Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei
25 Especial - Holy Night
Notas iniciais
Esse especial é uma homenagem ao personagem Holy Night, da Música “K”, de banda “Bump of chikens”. Aproveitem.
Tendo visto rios se tornarem lagos, lagos se tornarem oceanos e os oceanos abraçarem o mundo, eu podia dizer que era velho. Ainda lembrava dos tempos que as montanhas eram pontudas e furavam os céus, até que as chuvas as desgastaram e o reino dos Deuses se separou do mundo dos mortais, e cada buraco no céu se tornou uma estrela. Cada uma levando pra um lugar diferente.
Durante esse tempo todo, desde que minha irmãzinha tinha cometido o primeiro assassinato, desde que humanos se adaptaram a sua vida curta, desde que eu tinha criado o Hiten Mitsurugi Ryu, e me tornado o Deus Demônio Guerra, eu observei os seres humanos. A raça que antes não era mais que gado pra mim, e a observei se desenvolvendo, crescendo, e dominando o mundo. Vi mesmo os numerosos dragões se afastarem de suas populações, temendo que a inteligência deles evoluísse o suficiente pra que pudessem mata-los, e a forma como eles cresceram surpreendeu até a mim mesmo.
Eu vi inúmeros demônios nascendo nesse meio tempo, alguns bons, outros maus. Vi ganância crescendo na sombra das pessoas, e vi Insanidade acompanhar muitos de perto. Vi amor se aconchegando nos lares dos recém-casados, e Determinação presente nos olhos dos jovens espadachins que eu ensinava.
Mas com o tempo, me torneio entediado de todos eles. Cada um tinha seu propósito, eram simples, demônios simples que não poderiam evoluir, existências completas que se auto afirmavam, não tinham dúvidas, mesmo Amor, tão poderosa e bondosa, não me trazia a mesma sensação que Harmonia trazia, mesmo Prazer era cansativo, depois de um tempo.
No entanto, havia um demônio em especial, que trazia nos olhos o brilho de Lua, e nos pelos a escuridão de Noite. Era um pequeno gato de duas caudas, fraco e sozinho, que nasceu com o nome de Solidão, e nada mais.
Solidão rondava as vilas, mas nunca entrava nelas. Solidão que dormia na soleira das portas dos caçadores, que viviam sozinhos dentro da floresta, mas se afastava de manha. Por muito tempo o vi lutar contra si próprio, sem conseguir negar sua natureza, e então sumir sozinho dentro das matas, correndo pelos galhos, sempre distante da humanidade da qual nasceu.
“Você sabia, Kusaribi-chan, existe uma lenda sobre um shinobi, que amou a Lua acima de tudo...”.
Sempre que pensava naquele homem, nas velas acendidas no frio da noite que me aqueciam, e na comida que foi devorada pelos corvos, que eu mesmo criei, Solidão se aproximava de mim, perto o bastante pra eu ver seus olhos brancos entre as folhagens, mas longe o bastante pra eu nunca poder toca-lo. Ele sempre se afastava antes que eu pudesse chegar perto, e por muito tempo eu pensei que fosse por medo. Ficar sozinho era natural pra ele, talvez ele quisesse isso mesmo, por isso decidi deixa-lo em paz.
Era uma época de transição para o mundo, em que shinobis começaram a aparecer nos feudos e os samurais começaram a se tornar obsoletos, já que nenhum detinha a habilidade necessária pra se opor a um, sua honra os impedir de crescer. Os feudos se desmantelaram lentamente, e pra mim, era como observar rocha caindo montanha abaixo, parecia insignificante naquela época, mas logo se via que as montanhas perdiam sua altura e a rocha cobria os vales, formando as planícies de pedra que décadas mais tarde se transformaram em desertos, num lugar que seria chamado de País do vento. Era um nome adequado, e eu sabia que um dia esse mesmo vento levaria a areia embora, e a água da chuva cobriria o lugar de Mar.
Foi nessa época, num período pequeno de anos entre uma infinidade deles, um período que passaria despercebido pra mim, entre um furacão de mudanças, se ele não estivesse ali.
Morai.
Eu estava fascinado com ele, fascinado como ele usou a espada que lhe dei pra semear a paz entre os homens, algo que eu nunca pensei ser possível. Geração após geração, eu tinha criado monstros, homens sanguinários que eram seguidos de perto por Ganância, Raiva, e que no fim, tiveram a face raspada em cascalho, já que Morte não se dignava sequer a toca-los, partiram do mundo empalados na sua foice, sendo arrastados pelo cascalho todo o caminho até o inferno.
Morai, no entanto, tinha seus passos seguidos por Afeição, Amor e Misericórdia, e o Deus Dragão da Luz voava sobre sua cabeça, eu quase podia ver a trilha de passos na areia, por onde ele andava sozinho. Quase dava pra ver as pegadas dos demônios e Deuses que o acompanhavam. Ganância não conseguia se aproximar dele, sua alma era tão livre de desejos, tão desapegada do mundo, que ele nunca se preocupou sequer em calçar sandálias. Bastava seus mantos e suas sacas, e a espada que ele carregava, com bandagens enroladas na empunhadura e a lamina suja. Eu a fiz pra ser perfeita, como todas as espadas, e sua aparência velha e danificada parecia combinar com ele, espelha-lo perfeitamente, como nenhuma outra espada já tinha feito com nenhum aprendiz meu.
Eu observei todo o seu caminho, passei anos o seguindo, sem permitir que ele me visse, apenas o observando de longe, aprendendo com ele sem saber. Vi como ele saiu da minha cabana, levando todo meu sake, e como andou sozinho pelo continente, passando feudo após feudo, livrando as pessoas da opressão que encontrava pelo caminho. Era como se ele deixasse um traço de luz na escuridão por onde passava, como se pintasse linhas brancas num quadro negro.
O tempo passou, e eu observei como seu rosto envelheceu, os olhos ficaram maduros e a barba cresceu, e ele nunca se incomodava em raspa-la direito. Vi os templos que foram construídos em sua homenagem, sem que ele soubesse exatamente disso, e vi todo o ouro e fama e prazer que ele recusou, em sua vida de desprendimento e abnegação, e mesmo quando os fios da sua barba e do seu cabelo ficaram brancos, eu continuei o observando.
Foi quando percebi que havia outro demônio que seguia seus passos, ao longe, sem nunca entrar a sua vista. Correndo por sobre as árvores e o observando passar, Solidão estava sempre presente, e a cada ano que se passava, ele ficava mais e mais perto, até estar caminhando ao seu lado, dormindo próximo as brasas da fogueira, e comendo as espinhas de peixe que ele deixava.
Não entendi o por que daquilo, Solidão, que nunca tinha se aproximado de mim quando tentei acaricia-lo, parecia tão relaxado próximo ao meu discípulo, nesse ponto, já antigo entre os seus.
Foi numa manhã chuvosa, que eu entendi o por que.
Morai usou os próprios mantos, em que se enrolava pra dormir, pra montar uma tenda improvisava, ligada aos galhos de um grande salgueiro, e impedir que a chuva castigasse muito o seu corpo. Durante muito tempo ele não tinha se incomodado em fazer isso, e mesmo as tempestades mais violentas mal o faziam se mover, mas já estava velho, e sua saúde se deteriorava. O Hiten Mitsurugi ryu, que fora feito por um demônio como eu, cobrava um preço alta dos seres humanos, e durante a velhice, todos os meus alunos se tornavam fracos, os músculos, cansados de uma vida de trabalho extenso, se tornavam preguiçosos e paravam de funcionar direito. Os pulmões e coração, que trabalhavam tão freneticamente pra manter a velocidade absurda do meu estilo de espada passavam a falhar.
Aos quarenta anos, Morai era uma sombra do que já havia sido, mas mesmo assim, era forte entre os seus, e sua convicção continuava tão forte quanto antes. Senão mais. Talvez tenha sido essa convicção que o levou para a chuva, com um punhado de folhas, em direção onde Solidão descansava, junto do fogo, tremendo por causa da chuva.
-Boa noite amiguinho, você não esta com frio? – Me surpreendi ao notar como sua voz estava diferente, da última vez que a tinha ouvido, tantos anos antes, quando ele se retirou ao exílio e não tinha mais ninguém com quem conversar – Você vai ficar doente se dormir aqui, eu também, somos bem parecidos...
Solidão não se moveu pra correr dele, como pensei que faria, em vez disso, apenas o observou, enquanto era levantado do chão e levado até abaixo da tenda improvisada. Morai arrumou as folhas no chão pra que ficassem fofas, e largou o gato com cuidado sobre elas, onde ele ficou, parecendo bastante relaxado.
Eu fiquei perplexo, até que a resposta veio com um gosto agridoce.
-Você reconhece os seus, não é Solidão?
Morai o observou, com os olhos brilhando por cima da barba desgrenhada, e se arrumou contra o galho pra dormir. A noite toda passou, e a tempestade continuou, e os dois não saíram dali.
Morai tirou sua comida fria, e a partilhou com o demônio, e a tempestade continuou, agitando as folhas acima deles e esfriando o lugar ao ponto onde era perigoso.
Lancei meu chakra na floresta, aquecendo a clareira onde Morai estava, e pela maneira que ele olhou ao redor, primeiro alerta, com a mão no cabo da katana, e depois com um sorriso estranho no rosto me fez ter certeza que ele me reconheceu ali, ou pensou ter reconhecido.
A tempestade continuou, sem parar por um segundo, e quando a comida dos dois acabou, eu trouxe mais. Pesquei e deixei os peixes perto de sua árvore, desaparecendo entre as folhagens novamente, na forma de uma raposa pequena. Morai não tocou na comida por um longo tempo, e por mais um longo tempo me chamou, gritando que eu tinha esquecido algo, mas depois de se cansar, tornou a repartir com o gato, e ambos comeram.
Naquela noite, Solidão dormiu aconchegado em seu colo.
-Você tem lindos olhos – ele disse uma vez, acariciando as costas do gato, que ronronava – Parece a lua, quando esta cheia no céu. Se você tivesse pontos brancos no pelo – ele riu – Quase daria pra te confundir com um pedaço da noite.
Morai decidiu naquele dia que Solidão era como uma noite sem estrelas, e tendo ouvido minhas histórias sobre as montanhas que furaram os céus, no começo dos tempos, ele chamou ao gato “Holy Night”.
A chuva continuou implacável aquele tempo todo, como às vezes ficava pelo continente, meses e meses de chuva constante. Aquela não foi tão longa, mas tampouco foi pequena. Ao quarto dia em que eles ficaram juntos, e já tendo gravado a imagem em minha mente, eu a representei em uma gravura, Morai e Holy Night embaixo de um imenso salgueiro, enquanto a chuva corria pela floresta, alimentando as árvores e formando rios muito abaixo dos solos, onde os homens não podiam alcançar.
A imagem é a única coisa que sobreviveu de todos os relatos sobre Morai, apagados após guerras constantes entre os feudos, e descansa no único templo que permaneceu de pé pela mudança dos ventos. Qualquer um que profane aquele tempo é abandonado por Amor, Afeição e Serenidade, que fizeram do lugar sua moradia, onde elas descansam e observam os homens. As velas a muito foram apagadas naquele lugar, esquecido numa vila que foi tragada pela floresta, nas profundezas do país do fogo. Poucas pessoas sabiam onde ficava.
E também, aquela foi a última cena que Holy Night e Morai presenciaram juntos.
Semanas após a chuva começar a cair, Morai estava fraco, doente, e mesmo a comida que eu lhe trazia não conseguia mais manter seu corpo em pleno funcionamento. Carne era fraca, fadada a derrota pelas mãos do tempo, e tendo visto isso tantas vezes, eu sabia que era o que estava acontecendo com ele.
Holy Night permaneceu em seu colo o tempo todo, o acariciando e tentando inutilmente esquenta-lo com seu pelo, mas seu calor era pouco, e não ajudava. Foi quando saltei da árvore onde estava, me aproximando dele, ainda como a raposa que lhe trazia comida.
Solidão se arrepiou à minha presença, mas não saiu de lá. Se aconchegando tão perto quanto podia de Morai, ele manteve um olho vigilante sobre mim, enquanto o meu velho aprendiz sorria bondosamente.
-Você não devia ser tão mal com quem nos trouxe comida, Holy Night – ele disse, sem uma pitada de repreensão na voz, e logo em seguida se voltou pra mim – Obrigado a você por tudo, mas receio que não seja mais necessário, meu tempo aqui esta acabando, já não tenho forças pra comer.
Ele disse tudo lenta, mas o sorriso na sua voz não falhou. Seus ombros estavam curvados, carregando o peso da idade, e suas mãos estavam magras e fracas, mas seus olhos, profundos olhos, ainda eram tão brilhantes quanto foram quando ele era uma criança, quando corria pelas tempestades rindo e pulando nas poças de lama. A alma, mesmo manchada pelo sangue de tantas pessoas, ainda era um ponto de luz brilhante e linda entre a escuridão, nunca sequer manchada por ela.
-Eu entendo – disse – Desculpe, mas não há nada que eu possa fazer, tentei te ajudar como poderia, mas você vai morrer em breve...
-Ah, não se preocupe com isso – ele disse, parecendo nem ter notado que falava com uma raposa, sem realmente notar que era o seu antigo sensei – Eu só temo por esse gato, ele ficou comigo esse tempo todo... Será que você pode cuidar dele?
-Não, ele não se aproximará de mim.
-Por que não? – Morai afagou a cabeça do pequeno, que ronronou tristemente – Holy Night é um gatinho tão bom, a tempos que vem me seguindo...
-Holy Night, ne – sorri – É um nome apropriado pra ele.
-Por que diz isso?
-Você quer saber por que esse gato não ficará com mais ninguém, além de você?
Morai apenas assentiu, confuso, parando pra tossir por alguns minutos. Sangue manchou sua manta, e Holy Night miou preocupado, se esfregando compulsivamente contra o corpo dele.
-Ele é um demônio – eu disse, esperando ver qualquer brilho de relutância ou descrença do meu aluno. Nada, como sempre, ele estava muito disposto a aceitar o mundo como ele realmente era, e as pessoas pelo que elas realmente são – Solidão, e apenas os que compartilham da mesma solidão que ele podem se aproximar.
-Então... Ele vai ficar sozinho?
-Sim.
Morai engoliu em seco, puxando o gatinho para o seu colo e lhe afagando, enquanto lágrimas brotaram do branco sem fim dos olhos de Solidão, seu pelo manchado de vermelho do sangue do meu aprendiz.
-Esta chegando, eu posso sentir...
Eu também podia ver, Morte estava parada a nossa frente, seu cavalo parado na lama, sua máscara refletindo todos nós.
-Antes, eu queria... Perguntar quem é você, e por que nos ajudou?
Considerei milhares de coisas naquele momento, desde dizer-lhe tudo, até não dizer-lhe nada.
-Eu sou um demônio também – suspirei – Meu nome é Guerra...
-Guerra, é... Então já devo ter te visto, por aí... – ele respondeu, entre uma tosse e uma risada, e depois disso, não falou mais nada.
Antes do sol se por, naquele dia, Morte tinha tomado Morai nos braços, com o mesmo cuidado e carinho que tinha com um recém-nascido, e a pé, seguiu pela tempestade, até desaparecer na estrada.
Quando voltei meus olhos para o corpo de Morai, Solidão tinha desaparecido. Eu estava sozinho de novo.
Ainda consigo vê-lo, as vezes, mas mesmo já tendo o sentido próximo a mim, eu nunca pude toca-lo. Eu tinha pessoas comigo, mesmo que as vezes elas me odiasse, mesmo que me temessem, ou mesmo que não soubessem quem eu realmente era. Morai não tinha ninguém, alem de sua espada, e dos seus mantos, e uma alma tão radiante que ofuscaria os anjos.
O corpo dele, transformado em pó que fecundou o chão, ainda esta no mesmo lugar de onde tinha morrido, enterrado junto as raízes do Salgueiro que presenciou sua morte, e sua amizade com um demônio, e o viu partir desse mundo. No tronco grosso, desgastado pela chuva, só restam poucos traços de uma inscrição, e a única coisa que é possível distinguir é o “K”, que o tempo por alguma razão, não apagou...
Fale com o autor