Notas iniciais
Dia 27. Música "Por Enquanto", de Cássia Eller. Espero ter recuperado a qualidade da fic neste capítulo, pelo menos a qualidade inicial, pois hoje tive um pouco mais de tempo pra me dedicar a ela.

Crianças corriam pelas ruas de Calixto. Levavam consigo mochilas e sacolas de todos os tipos. Era o dia de saudar os deuses gêmeos Sigh e Gael, que eram conhecidos por atender pedidos sem cobrar nada em troca. Neste dia, todos os que tiveram pedidos atendidos davam doces às crianças, como forma de agradecimento, mesmo não precisando retribuir aos deuses, o que causava o alvoroço infantil.

Flavius caminhava pela cidade fumando seu cachimbo e assistindo às crianças correndo de casa em casa e fazendo um grande tumulto às portas de quem estivesse distribuindo doce, mesmo que sempre houvesse doces suficientes para todas. Sorriu de leve, para não deixar o cachimbo cair, e se sentou em uma mureta de uma praça menor, se recostando em uma pilastra de pedra. Pretendia ficar à toa o dia todo. Talvez, quando o Sol baixasse e levasse consigo a parte mais quente do dia faltava pouco para terminar o Karmi -, Flavius iria à praia para sentir a brisa fresca da maré.

Já fazia mais de um mês que havia voltado para Calixto e decidira esperar por Caleb. Desde então se ocupara pegando aceitando pequenas missões que pudessem ser completadas nas redondezas da cidade, assim continuaria ganhando dinheiro e manteria sua cabeça ocupada. Iniciou uma leve amizade com a recepcionista da estalagem onde estava, mas não pretendia aprofundar muito a relação, pois gostava de estar em constante movimento pelo mundo, e acreditava que amizades prendiam pessoas aos lugares. Sua própria família o criara assim e eles mesmos estavam espalhados pelo mundo, sem endereço fixo.

No dia dos deuses gêmeos tinha decidido se dar folga. Deixou Babão no estábulo da estalagem e foi passear pela cidade vestindo uma roupa leve.

Ao final da tarde, se levantou da mureta onde havia sentado. Suas costas estavam endurecidas e seus fundilhos doíam por ter ficado na mesma posição por horas, mas gostava da sensação de alívio que dava ao levantar depois de muito tempo inerte. Com o cachimbo já apagado e guardado num dos bolsos da cartucheira que levava à cintura, Flavius se espreguiçou e começou a caminhar, alongando alguns músculos. Deu mais uma olhada para as crianças ao redor, que pareciam ter aumentado de número à medida que o Sol ia se escondendo, e, ao olhar para o outro lado da praça, avistou três adultos se aproximando. Não conseguia enxergar seus rostos, pois estavam na exata posição do Sol. Mesmo apertando os olhos, Flavius só conseguia vislumbrar suas silhuetas negras. Mas o andar de uma das pessoas lhe era familiar.

Ao se aproximarem, percebeu que um deles o qual reconheceu o caminhar era Caleb, que também notou sua presença. Ele vinha conversando animadamente com uma feeli de cabelos lisos e cortados acima do ombro e um homem de pele morena e cabelo com pequenas tranças. Ambos também eram pugilistas, Flavius percebeu ao notar que traziam equipamentos especiais nas mãos, como grandes luvas de metal as do homem eram prateadas, no formato de cabeças de leão; e as da feeli tinham a aparência de ser acolchoadas, mas Flavius sabia que havia algo como areia dentro delas, pois Caleb já havia lhe dado uma mini aula sobre luvas de pugilistas.

Caleb se despediu dos dois dando uma última risada, sem apresentá-los a Flavius e então o encarou, com um sorriso leve.

Se abraçaram antes de trocarem qualquer palavra.

Ao se separarem, Flavius pediu para darem uma volta na praia, e Caleb aceitou, mas pediu para primeiro deixar sua pesada mochila em casa.

No caminho para a casa de Caleb este contou sobre a viagem que fizera para Laram, a cidade dentro de uma grande floresta à qual Flavius havia ido para procurá-lo, mas Flavius não lhe falou sobre essa parte. Caleb disse que participara de missões perigosas específicas de sua profissão e mostrou uma cicatriz que havia ganhado em uma delas. Contou também que conhecera Mercia e Aggran, os dois com quem chegara a Calixto, e após sair de Laram foi com eles até as cachoeiras termais de Coviat, que ficava a dois dias de caminhada de Calixto, para curar suas feridas na águas medicinais, e aproveitaram para acampar por lá um tempo. Caleb havia deixado seu lagarto lá, que disse ter nomeado Karmi, pois o pobre animal havia adoecido. O ar úmido das cachoeiras faria muito bem para ele e em alguns dias poderia buscá-lo.

Flavius percebeu algo diferente em Caleb. Ele parecia mais seguro, mais velho. Não conseguiu deixar de notar que algo nele próprio também havia mudado desde que voltara à cidade.

Ouviu com interesse tudo o que Caleb contou, fazendo comentários pequenos aqui e ali. Quando chegaram à praia, Flavius sentiu que era sua vez de falar. Contou sobre o tempo que estava em Calixto, que estava esperando por Caleb chegar e como o achara diferente em relação à última vez em que haviam se visto. Ambos conversaram sobre o quanto fora especial o tempo em que passaram juntos, mas chegaram à conclusão que aquele tempo tinha levado consigo o sentimento mais forte que sentiam pelo outro. Reconheceram que não gostariam de se separar de novo, mas não tinham certeza se conseguiriam conviver como casal. Sentir isso, depois da explosão de paixão que passara, foi muito estranho para Flavius.

Juntos, decidiram se reaproximar, talvez se ajudarem em algumas missões e voltar a conviver, de repente até poderiam viajar mais vezes em conjunto.

Já era madrugada quando deixaram a praia. Depois do meio do caminho, quando a brisa já não era mais tão fresca quanto na beira do mar, deveriam se separar, Caleb indo para casa e Flavius voltando à estalagem. Mas dessa vez isso também foi diferente. Tanto Caleb quanto Flavius se despediram sorridentes e seguiram seus respectivos caminhos com o peito leve e a sensação de que tudo aquilo finalmente poderia dar certo.