Kevin, por Razões Desconhecidas
1 Capítulo 1

São Paulo, 16 de outubro de 2011.
“Aqui estou pela décima primavera seguida, jogando flores em seu tumulo... Olhas-te para alma do seu filho?... Percebe-me, de onde está?... Sendo céu ou inferno?... Às vezes penso que a morte é a única alternativa para lhe encontrar e ser feliz eternamente. Vejo seu corpo em meus sonhos, mas não lhe noto quando desperto.”
Kevin sentou-se no chão próximo ao túmulo do patriarca, as flores se balançavam e o vento estava frio. Sentia-se bem de estar naquele local, como se tudo estivesse vivo na memória.
Flashback Kevin.
O garotinho de cinco anos de idade levantou-se da cama assustado naquela manhã de sábado. Desceu até o primeiro andar e sentou ao lado do pai, juntos viram alguns desenhos que passara nas manhãs daquela época, aquele fora a última lembrança de ambos juntos.
— Por que você tem que ir? – Indaga Kevin com receio daquela viagem.
— Filho. Seu tio Antônio está doente e precisa da minha ajuda. – Responde Claudio, após sua morte o irmão conseguiu sair da UTI e retornou para casa após alguns meses no campo hospitalar.
Canção: Die Young – Kesha.
Segunda, 17 de outubro de 2011.
O barulho ecoando do aparelho de celular fez o adolescente despertar do longo sono. Levantou-se da cama e então se cobriu com o traje da escola sem ao menos tomar banho. Fora até o banheiro escovar os dentes e depois pegou a mochila do chão e desceu até a cozinha para alimentar-se.
Nos últimos dez anos desde a morte do pai, mudaram-se diversas coisas na vida de Kevin Federline. A mãe haverá de se casado com o transposto Bill, que trabalhava como caminheiro e viajava pelo o país afora, desta relação surgiu o pequeno Rafael. Já com 17 anos de idade, Kevin sente-se confuso enquanto a sua orientação sexual, haverá de namorado com algumas garotas, mas a atração forte pelos os “seres” do mesmo sexo lhe subjugava, nunca teve a oportunidade de experimentar este anelo que o corrompia dos padrões da sociedade.
Após ter terminado calmamente o café da manhã, o adolescente colocou a mochila nas costas e trancou a porta de casa lentamente para não acordar ninguém, olhou no relógio, era quase seis horas da manhã. Enquanto caminhava, pensava frequentemente nas duvidas em sua cabeça, alguns problemas com a mãe, irmão e até mesmo o padrasto que pouco se falavam. Acontece como todos nesta idade, que ficam completamente perdidos a meio dos problemas do cotidiano, inseguros com o amadurecimento e com o futuro no mercado profissional.
Na escola ninguém notara a verdadeira opção sexual de Kevin, o garoto conseguia esconder seus segredos detrás dos olhos castanhos e um belo sorriso estampado no rosto. Era estudioso e tirava boas notas em diversas matérias dando-lhe o título de “aluno destaque” ganhando respeito entre os colegas da sala.
— Melina. – Olhou para amiga, estavam sentados em duplas na última fileira do cômodo, longe dos outros indivíduos. – Preciso lhe contar uma coisa. Somos amigos há cerca de três anos. – Kevin não aguentará guardar aquele segredo sozinho, uma bomba que facilmente poderia estourar a qualquer instante.
— Fala Kevin. Pode confiar em mim. – Diz a garota em tom confiável.
— Estou apaixonado por uma pessoa. – Era pelo Tiago, que estava sentado na frente, não por ser inteligente ou outro estereótipo semelhante, afinal era aula vaga e havia um professor substituto; Ao seu lado estará o irmão, um ano mais velho que havia repetido o chamado “terceirão”.
— Por quem? – Indaga a amiga.
— É que... – Kevin fica calado por um tempo. – Tem momentos na vida que ficamos confusos e eu agora tenho certeza sobre uma coisa.
— Sobre?
— A minha opção sexual Melina, sou gay e estou apaixonado pelo Tiago.
— O quê? – Melina fala surpresa. – Não tem como isso ser verdade! – Dá um grito indignado, chamando a atenção de todos.
— Melina, calma... – A amiga se levanta da cadeira bufando e sai da sala sem pedir permissão ao professor substituto. Minutos depois Kevin lhe segue, desce três lances de escadas e a encontra, sentada na quadra de educação física. – Por que você fez isso?
— Por que eu te amo Kevin. Você nunca percebeu isso?
(...)
Kevin Federline sentou ao lado da amiga no pavimento da quadra de educação física. Olhou-a por alguns instantes e pensou: ”Como nunca pode ter percebido?”. Eram amigos desde o primeiro ano do ensino médio. Andavam juntos e alguns até suspeitavam de um possível namoro, mas sempre negaram ao serem perguntados.
— Melina. Não quis lhe magoar.
— A culpa é sua! – Exclamou com os olhos marejados a meio da luz do sol. – Sempre tentei fazer o melhor pra você e nunca percebeu isso? – Observou profundamente as esferas castanhas do garoto diante de si.
Kevin até tentou dissipar a discussão com um abraço, mas foi rejeitado. Nas horas a seguir não se exprimiram. Os colegas de sala até estranharam, pois ambos sentaram distantes até o fim da aula.
(...)
Canção: Cedo ou Tarde – NX Zero.
A caminhada para residência durou cerca de 20 minutos, com os passos rápidos e a ansiedade contida de Kevin. Após o fim da aula e não ter conversado com a “melhor amiga” sentia o vazio na alma. Quando chegou a residência e escutou alguns gemidos ecoando das paredes da cozinha. Notou a mãe com os olhos pranteados e parte do rosto marcado.
— Não acredito que o Bill lhe bateu de novo! – Diz revoltado com a ação do padrasto, que se mostrava puritano na presença de vizinhos, familiares ou amigos. – Temos que ir à delegacia denuncia-lo!
— Não. Ele estava bêbado.
— Para de tentar defendê-lo, sempre está bêbado né? De manhã, tarde a noite e você burra apanha sem falar nada. – Kevin fitou o rosto da mãe com os olhos enfurecidos.
— Me respeita! – Grita nervosa.
— Respeitar? Olha só pro seu rosto. Veja o tipo de homem que colocou dentro da nossa casa.
— Ele é pai do seu irmão! – Justifica.
— Ele é um criminoso. – Finaliza Kevin.
Em seguida, subiu para o quarto. Jogou a mochila no chão e despiu-se. Com tantos problemas na cabeça, ainda havia de suportar o fardo de ser aquilo que não era. Asseou-se por longas horas debaixo do chuveiro, pensando em encontrar o melhor caminho para tudo.
(...)
O homem bêbado acordou assustado ao ver o enteado segurando uma faca a sua direção.
— Vai continuar batendo na minha mãe, seu desgraçado? – Indaga Kevin impaciente. – Pega as suas coisas e saia da minha casa.
— Essa casa é minha também! – Responde Bill ainda ébrio.
— Meu pai deixou tudo pra mim. E não pra um “filho da puta” alcoólatra! Saia daqui agora ou eu enfio essa faca em seu pescoço.
— Duvido, não tem coragem de matar nem uma mosca. – Subestima o enteado. – Tu és um viadinho. Frouxo, acha que não sei como olha para os garotos? Deve ser de família igualzinha ao pai!
Kevin enfiou a faca com força junto aos punhos no pescoço de Bill. O sangue jorrava por todo o lençol encanecido que logo se tornou vermelho. Aqueles olhos castanhos não lacrimejaram em momento algum. Escutou alguns passos arrastaram-se ao longo do segundo andar, até entrar dentro daquele quarto, verdadeiro cenário de um assassinato: Era Vera, que logo gritou apavorada ao olhar o corpo do marido sem vida acima da cama.
— O que você fez? – Indaga Vera com o coração palpitando fortemente.
— Ele mereceu! – Fala Kevin com tom de voz persuasiva. – A alma dele já estava morta. Apenas terminei o ofício.
(...)
O arranha-céu do condomínio localizado no bairro de classe média de SP estava em grande parte escuro, devido às sombras das grandiosas arvores ao redor. Depois de ter chegado ao apartamento onde morava junto com a família, Melina passou algum tempo trancada no quarto sem falar com ninguém. Essa era a sua primeira decepção amorosa. Assim, sentia-se completamente traída.
— Dona Melina! – Fala Liza, a doméstica, entrando no quarto da garota.
— Que foi “Li”?
— Tiago, o vizinho do andar debaixo está na sala querendo conversar contigo.
— Sério?
— Pergunta Melina, se levantando da cama e arrumando-se rapidamente. – Ele disse o que queria?
— Não, nem sabia que vocês eram amigos.
Melina foi até a sala de estar, cuja o colega de escola estava sentado no estofado sintético.
— O que está fazendo aqui, Tiago? – Indaga Melina abancando ao lado do garoto de belo par de olhos verdes. – Nunca fala comigo.
— Fiquei preocupado contigo, percebi que estava triste.
— Sério?
— Você sentou longe do Kevin, todos da sala perceberam. O que aconteceu?
— Olha isso é algo secreto, melhor não comentar nada.
Tiago segura as mãos da garota e acaricia o seu rosto lentamente, provocando sua libido.
— Tem certeza de que não quer falar nada? – Pressiona novamente, dessa vez em tom manipulador.
— Vou falar, mas é segredo entre nós dois ok? – Diz Melina já manipulada por aquele corpo viril de belo par de olhos verdes.
— Fala!
— O Kevin me contou que é gay e que está apaixonado por você.
O adolescente levantou-se do sofá pouco surpreso com a revelação que Melina havia feito.
— O que está planejando? – Pergunta Tiago.
— Por quê?
— Ué, você não tem algum plano de vingança na sua mente Mel?
— Seria pessoal.
— Posso muito bem lhe ajudar. – Tiago nunca teve uma boa índole, sempre foi chamada a atenção pelos os professores por seu mau comportamento e sua fama de “machão” e “valentão” no colégio junto com o irmão mais velho tocavam o terror em todos, já foram advertidos diversas vezes. Morava com os avós, já que os pais trabalhavam em outro país. Participava de rixas de carros e já fora preso diversas vezes e solto por ser menor de idade.
Canção: Next To You – Misty Miller.
A picape preta estacionou próxima a um aglomeramento de arvores a frente do extenso Rio Pinheiros situado na Zona Sul da metrópole Paulista. Do veículo saem Kevin e Vera que olham para o céu, era exatamente 03h15min da tarde segundo o horário oficial de Brasília, tiraram em conjunto do bagageiro o corpo de Bill, frígido e entrelaçado a um saco preto e o jogaram no rio escoltando a correnteza.
— E agora? – Indaga Vera preocupada. – E se alguém descobrir?
— Pelo caminho que fizemos será pouco provável, e além do que o caminhão do Bill não estará lá em casa e sim na transportadora, mãe. Caso a polícia bata na nossa porta nos próximos dias, o que será bem possível, falaremos que estava em uma viagem e mal nos telefonou. Enquanto ao corpo, tem aquele tal amigo dele que o ameaçou de morte esses dias.
— Me assusta falando assim Kevin.
— Nós nos livramos de um peso. – Respondeu aliviado.
— Como irá conseguir dormir esta noite?
— Muito bem, pois fiz para nos salvar deste monstro. Esqueceu-se das surras? Das vezes que tentou bater no Rafael?
— E a nossa casa?
— Temos que ir e limpar antes que o “Rafa” chegue do colégio.
Passaram-se cerca de cinco horas após a morte de Bill, a casa já estava completamente limpa e sem evidências de que havia acontecido um crime. Vera estava sentada na cozinha preparando o jantar pouco atormentada, mas ao mesmo tempo sentia-se livre, após anos e anos refém daquele casamento.
A campainha tocou, lhe fazendo levantar-se da cadeira e caminhar até a entrada da residência, ao abrir a porta fitou uma adolescente de olhos castanhos, usando um vestido por causa do calor daquela época do ano. Era Melina, amiga do filho pela qual sentia certa antipatia.
— O Kevin está? – Indaga em tom impudente.
— Sim. Vou chama-lo, aguarde um minuto na sala!
Vera fora até o quarto do filho mais velho o chamar, que logo desceu levando a amiga para o lado externo da residência. Kevin segurou as mãos da amiga, pedindo-lhe desculpas novamente mesmo não tendo culpa alguma do acontecido, mas assim fora criado, era um garoto forte, dócil que se provocado conseguiria se transformar em um lobo para proteger aqueles que amam.
— Não temos nenhuma chance juntos? – Pergunta Mel, com os olhos marejados. – Você não é gay, nunca saiu com um homem né?
— Sim, mas acontece que é o que eu sinto a atração, não posso lhe enganar assim. Espero que entenda!
— Tudo seria mais fácil pra você Kevin.
— O que?
(...)
Canção: Shot At The Nigh – The Killers
Kevin abriu o belo par de olhos castanhos, estava pouco confuso, a última coisa que se lembra de ter visto, foi o rosto da melhor amiga. A cabeça doía, provavelmente havia de recebido uma pancada na cabeça. Estava dentro de uma sala escura. Verdadeiro breu. Sua tentativa de fuga fracassa, quando percebe que estava amarrado contra algo forte.
— Socorro. – Começou a tossir, quando inalou o gás, evitava, mas era forte demais. Em poucas horas estava morto.
São Paulo, 16 de outubro de 2011.
O jovem se contorcia na cama, mas acaba sendo acordado por um homem, que o abraça, protegendo de todos os seus pesadelos.
— Kevin. Só foi um sonho. Papai está aqui.
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