Kaywal School
2 Voo do Dragão
– Irmãããoo! – Jimmy gritou, realmente desesperado. Já era tarde da noite, cerca de dez horas. Mesmo assim Aaron não conseguiu ouvi-lo, porque estavam perto de atingir a marca de cento e vinte quilômetros por hora. O único barulho da noite era o ruído do ar sendo cortado em alta velocidade. Jimmy usava todas suas forças para se agarrar à sela embaixo de si. Mesmo assim pensava que qualquer hora não aguentaria mais, soltaria suas mãos e sofreria uma queda de trinta metros no lago congelado lá embaixo. O que, de qualquer forma, não fazia sentido, pois a sela também prendia seu corpo firmemente no lugar, independente se a segurasse ou não.
Jimmy olhou de relance para os lados, só via riscos de luzes passando embaixo de si. Sentia todos os músculos rígidos e doloridos. Jurava que o ar cortaria sua pele desprotegida, arrancando e dilacerando-a. Notava o couro azul de seu velho amigo embaixo de si, sentia seu corpo imenso se mexer, cavalgar no ar. Seu estômago já revirava. E sabia que seu coração pararia a qualquer momento. Estava tonto e queria muito descer dali.
Aaron ia à frente, dando piruetas e berrando. Percebeu que já teria torturado o irmão por tempo suficiente. Pediu a seu dragão vermelho cintilante que diminuíssem a altitude. Ele o fez e o dragão de Jimmy seguiu-o. Ambos já fraquejavam o vôo e Aaron percebeu serem os seus últimos momentos gloriosos da aventura por aquela noite.
Jimmy continuava gritando a plenos pulmões. Ficou ainda mais assustado por causa da descida em alta velocidade. Para provocá-lo, seu dragão se posicionou em noventa graus. O lago congelado chegava mais perto a cada segundo. Fechou os olhos, porque sabia que não sobreviveria. Era tão jovem. O que seria de Bomir?
Mas o dragão, obviamente, se colocou em posição horizontal, bem a tempo de não colidirem. Sua barriga raspou na superfície do lago, rompendo a fina camada de gelo e espalhando água por toda parte. Ainda em alta velocidade, o dragão resolveu subir dois metros e dar uma pirueta para trás. Se recuperou da manobra, avançou alguns metros e pousou em segurança na terra, dando risadinhas.
Jimmy se sentia pior que manteiga. E não conseguiu ficar de pé. Ao descer da besta, sentou-se, cabeça pendendo. Pensou que nunca mais ficaria em contato com o chão de novo. Aaron já havia pousado há alguns minutos e acariciava a cabeça de sua besta vermelha. Era um dragão já adulto, mas sua raça tinha o porte pequeno. Apenas cinco metros de comprimento e dois de altura. Cabeça pontuda e dentes do tamanho do braço de Aaron. O dragão de Jimmy era filhote. Apenas dois metros de comprimento e um e meio de altura. Azul da cor do céu. Olhos divertidos de criança. Aaron, como um Treinador de Dragões formado, tinha licença para brincar com as bestas fora do horário de trabalho. Havia forçado Jimmy a voar pela primeira vez ano passado. Desde então, sempre que voltava de férias para a casa, os dois realizavam esse passeio.
Aaron foi até o irmão, que deitara sem emitir nenhum som.
– Você está vivo? – perguntou, se divertindo. Ele estava pálido e sentia que não poderia se levantar pelo resto da vida. Sentimento este logo passou, graças a raiva que sentira de seu irmão. Colocou-se de pé a esbofetear Aaron. Lógico, ainda estava fraco. E Aaron já era um Explorador formado, vinte e um anos de idade. Levou alguns tapas, mas nem os sentiu. Pegou o braço de Jimmy e os prendeu atrás das costas do menino, rindo.
– Qual é, irmãozinho! Você fará coisas bem piores no treinamento do Centro! – riu, se divertindo. Jimmy se debatia, mas era vinte e cinco centímetros menor que o irmão, e muito mais fraco. Aaron tinha 1,80m de altura, cabelos loiros, olhos verdes e espertos. Era forte e magro. – Você já voou várias vezes. Não costuma fazer esse drama todo.
– Espera só eu treinar! Vou acabar com você! – ameaçou já achando engraçado e tentando se soltar do aperto. Aaron acabou libertando-o. Jimmy acariciou seus braços e o fuzilou com o olhar. Aaron sempre estava viajando a trabalho, mas, quando tinha a chance de importunar o irmãozinho, agarrava-a com todas as forças.
– Venha, vou lhe pagar um sorvete. – disse, sorrindo. Ele continuou com um biquinho contrariado, mas aceitou.
Guardaram as montarias no estábulo do Centro, para Exploradores formados que passavam pela cidade. Era um prédio grandioso, cujo a sala de recepção parecia o salão de um castelo graças a sua magnitude. Lá, vários adultos andavam de um lado para o outro, conversando apressados. Jimmy ficara observando através da porta de vidro, enquanto tomava conta dos dragões enormes atrás de si. Aaron buscou sua chave e saiu, seguindo por um corredor lateral, até os estábulos. Acariciou o nariz de seu dragão e o trancou.
Jimmy abraçou a cabeça de seu amigo. Bestas e Humanos não falavam a mesma língua, mas o menino e seu dragão tinham uma conexão especial. Ambos se sentiam melancólicos. Com a saída de Jimmy para o Centro, aquela podia ser a última vez que se viam em muito tempo.
Trancaram as bestas em seus lugares e seguiram para casa.
Fale com o autor