Karma Kristo
1 O fluxo
Notas iniciais
Eu não sei quem lerá isso, e no momento que registro essas palavras eu não sei como transformar o que estou ditando mentalmente em algo físico. Não sei muito menos como vou fazer isso chegar em toda a realidade, e nem se depois de tanto tempo fora de um êmbol...Eu realmente tenho bastante coisa pra explicar. Pra falar a verdade há muitas questões sem respostas pra mim também, e acredito que pelo menos três vezes mais pra você, leitor. Não existe demérito em não saber de algo...eu não acredito em demérito.
Meu nome é Kristo, e eu nasci normalmente, como qualquer ser humano. Até onde consegui descobrir em minha busca por identidade, eu nasci em algum momento do século 20 . Minha mãe morreu no parto, ou logo em seguida (não tenho certeza). Meu pai me criou até... Olha, a minha curta vida talvez seja mais complicada de se explicar do que o lugar aonde estou agora.
Mesmo não sendo possível saber com exatidão o tempo que estou aqui, eu arrisco dizer que foram algumas semanas pra você, leitor, ou podem ter sido anos também. "Aqui" não tem um nome, e sinceramente não sei por que existe o "Aqui", ou se alguém criou isso tudo. Estou existindo num lugar somente com meu sentido de visão, a capacidade de me mover, e um maquinário que felizmente não depende de força física pra ser operado ( e que me fez quebrar a cabeça para traze-lo até aqui). Eu estou fora daquilo que se chama "universo". Na verdade, estou um pouco além disso. Aqui é similar ao espaço sideral já conhecido do senso comum. Tudo que existe nessa imensidão aonde estou são "linhas". Linhas azuladas que pulsam com um ritmo próprio. Quando estão muito próximas essas linhas se entrelaçam, colidem, se fundem e por fim formam uma espécie de nó. Quando explico isso pra alguém hipotético me parece fazer mais sentido chamar de linhas e nós, do que fluxo e êmbolos.
Você, leitor, independente de quão especial você seja pra sua família, seu mundo, ou seu universo; está em um desse infinitos nós, ou melhor, está em vários destes infinitos nós (explicarei). Isso não significa que sua existência não é importante, ou que sua divindade não exista...alias, é bom você pensar exatamente o contrário disso. Resolvi começar tudo que quero escrever nessa "máquina de pensamentos" explicando porque você é importante, caro leitor hipotético.
Eu acabai de decidir que vou chamar de fluxo e êmbolo, ao invés de linhas e nós. Além de dar uma ideia mais precisa do que quero passar, a palavra "êmbolo" foi a minha preferida durante um tempo. Quando finalmente descobri o que cada uma dessas linhas significava minha cabeça só não explodiu por que no "Aqui" não existe corpo físico, e por que informações não explodem fisicamente cabeças.
Essas linhas de fluxo que vejo cruzando esse lugar e se embolando a outras, numa cama de gato infinita, são na verdade pessoas. Sendo mais exato, cada fluxo azul que cruza e eternidade deste lugar é uma existência... não, não "representa" uma existência, É uma existência. Você, leitor, é um desses fluxos. Todo mundo é um fluxo. Seu cachorro provavelmente também é. Tudo aquilo que tem escolha é um fluxo. É simples, e você já deve ter percebido aonde eu vou chegar. Eu nunca vi a origem de um fluxo, mas eu aprendi bastante sobre eles nesses anos, meses...realmente é impossível calcular o tempo no "Aqui" ( e isso por que eu nem falei do "Agora")
Eu nunca consegui ver um fluxo em movimento. Nunca consegui ver um fluxo saindo de um êmbolo pra outro, mesmo porque depois que formam o êmbolo eles SÃO o êmbolo, e não um emaranhado de fluxos. Infelizmente tudo que posso fazer é especular. Minha existência no "Aqui" é irrelevante para o todo. Eu não posso nem tocar nos fluxos, pois não tenho corpo, e minha aproximação deles não faz a menor diferença. Ao me aproximar do primeiro eu pudê ver por que eles pulsam. Dentro de cada fluxo existem "mini fluxos" brilhantes, ou como chamei posteriormente: "linhas de personalidade". Isso foi tudo que consegui descobrir, pois simplesmente é impossível a interação.
Eu acabei de pensar num experimento mental interessante. Imagine, leitor, que você está no espaço sideral de sua realidade olhando pra Terra de bem longe. Vamos desconsiderar a gravidade que te puxaria quando chegasse perto, e também vamos supor que não conhecesse o planeta. A terra à sua frente tem o tamanho de uma moeda, e você então resolve se aproximar. A princípio, a terra se resume a um pontinho luminoso a mais na vastidão do espaço. Se aproximando você percebe que ela é azul, e depois percebe que ela não é azul por inteira, mas tem umas colorações esverdeadas e algo levemente esbranquiçado. Continuando a se aproximar você percebe que existe diferentes profundidades nas cores e que a parte branca está acima das outras, e que possivelmente é feita de um material diferente. Ao continuar seu trajeto, você pode ir chegando a diversas conclusões e levantando diversas hipóteses. A terra vai cobrir totalmente seu campo de visão, você vai notar cada vez mais detalhes na parte "verde", que já não é mais só verde, e logo seu campo de visão não vai mais alcançar a parte azulada. Imagine que você pode se aproximar infinitamente, mas nunca encostará na terra e sempre terá detalhes novos que se revelarão diante de seus olhos. Isso é o que acontece quando me aproximo de um fluxo.
Levando em consideração que VOCÊ é um desses fluxos azuis, isso significa que sua existência é tão grande que é impossível "pousar nela". Cada escolha muda a trajetória do fluxo que você "gera" e pode criar infinitos êmbolos diferentes. Talvez você pode estar confuso a respeito de como cheguei a conclusão de que um fluxo representava uma pessoa. Pois bem... a primeira evidência veio quando eu aprendi a sair de conta própria dos êmbolos. Eu tinha uma esposa na época , e quis trazer ela comigo.
Hora de ligar a máquina secundária. Eu consigo registrar aquilo que penso com certa facilidade, mas minha mente humana não consegue mais lembrar de tudo que já pensei ou fui. Ao ligar a máquina ganho acesso total a minha mente, e finalmente posso contar tudo de um ponto de vista que não seja desse velho chato e pedante que me tornei. Outras possíveis personalidades ou traumas que reprimi vem a tona e... hunf, meu maior desejo é esquecer isso tudo que presenciei e ser um fluxo ignorante como você, leitor...Desculpe, ignorância não é uma ofensa. Eu não acredito em ofensas.
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