Notas iniciais
Me sinto um bosta maior ainda.

Após ir vomitar pela segunda vez eu volto pra cama. Eu limpo a boca com álcool. Eu tinha motivos pra beber e tenho pra continuar bebendo até morrer. Minha vida é um lixo. Eu sou um lixo, e essa espelunca de beira de estrada onde me enfiei também. Quem é esse cara sentado ao lado da minha cama? Por que eu lembro de toda a merda que ela me fala? Não tô legal. Ele não para de falar essas baboseiras filosóficas, e eu não paro de decorar todas as palavras que ele diz. Qual o meu problema?

Ele continua... "uma vez eu li que a verdade não existe, porque o passado também não existe. Não existe um lugar seguro onde o passado é guardado. O passado pertence a memória do homem (que é facilmente manipulável) e aos registros que o homem faz (que são facilmente fraudados). Eu pensava muito sobre isso, principalmente quando comecei a ser vitima do efeito desse passado inexistente..." Dane-se, cara, sai da minha casa.

"Vítima...Vítima é a condição atribuída a quem sofre algum prejuízo por uma ação exterior. Eu me achei injustiçado pelas pessoas, pelo mundo, e posteriormente pelo universo; até que finalmente percebi que o "todo" não me percebe. Não sou importante o suficiente, por mais que nos últimos anos eu..."

PARA DE FALAR, PARA DE FALAR, PARA DE FALAR! Eu tenho 20 anos e todo esse excesso de reflexão me faz querer vomitar. Eu deixo o cara tagarelando no sofá e vou ao banheiro vomitar de novo. Tudo que eu queria é um remédio de estômago e uma piscina gelada. Uma bebida gelada seria uma boa...Não, foi beber que me colocou nessa situação escrota, pra início de conversa. Dessa vez o vômito não veio...uma pena, eu queria tirar essa nojeira de dentro de mim. "A nojeira de ser você mesmo não vai sumir numa ação física" PORRA, até aqui esse cara tá?! Sai da minha vida!

Eu grito sem sucesso. O cara continua ali, sentado no meu banheiro; meio imóvel, meio se movendo, ele só olha pro nada e fica falando... e eu não paro de decorar. Minha esposa vai chegar logo, e eu não posso perder mais tempo aqui...afinal, por que mesmo eu tava aqui no banheiro? Ah, o enjoo. Eu não devia ter bebido.

"Se você me perguntasse meu maior medo nos anos 80 eu diria que era o mundo acabar... mas só que na verdade ele não acaba. Uma guerra nuclear que deixasse a humanidade num estado de semi barbárie seria pior que a extinção total do ser humano. Hoje eu já agradeceria isso. Por mais que isso seja algo terrível de se desejar, o fim das coisas resolveria todas essas pontas soltas que vejo por ai. "

Ótimo, agora o cara me segue pela casa. Como fui virar amigo dele? Talvez por eu ter encontrado ele num período merda da minha vida. Bêbado e sem perspectiva de nada, tudo que eu queria naquela época era beber até morrer... pode-se dizer que eu tive sorte de encontrar esse filho da mãe. A gente faz muita merda quando é jovem, e as vezes até depois. Opa, tem alguém batendo na porta... será que minha filha já chegou?

"Eu ainda lembro da angústia que eu senti ao ouvir o Nixon falando que o destino dos homens que sonhavam em chegar a lua era permaneceram lá pra sempre...obviamente não com essas palavras. Angustia semelhante eu senti quando, ao pesquisar a respeito da falha da missão Apollo 11, constatar que aquilo nunca existiu. A missão tinha sido um sucesso. Eles conseguiram decolar da superfície da lua. Podia ser simplesmente uma falha em minhas memorias, mas não era."

Eu não gosto de histórias tristes, como posso explicar isso pra esse familiar estranho sentado no meu colo? Não tenho mais idade pra discutir... Que seja, eu continuo... pera, eu continuo o que? Eu esqueci do que estava fazendo. Hum... engraçado, eu não consigo lembrar como vim parar aqui... Como eu vim parar no Aqui? Minha vista está um pouco embaçada. Eu olho pra casa que construí com tanto esforço; pra foto da mulher mais incrível do mundo, que agora só existe na minha memória; eu olho pra todo o espaço vazio que cabe dentro do meu peito e além dele... A vista de fora torna minha casa um pouco menos familiar. Será que já fazem anos que não saio de casa? Meu bairro agora é irreconhecível. Na minha infância eu ia pedalando até a cidade vizinha... é, eu tô ficando velho. Quando tudo ficou tão escuro? Quando os dias e as noites viraram uma coisa só? Quem é aquele cara ali...flutuando no meio desses fios azuis. Quem sabe ele não me dá uma resposta. Eu tenho que voltar pra casa, pra minha mulher...Quem é àquele velho? Quem vem em minha direção aqui? Como ele chegou aqui? Aqui...agora...

Eu... eu ouço um barulho mecânico que não existe, com um ouvido que não tenho. Eu abro os olhos, mesmo nunca tendo os fechado. Uma vida inteira passa pela minha frente, e eu não sou isso,e não sou aquilo tampouco. A máquina... será? Eu aceito a teoria que passei uma vida em um segundo. Como é possível? As minhas memórias eram pra ser só minhas, mas eu vi coisas que não presenciei. Será possível que essa máquina me ligou a alguém de dentro de um desses infindáveis êmbolos? Minha mente está confusa.

O ser humano não foi feito pra viver fora do "Agora"; das 3 dimensões especiais, do tempo, e da mente dividida entre consciências. Eu me superestimei...sou humano apesar de tudo. O azul de todo esse sistema fora da realidade é reconfortante, mas é hora de voltar a um êmbolo... eu tenho que recuperar a unidade da minha mente.

Eu cometi um engano, leitor.

Notas finais
Se pá indica a alguem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.