometendo uma loucura, mas esse era um pensamento para outra hora.

— Ele não está tão ruim. — murmurou em defesa, colocando a ligação em viva voz enquanto se deitava no sofá. Abriu a boca em um longo bocejo antes de continuar. — Está se saindo bem no trabalho, limpa a casa melhor do que eu e ontem a noite ele inventou um quadro de contas. Juro, mãe, da próxima vez que ele me acordar de madrugada só pra perguntar as taxas de juro de um programa de streaming, DJ vai despertar com um filho a menos.

Kimmy riu, obviamente surpresa.

— Seu pai fez a mesma coisa comigo na semana passada, não do mesmo jeito, Fernando morreria se tivesse que fazer contas por diversão. Mas ele me acordou pra perguntar se poderia montar a árvore de Natal no quintal e fazer uma fogueira ao lado dela.

— Hum, isso daria muito errado.

— Vai não, vai ficar lindo!

Sorriu da animação de sua mãe, mas ainda sabia que os bombeiros teriam uma parada festiva, para dizer o mínimo, na noite de Natal. Escutou o som distante de vozes e passos e a risada de uma criança ecoando no corredor. Jackson estava em casa, sorriu enquanto se sentava, ele sempre parava para conversar com Kylie, um garotinho que morava no apartamento da frente e ficava brincando no corredor quando voltava da escola.

— Tenho que ir agora, mãe.

— Antes me prometa que vai procurar um médico. — praticamente ordenou.

Quis suspirar alto, mas sabia que iria soar como uma adolescente emburrada. Então se contentou em falar no tom mais suave possível.

— Eu prometo, senhora Gibbler. Agora tenho que ir.

— Te amo, bebê.

— Também te amo, dramática.

Escutou o som de um beijo estalado e mandou outro de volta antes de desligar. Virou o corpo quando escutou a porta da frente ser fechada. Jackson sorriu automaticamente assim que Ramona o viu.

— Sua mãe?

— É, ela quer que eu vá em um médico ainda hoje. — informou, apoiando-se nas mãos para tomar impulso e levantar do sofá. Só queria ficar deitada.

Caminhou até Jackson, mal chegando perto ao inclinar o corpo em direção à ele. O Fuller a rodeou com os braços, a apertando carinhosamente enquanto escondia o rosto em seu pescoço. Ramona riu ao sentir cócegas por conta da barba por fazer, enrolando os braços ao redor da cintura dele, sentindo seu corpo amolecer e se moldar como sempre acontecia.

— Eu concordo com ela e vamos ainda hoje. — declarou, beijando sua testa e tentando se afastar quando ela começou a espirrar.

— Não! Na saúde e na doença! — fingiu indignação, o abraçando mais forte e rindo enquanto Jackson tentava se libertar.

— Não literalmente, sua contagiosa! — exclamou, fazendo cócegas nela e aproveitando para correr para longe.

— Covarde! — Ramona gritou quando o escutou fechar a porta do banheiro.

Sua risada foi quebrada por um acesso de tosse. Se apoiou no sofá, sentindo o corpo pesado após o cessar da tosse. Gemeu inconformada, tombando a parte superior do corpo sobre o encosto do sofá, sentiu o sangue descer para a cabeça pela posição em que estava. Ela não queria ir ao hospital, era apenas uma gripe ou virose, ou o que fosse, que se aproveitou do seu pobre corpo estressado. Mas sabia que com Jackson e sua mãe do mesmo lado, não tinha escolha.

<♡♡♡>

— Bom dia, senhorita Gibbler.

Sorriu em repsosta para a médica simpática. Olhou ao redor da sala branca e quase impessoal, franzindo a testa para os diplomas orgulhosamente espalhados na parede atrás da jovem médica. Alguém com tantas qualificações deveria custar caro. Estreitou os olhos ao encarar Jackson, ele corajosamente fingiu interesse nas esculturas de pássaros que decoravam a mesa da doutora, porém, a tensão em sua postura era perceptível.

— Estamos com seus exames, Ramona, posso chamá-la de Ramona?

Voltou a atenção para ela, sorrindo minimamente.

— Claro, posso chamá-la de Autunn? — propôs, se impedindo de se remexer na cadeira sob a intensidade do olhar da mulher.

— Tudo bem. — concordou ao desviar o olhar, digitando algo no computador à sua frente. — Certo, estou com o resultado de seus exames.

— Espero que não seja algo grave. — Jackson verbalizou sua preocupação. — Sua mãe me mataria se eu te deixasse morrer.

Doutora Autunn sorriu compreensiva para ele.

— Não é nada grave, senhor Fuller. — logo o sorriso deu lugar a uma expressão mais contida. — Bem, irá depender da sua decisão.

— Como assim? — Ramona indagou confusa ao notar que a doutora se dirigia apenas à ela.

— Você está com um resfriado, mas os sintomas estão mais fortes apenas porque o seu sistema imunológico está comprometido. — começou a explicar, unindo as duas mãos acima da mesa. — Uma das causas pode ser o estresse, ansiedade, baixa em alguma vitamina, ou outro fator como a gravidez.

Ramona piscou perdida por alguns segundos, mas logo sentiu uma risada borbulhar em seu peito, escapando por seus lábios em um som parecido com desespero. Riu alto, era impossível, ela deveria ter escutado errado. Massageou o peito com uma mão, se abanando com a outra enquanto controlava as risadas e a leve tosse que se seguiu. Respirou fundo antes de notar que a médica não estava rindo, franziu a testa desviando o olhar para Jackson. Seu namorado se encontrava em uma cor de verde nunca vista por ela, o olhar dele vidrado em seu estômago a sufocou.

La puta madre!

Ofegou alto quando percebeu que não era uma brincadeira. Olhou para a médica que esperava paciente por algo que Ramona não compreendia. Jackson ainda não reagia e ela estava começando a ficar assustada.

— Jackson. — chamou, apertando seu braço para que ele reagisse, mas só conseguiu um balançar de cabeça desesperado em reposta antes dele se levantar apresssado e correr para fora do consultório sem olhar para trás. Bufou indignada pela reação dele. — Covarde.

Cruzou os braços inconformada, tentando canalizar toda a sua raiva para algo que não fosse o fato dela estar... o que a médica tinha dito.

— Ramona. — a fala suave chamou sua atenção. Doutora Autunn sorriu minimamente e empurrou alguns panfletos em sua direção. — Essas são opções que talvez possam lhe interessar. Não precisa ter pressa, leve seu tempo e pense com calma. Não sou obstetra, portanto, a depender da sua escolha, vou lhe encaminhar para um ótimo médico.

Assentiu rigidamente recolhendo os papéis nervosa, sentia suas mãos tremerem e respirou fundo em busca de calma. Se despediu da doutora e agradeceu por sua atenção antes de sair da sala para procurar seu melhor amigo idiota. Ele não deveria ter deixado ela sozinha, claro que parecia que ele iria passar mal a qualquer momento, mas caramba, Ramona estava irritada e assustada! Pedir coerência naquele momento era impossível na opinião da Gibbler.

Olhou ao redor à procura de Jackson, mas avistava apenas corredores lotados de enfermeiros, médicos e pacientes. Caminhou decidida até a área dos banheiros, procurando ao redor por alguém que a tivesse notado antes de correr apressada para dentro do banheiro masculino quando notou que ninguém a via. Inclinando a cabeça para olhar para os pés de quem estava com as portas fechadas, percebeu que o Fuller não estava ali. Resmungou irritada, batendo o pé no chão antes de dar a volta para sair, porém, deu de cara com um homem baixo e carrancudo.

— O que você pensa que está fazendo aqui?

— Procurando por alguém. — respondeu direta, tentando passar por ele, mas foi barrada por um braço estirado à sua frente. Cruzou os braços, arqueando as sobrancelhas em indagação. — Com licença?

— Você não pode estar aqui, vou chamar a segurança. — informou brusco, pegando o celular com a mão livre.

— Como não? — retrucou, aproveitando sua leve distração ao digitar no seu celular para tentar passar.

— Você é mulher, até onde eu sei...

Correu para o lado contrário quando ele avançou sobre ela.

— Que cometário...

O palavrão morreu em seus lábios assim que escutou passos apressados. Olhou por cima do ombro do homem irritante para encontrar seu futuro ex-namorado a encarando confuso.

— Ramona?

Passou rapidamente entre o homem e a parede, ficando de frente para Jackson, o encarando irritada enquanto o empurrava para longe do banheiro. Ignorou as ameaças resmungadas atrás de si, não iria começar uma discussão dentro da clínica aquela hora da tarde.

— Ah, resolveu aparecer, Jackson Fuller?

— Eu precisava de ar. — se defendeu, desviando das mãos dela que estavam prestes a beliscá-lo.

— Dentro da clínica?! — indagou descrente, notando os três passos que ele deu para longe dela.

— Fora da sala.

Apenas o fitou séria, se aproximando alguns passos. Bateu nele com os folhetos que se encontravam enrolados em sua mão antes de caminhar decidida para a saída da clínica. Sabia que ele iria segui-la, os passos pesados ecoando atrás de si eram apenas a prova. Tentava respirar fundo, controlar o desespero que começar a provocar náuseas. Não iria vomitar logo naquele momento, tanto por não querer chamar atenção quanto por saber que se Jackson a visse iria passar mal de novo.

— Mona?

Fechou os olhos fortemente quando sentiu os braços do Fuller ao seu redor. Inspirou fundo apesar do leve entupimento de seu nariz, sentindo o coração martelando contra seu peito e picadas de dor em sua cabeça. O ar saiu trêmulo por seus lábios, inclinou a cabeça contra o ombro dele, não contendo as lágrimas. Apertou os lábios para controlar a torrente que saia de seus olhos. Tentou limpar sua mente como Daisy havia ensinado, não pensando em nada além de um grande e vasto céu branco. Inspirou fundo, soltando o ar devagar. Precisava estar lúcida para o que faria a seguir e se debulhar em lágrimas não iria ser de ajuda alguma.

— Certo.... tudo bem. — sussurrou tanto para si quanto para Jackson, se afastando o máximo possível. Piscou repetidas vezes, respirando fundo novamente antes de encará-lo. — Tudo bem. Vamos para casa.

Tentou não se encolher ao perceber a preocupação e o medo nos olhos castanhos de seu melhor amigo. Ele estava assustado, sua cor ainda não havia retornado e a maneira como ele a encarava... Ramona só queria sumir. O Fuller fez menção de falar algo, porém, desistiu e apenas assentiu em concordância. Soltando o ar lentamente, ela entrelaçou seus dedos ao puxá-lo pela mão e se pôs a caminhar para longe da clínica. Em sua outra mão os folhetos entregues pela doutora Autunn eram amassados em nervosismo, incomodando a pele de sua mão. Esticou os folhetos em direção à ele, sem tirar os olhos da rua à sua frente. Sentiu quando ele os recolheu, retraindo o braço antes de passar a mão aberta na lateral de sua calça.

A aspereza do jeans que usava era um contraste em relação ao papel seco que segurava. Havia vestido uma calça em tecido mais quente, que funcionava como uma segunda pele, por baixo do jeans. Gemeu internamente, aquela era a sua calça preferida, um jeans skinny de lavagem clara que combinava com todas as suas blusas. Quase não servia mais nela, o botão segurado por um elástico em sua cintura deveria ter sido seu primeiro sinal, mas ainda se encontrava em negação. Agora andava com uma calça que não fechava na cintura e um feto crescendo dentro de si. Inspirou fundo quando sentiu a ardência conhecida atrás dos olhos, iria chorar novamente, mas sabia que se começasse não iria conseguir parar tão cedo. A sensação de injustiça começou a se espalhar por seu corpo, a fazendo tremer levemente. Porque era tudo tão injusto, ela ainda estava tentando se reerguer após perder o emprego, se encontrar em uma cidade enorme e navegando em meio a um relacionamento novo. Ela não tinha recursos, tanto financeiros quanto emocionais, para ter uma criança naquele momento. Era injusto para ela e para aquele ser estranho que pelo visto habitava o seu corpo.

Expirou devagar, não queria pensar no que fazer no momento, não queria ter que decidir nada. Sabia que Jackson a apoiaria em qualquer decisão que tomasse, mesmo que isso o perfurasse por dentro, porém, ele ainda estaria ao seu lado, segurando sua mão em todas as etapas. Mas... Ramona tinha um grande e imenso mas, ela não sabia o que fazer, realmente não sabia. Piscou atuardida quando se viu sendo puxada para um beco. Quando olhou ao redor viu que era um recuo na coluna de lojas que se estendiam ao longo da avenida, o local era pequeno, mas bastante acolhedor e o mais importante, se encontrava lotado de pinheiros.

— Caramba, já é Natal? — perguntou chocada, encarando Jackson que riu levemente.

— Quase, amor.

Como sempre revirou os olhos carinhosamente para o apelido, ignorando o calor que tomou suas bochechas apesar do frio. Se permitiu ser arrastada até as árvores menores, que bom que ele sabia que era o único tamanho que eles poderiam pagar.

— Sei que não estamos tão bem assim no financeiro, mas eu ainda me recuso a trazer algo assim para casa. — declarou, apontando para um galho retorcido que continha apenas algumas agulhas secas. Era triste e de deprimente bastava apenas ela ocupando o apartamento.

— E essa?

Observou com calma a pequena árvore, Jackson agachou para ficar quase da altura do mine pinheiro. Com as bochechas coradas, um sorriso bobo no rosto e ao lado de uma árvore filhote, Ramona não resistiu e retirou rapidamente o celular do bolso do casaco para capturar aquele momento. Riu quando ele fez uma careta em sua direção, tirando mais algumas fotos antes de se abaixar ao seu lado.

— Acho que essa está ótima. — respondeu, sorrindo carinhosamente para a árvorezinha. Sentiu o olhar dele e levantou a cabeça para encontrar um Jackson pensativo. — O que foi?

— Você pode ficar nessa posição? — indagou preocupado. — Não que você não possa fazer o que quiser agora ou no futuro, mas não vai prejudicar você ou o...

O cortou com um suspiro impaciente, conte com Jackson Fuller para acabar com um clima.

— Vamos levar e depois comprar algumas decorações. — declarou, levantando-se rapidamente antes de o dar às costas.

— Ramona.

Não parou quando foi chamada, seus olhos à procura do vendedor, o encontrando conversando com um homem alto que segurava uma criança agitada pelo capuz de um casaco azul. Ótimo, era tudo o que ela precisava, encontrar pequenos seres humanos em cada canto que ia. Inspirou fundo, se desvencilhando da mão de Jackson, que encontrou magicamente um lugar em seu cotovelo, antes de dar um passo para longe.

— Vou falar com ele. — informou, não esperando por uma resposta antes de caminhar decidida para longe.

Iria preencher cada segundo da sua existência com um feriado sazonal se isso significasse não pensar no que estava crescendo dentro dela. Se encolheu minimamente quando a imagem de sua mãe passou por sua mente, não precisava de uma culpa desnecessária. Tudo o que Ramona Gibbler necessitava era da garantia de um emprego, um bom salário, independência e se enrolar com Jackson à frente da TV enquanto assistiam a um filme clichê de Natal. Sem grandes mudanças, sem embarcar em algo sem garantia de sucesso, sem se sentir um fracasso em mais uma parte da sua vida... sem estender esse fracasso para outra pessoa.