Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei

23 Capítulo 15.5 - Perdão e Rancor


Notas iniciais
Isso era pra ser o começo do capítulo 16, mas acho que ele funciona mais como uma ponte, assim posso estender o 16 e incluir a volta pra Konoha, todas as explicações que fiquei devendo e tudo mais. Certo?!
Um aviso sobre o capítulo: Tem uma grande chance de muita gente passar a odiar o Naruto depois de ler, mas tenham em mente que passado é passado, não quer dizer realmente nada sobre quem você é agora.
Sem mais lenga lenga, aqui esta. Aproveitem.

O clima estava quente e fresco em todo o país da Névoa, sem quase nada de neblina nas cidades. Parecia que elas tinham regredido até as praias, longe do calor do sol que raramente brilhava naquele canto do continente, deixando o by Vid-Saver\">ambiente agradável, o que condizia bem com as festas que os aldeões davam em todas as cidades. Durante quase todas as noites na semana seguinte ao fim da guerra, fogos de artifício tingiram os céus de azul e vermelho, verde e amarelo e prateado.

Era quase como o mundo reconhecesse o fim de uma guerra, e comemorasse por isso, sem se importar com o luto das pessoas. Ou pelo menos foi isso que Yagura pensou. Recostado contra a parede oposta ao jardim, no fundo da propriedade que um dia tinha sido sua, ele se permitiu afundar em seus pensamentos, tentando afastar a culpa que lhe corroía como um veneno.

“Não foi sua culpa...” – Sanbi repetiu pela enésima vez, mecanicamente, já tendo perdido qualquer esperança de convence-lo disso.

Yagura não deu atenção, ele apernas abraçou os joelhos e observou as flores de maré azuis turquesa florescendo ao lado de um túmulo em especial, que Mei e Naruto tinham enterrado no by Vid-Saver\">próprio jardim da mansão da Névoa, onde ela agora estava assinando documento atrás de documento incansavelmente, restaurando um pouco da bagunça que ele tinha criado. Reparando alianças desfeitas, escrevendo cartas aos antigos clientes informando o fim da guerra e marcando uma reunião as pressas com o Senhor Feudal da água, tentando explicar que tudo estava bem, e que não havia mais nada que o ameaçasse, implorando por desculpas que ela não precisava dar.

Ele tentou se concentrar em algo por algum minuto, ignorando o rugido irritado de Sanbi, mas nada que visualizasse o interessava muito. O túmulo coberto de frésias e flores-casco-de-tartaruga se erguia a sua frente, imponente, mas o kage deposto já tinha o focado tanto que a imagem queimara nas suas retinas, ele duvidava que algum dia seria capaz de esquece-lo, e do que tinha acontecido com ele.

“Por favor... arranque a minha língua”.

Ele sacudiu a cabeça pra espalhar esses pensamentos, e estava pra se levantar e ir pra outro lugar quando sentiu uma presença se aproximar, se sentando ao seu lado. Por um segundo Yagura ficou rígido, mas pouco a pouco foi relaxando, até dar de cara com o rosto sorridente de Naruto, que aproveitava o sol no rosto, com os olhos fechados.

-Eu te ofereceria um ryo por seus pensamentos – ele disse, quase num sussurro, arqueando as presas num sorriso que era tão perigoso quanto gentil – Mas estou sem nada, então vou ter que ficar devendo... Qual o problema, Yondaime?

Yagura o observou por um longo momento, tentando entender aquela expressão, e no fundo, a pessoa por trás dela. Apenas alguns dias antes, ambos tinham quase se matado, e agora, aqui estava ele, livre, sentado lado a lado com o garoto que o tinha derrotado. Quando devia estar acorrentado pra apodrecer no fundo de uma prisão. Sem saber o que responder, Yagura apenas focalizou no túmulo novamente, desconfortável, quase como se estivesse sendo julgado de repente.

-Zanza... – Naruto murmurou, sorrindo – Ele teve um lindo funeral...

-Ele não deveria ter tido um funeral – Yagura retorquiu irritado, mas quando Naruto olhou pra ele, sua voz baixou quase que automaticamente – Nenhum deles deveria, todos tinham que estar vivos...

-Não cabe a você decidir isso, sabe – Naruto respondeu, sem olhar pra ele, seus olhos também estavam presos no túmulo, tristes – As pessoas morrem, é parte da vida.

-Mas a culpa foi minha.

-Não... foi culpa da guerra – ele respondeu, após um longo silêncio – Pessoas matam as pessoas por culpa da guerra, elas são forçadas a fazer isso, é apenas sobrevivência.

-Você não matou ninguém – ele retrucou, e Naruto quase riu do tom emburrado. Os dois eram crianças, apesar de tudo, as portas da adolescência.

Mais um longo silêncio se seguiu, até que o ruivo sorriu e voltou seus olhos pra Yagura.

-Você já ouviu a história de Perdão e Rancor?

-Perdão e Rancor? – Yagura forçou um pouco a memória – Não...

-Então eu vou te contar...


“Dizem que a muito tempo atrás, milhares de anos antes do mundo ter a forma de hoje, e as estrelas serem como são nas noites dessa era, quando as montanhas e as pessoas eram diferentes, duas crianças nasceram numa noite de lua cheia.

Essas duas crianças não eram humanas, eram demônios imortais, filhos de filhos de demônios, e ambas eram gêmeas. Seus pais eram Discórdia e Harmonia, dizem que eles eram irmãos, filhos do Caos e do Pecado, mas ninguém tem realmente certeza. Quando ambos nasceram, Harmonia os levou pra conhecer seu pai, com um sorriso no rosto.

As duas crianças eram bem diferentes uma da outra. O primeiro e mais velho deles, Rancor, tinha a pele vermelha coberta por feridas abertas, os olhos amarelos e cabelos brancos mais longos do que um bebe deveria ter. Suas unhas eram garras apodrecidas, e uma cauda lhe caía abaixo da espinha, ele tinha chifres pequenos na sua cabeça, e quando chorou, seus pais puderam ver que sua língua era bifurcada, como uma serpente. De dentes longos e pontiagudos, ele parecia sempre machucar a si próprio quando tentava chorar, por isso ficava sempre calado, com uma expressão de raiva que bebes não deveriam ter.

Sua irmã gêmea, por outro lado, era uma criatura linda e abençoada pelos Deuses. Ela nasceu com a pele leitosa como creme, e seus olhos eram profundamente azuis, pareciam reflexos do céu. Seus cabelos longos e louros cobriam todo seu pequeno corpo, em cachos longos e brilhantes, e das suas costas, dois pares de pequenas asas alvas lhe abraçavam o torço, enquanto ela permanentemente sorria para sua mãe e seu pai, com os olhinhos pequenos tão doces quanto mel.

Harmonia amou os dois no primeiro momento que os viu, e Discórdia agiu como se sentisse o mesmo, abraçando seus filhos e sua irmã gêmea, se fazendo de alegre e orgulhoso. Era um dia feliz na Terra, por que os dois demônios nasceram pra trazer o equilíbrio aos homens.

Entretanto, Discórdia não queria isso. Ele era uma criatura má que apreciava o derramamento de sangue, ao contrário de sua irmã. Quanto mais os dois pequenos cresciam, mais Perdão brilhava e abençoava as pessoas, voando por sobre as vilas e reforçando as uniões que sua mãe criava, trazendo felicidade para o mundo. As pessoas entendiam a si próprias, e a escuridão no coração delas era pouca.

Rancor, entretanto, corria a noite pela floresta, entrando pelas casas e espalhando a vontade de seu pai, semeando brigas e desunião, mas ele, por natureza, era mais fraco que sua irmã. Descontente com isso, Discórdia tramou um plano pra mudar as coisas...”



Yagura observou as expressões de Naruto enquanto contava aquela história. Seus olhos em nenhum momento se desviaram do céu, que ele mirava quase obcessivamente. Havia algo neles, um brilho estranho que ele não conseguiu reconhecer, mas como ele continuava com o conto, Yagura se perdeu novamente em suas palavras, esquecendo o que ele vira nos seus olhos.

Era... Dor?



Ele trouxe seu filho pra ter com ele, e disse-lhe que se escondesse por algum tempo. Rancor protestou, mas Discórdia o calou com um tapa e disse que ficasse na floresta, o mais quieto que pudesse, e se mante-se longe dos homens até uma segunda ordem. Sem entender, mas ainda sim obediente ao seu pai, Rancor cavou um buraco na terra e se enfiou dentro, adormecendo.

Harmonia sentiu falta de sua presença no mundo, e veio ter com seu irmão, lhe perguntando o que ele sabia. Discórdia disse-lhe que não sabia de nada, mas que aquilo não era um bom sinal, ele devia estar planejando algo.

Com essa desculpa, ele pode se reunir com Perdão, que o acompanhou sem nenhuma desconfiança das más intenções de seu pai. Pensando que ela seria treinada, pra ficar mais forte pra quando seu irmão retornasse, ela foi guiada pela floresta, até as planícies, onde os homens não habitavam.

A voz de Naruto falhou nesse momento, e Yagura pode ver um trilho de lágrimas lhe escorrendo dos olhos, enquanto ele mordia a língua e continha um soluço desesperado. Pasmo, ele fixou os olhos do garoto até ele se dar conta do que estava acontecendo, e sorrir tranquilamente.

-Desculpe, é que essa história é bastante triste...


Chegando lá, Discórdia rapidamente prendeu Perdão pelas asas, e a forçou abaixo dele. Enquanto a criança gritava, ele a estuprou seguidamente, o mais violentamente que podia, cravando suas garras no seu rosto enquanto ela chorava. Por mais que ela gritasse, e implorasse pra ele parar, ele não parava, e só quando que ela estava exausta e ferida, ele a soltou.

Perdão rapidamente rastejou pra longe dele, apavorada, observando a expressão horrível nos olhos do seu próprio pai. Ela tentou falar com ele, perguntar por que tinha feito, e mesmo magoada e abusada, seus olhos brilharam ternos por um segundo. Discórdia sabia que ela o perdoaria se ele pedisse, e foi isso que o encheu de raiva. Pulando sobre ela, ele agarrou suas asas alvas, e com força as arrancou de suas costas.

O grito de dor de Perdão ecoou pelas árvores e montanhas, enquanto lágrimas de sangue lhe escapavam dos olhos, com a dor nas costas destruídas. Discórdia pisoteou as penas das asas, e puxou a filha pelos cabelos, a arrastando pra longe dali. Por mais que ela implorasse pra ele parar, ele não parou.

Cortando o próprio pulso, Discórdia deixou seu sangue escorrer sobre a pele da sua filha, e usando sua magia, a fez tomar temporariamente a aparência de Rancor. As feridas abertas no seu corpo, que ele fizera com raiva a deixavam idêntica ao seu irmão, agora escondido na floresta. Ele disse-lhe pra ficar calada, ou ele a machucaria de novo, e assustada, Perdão obedeceu.

Discórdia retornou até o mundo dos homens, e procurou sua irmã e esposa. Ele entregou-lhe Perdão, e a enganou, a fazendo acreditar que aquele era Rancor, e que ele tramava contra ambos. Harmonia chorou e se negou, mas no fim, Discórdia conseguiu convence-la a leva-la até o Rio dos Mortos e a afogar, pra que o equilíbrio fosse recuperado no mundo.

Com o coração pesado, Harmonia concordou e seguiu para o rio, trazendo Perdão firmemente preso no seu colo, enquanto ela olhava por sobre o ombro de sua mãe, Discórdia sorrindo perversamente.

Harmonia levou a criança até o rio, e sem conseguir olhar pra ela, forçou seu corpo pra dentro do rio, chorando. Perdão se debateu pela falta de ar, mas Harmonia se forçou a não solta-la, confiante que Discórdia lhe tinha dito a verdade. No entanto, quando a criança parou de se mover, Harmonia arriscou olhar pra ela, com os olhos embebidos em lágrimas, e piscou horrorizada com o que viu.

A água fluente do Estige tinha lavado a magia da pele dela, a deixando branca novamente. Harmonia pode ver os machucados feitos pelas garras de Discórdia, chumaços de cabelo arrancados, e os tocos quebrados onde as asas anteriormente ficavam. Ela cheirou a criança, e sentiu o cheiro de Discórdia nela, sexo e sangue se misturando onde a inocência dela uma vez tinha estado.

Harmonia chorou e abraçou a criança, quase morta nos seus braços. Ela tentou tudo que podia pra cura-la, mas os danos no seu corpo e no seu coração eram extensos demais. Tudo o que sobrou foi uma mancha pálida do que uma vez tinha sido sua filha, com os olhos constantemente molhados de lágrimas, e tremendo de medo.

Ela a cobriu com seu quimono azul céu, e a trouxe de volta para a terra.

Enquanto isso, Discórdia foi atrás de seu filho, dizendo-lhe que agora ele tinha livre poder sobre o mundo sem a influência de sua irmã. Rancor novamente correu pelas vilas, espalhando mais e mais desunião, separando famílias e começando guerras, e ele e Discórdia se banharam no sangue derramado.

Foi essa cena que Harmonia pode ver quando retornou, e seus olhos inundaram com lágrimas. Discórdia viu a criança ainda viva nos seus braços, e num lapso de ódio tentou ataca-la, mas Harmonia se virou e correu, seus guizos tiniram e ela sumiu daquele mundo, escondendo a criança num lugar onde seu pai nunca poderia encontra-la, e mesmo fraca, ela ainda tenta espalhar sua luz pelo mundo, acalmando, por mínimo que fosse, o Rancor que seu irmão espalhava...


Naruto terminou a história com um suspiro cansado, e quando olhou pra Yagura, seus olhos estavam assustadores. Mortos, o azul brilhante de sempre desprovido de qualquer calor, permeado até as profundezas com uma dor e uma culpa que parecia envolve-lo como um cobertor de desespero.

Era assustador só de imaginar o que tinha acontecido pra fazer seus olhos ficarem daquela maneira. Yagura tentou encontrar uma razão pra ela, pra ele não matar, para a extensão daquela dor, mas nem por um segundo a história lhe veio a mente. Nem por um minuto ele sequer cogitou que aquilo tinha realmente acontecido, e que Discórdia estava a sua frente, e o quanto reviver aqueles acontecimentos doía nele.

Longe dali, Morte o observava calada, controlando a vontade enlouquecida de arrasta-lo pelos pregos e pelo cascalho, de machuca-lo tanto quanto fosse possível, aliada ao impulso de abraça-lo. Ela, que podia ver longe no futuro, e no passado, podia prever qualquer coisa, mas conciliar a imagem de Discórdia com ele... Era impossível, ambos eram tão diferentes, e tão iguais, que não fazia sentido, ela não conseguia pensar com clareza ao lado dele, e na vista dos olhos azuis mortos de Guerra, Morte virou as rédeas, fazendo o cavalo rugir e partir daquele mundo, a sensação de Perdão nos seus braços insistindo em não abandona-la.


-Essa... é uma história muito triste, Naruto-san... – Yagura disse após algum tempo, arriscando tocar o ombro do ruivo – Mas por que me contou?

-Pra que você entenda... que as vezes temos que perdoar a nós mesmos – Naruto sorriu pra ele, mas sua voz saiu forçada e seu sorriso tremeu. O ex-Mizukage sentiu que ele estava tentando passar algo que nem mesmo ele acreditava realmente – Nesse mundo, as pessoas não perdoam a si mesmas, e assim, não podem perdoar aos outros. Elas guardam muito rancor em seus corações, e isso alimenta a discórdia entre elas ainda mais, que inicia as guerras, que é responsável pelas matanças... Se apenas as pessoas pudessem se entender, como antes... – ele sussurrou a última parte, deitando a cabeça no jardim por um momento, antes de se levantar.

Yagura acompanhou seus movimentos, enquanto ele puxava o lenço de seda azul claro, agora desfiado e meio rasgado nas pontas, e ajeitava um conjunto mais claro de quimono azul sobre a hakama suja, que tinha sobrevivido a batalha. Rurouni no seishin, na sua bainha roxa escura, no entanto, parecia não ter um único arranhão.

-Eu vou caminhar um pouco, pense no que eu lhe disse... – ele se virou, e sem esperar uma resposta, partiu, desaparecendo entre a floresta que cercava o lado Oeste da vila da Névoa.

Naruto caminhou até sair da vista dele, e então começou a correr, a princípio devagar, mas logo depois rapidamente. Ele ignorou a queimação no peito e se lançou pra frente, forçando seus músculos ao ponto da ruptura enquanto sua visão nublada não conseguia distinguir com clareza os troncos e samambaias, que lhe arranhavam o rosto repentinamente. Ele correu, e correu, ignorando a presença familiar de Kohaku voando logo acima dele, até que chegou a praia.

Haku caiu ao seu lado, já na forma humana, e estava pra perguntar o que tinha acontecido quando o ruivo lhe agarrou pelo quimono e enterrou a cabeça no seu peito, tremendo compulsivamente. Mortalmente surpreso, e sem saber bem o que fazer, Haku retornou o abraço, enquanto sentia as lágrimas quentes de Chihiro lhe molhando as roupas.

-Chihiro, o que... o que houve? – Naruto não respondeu, ele apenas tremia e chorava, respirando fortemente contra o quimono que ele vestia – Você esta bem?

Kyuubi apenas convulsionou com o choro preso, e quando o bolo que lhe travava a garganta se soltou, ela lançou a cabeça pra cima e gritou. Haku tremeu dos pés a cabeça com aquele grito, aterrorizado e torturado, e tão repleto de dor e culpa, e auto aversão que não tardou pra ele mesmo estivesse chorando, caído de joelhos e abraçado com a raposa que tinha lhe devolvido o seu próprio nome, duas vezes.

-Por que Haku... – ele disse, gaguejante e respirando parcelas curtas de ar – Por que? Por que tudo em mim tem que ser tão horrível? Por que eu não posso ser... bom?

O Dragão dos rios não respondeu, apenas abraçou a raposa mais forte. Ele não conseguiu verbalizar o quanto achava que ela era linda por dentro, e o quanto gostava dela, e tantos outros gostavam. Não parecia certo no momento, e algo lhe dizia que falar isso seria extremamente superficial e insuficiente naquele momento, então Haku apenas deixou que Naruto chorasse, derramando sua dor e suas lágrimas até a exaustão, até adormecer.

Notas finais
E aí, ficou bom?
Deixem comentários, e mais uma vez, não desanimem com a história por pouca coisa, Kyuubi fez coisas horríveis sim, mas como a própria Morte disse, é difícil conciliar a imagem dele antes, com ele agora. Espero que faça algum sentido pra vocês.
Abraços.