Katze
1 Katze
Sobre o imortal que conheci...
Por onde devo começar? Falarei então de como começou o meu dia, até chegar ao momento em que estou aqui, escrevendo esse relatório...
— Vai ficar tudo bem, mãe. Não se preocupe, nós vamos dar um jeito nisso!
— Filha, Victoria... você... sabe que não precisa ir tão longe.
— Não, é a senhora que não sabe a gravidade de sua doença. Eu vou pegar mais remédio, não levante.
Minha mãe sofre de uma doença rara no sistema digestório. É uma espécie de enfermidade degenerativa, pra ser exata, na área do intestino. Isso a impossibilita de ingerir quaisquer alimentos sólidos, podendo então passar pela garganta somente líquidos, como água e o próprio remédio. Pra ela, comer tornou-se um tabu. E conforme o tempo passa, devido à escassez de energia provinda dos alimentos que deveria estar comendo, a cada dia contado fica mais fraca e evidentemente mais próxima da morte. Tem sido semanas de guerra contra o tempo.
Mas eu ainda tenho fé que vou achar uma cura para sua doença. Eu vou conseguir, nem que abra mão de minha própria vida.
Ao sair do quarto da minha mãe, passei pelo corredor do segundo andar e cheguei a cozinha, onde fica o armário com os medicamentos. O remédio funciona como um provedor das vitaminas, proteínas, cairbodratos, etc dos quais minha mãe,qualquer ser humano, precisa para viver. No caso dela, ele serve apenas para sua sobrevivência, não tem a mesma quantidade de bens que um alimento.
— Não o acho aqui. Acabou e não vi...
Visto umas roupais casuais pra sair à rua. São meras oito da manhã, não haveria ninguém para reparar. De qualquer forma, vesti o que mais me conforta, uma calça jeans e uma blusa de manga por baixo de um casaco vermelho de manga comprida, devido ao frio que fazia na região.
Como presumi, poucos estavam presentes. Uns comprando jornais, outros levando seus mascotes para passear, era um dia como qualquer outro. Exceto que estava na calçada um homem irreconhecível de minha parte. Não sou de falar com as pessoas, mas sou observadora, posso dizer que conheço todos da vizinhança... de vista. Ignorei o homem e continuei seguindo até a farmácia. Falei com o balconista, e ele me vendeu o remédio. Caso alguém que leia isto e tenha alguém da família com essa mesma doença, o nome do remédio é Metrozatioprina.
Antes mesmo de sair e puxar a porta da farmácia, era possível ouvir o som do motor de um carro muito longe de onde estava. E o silêncio da manhã tornava possível ouvi-lo mesmo para um surdo. Fechando a porta, o homem que encontrei sentado na calçada, estava parado no meio da rua com os braços abertos, em forma de crucifixo. Se me perguntassem, acharia que o motorista e ele fizeram um acordo, ou que gravavam a cena de algum filme de ação pela área. O carro não mostrou nenhum sinal de desaceleração, e nem o homem de prudência. Todos dos poucos que estavam passando voltaram seus olhares para a cena e fitaram o homem que se encontrava prestes a morrer.
O carro veioe atropelou o indivíduo. Fora rápido como um piscar, talvez por isso não lembro-me do instante do atropelamento. Entretanto, até agora lateja na memória o som da explosão e a visão do carro sendo destruído. Após isso, encontro-me olhando o teto de meu quarto, com uma faixa branca na cabeça suja de sangue...
Olho no relógio em meu pulso, eram 12:37, passaram-se quatro horas desde o meu sono. Julguei a princípio que foi nada mais que um sonho, andei até o quarto de minha mãe e vi que estava dormindo como uma criança. Nem parecia que estava doente, fiquei feliz por vê-la assim. E enquanto a observava da entrada do quarto, ouvi o ruído da porta da frente sendo fechada. Alguém além de mim entrou aqui, visto que só eu e minha mãe moramos nesta casa.
Corri e desci as escadas para ver quem era, e enquanto corria, me lembrei do remédio que estava faltando, mas não tinha tempo para parar. Quando pisei lá fora, vi o homem que acabava de sair, mancando, com a jaqueta jeans manchada de sangue. Era o homem do meu sonho, julguei. Chamei-o uma vez, não me respondeu, chamei-o pela segunda, me ignorou, corri até ele e pus minha mão no seu ombro esquerdo, dando um puxão pra ele virar para trás forçadamente. O homem vira, e me apresenta um rosto desfigurado. Dizendo simplificadamente, era um zumbi com o rosto cortado ao meio verticalmente. Era possível ver o cérebro saindoe o sangue escorrendo do crânio, e das veias e artérias do ouvido e do globo ocular que, apesar de ter a parte direita do rosto cortada, estava intacto.
O homem vira e olha pra mim como uma pessoa normal, mas eu, como qualquer um nesta situação, reajo pondo minhas mãos sujas de sangue de outra pessoa na minha boca a fim de abafar o grito. Ou melhor, quase coloquei, tinjo o rosto de serenidade e tento esconder o espanto, como uma forma de educação.
— Você é...
O homem vira-se e continua mancando no mesmo sentido que antes, ignorando minha presença. Tento abrir um diálogo mais uma vez gritando e o puxando pelo ombro, mas ele deixa evidente que não quer se envolver comigo. Era mais como se eu fosse o monstro nessa situação. Quem é este homem? Por que está me ignorando? Tais perguntas e outras que não valem a serem citadas aqui fizeram-me considerar esse homem, de alguma forma, especial. E quando escrevo especial, quero dizer no sentido de diferente. Talvez ele me ajude a curar a doença da minha mãe. Esse pensamento me faz dar um impulso para ir até à frente dele e ficar de impasse no seu caminho.
— Por favor, me ajude! — ele não parou mesmo comigo entrando em sua frente, continua mancando até chegar a mim.
— Rogo-lhe, faço qualquer coisa por teu objetivo! Só lhe peço que ajude uma pobre enferma! — tento ao máximo mostrar desespero, para ficar claro que preciso dele a todo o custo.
— E por que deveria? — ele pergunta, com a boca distorcida mal conseguindo articular as palavras, finalmente parando.
— Faço-te qualquer coisa que precisar. Antes, só peço que faça-me um favor.
Conseguindo convencer o homem, levo-o até minha casa, de volta. Na volta, o homem já não mais mancava. Parece que consegui o convencer de uma boa forma. Mostro e explico a ele a situação e a necessidade de minha mãe, do que ela precisa e o que vai acarretar caso o que lhe peço não aconteça. Tudo enquanto minha mãe dorme como uma criança, do mesmo jeito que a encontrei quando levantei.
— Está além de minhas capacidades o que deseja que eu faça. — fala com desinteresse na situação.
Eu peço para ele esperar e repensar sobre isso. Digo-lhe pra sentar na cadeira da mesa que fica na sala no primeiro andar, e sento ao seu lado. Nesse momento, estava pouco me preocupando com seu rosto anormal. E então começo a lhe fazer perguntas...
— Quem é você?
— Pra que quer saber? Quando atravessar aquela porta ali nada serei além de um mero elemento de um sonho, que dias depois serão esquecidos. Mas considerando que vá esquecer, eu não tenho porquês de não te falar. Só respondo te perguntando, quer mesmo saber? Do contrário, calemo-nos e tomemos nossos rumos, alguém morre enquanto conversamos. — Fitando-me com seu rosto horrendo, ele profere. Peço que quem leia ponha-se no meu lugar, e não me julgue caso não demonstre sanidade ou clareza nas perguntas.
— Fale-me então, qual o seu nome e de onde veio.
— Tentarei ser simples e breve, creio que já conheça a lenda. Meu nome é Katze. Sou o que vocês não-imortais chamam de imortais. De acordo com seu pensamento, seres que nunca morrem. Nós não... morremos mesmo por lesões físicas. É uma subnatureza, conceitue como queira. — Aqui já, uma parte de seu rosto, havia “restaurado”. Como devo dizer... as veias, artérias e tecidos naturais de um humano estavam desenhando no ar seu rosto até formar o músculo facial e por fim a pele, dando a aparência de um homem esbelto. Tudo enquanto vomitava aquelas palavras.
— O que quer dizer com "imortais"?
—Pergunte-se a si mesma, o que quer dizer humano? Olhe pra mim, eu sou tão humano quanto a ti, sou um homem humano, cabelos castanhos, olhos negros, pele branca. O que em mim há de imortal? Antes de indagar sobre minha natureza, indague sobre a sua própria.
— Eu não entendo, por que nos chama de “não-imortais” e não “mortais”? Como funciona sua “imortalidade”?
Pelo que vou responder agora, considere isso apenas um sonho. Presumo que não saiba da lenda. Nós imortais vivíamos antes mesmo de vocês não-imortais porem os pés na Terra. Éramos uma raça próspera que tínhamos tudo que precisávamos, até vocês chegarem e nos mostrarem o conhecimento da morte. Fascinados por sua beleza, tentamos e ainda tentamos levar a morte até nossos semelhantes, infelizmente em vão. A todo instante e em todo lugar, com qualquer um e de qualquer jeito, buscamos a morte. Enquanto vocês, privilegiados pelo fim, são buscados por ela. — Note que, a todo momento ele usa a palavra “não-imortal” para se referir a nós, humanos.
— Por quê?
— Sexo, sim, ele há entre nós, não somos tão diferentes de vocês. Como dizem, é impossível saber a sensação do sexo por meio de simples descrições, é necessário experimentá-lo. Você deveria se perguntar, por que busca a vida? Por causa da morte? Bingo! Pra nós a morte não existe, nossa busca é um ato insano. E por isso a vida perde o valor, sua utilidade, seus porquês. Não há razões para se continuar vivo quando se chega a sua finalidade. Vou lhe dizer uma coisa, que espero que não esqueça: Quando um homem vê o próprio fim ele quer saber se havia algum propósito em sua vida. Eu sempre imaginei o meu fim, e imagino-o até agora. — Ele demonstra insatisfação proferindo esse parágrafo.
— En—
Por isso desisti de tentar encontrar um porquê. É uma insanidade absoluta. Sinto-me um hipócrita por falar-te isso e três dias atrás ter tentado me encontrar com a morte, sabendo que nunca a encontrarei. Você tem sorte, sua mãe tem sorte. — Ele não me deixa continuar a pergunta, e segue falando.
— Então, o que faz aqui?
Ainda estou investigando. E a senhorita me interrompeu. Preciso ir-me. — Com essa última frase ele levanta da cadeira e vai em direção à porta, eu tento impedi-lo gritando para esperar mas ele—
— Preciso encontrar a cura de uma doença.
Fecha a porta.
Voltando a fitar o interior da casa, começo a ficar pensativa sobre esses minutos que passei com o “imortal” Katze. Parecia um sonho dentro de um sonho. De fato, como se a nossa conversa, pouco depois de quando fechou a porta, nunca tivesse ocorrido. Voltei a ser Victoria, uma estudante comum apenas preocupada com a saúde da mãe. Foi quando decidi escrever esse texto, tentando ao máximo lembrar do sonho que tive com o imortal. Tentei recriar fielmente cada detalhe de seu modo de falar, cada letra saída de sua boca, cada comportamento anormal e, obviamente, sua aparência esbelta, que não consigo esquecer. Mesmo aquela que queria esquecer.
Terminando tal texto, subo até o quarto de minha mãe e vejo uma criança na cama. Ela estava, novamente, na mesma posição que havia visto quando levantei. Aproximei-me dela, sentei no banco e abracei o seu corpo enfermo.
— Eu não vou deixar a senhora sofrer desse jeito, confie em mim.
Parecia que os papéis haviam invertido. Ela era minha filha e eu a mãe. Acariciava sua cabeça com minhas mãos e mal percebi que um pouco de lágrima escorria do canto do meu olho. Se existe algum propósito para a minha vida, é encontrar uma cura de tal doença e salvar minha mãe.
Ela continuou dormindo, sem responder.
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