Kháos
2 Serendipia
Notas iniciais
Ramona movia o corpo ao som da melodia animada que havia colocado, em seus braços uma trouxa de colchas e lençois limpos esperavam para serem guardados. Atravessou a pequena sala, a qual era dividida da cozinha por um sofá verde-claro, e seguiu em direção ao único quarto do pequeno apartamento. Vivia em um local confortável, levando em consideração de que somente ela morava no lugar, o que permitia uma tranquilidade e privacidade muito bem-vindas para alguém que passou a adolescência inteira em uma casa lotada.
Olhou ao redor do pequeno quarto composto por uma cama de casal, uma cômoda de madeira clara, uma poltrona azul-acinzentado e uma arara de roupas em um canto perto da janela. Jogou as mantas em cima da cama, girando em seus pés para voltar à sala. Era seu sábado de folga, finalmente! Trabalhava em um pequeno estúdio de dança no centro da cidade, a nova sócia do local iria tomar posse de tudo na semana seguinte e Paty, a supervisora, disponibilizou o sábado para que todos descansassem antes que um novo modelo de gerenciamento fosse posto em prática.
Cindy, a futura dona, ainda não fora vista, porém, sua fama começava a se esgueirar pelas frestas do estúdio. Difícil, exigente, ácida e fria eram somente alguns dos adjetivos escutados por Ramona para se referir à mulher. Sempre ponderava para o lado de que ela era somente uma mulher tentando fazer o seu melhor, marcar o seu nome em um mundo tão difícil para elas, e por isso era vista de maneira tão... distorcida. Mas não era o momento para pensar sobre a forma como o mundo via as mulheres, era o seu sábado de folga e iria aproveitar para limpar todo o apartamento, o que a daria o resto do fim de semana para fazer absolutamente nada.
Aumentou o volume da música, girando com os olhos fechados quando chegou a sua parte favorita. Rindo, abriu os olhos e começou a colocar as luvas amarelas com o intuito de começar a limpeza do banheiro. Era sua parte menos favorita, porém, preferia limpar a ter que cozinhar algo e como vivia sozinha, era espantoso o valor que gastava somente com comidas para viagem. Sua mãe iria infartar se a visse se empanturrando de comidas não caseiras todas as noites, mas Ramona não tinha tempo. Trabalhando das 7:30 am às 19:00 pm, o horário de almoço passado no estúdio, precisando pegar duas linhas até chegar em seu apartamento, quase às 21:00 horas da noite, chegava exausta em casa e tudo o que queria era comer algo antes de ir direto para a cama. Essa era a sua rotina, de segunda à sábado, e ela amava, por mais cansativa que fosse.
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Com a mochila pesando em seus ombros, trancou a porta de entrada de seu apartamento, girando a maçaneta duas vezes para ter certeza de que estava realmente trancado. Seu prédio era antigo, em um bairro não tão bom, se fosse ser sincera, então tinha que ter o dobro de cautela. Ao virar viu a porta da frente sendo aberta, sua vizinha nem se dignou a reconhecer sua existência antes de praticamente correr para longe. Quando chegou à cidade realmente pensou que encontraria uma comunidade longe de casa, porém, o mundo não se mostrou tão receptivo quanto seu lar e a Gibbler teve que encontrar em si seu próprio conforto.
Não estava só, fez ótimos amigos no trabalho e seus vizinhos do andar de baixo sempre a convidavam para jantar ao menos uma vez por mês. Mas, em alguns monentos, sentia falta de um contato diário com mais de uma pessoa, sentia saudade dos jantares caóticos na casa dos Fuller, na corrida para o café da manhã, nos fins de semana passados no quintal ou viajando para algum ponto turístico aleatório. Esse último era algo feito entre sua pequena família, seus pais queriam passar todo o tempo possível com ela e organizavam inúmeros eventos e viagens para que a falta que sentissem no futuro fosse polvilhada de bons momentos.
Soltando um suspiro saudoso, se pôs em direção às escadas. Olhando para o relógio de pulso constatou que eram apenas 6:10 hrs, o ar que saiu por seus lábios fora carregado de exasperação. Poderia estar dormindo, imersa em travesseiros e mantas macias e felpudas, mas não, tinha que acordar praticamente uma hora antes do início de seu expediente e caminhar ainda quase dois quilômetros para pegar duas linhas de metrô e assim conseguir chegar em seu trabalho. Ah, e como poderia esquecer o quarteirão que precisava caminhar, ao menos ela poderia comer algo pelo caminho já que estava cansada demais para cozinhar algo e nem havia preparado seu almoço.
"Belo bom dia, Ramona!"
Pensou em uma animação mental que não combinava em nada com o que estava realmente sentindo. Ao sentar ao lado de uma senhora, que segurava um enorme cachorro peludo, e sentir a vibração do trem em movimento chacoalhar todo o vagão, se pôs em automático. O caminho até a academia passou como um borrão, tão acostumada estava com o circuito, seus passos ritmados e rápidos a levaram para mais um dia de trabalho.
Algumas horas depois, ao adentrar a sala de convivência, os olhos de Ramona logo encontraram os de Daisy, a primeira amiga que fez assim que chegou à cidade. Sorriu para o braço estendido no ar como uma sinalização, balançando a cabeça em diversão quando viu Ryan, que se encontrava sentado ao lado de Daisy, sorrir carinhosamente para ela. Era óbvio o quão apaixonado ele estava pela amiga, mas não sabia como agir e nem admitia para si mesmo.
— Então, como estamos indo nessa deliciosa manhã? — Ryan indagou, empurrando com o pé uma cadeira na direção da Gibbler.
Ramona praticamente se jogou contra o móvel, tombando a cabeça para trás em claro cansaço. O dia ainda se encontrava longe de seu fim, mas toda a sua energia já estava sendo sugada por pestinhas possuídos que resolveram fazer da vida dela uma loucura só por diversão.
— Eu juro, se eu tiver que limpar outra rodada de vômitos só porque aquelas crianças acharam que seria ótimo se todos girassem sem parar, eu me demito.
Daisy riu alto, mal se comovendo com a expressão desolada de Ramona. A Gibbler bufou ao escutar a risada exagerada de seu outro amigo, belos companheiros ela possuía.
— Sabe, eu acho que a Paty está querendo te salvar. — Ryan comentou, juntando os fios encaracolados de seu cabelo escuro em um coque apertado.
— Ser jogada na cova dos leões é tudo menos uma salvação. — retrucou, massageando a barriga quando a sentiu começar a protestar de fome.
— Não seja assim. Eles são uns amores. — Daisy suspirou encantada, ela amava crianças. — Minha turma está se preparando para o festival de verão e vão ficar tão adoráveis.
— Claro que vão, você sempre apresenta algo saído direto do forno de uma princesa da Disney. — declarou, rindo quando a viu ficar levemente vermelha.
Daisy possuía um dom invejável para controlar crianças, em menos de dois minutos tinha qualquer mini ser humano enrolado em seu dedo mindinho. Ramona gostava de crianças, cresceu com Tommy e seus dois primos, porém, parecia que ao sair da sua família todas as crianças do mundo criavam uma certa relutância por ela. Por isso não compreendia a escolha de sua supervisora em deixá-la responsável pelas turmas entre 5-10 anos, eles eram todos tão fofos quanto insuportáveis.
— O que você quis dizer com ela ter me salvado?
Ryan parou de mastigar, olhando para trás dela, Ramona seguiu seu olhar e também constatou que não estava entrando ninguém antes de se inclinar ao mesmo tempo que ele em direção ao centro da mesa.
— A nova chefe vai reformular toda a grade de horários. — sussurrou apressado. — A Paty te entregou essas turmas porque os horários são mais flexíveis. Por conta das apresentações e tal.
— Mas eu não sou responsável por nenhuma apresentação. — informou confusa.
Daisy mordeu o lábio sem jeito, cortando seu sanduíche ao meio antes de oferecer à Gibbler. Aceitou desconfiada, parecia uma oferenda em troca de paz.
— Bem... de todos que trabalham aqui você é a que mora mais longe?
— ... sim? — retornou a pergunta, não estava conseguindo acompanhar o raciocínio de Daisy.
Daisy, que se encontrava com um lindo delineado roxo, na opinião de Ramona, arregalou os olhos perdida e encarou o homem ao seu lado em busca de ajuda. Ryan soltou o ar pesadamente pela boca, assentindo a contragosto antes de se voltar para a Gibbler.
— Paty te entregou as turmas iniciais porque assim não tem porque você ficar até tarde ou fazer horas extras...
— Nem ter que correr por toda a cidade sendo que você mora longe. — Daisy completou, seus lábios prensados fazendo com que suas bochechas ficassem mais redondas.
— Espera, então quer dizer que fiquei com as turmas de pequenos delinquentes porque moro longe?
— Hum.
Daisy olhou para Ryan, que somente assentiu ao levantar um polegar em afirmação, ele estava muito ocupado começando a devorar seu terceiro sanduíche para participar verbalmente da conversa. A mulher mais baixa suspirou, piscando os olhos verdes em direção à Ramona como se dissesse que sentia muito.
— Tanto faz. — deu de ombros, não iria focar no quão irritada estava. — Vai ser melhor assim, das três últimas turmas que eu fiquei responsável, um total de zero conseguiu um prêmio. — levantou apressada, tirando uma grande mordida do meio sanduíche oferecido por Daisy.
— Oh, querida...
Abanou a mão para impedir o monólogo de consolação de sua amiga, então tentou sorrir e após um tchauzinho com a mão livre, saiu da sala. Ao chegar no corredor parou de tentar, se encontrava incrivelmente irritada e o pior, tinha esquecido completamente de pressionar Ryan para dizer o motivo de Paty tê-la salvado. Isso não fazia o menor sentido. O que a frustrava mais era o fato dela ser uma boa professora, certo que só estava há apenas oito meses ali, mas ela era boa e se tornava ainda melhor quando ensinava seres humanos a partir de doze anos.
Não que ela detestasse seus novos alunos, o problema era que com eles ela precisava começar tudo do zero, necessitava ensinar equilíbrio! Não havia como trabalhar coreografias mais complexas ou passos mais rápidos. Precisava ir com calma, em passos de tartaruga, até porque todas as suas turmas eram iniciantes. Se sentia orgulhosa em poder ensinar algo novo, ser aquela que abria a porta para um mundo mágico e único, porém, gostaria de estar preparando sua própria turma para uma competição, escolher figurinos, coreografar sonhos, competir em âmbito regional e até nacional!
— Está tudo bem?
Piscou aturdida ao escutar a voz firme, havia esquecido que estava parada no meio de um corredor. Olhou para Paty, a mulher de cachos fechados e escuros a observava com olhos analíticos. Ramona ergueu os ombros e abriu um sorriso educado.
— Claro. Só estava pensando nas minha próximas aulas. — se sentiu obrigada a completar.
— Que bom. Espero um grande avanço ao final do semestre, não me decepcione.
Continuou sorrindo enquanto a observava se afastar, desmanchando qualquer sinal de alegria em seu rosto assim que a mulher dobrou em um corredor à direita. Ótimo, agora ela estava sendo avaliada e pressionada. Tudo o que ela precisava no momento. Grunhiu irritada, não era justo ter seu trabalho limitado por conta da distância em que morava. Ramona poderia muito bem ficar até mais tarde, mas logo descartou a ideia. O mais tarde de todos era o horário de saída da sua primeira parada. Ficar até depois do expediente seria chegar em casa em um horário perigoso.
Torcendo a boca em desagrado, se pondo a pensar em um plano. Talvez pudesse se mudar, procurar um apartamento mais próximo do estúdio, porém, os preços eram altos para arcar sozinha. Todos os seus colegas de trabalho, ao menos aqueles legais e toleráveis, dividiam um lugar com uma pessoa ou mais. Ela poderia encontrar um colega de quarto ou um anúncio que procurava alguém para alugar um quarto, mas gostava da sua independência, do silêncio só dela. Se viu sem saída, ou jogava fora uma possível oportunidade de crescer em seu emprego protegendo sua paz ou abria mão de seu sossego de vez.
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Deitada no sofá de sua sala, Ramona olhava para o teto à procura de uma solução para o seu dilema. Passara o resto do dia sem saber ao certo se se mudaria para outro apartamento ou tentaria a sorte, torcendo para não ser demitida quando a nova sócia tomasse posse. Paty poderia não deixar transparecer com todas as palavras, mas ela sabia que sua chefe era extremamente exigente consigo mesma e que essa exigência respingava em todos ao seu redor.
A maior parte de seus colegas de trabalho ficavam encarregados de seis a oito turmas, quanto maior o tempo em que estavam no estúdio, e sua ética de trabalho mais disponibilidade, maior era o estágio das turmas que ficavam responsáveis. Ramona também queria competir a nível nacional e internacional, fazer parcerias com grandes universidades e estúdios de arte. Seus pequenos e iniciantes alunos possuíam um grande potencial, bom, uma considerável parte deles, mas demorariam anos para chegarem ao nível dos alunos de Daisy, por exemplo.
Mas não adiantaria ficar pensando no "E se...", precisava de uma solução para o agora e a única solução em que pensava era uma mudança de apartamento. Sentou-se devagar, olhando ao redor melancolicamente. Aquele pequeno apartamento era o primeiro lugar que foi somente dela, era o seu refúgio do mundo e o local em que fez memórias únicas. Acabara de fazer vinte e cinco anos, viveu grande parte de sua vida cercada de pessoas, quando passou para a Faculdade de Belas Artes da Universidade Estadual da Flórida, viveu em um alojamento por quase cinco anos. Ao encontrar o seu primeiro emprego, em uma escola de artes em São Francisco, dividiu o apartamento com Rockie e Hugo, um amigo em comum.
Ir para Nova Iorque foi um impulso, foi informada de que o estúdio estava precisando de novos professores e enviou seu currículo, não esperava ser chamada, mas foi e ocorreu de ser a melhor decisão de sua vida. Pela primeira vez Ramona começou a caminhar sozinha, a viver sozinha e morar sozinha em um lugar só seu, era libertador e tão... bom. Ela estava bem, aprendeu tanto sobre o mundo e si mesma. Mas pelo visto teria que abrir mão de sua liberdade e começar a dividir novamente um lugar com algum estranho. Não via outra alternativa, se queria uma promoção precisava mostrar que poderia dispor de mais tempo para o estúdio. Porém, a grande questão era, com quem ela iria morar?
Franziu a testa quando escutou batidas em sua porta, levantou com cuidado, não lembrava de ter marcado nada com alguém. Na ponta do pés caminhou até a porta, inclinando o corpo para tentar escutar algo do outro lado. Torceu a boca quando as batidas soaram mais insistentes e resolveu descobrir logo quem estava do outro lado, torcendo para no fim não se tornar mais um caso nos programas criminais do sábado a noite. Respirou fundo e abriu a porta de repente, congelando quando viu quem estava parado à sua frente.
— Olá, minha nova colega de quarto!
Um Jackson animado a saldou, com uma mochila grande nas costas e uma mala de rodinhas aos pés. Ele sorria brilhantemente e balançava no lugar como se mal estivesse se contendo de empolgação. Ramona segurou um gemido irritado, já podia prever um novo caos em sua vida.
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