Kháos
20 Nephente
Notas iniciais
Sentada em um banco de uma praça da qual não recordava o nome, Ramona observava as pessoas caminharem alheias uns aos outros. Crianças brincavam no parquinho, caindo e correndo em meios aos brinquedos, cachorros arrastavam seus donos ao longo da pista de caminhada e alguns casais davam passeios tranquilos em trocas de sussurros amorosos. Com as mãos cruzadas acima da barriga e os pés esticados em frente ao seu corpo, Ramona começou a ponderar suas opções. Jackson queria que ela voltasse com Kimmy para São Francisco, porém, ela havia recusado e com a chegada de DJ, que no momento executava uma imensa faxina em seu apartamento, ele continuava insistindo em seu retorno.
Ela, sinceramente, estava a um ponto de partir para a agressão física. Seu namorado cabeça dura não dava o braço a torcer, apesar de sua insistência ser mais silenciosa, e tanto sua mãe quanto sua sogra continuavam a tentar convencê-la, o que era péssimo porque ela tinha deixado claro de todos os jeitos possíveis que ela não queria ir embora. Fechou os olhos fortemente, luzes brilhantes dançavam sob suas pálpebras fechadas, provocando um leve incômodo que a impedia de chorar. Não que ela ainda possuísse lágrimas para derramar, Ramona acreditava que toda a água de seu corpo já estaria seca até o nascimento de sua filha. Ela estava apenas exausta, estupidamente cansada e precisava de um tempo.
Precisou sair do apartamento, amava DJ de todo coração, mas o seu carinho estava se tornando sufocante e levemente assustador. Pela Fuller ela estaria envolta em plástico bolha, sentada o resto da gravidez sem mover um dedo sequer. A última "discussão" que tiveram envolvia o fato de Ramona não querer sair para uma caminhada e ao invés disso ir lavar a roupa, descendo "aquelas escadas dignas de filme de terror", de acordo com sua sogra. E por complemento, ela a impediu de pintar o portal da janela do quarto da bebê, declarando que era um esforço desnecessário para ela fazer e que a Gibbler deveria deixá-la terminar de organizar o quarto. Por isso, bateu o pé no chão e, por descuido, a porta antes de sair para longe. Sentia o celular vibrando no bolso interno do casaco, provavelmente ligações e mensagens tanto de DJ quanto de sua mãe. Só esperava que elas não tivessem contatado Jackson, ainda não era o seu horário de saída.
- O que uma mulher tão linda faz sozinha aqui nesse fim de tarde deslumbrante?
Virou o rosto fechado ao escutar a voz roucamente floreada, relaxando os ombros ao reconhecer seu dono.
- Por isso você ainda está solteiro. — provocou sorrindo quando ele sentou ao seu lado, notando o suave brilho de preocupação em seus olhos.
- Minha solteirice se dá por escolha e não por falta de opção, Ramona.
Teve que rir da indignação velada de seu amigo.
- Essa vibe de "Eu escolhi esperar" não combina com você, Ryan.
- Há, Há. — retirou os óculos, limpando as lentes em um lenço que escondido no bolso frontal do casaco que usava. Ramona esticou as pernas em frente ao corpo quando ele perguntou. — Mas como você está? Antes de começar, seu namorado, quase noivo, me enviou ao seu resgate. — a impediu de falar, recolocando os óculos enquanto um sorriso satisfeito enfeitou seus lábios ao vê-la cruzar os braços emburrada. — Ele está preocupado porque a mãe dele disse que você saiu de casa com muita raiva, batendo portas e tudo. Quem diria, hein, Ramona, que você teria essa veia dramática nesse corpinho minúsculo?
- Não me confunda com a Daisy. — declarou, sem um pingo de raiva na voz. — Foi sem querer, eu não queria ter saído daquela maneira. É só que... estou cansada, Ryan. — confessou, desviando a atenção para o botão de seu blusão. — E sei que se voltar para São Francisco vou passar o resto da gravidez irritada com todos e sufocada pela atenção e o pior, sentindo que estou deixando Jackson de fora de uma parte muito importante da vida da nossa bebê.
Soltou o ar pelo nariz, fechando os lábios em um aperto firme enquanto seus dedos brincavam com os botões redondos. A peça de roupa estava apertada e desconfortável, o que a fez ter que abrir metade dos botões da cintura para baixo a fim de que sua pequena grande barriga tivesse algum espaço, fazendo-a ter que usar uma legging, que já se transformara em sua peça coringa. A bebê se agitou, mas logo se acalmou quando Ramona começou a acariciar sua barriga e cantarolar baixinho. De soslaio observou seu amigo abrir um pequeno sorriso antes de falar.
- Ele me contou, bem, não ele, a Daisy na verdade. — coçou atrás da orelha, ficando corado rapidamente e se tornando ainda mais vermelho quando ela inclinou a cabeça e sorriu maliciosamente. Ele a ignorou e continuou. — O Jackson ligou para ela um dia perguntando se poderíamos estar passando um tempo a mais com você. Não queríamos estar afastados, mas...
- O trabalho. Eu sei. — o interrompeu, levando uma mão ao seu braço e dando um leve aperto em compreensão. — Eu entendo que deve estar uma loucura no estúdio e vocês nunca deixaram de mandar mensagens ou fazer ligações. Acho que ainda não tinham visto a barriga de bebê de quase sete meses.
Gesticulou para a barriga de maneira exagerada, o que o fez soltar uma risada antes de cutucá-la cuidadosamente com o dedo indicador em provocação.
- É, você está ficando... incrível, Ramona.
Revirou os olhos carinhosamente ao vê-lo hesitar, não se contendo ao declarar:
- Esse é um ótimo jeito de dizer que estou ficando mais redonda e rechonchuda, mas muito obrigada.
Ryan bufou, as bochechas vermelhas denunciando sua vergonha, Ramona apenas riu levemente.
- Então... São Francisco?
- Sim, São Francisco. — soltou o ar ruidosamente pelo nariz em um barulho incômodo. — Não quero ir, mas preciso, ao menos ficar lá nos primeiros meses da bebê e tudo. Jackson não pode tirar licença, então estará trabalhando o dia todo e não quer que eu fique sozinha. Nesse período nossas mães não vão poder vim e ficar muitos dias, a minha irá organizar um evento de uma semana na cidade e a dele vai estar abrindo uma nova filial. Elas não terão tempo e meus outros parentes tem filhos e empregos que não os liberam.
- Um mês ajuda, certo?
O tom conspiratória a fez encará-lo desconfiada, o sorriso de canto maroto no rosto de seu amigo também era um indício de que ele estava aprontando algo.
- Sim?
- Hoje é meu dia de folga, quase vendi ele novamente, mas Jackson me ligou para encontrar você. — informou, se recostando contra o apoio de madeira do banco enquanto ela o observava confusa.
- Porque você está vendendo suas folgas?
- Para aumentar os dias das minhas férias. — a encarou como se fosse óbvio, o que lhe rendeu um beliscão leve que o fez sorrir. — Eles não podem comprar meus dias por muito tempo, vai chegar um momento em que terei que entrar de férias e, se tudo der certo, será em junho e as de Daisy em julho.
Demorou alguns segundos para compreender o que ele queria dizer, mas logo seu lábio inferior começou a tremer e seus olhos pinicarem pelas lágrimas antes extintas.
- Ryan...
Ele a interrompeu, apertando sua mão carinhosamente.
- Quando você chegou aqui, eu estava sozinho com a Daisy e você rapidamente se tornou parte da minha família. — confessou, sorrindo emocionado. — Somos família, Ramona, e prometemos cuidar um do outro.
- Mas são suas férias. — declarou, fungando alto. — Você não pode passar todos os dias preso a uma grávida irritada e emocional.
- Você grávida não é muito diferente de você normal. — se encolheu de brincadeira quando ela tentou acerta-lo. — Está tudo bem, você também fez muito por mim. Não vou esquecer o seu apoio quando a minha avó morreu.
A lembrança de seu amigo enrolado em cima de uma cama, trancando em um quarto escuro por dias, veio fresca em sua mente. Quando a avó de Ryan morreu, Ramona havia acabado de fazer quatro meses morando na cidade, não sabia como se aproximar, mas a dor em seus olhos quando foi com Daisy visitá-lo a empurrou para puxá-lo para um abraço forte que o fez desmoronar em lágrimas grossas. Foram dias densos e tristes, mas, ao fim, seu amigo conseguiu se reerguer e uma amizade sólida surgiu entre eles.
- Vocês são inacreditáveis. — levou uma mão ao rosto, o encarando sem saber o que fazer. — E eu amo vocês por isso. Bom, não apenas por estarem fazendo isso, mas como um todo. Por cada palavra de conforto e até as piadas inapropriadas e raras que você faz. Ou as festas estranhas que a Daisy já me arrastou, até pelos vídeos de gatinhos fofos que ela me manda e os seus memes de dança que só fazem sentido para nós. Eu só... caramba, eu só amo vocês.
Sentiu seu lábio inferior tremer novamente, seus olhos arderem e um nó se formar em sua garganta. Em pouco tempo as lágrimas já se faziam presentes, molhando sua face e, em consequência, o ombro de seu amigo quando ele a puxou para um forte abraço. Não conseguia acreditar no que eles estavam dispostos a fazer por seu bebê. Abrir mão de suas próprias férias em meio a loucura que era seu trabalho... Ramona nunca conseguiria agradecê-los o suficiente e os dois ainda nem haviam começado a ajudá-la realmente. Afastando-se um pouco, tentou enxugar as lágrimas enquanto se levantava.
- Agora vamos ou a DJ é capaz de mandar uma equipe da SWAT para descobrir onde estou.
- Ou... — Ryan entrelaçou seus braços, a puxando na direção contrária da qual ela ia. — Podemos apenas dar uma volta enquanto comemos um pouco de pipoca doce, o que acha?
Olhou para o carrinho mais a frente, o cheiro de açúcar e manteiga inundando seus sentidos quanto mais se aproximavam. Não conseguiu conter novamente as lágrimas, levou uma mão a boca a fim de evitar que os soluços escapassem, mas seu amigo percebeu. Ele apenas riu divertido e começou a caminhar com ela em direção ao senhor mais velho que vendia a pipoca. Ramona não se envergonhava em dizer que passou quase dez minutos comendo pipocas coloridas cobertas por açúcar enquanto chorava no ombro de Ryan.
<♡♡♡>
- Ramona?
Virou o corpo lentamente quando escutou a voz hesitante de DJ. Estava prestes a entrar no quarto e tirar uma soneca, seus pés doíam muito e o sono pós caminhada estava cobrando um descanso. Apoiou-se no portal, descansando uma mão sobre a barriga enquanto levava a outra à boca para encobrir um bocejo.
- Está tudo bem? — perguntou suavemente, sentindo seus ombros relaxarem após o longo bocejo.
DJ sorriu carinhosamente, se aproximando aos poucos.
- Bom, espero que sim. Eu queria me desculpar por ter ultrapassado alguns limites. Fui além do que devia, Ramona, tenho consciência disso. — a interrompeu antes que falasse algo. — Essa é a casa de vocês, seu lar. Não posso chegar e dizer o que você está fazendo de errado.
Abriu a boca levemente, mas percebeu que não sabia muito bem o que falar para ela. Havia saído de casa com tanta irritação, não por DJ em si, mas por toda a situação em que estava. A Fuller estava certa em determinado ponto, aquela era a sua casa e não se sentir confortável dentro de seu próprio lar a estava levando à loucura. Fazia dias que se sentia assim, desde a chegada de sua mãe. Se sentia péssima por pensar daquela maneira, mas era a verdade e sabia que toda a sua confusão de sentimentos apenas iria aumentar quando o restante da família estivesse ciente de sua bebê... principalmente seu pai. Se forçou a sorrir, esperando que parecesse calma e despreocupada apesar de tudo.
- Eu entendo, DJ, você é mãe e foi minha segunda mãe durante muito tempo.
- Fui? — perguntou rapidamente, o que fez a grávida esticar o braço na sua direção.
- Ainda é. — garantiu, um pequeno sorriso sincero nascendo quando a sentiu apertar sua mão com carinho. — Sério, DJ.
- Ah, Ramona. — soltou o ar em uma lufada cansada, a puxando rapidamente para um abraço apertado e cuidadoso. — Me desculpe.
Ramona sentiu um nó se formando em sua garganta, respirou pela boca a fim de aliviar a tensão dentro de si. Fechou os olhos fortemente, retornando o abraço de DJ antes de inspirar fundo e falar com um tom leve, mas trêmulo, em sua voz:
- Tudo bem, eu realmente deveria começar a separar o lixo.
- Sim, deveria. — riu levemente junto com ela, separando-se para encará-la de maneira séria. — Mas isso tem que ser feito do seu jeito.
- Bom, agradeço muito pela limpeza. — declarou assim que se separaram completamente, cruzando os braços à frente do corpo. — Não estou conseguindo fazer muita coisa nesses últimos tempos e o Jackson está tão cansado. Só estamos seguindo e fazendo o melhor que podemos.
- Eu sei disso, de verdade, e posso dizer que vocês estão fazendo um ótimo trabalho.
Teve que rir da expressão resignada de sua sogra, imaginava o quão difícil era para ela não se meter completamente.
- Ah, não, DJ, ontem tivemos que fazer um sorteio de qual conta pagaríamos primeiro. E posso te dizer que a do aplicativo de comida venceu. — provocou quando a viu os olhos arregalados.
- Pensei que Jackson estivesse fazendo as suas refeições.
- Oh, hum, ele faz e são maravilhosas. — completou rapidamente ao notar o olhar duro na mulher à sua frente. — Mas às vezes eu só quero um hambúrguer bem gorduroso com batatas fritas crocantes e. — parou, sentindo a boca encher d'água e um desejo absurdo a fazer choramingar inconformada. — Agora estou precisando comer um grande hambúrguer com tudo o que tenho direito.
DJ arqueou uma sobrancelha enquanto cruzava os braços, estreitando os olhos levemente ao indagar:
- Precisando?
Ramona suspirou dramaticamente antes de responder.
- Tudo bem, querendo e muito.
- O que você comeu agora pela tarde? — sondou, não cedendo à expressão levemente culpada da Gibbler.
- Hum, acho que apenas alguns saquinhos de pipoca doce.
- Ramona! — exclamou indignada, começando a puxa-la em direção à cozinha.
- É milho e milho é saudável.
- Eu vou fazer uma salada para você, com o frango grelhado que fiz ontem e algo a mais.
- DJ. — tentou protestar, parando de caminhar, a fazendo virar em sua direção. — Por favor, só um hambúrguer. — intensificou seu pedido, inclinando a cabeça e falando em um tom doce. — Por favor, pela sua netinha.
DJ apenas a encarou, tentando manter a pose séria, mas Ramona não desistiu. Pensando bem, até que ela a devia aquele hambúrguer, se ela fizesse aquilo elas estariam quites e voltariam à estaca zero. Bom, o mais próximo da antiga realidade que pudessem voltar.
- Argh, tudo bem. Mas. — frisou antes que ela começasse a comemorar. — Apenas após você comer a salada.
A Gibbler concordou, sorrindo satisfeita quando sentou na banqueta da cozinha e observou sua sogra começar a preparar algo. Puxou o celular do bolso da blusa com a intenção de responder aqueles que tentaram entrar em contato com ela. Sentiu seu peito apertar quando viu que seu pai havia lhe enviado uma mensagem.
Papi ♡
"Mi vida
Quando estiver livre me ligue"
Talvez sua mãe estivesse conseguindo ficar em silêncio, mas sabia que ela não iria durar muito tempo e era errado pedir para ela continuar mentindo para o seu pai daquela maneira. Além de Kimmy Gibbler ser uma péssima mentirosa, Fernando era seu marido e um de seus votos era nunca mais mentir para o outro, mas Ramona a estava fazendo quebra-lo. Sentiu novamente as lágrimas quererem aparecer, mas as forçou para longe ou DJ iria recomeçar a chorar e passar o resto do dia pairando ao seu redor para ter certeza de que ela estava bem. Resolveu responder com um "Tudo bem ♡" e desligou a tela sem vontade de conversar com os outros.
- Então, estamos bem?
A pergunta foi feita enquanto uma salada fria de folhas verdes e frango grelhado foi colocada à sua frente. Ramona a aceitou com alívio por ter algo em que se concentrar, envolvendo o copo de suco que a acompanhou com uma mão trêmula.
- Claro que sim, DJ. — respondeu com firmeza, segurando o copo com as duas mãos e encarando a sogra com seriedade. — Olha, eu entendo que foi tudo uma surpresa e agradeço por você ter vindo passar uns dias aqui. Deve ser estranho se deparar com essa parte da vida do Jackson que você não conhecia.
- Ele tem toda essa vida... vocês construíram toda essa nova vida sem nós, sem mim. — falou, torcendo um guardanapo de papel entre os dedos. — Sei que parece egoísta da minha parte, até porque sempre criei meus filhos para que tivessem sua própria vida. Porém... é difícil não fazer parte.
Sentiu seu coração apertar, compreendia o quão magoada DJ deveria estar. Ver seu filho morar a quilômetros de distância, com sua afilhada que viu crescer e formarem uma família sem que tivesse noção de que ao menos eles estavam juntos... Era estressante, para dizer o mínimo. Esticou o braço por cima da bancada, apertando as mãos dela com a sua direita, o que a fez notar a pedra xxx em sua pulseira. Respirou fundo, tirando o olhar de outro símbolo de sua conexão para além de São Francisco.
- Desculpa. — pediu rapidamente, com a voz embargada. — Não queríamos deixar vocês de fora, apenas. Eu estava assustada, ainda estou. — confessou, não controlando mais as lágrimas quando DJ deu a volta e a puxou para um abraço apertado.
Apoiou a cabeça no peito da mulher, chorando silenciosamente enquanto abraçava o braço que a envolvia com carinho. Fechou os olhos quando a sentiu apoiar o rosto acima de sua cabeça.
- Shiu... vai ficar tudo bem. — sussurrou em um tom calmante. — Vai ficar tudo bem e o Fernando vai entender.
Não conseguiu controlar as lágrimas grossas ao ser lembrada de seu pai, é claro que DJ iria perceber o seu maior medo. Só esperava que ela estivesse certa e que tudo fosse ficar realmente bem em algum momento.
<♡♡♡>
Fechando a porta do apartamento atrás de si, deixou as sacolas com algumas compras para a casa em cima da bancada e olhou ao redor. Estava tudo limpo e organizado como sempre estava desde que DJ chegou, mas o som das canções do ABBA que ela amava ou das discussões bobas que tinha com Jackson não eram escutadas em lugar algum. Estranhou, era um domingo de manhã, alguém deveria estar em casa. Caminhou confusa em direção ao quarto da bebê, era o local mais frequentado naquela casa há tempos e não se decepcionou ao encontrar alguém. Franziu a testa em concentração enquanto tentava compreender o que Jackson estava fazendo.
- O que é isso?
O Fuller se virou em sua direção com um enorme sorriso estampado no rosto, em uma das mãos se encontrava uma sacola com argolas brancas e na outra a ponta de uma cortina cor verde menta ou verde água, não sabia dizer, seu namorado se tornou surpreendentemente melhor naquela parte do que ela.
- A mulher da loja disse que é o novo modelo da cortina blackout. — informou animado, sacudindo os objetos em suas mãos.
Ramona cruzou os braços acima da barriga, estreitando os olhos enquanto analisava a cortina fofa, as pequenas nuvens redondas dividiam espaço com estrelinhas em uma das estampas mais... ela tinha que admitir, era quase carinhoso o jeito como aquela cortina combinava com a decoração do quarto. Porém, ela não deve ter sido uma pechincha.
- Jackson...
- Não estava cara, não se preocupe. — a interrompeu, a dando às costas e retornando ao seu trabalho.
Revirou os olhos para a tentativa de defesa dele, apoiando a lateral do corpo contra o portal de madeira. O observou atentamente, falando com firmeza em seguida:
- Nós já temos uma cortina, não precisamos de outra.
Ele apenas bufou uma risada, puxando uma cadeira para perto da janela e se preparando para montar a cortina.
- Fale isso novamente quando essa abelhinha esquecer que o sol existe e emendar a noite com o dia.
Esfregou a testa com a ponta dos dedos, por que ele tinha que ser tão teimosamente convincente?
- Olha, Fuller... isso é uma poltrona?
Encarou o outro novo objeto com um olhar crítico, o móvel estava apoiando na parede contrária à janela, parecia incrivelmente confortável mesmo de longe, mas, ainda assim, era um novo produto! Eles haviam combinado em não comprarem mais do que o necessário e a pressa de Jackson para descer da cadeira e se aproximar dela comprovou que ele lembrava muito bem de sua conversa anterior.
- Hum, bem, DJ se sentiu mal e comprou uma agora pela manhã. — explicou, segurando a cortina entre as mãos assim que se pôs à sua frente. — E, amor, preciso que fique calma, mas ela estava conversando com a sua mãe antes de sair de casa agora a tarde.
Ótimo, em poucas horas todo o apartamento estaria lotado de móveis ou inúmeros brinquedos que o bebê não iria usar tão cedo ou roupas que seriam perdidas em menos de três meses após o nascimento. Se contentou em apenas soltar um suspiro cansado, caminhando em direção à poltrona.
- Ao menos não vamos precisar pagar. — Jackson tentou animá-la, rindo levemente de seu semblante impaciente. — Sabíamos que isso iria acontecer.
- Eu sei, Jacksito.
Respirou fundo, massageando a lombar dolorida. Abriu um sorriso tranquilizador quando notou a expressão preocupada no rosto de seu namorado. Estendeu o braço, tendo sua mão coberta pela dele, rindo suavemente quando ele beijou os nós de seus dedos. Jackson sorriu e a soltou, retornado ao seu novo projeto. De onde estava, conseguia ver com clareza a parede pintada, a paisagem criada por John iluminava o espaço. Era lindo, todo o mural dava um ar de lar ao pequeno quarto. Ramona mal podia esperar para colocar sua filha para dormir naquele espaço, cercada por móveis e decorações repletas de lembranças e amor. Rodeada pela presença de pessoas que a queriam tão bem antes mesmo dela nascer. Pessoas que se tornarão desde sempre parte de sua família... família. Inspirou fundo, o ar saindo por seus lábios junto com um suave soluço. Levou uma mão à boca, tentando se impedir de fazer barulho, porém, Jackson rapidamente se virou, correndo para abraçá-la quando notou suas finas lágrimas silenciosas. Não precisou falar, ele sabia o que pesava em seu peito. Ah, mas como ela sentia falta de seu pai, eles precisavam contar logo para Fernando, mas sua coragem se esvaia a cada dia que passava. Com os olhos fechados, procurou conforto nos braços de Jackson, terminaria com aquela hesitação ainda naquele dia ou não seria a filha que seu pai sempre preparou para o mundo.
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